obrigado a todos.
divitam-se
CAPITULO II
Bella não definiu se ficava aliviada ou pesarosa pelo fato de não estar com as luvas à mão. Se ainda as estivesse segurando, certamente não teria resistido à vontade de atingir lorde Daventry com elas, depois de que ele ousara atraí-la com outro enigma. Ele estava mesmo brincando de cabra-cega! Esconder suas intenções e seus sentimentos! Provocar, chegar perto a ponto de quase revelar-se e depois afastar-se estrategicamente, deixando-a tão longe de descobrir o objetivo quanto antes.
— Milorde, será que, ao acordar, decidiu que o dia de hoje seria maravilhoso para irritar seus vizinhos?
Edward Cullen riu novamente, sem se dar conta do perigo que corria de ser estrangulado.
— srta. Swan, se eu houvesse pensado nisso, a senhorita ficaria na última linha da minha lista de vítimas em potencial. Perdoe-me por não ter usado de maior franqueza desde o início. Meus anos de convivência com a sociedade não fomentaram muito esse tipo de aptidão digna de louvores.
Edward pareceu estranhamente pesaroso. O olhar verde, antes frio e impenetrável como o jade, suavizou-se como um gramado em um amanhecer orvalhado de verão
A irritação de Bella cedeu, contra a sua vontade.
— Eu deveria ter imaginado que milorde não iria propor casamento a alguém como eu.
— Ao contrário. — A voz hipnótica mostrou-se um pouco áspera. — "Alguém como eu" é que não deveria fazer lhe semelhante proposta.
— Mas o senhor disse...
— Eu lhe pedi para que aceitasse ser minha noiva, não minha esposa. E antes que a senhorita me acuse novamente de tentar irritá-la, imploro sua atenção para o fato de que um não precisaria estar sempre junto com o outro.
Na verdade, apenas 99 em cada cem oportunidades, a menos que o casal desejasse provocar um escândalo.
Mais de uma vez, Bella acalentara fantasias infantis de casar-se com um homem como Edward Cullen. Nobre, rico e muito atraente. Sempre com o sentido de um conto de fadas em que ela deixava Netherstowe, onde não se sentia em nível muito superior ao de uma criada.
Atualmente, sua visão do mundo permitia-lhe entender que nenhum homem casar-se-ia com uma jovem do campo sem dote, sem preparo e que nunca freqüentara a sociedade. Também já concluíra que o matrimónio poderia não ser a tábua de salvação que ela imaginara. Por tudo isso, resignara-se a uma vida tranqüila de celibato e procurava ser prestativa para seus parentes, para que eles não se ressentissem de prover-lhe casa e comida.
Bella ficaria feliz enquanto houvesse sol, ar fresco, música e amizade.
Por que lorde Cullen tivera de vir com aquela proposta absurda que só servira para revolver as cinzas das aspirações tolas de sua infância e fazê-la desejar o impossível?
— Embora possa não ter sido essa a sua intenção, devo dizer-lhe que milorde deixou-me ainda mais confusa.
Não apenas com as palavras.
Era uma situação totalmente inusitada. A mesma pessoa que a irritava em um momento, em seguida a atraía de uma maneira irresistível. Aquilo poderia levar uma jovem à loucura ou... direto para a cozinha. Como seria agradável sufocar a ansiedade com uma fatia grossa de bolo inglês tão substancioso quanto indigesto!
— Lorde Cullen, não consigo imaginar o que o senhor quer de mim. — Bella teve de engolir a salivação conseqüente à ideia da guloseima, antes de continuar. — Não tenho a menor dúvida de que muitas outras jovens estariam dispostas a agradar-lhe.
O barão abriu a boca para responder, mas Angela o interrompeu:
— Eu lhe desejo um bom dia, milorde. Recomendações afetuosas a seu avô.
Bella virou-se, pronta para fugir dali, porém, no mesmo instante, milorde segurou-lhe a mão com firmeza e demoveu-a de suas intenções. Ela estranhou a sensação que lhe percorreu o braço. Fria e quente ao mesmo tempo. Parecida com a que experimentava só pela presença de lorde Cullen.
— Por favor, srta. Swan, espere um pouco. Escute o que tenho a lhe dizer. Meu avô está morrendo — Edward afirmou o que Bella não lhe permitira dizer havia instantes.
Aquelas palavras atingiram-na como um soco bem dado no estômago. Bella estremeceu e suas pernas fraquejaram. Se lorde Cullen não a estivesse segurando com força pela mão, ela teria caído.
— Morrendo? — Ela passou a mão livre na testa em uma tentativa vã de refrear o redemoinho caótico de pensamentos que a acometera. — Não pode ser. Eu estive ontem em Helmhurst e ele me pareceu tão bem como não o via há tempos.
Embora fosse obrigada a admitir que o conde de Cullen não era mais nenhum jovem e estava enfermo havia anos.
— Preciso vê-lo imediatamente!
Nisso, uma outra ideia a fez reagir com violência.
— E por que o senhor não me disse logo? — Bella desvencilhou-se com um puxão e surpreendeu-se ao constatar que o ambiente cálido da sala de estar parecia gelado em contraste com a parte da pele que Edward estivera segurando. — É uma grande insensibilidade de sua parte sujeitar-me a uma ladainha de paradoxos enquanto me mantinha na ignorância do estado de seu avô!
O barão cerrou os dentes e um movimento ligeiro de suas sobrancelhas traiu o desconforto causado pela reprimenda.
Bella sufocou um acesso de culpa que a deixou desconcertada e preparou-se mais uma vez para sair correndo.
Não chegou a dar três passos. Lorde Cullen interpôs-se entre ela e a porta.
— Srta. Swan, não posso deixá-la ir.
— Pois tente impedir-me, milorde.
Bella tentou passar por ele, mas Edward segurou-a entre os braços.
— Solte-me imediatamente! — ela gritou, ignorando o desejo ridículo de ficar presa naquela espécie de abraço.
— Não posso fazer isso — lorde Cullen insistiu —, pelo menos até a senhorita acalmar-se. Ouça bem. Meu avô não corre perigo imediato e eu não quero que ele suspeite do que os médicos me contaram.
Bella parou de contorcer-se para escapar. Arfante, parecia ter lutado contra Edward com toda sua força.
— Como o senhor pode afirmar que o conde está morrendo e no minuto seguinte dizer-me que ele não corre perigo?
— "Perigo imediato" — lorde Cullen corrigiu-a, também com a respiração acelerada. — Seria interessante se prestasse mais atenção às minhas palavras, srta. Swan. Embora meu avô não aparente nenhuma piora em relação ao seu estado geral, os médicos garantiram que ele terá, no máximo, três meses de vida.
Bella não pôde impedir a nuvem de lágrimas que a impossibilitava de enxergar o menor raio de luz.
Lorde Cullen afrouxou o aperto com que a segurava.
— Não quero que o prazo a ele destinado seja obscurecido com o conhecimento da gravidade de sua condição. Se a senhorita pretende continuar a vê-lo, terá de dar-me sua palavra de que honrará meus desejos.
Bella gostaria de sentir um pouco de simpatia pelo barão, mas ele tornava a meta impossível de ser alcançada. Apoiou a palma das mãos de encontro ao peito largo do barão, que estava coberto por um casaco bem-talhado, e empurrou-o. Soltou-se daqueles braços musculosos e desprezou a pincelada de desapontamento pelo fato de milorde deixá-la sair sem a menor resistência. E não pôde deixar de recriminar-se pelas ideias absurdas que teimavam em não abandoná-la.
— Se o conde não sabe de nada disso, milorde, pode ter certeza de que eu jamais diria alguma palavra a respeito do assunto, mesmo se o senhor nada me houvesse ordenado.
— Srta. Swan, é preciso muito cuidado para não se trair e nem deixar escapar a menor indiscrição. Seu rosto, senhorita, é um livro aberto para qualquer um que tenha a curiosidade de interpretar-lhe as expressões fisionômicas.
E seus olhos conseguem ser ainda mais transparentes.
Uma onda fria de desânimo desabou sobre Bella.
Lorde Cullen estaria dizendo a verdade ou pretendia apenas atirar mais uma vez a isca? No primeiro caso, o barão seria capaz de decifrar os sentimentos contraditórios e intensos que provocava nela?
Edward Cullen vinha concentrando suas emoções dentro de uma caldeira bem fechada e mantinha sob controle constante um caldo em ebulição. Bella swan destampara o vasilhame e remexera o conteúdo várias vezes durante o transcorrer do encontro. E sempre que ela erguia a tampa, deixava escapar um maldito vapor escaldante. Por mais que Edward odiasse ver alguém ameaçar lhe a capa aparente de serenidade, teve de admitir que os momentos de descarga de pressão provavelmente evitaram que o conteúdo explodisse.
Se ao menos o fato de ter a srta. Swan nos braços não o houvesse feito arder em chamas!
Bella abaixou as pálpebras, talvez para proteger a si mesma do olhar perscrutador de Edward.
— Milorde, sou capaz de demonstrar alegria mesmo que não a sinta, se for preciso e quando eu quiser. Além disso, a visão de seu avô já não é mais a mesma de antes. E eu também jamais tomaria alguma atitude que pudesse aborrecê-lo.
— Eu acredito nisso, minha querida.
As duas últimas palavras escaparam da censura de lorde Cullen. Ele se recriminou, esperando que Bella não houvesse reparado. Se fosse bem-sucedido e a convencesse, o que lhe parecia improvável no momento, teria de acostumar-se a empregar tais palavras carinhosas.
Um espasmo alarmante tomou conta do coração de Edward.
— Eu preciso saber até que ponto a senhorita esta disposta a fingir para alegrar os últimos meses de vida de meu avô.
O que acabava de dizer queimou-lhe a garganta, tinham sido necessárias muitas noites insones, as quais ele passara contemplando o céu estrelado e frio, para cultivar uma aquiescência estóica da situação. Talvez o estratagema que pretendia montar junto com a srta. Swan pudesse providenciar-lhe uma distração bem-vinda nas semanas vindouras.
Se ele conseguisse convencê-la.
Bella arregalou os olhos e Edward percebeu, pela cintilação das íris castanhas e imensas, que ela finalmente montara o quebra-cabeça e entendera a contradição da estranha proposta.
— Milorde deseja que montemos uma encenação, como se pretendêssemos casar-nos, para agradar ao conde?
— Isso mesmo. Vovô tem sido bastante eloqüente no que se refere à sua vontade para que nos aproximemos e fiquemos juntos no futuro.
Um sorriso encantador e maroto perpassou pelos lábios carnudos de Bella. Com toda certeza, o conde também já fizera alarde de seus propósitos casamenteiros perante ela
— Não há nada que ele ambicione mais em sua vida — Edward continuou. — Até agora eu vinha fazendo ouvidos moucos diante do desfiar constante das virtudes da srta. Bella Swan, pois não tenho a menor intenção de casar-me. Nem mesmo para satisfazer meu avô.
— Ah, bom! — Bella não escondeu o alívio. — Mas então, como milorde pretende assumir um compromisso comigo?
Com a promessa de que a senhorita anulará o acordo assim que... ele tiver servido aos nossos propósitos. Em troca de sua cooperação inestimável, eu ajudarei seu irmão a obter a patente que ele tanto deseja.
Bella fitou-o em silêncio por um longo momento. Apesar do que dissera antes, Edward não pôde adivinhar-lhe os pensamentos e nem o que ela responderia.
— Não se preocupe, milorde. Eu também não pretendo casar-me. Se resolver fazer o que me pede, será porque também desejo fazer o conde feliz.
— Contudo, eu insisto nesse aspecto.
Edward não quis ofendê-la, por isso não declarou que se sentiria mais seguro se ela se obrigasse a romper o noivado assim que fosse necessário.
Afinal, mulheres mudavam de opinião, em assuntos dessa natureza, com a mesma facilidade com que trocavam de roupa. Nada aconteceria além de um pequeno escândalo local. Por outro lado, se um cavalheiro rejeitasse uma dama, o burburinho seria generalizado e o caso poderia terminar no tribunal e, pior, nos jornais.
Se o que o avô lhe contara sobre Bella fosse verdade, Edward duvidava que ela o traísse e insistisse em manter um noivado que ele não desejava. Entretanto a cautela era imprescindível para um nobre dotado de uma fortuna tão grande. Ele se sentiria mais à vontade naquela relação se tivesse certeza de que poderia exercer algum tipo de influência no tempo certo.
Agora que entendeu minhas intenções, a senhorita Poderia colaborar comigo?
A espera trouxe uma grande angústia para Edward. Era como se houvesse se formado dentro dele uma pesada bola de canhão que estava a ponto de estourar. Ao perceber que suas mãos começavam a suar, escondeu-as atrás das costas.
— É possível, milorde — ela respondeu, depois de uma demora de séculos.
Edward soltou a respiração, sem perceber que a estava segurando.
— Eu preciso de mais algumas informações para decidir-me. Por exemplo, no que consistirá precisamente nosso compromisso?
— Como se eu soubesse! — Edward desabafou.
O problema o afetara demais e tornava-se quase imposível manter uma fachada de impassibilidade. E criticou a si mesmo por ter falhado em planejar além daquela entrevista que, afinal, não decorrera como o esperado
— Suponho que deve ser tudo o que leve meu avô crer que iremos nos casar.
Edward percebeu que Bella girava sem parar o anel delicado no dedo mínimo.
— Teremos de freqüentar eventos sociais? Quero dizer, mesmo os que acontecem neste lugar longínquo
— Não vejo motivos para tanto. Raramente recebo convites e, quando isso acontece, quase sempre os recuso. Não tenciono mudar de atitude só por ter ficado noivo.
Edward achou que Bella se descontraíra um pouco, como se aprovasse a decisão anti-social. Apesar de tudo, talvez eles viessem a entender-se.
— Eu poderei visitar Helmhurst com maior freqüência.
Embora não lhe agradasse dividir os preciosos últimos meses do avô com alguém, Edward teve de concordar, diante da expectativa mais do que evidente de Bella.
— Quanto quiser.
Bella não ocultou seu contentamento, apesar das circunstâncias, e Edward começou a acreditar na cooperação dela, o que o deixou até espantado.
— Alguma coisa mais? — ele perguntou, com um sorriso que gostaria de ter evitado.
E de repente, Bella corou com tal intensidade que Edward percebeu o fato, apesar da pouca luz do ambiente.
Beijos? — O murmúrio trêmulo deixou Edward atordoado.
Ele ordenou a si mesmo para não fitar os lábios convidativos de Bella. Não queria imaginar como seria beijá-la. E nem especular se ela já fora beijada por outro homem.
De imediato, Edward ouviu cornetas a distância que o aconselharam a retroceder.
— Eu nunca deveria ter vindo até aqui. — Edward virou-se, foi até a porta da sala, pegou a capa e o chapéu de abas largas de cima da cadeira onde os deixara. — Foi uma idéia absurda. Jamais daria certo. Sinto tê-la incomodado, srta. Swan. Eu darei outro jeito.
Enquanto se encaminhava para o hall de entrada, Edward jogou a capa ao redor dos ombros, pôs o chapéu e abaixou a aba para esconder o rosto. E ouviu-a correr atrás dele.
Por favor, lorde Cullen, poderia esperar um momento?
Edward não diminuiu o passo, embora lhe parecesse estar ouvindo os berros do Duque de Ferro: "Uma jovem desenvolta foi capaz de afugentá-lo, Edward? Fique e assuma o que se propôs, como homem que é!".
Edward alcançou a entrada e virou-se para encarar a perseguidora.
Na certa, Bella não esperava por isso, pois não conseguiu deter-se a tempo e foi de encontro a ele. Se não houvesse uma porta as costas de Edward, eles poderiam ter caído um sobre o outro. E, pela terceira vez naquela tarde, Edward abraçou-a.
Os cachos castanhos fizeram-lhe cócegas no nariz, exalando aromas doces e de ar fresco do jardim onde ela estivera antes de ser chamada. Se os raios de sol tivessem substância e textura, com certeza seriam semelhantes às tranças da srta. Swan.
Ela ergueu o rosto e, em um instante de insanidade total, Edward desejou tocar os lábios que pediam para ser beijados. Conforme ela perguntara.
Mas antes que tivesse a oportunidade de fazê-lo, os lábios se entreabriram, provocantes e... deixaram escapar duas palavras.
— Perdão, milorde.
Aquilo teve o efeito de um choque com água gelada em Edward.
— Desculpe-me por ter colidido com o senhor. — Bella mostrou-se confusa. — E também por tê-lo aborrecido com a minha pergunta.
Bella levou a mão ao rosto de Edward, que estremeceu diante da carícia piedosa e suave daqueles dedos.
— Sinto muito — ela sussurrou, quando passou a mão perto da máscara.
Edward sentiu os tecidos desfigurados arderem como brasas e, embora desejasse empurrar a srta. Swan para longe, usou de toda sua força de vontade para não se desvencilhar dela.
— Este, minha querida, é precisamente o problema.
Sentia muito mesmo!, Bella considerou, enquanto lorde Cullen cavalgava rumo à estrada, com o chapéu enterrado na cabeça e a capa ondulando atrás dele.
Pelo fato de aquele homem intolerável ter vindo trazer-lhe notícias perturbadoras, uma proposta desnorteante e por ele ter partido de maneira tão abrupta
