Enquanto Kyle estava na frente do seu armário quebrado tentando achar alguma roupa que fosse decente o suficiente e que Bill aprovasse, seu animo havia diminuído e ele parecia ter caído mais na real. Francamente, como pode acreditar, por um segundo que fosse, que eles algum dia iriam libertá-lo? Só mesmo em sua cabeça desesperada que clamava por liberdade mais que um homem no deserto desejava água. Às vezes se achava tão infantil e inocente que era impossível crer que tinha vinte e cinco anos. Uma pessoa com vinte e cinco anos que havia passado por mais coisas que muita gente de oitenta anos jamais iria passar.
Se Bill havia o mandado se arrumar era claro que era algum cliente. Talvez ele fosse apresentá-lo para alguém com muito dinheiro e era preciso estar bem arrumado para fisgá-lo. Afinal, a aparência era a alma do negócio quando se tratava de prostituição.
Olhou desanimado para os trapos que ele chamava de roupa só para não se deprimir mais ainda, queria acreditar que ainda tinha algo naquela vida além de seu corpo. Havia muitas fantasias sexuais, como roupas de couro, uniforme de empregada e policial – existiam clientes que realmente pediam para ele vestir aquelas roupas! – e alguns consolos, mas roupas normais? Que ele pudesse andar com elas na rua? Era um artigo raro em seu armário.
Continuou vasculhando, jogando roupas no chão e sentindo o pânico o preencher por completo. Margareth havia dado a ele uma hora, só uma hora. Não podia se atrasar, não queria apanhar de Bill, embora isso já tivesse acontecido tantas vezes que nem ele sabia como não tinha se acostumado com a dor, principalmente quando Bill resolvia puni-lo de outro jeito, um jeito muito mais prazeroso, pelo menos para ele.
Mas ele não se acostumava. Por mais que estivesse naquele ramo há anos, jamais deixara de sentir dor na hora da penetração, jamais deixara de se sentir violado, rasgado e nojento a cada investida que davam em seu corpo sem ao menos perguntarem se ele queria.
Riu com a ironia. Seu corpo? Desde quando o corpo era seu? Há muito não era, ele lhe pertencia até os nove anos de idade. Naquela época, ele poderia ter batido no peito e ter falado "Eu pertenço a mim mesmo e faço as minhas próprias escolhas", mas só naquela época. Depois daquela noite, aquela noite terrível... Ele sabia que nada mais seria como antes e que devia ter aproveitado enquanto ele era livre.
Mas como saber o conceito de liberdade com apenas nove anos de idade? E como saber o que ela realmente significava quando nunca havia conhecido a repressão?
Kyle desviou os olhos do guarda-roupa e os carregou até a cama, olhando para ela, mas ao mesmo tempo tão imerso em suas próprias lembranças que era como se ela não existisse. E ele preferia mesmo que ela não existisse. Ela carregava todos os seus demônios e suas lembranças ruins.
Entranhado em algum lugar naquele colchão mofado e velho, haviam lembranças e resquícios da sua primeira vez. Aquela que ele tentava esquecer todos os dias, mas seus sonhos pareciam achar aquele assunto prioridade máxima em sua vida e eles nunca o deixavam em paz.
Fechou os olhos lentamente, sentindo um frio na barriga com as lembranças que estavam vindo à toda velocidade, prontas para destruírem todas as barreiras que ele havia construído contra elas. Era tarde demais.
Era como se estivesse naquela primeira noite novamente, sentindo aqueles toques lixando a sua pele, aqueles ofegos de prazer sussurrados no ouvido, o suor daquele velho que se mesclava com o seu enquanto o invadia sem dó nem piedade...
Sua terrível e traumatizante primeira vez.
Por mais que tivesse passado por inúmeras situações muito parecidas com aquela, Kyle sabia que aquela era a que mais tinha marcado. E por que não marcaria? Tinha só nove anos e não entendia nada de sexo ainda! Não era como Kenny que já tinha todas as manhas e malandragens, ele era puro e não tinha a mínima noção de que funcionava daquele jeito. De que sexo poderia ser tão ruim e sujo.
Nunca sentiu prazer em todos os seus anos naquele lugar, atendendo tudo quanto era tipo de gente, nunca se acostumou com aquela vida e com as dores. Ele só suportava, só tentava se manter forte e com esperança. Por mais que parecesse bobagem, ele ainda nutria uma chama, mesmo que fraca, de sair dali algum dia. Encontrar seus pais e seus amigos. Ter uma vida.
Os olhos encheram de água e os seus lábios tremeram. Por que ele estava tão emocional naquele dia específico? Ele passava por isso todos os dias, não era como se aquilo tudo fosse novidade. Talvez fosse pelo que o seu cliente da noite passada falara depois de terminarem o ato. Ele levantou da cama e começou a colocar a roupa enquanto olhava para o garoto de programa que estava enrolado nos lençóis remendados.
- Tenho que ir trabalhar, não sou igual a você que fica dando o cu para desconhecidos e ganhar essa pobreza. – Colocou o relógio e calçou os sapatos - Opa, esqueci, você não ganha nada, né? Deve ser muito chato ver as pessoas indo embora, ter as suas vidas e você sempre ficar para trás, somente esperando o próximo homem para enfiar no teu rabo.
E saiu porta afora.
Todos os homens que iam naquele prostíbulo sabiam que quem trabalhava ali era vítima de tráfico de pessoas e que não tinham escolhas, já que foram capturadas e viviam em cativeiro. Ninguém que atendia naquele lugar estava por livre e espontânea vontade e muitos homens tinham fetiche naquele tipo de situação. Eles eram escravos. Prisioneiros. Não podiam desobedecer porque senão apanhariam do dono do lugar. Dava uma sensação de poder incrível, e era por isso que muitos preferiam realizar os seus desejos sádicos naqueles lugares do que em bordéis normais.
Talvez fosse por isso que estivesse triste. Aquele homem tocara na ferida que ele preferia fingir que não existia, preferia seguir em frente e não pensar muito na situação patética que era sua vida. Por que se torturaria mais ainda pensando o tempo inteiro o quanto ele era infeliz? Já havia tentado se matar algumas vezes, na adolescência, mas nunca havia dado certo. Bill mantinha os olhos nele vinte e quatro horas por dia junto com Margareth, ele não sabia o que era ficar sozinho e não ter olhos vigiando cada passo que ele dava naquela gaiola caindo aos pedaços.
Ouviu duas batidas na porta e acordou do seu transe, entrando em desespero e olhando para o relógio. Será que ficara divagando sobre aquele assunto tanto tempo assim que nem vira a hora passar? Será que era Bill furioso porque ele não estava no andar de baixo como ele havia ordenado?
Mas não podia ser, haviam se passado apenas dez minutos e Bill não era do tipo que batia antes de entrar. Ele saía escancarando a porta sem pensar duas vezes, Kyle achava que ele fazia isso para tentar pegá-lo no flagra, tentando fugir ou se matar.
Então quem era? Sua pergunta foi respondida quando uma terceira batida foi dada na porta e foi aberta, mas sem força agressiva. Uma garota de longos cabelos negros e olhos penetrantes apareceu pela fresta da porta, olhando-o com curiosidade. Era Dakota, uma garota que havia sido levada para aquele lugar quando tinha quinze anos, tinha descendência indígena e ninguém precisava explicar isso, estava nítido em suas feições. Ela tinha o tom de pele vermelhada e seus olhos fortes eram levemente puxados. O corpo esguio e forte mostrava e dava a certeza de suas descendências. Fazia bastante sucesso naquele lugar por ter uma aparência extremamente exótica para o padrão americano das cidades. Eram filas imensas todas as noites para tê-la e Bill não se importava nem um pouco com o seu bem-estar, não dando a garota um limite de clientes por noite e deixando qualquer um que tivesse dinheiro violá-la, como se o seu corpo fosse de plástico e ela não fosse se sentir esgotada.
Kyle riu para ela, feliz em vê-la. A garota era o mais perto que ele tinha de amizade naquele lugar. Tinham a mesma idade, estavam sempre juntos e compartilhando comentários sobre suas antigas vidas e seus clientes. O judeu temia que, se não fosse a amizade da índia na sua vida, ele já teria enlouquecido há muito tempo. Algumas pessoas dentro do bordel falavam que eles ainda iriam se apaixonar de tanto ficarem juntos, mas eles tinham pavor dessa ideia. Mesmo porque, depois de tantos anos naquele lugar, Kyle sabia bem a sua opção sexual e tinha certeza que o sexo feminino não fazia parte dela. Já Dakota não era apaixonada por Kyle por apenas olhá-lo como amigo, um anjo iluminado no meio daquele lugar onde só havia trevas e demônios. Um ser de luz que estendeu a mão a ela quando ela se encontrou totalmente perdida e desamparada naquele inferno.
- Entra Dakota, por que demorou tanto tempo batendo? – Convidou Kyle, sorrindo para ela.
Ela entrou meio tímida, olhando para os lados e sussurrando, como se alguém pudesse estar ali, pronto para ouvi-los. Vestia um top curtíssimo e estava só de calcinha, mas aquele tipo de vestimenta era natural por ali.
- Achei que você poderia estar com cliente, fiquei com medo de atrapalhar e levar... Você sabe... Outra surra do Bill.
Isso já havia acontecido. Dakota entrou no quarto de Kyle enquanto ele tinha cliente e esse foi reclamar com o dono do estabelecimento. Foi uma surra que a índia jamais iria esquecer.
- Fica tranquila, não tenho clientes hoje, eu acho... – Kyle mordeu o lábio – Na verdade, Margareth falou que eu tinha que estar lá embaixo em uma hora, vestido com a minha melhor roupa.
Dakota arregalou os olhos excessivamente expressivos para o rapaz, sentindo-se nervosa por ele.
- E por que você ainda está de cueca? Veste logo uma roupa, sabe que não pode se atrasar!
Ele andou até a cadeira caindo aos pedaços que estava sentado antes e desabou todo o seu peso nela, arrependendo-se no mesmo segundo. Sorte que ela não caiu.
- Porque eu não estou achando nenhuma roupa decente o suficiente que não vá fazer Bill me matar por estar tão mal vestido.
A garota andou até o armário e avaliou de cima a baixo todas as roupas que estavam jogadas ali dentro.
- Uau, organização mandou lembranças. – Comentou ela ironicamente.
- Olha a minha vida, Dak, vê se eu tenho paciência e cabeça para ficar arrumando armário? - Kyle rolou os olhos.
- Isso não é desculpa, o meu é arrumadinho... Mesmo não tendo muita coisa dentro dele... – A última frase havia sido pronunciada de maneira melancólica. Dakota contava que, antes de ir para lá, ela tinha muito dinheiro. Seus pais eram médicos respeitados e nunca lhe faltava nada, seus armários eram abarrotados de roupas, sapatos, maquiagens e qualquer objeto que deixasse mulheres felizes. E agora ela vivia daquele jeito, se tinha três mudas de roupa, era muito – Vem cá, você quer que eu te ajude a arranjar algo bonito? Quem sabe se a gente não procurar direito ou perguntar pra outro garoto? Alguém deve ter uma blusa e uma bermuda bonita que você possa usar!
Kyle olhou para ela como se ela tivesse descoberto o ouro.
- Dak, você é um gênio! – O garoto levantou-se num ímpeto, segurando-a pelos braços.
Ela sorriu convencida, jogando algumas madeixas negras para trás do ombro.
- Não precisa me agradecer, eu sei que sou demais. Agora vamos logo, até encontrarmos uma roupa pode demorar e atrasar é a última coisa que você irá querer se tratando de Bill.
E assim eles saíram do quarto em busca de uma roupa boa o bastante para Kyle vestir.
