O Pouco Que Sobrou

Capítulo 2 – Do Lado de Dentro

Ele viu antes de chegar. A moto rugia loucamente enquanto descia, e seu coração disparado se recusava a acreditar no que estava vendo. A casa que deveria estar de pé parecia ter sofrido uma imensa explosão. O teto estava revirado com um imenso buraco a esquerda, as paredes à direita tinham tombado levando junto parte do teto e a porta de entrada já não existia. O castelo de proteção que tinham construído tinha desmoronado. Tudo tinha falhado. O mal tinha conseguido entrar.

Estacionou aonde antes havia uma mureta, e entrou desesperado. O corpo inerte de Tiago jazia na porta, e sentiu que havia perdido uma parte de si. Aquele homem fora seu melhor amigo, seu irmão. Odiou Pedro com todas as forças do seu ser, como aquele rato nojento tinha feito aquilo?

Andou pelos destroços da casa, olhando em volta cheio de raiva. Até que ouviu o som de algo caindo, e um choro. Um choro alto, forte, berrado. Ele andava pelo que restara da construção às cegas.

.- Lílian? Harry?

.- Mamanhê! – ele ouviu o afilhado berrar. – Mamanhê!

Seguiu aos tropeços até aonde ouvia a voz do bebê, e viu que a porta estava entreaberta. Harry estava caído sobre a mãe, tentando se levantar. Chegando mais perto, viu que ele estava na verdade debruçado sobre Lílian, puxando seus cabelos. Lágrimas vieram aos olhos de Sirius. Ele estava tentando acordá-la. Achava que a mãe estava dormindo.

Então ouviu o barulho do homem na porta e se virou. Os olhos verdes do menino eram verdes como os da mãe, estavam cheios de lágrimas. Ele tinha agora uma queimadura feia na testa, mas estava aliviado. Pelo menos Harry tinha sobrevivido. O bebê tento chegar até ele com passos incertos, tropeçou em um dos pedaços do piso solto e caiu. Sirius o abraçou, o apertando tão forte que ele chegou a tossir. Ficou de pé, com o menino no colo e tentou sair do quarto, mas ele se jogou em direção ao chão, berrando:

.- Mamanhê! Mamanhê! – E chutava e lutava tentando voltar.

Os joelhos enfraqueceram e ele caiu no chão, deixando o menino voltar a se aninhar por cima do corpo rígido da mãe. Ele tentava inutilmente acordar a mulher, a sacudindo, a chamando, chorando, enquanto Sirius chorava como uma criança. Seu corpo se sacudia em soluços, as lágrimas correndo por seu rosto.

.- Vem, Harry. – Ele chamou, puxando o menino e tentando se controlar. – Acabou.

.- Abô não! – o menino jogava toda força de seu corpo contra o braço do padrinho. – Mamanhê!

Então ouviu passos se aproximando, e a presença maciça de Hagrid entrou no quarto. Ele olhou pra tudo e pra Sirius antes de exclamar:

.- Meu Deus! Harry está bem?

Como resposta houve apenas um aceno de cabeça afirmativo, em um rosto completamente devastado pela dor. O meio-gigante pegou o bebê do chão sem esforço, parecendo nem notar os gritos da criança que erguia os braços pra mãe.

Os dois saíram da casa, abalados demais para conversar. Quando passaram pela sala, o menininho berrou algo semelhante a "pai" e tentou mais uma vez se desvencilhar. Sirius pode ver que os olhos escuros de Hagrid também estavam cheios de lágrimas.

.- Fique com ela – falou Sirius com a voz rouca e embargada, entregando as chaves da moto para o companheiro. – Não vou mais precisar dela mesmo.

"Deus, por onde você foi?

Cansei de procurar

Não posso mais te dar

O pouco que sobrou"

"Eu os matei", era tudo que Sirius conseguia pensar. Ele tinha convencido Tiago e Lílian a fazer de Pedro o fiel do segredo. Ele tinha os entregue de bandeja para Voldemort. Ele era o culpado. Enquanto ele via a motocicleta se afastando pelo céu, sentiu a raiva voltar com toda força.

E a culpa. A culpa esmagadora de ter entregado seus amigos ao inimigo. Pela primeira vez desde que ele era criança, rezou. Rezou pra ser perdoado pelos amigos. Rezou para que Harry o perdoasse pelas perdas. Rezou para que Remus o perdoasse pela desconfiança. Rezou para que se perdoasse pelo que aconteceu.

Mas em nada aquilo aliviou sua dor e sua culpa. Respirou fundo, resignado e aparatou no apartamento do namorado. Andou até o quarto, observando sua expressão tranqüila enquanto dormia. Será que ele iria acreditar quando falasse que tinham no último minuto mudado o fiel do segredo pra Pedro? E como reagiria ao descobrir que tinha desconfiado dele, a despeito de todo o amor?

Abaixou e beijou o namorado de leve, resistindo ao impulso de se aconchegar ao lado dele, chorar todas as dores, mágoas e decepções daquela noite. Mas tinha um trabalho a fazer. Tinha que perseguir o traidor. Não ficaria em paz nem mesmo um segundo enquanto Pedro não estivesse morto.

Antes de sair, olhou pelo que seria a última vez em anos que veria o homem amado tão de perto. Respirou fundo e com um suspiro falou "Eu sou teu homem vil".

"Carrego seu amor até não conseguir

Mas hoje eu me senti dobrando devagar

Tentei chorar por seu perdão

Mas não ouvi sinal

Será que isso é normal?"

Agora ele via claramente, como se uma porta tivesse se aberto expandindo sua percepção de tudo. Pedro estava há muito tempo armando aquilo tudo. Não era nem um pouco burro, tinha inventado um plano engenhoso. Sirius encarava o dedo cortado do traidor, os corpos dos trouxas espalhados pelo chão, e só conseguia rir.

Não havia justiça no mundo. Os maus tinham vencido, e ele estava enredado em uma armadilha engenhosa. Não havia saída para ele. Seria pego, acusado, condenado. Passaria o resto da vida trancafiado em Azkaban. Sabia o quão enlouquecida sua risada soava, ele estava em estado de choque.

.- Eu os matei! – berrou para a rua. – Eu os matei!!!

Sabia que Remus iria se desfazer de tudo que era dele com nojo. Que ele se tornaria o maior vilão da comunidade mágica. Sabia que pra uma traição como aquela não havia perdão possível. Ele gargalhava desesperadamente, pois com ou sem morte, ele era culpado. Ele tinha armado aquilo. E o feitiço tinha virado contra o feiticeiro, encurralado em um beco.

Viu os aurores chegar e não resistiu. Não conseguia controlar seu nervosismo histérico. Viu a cara de decepção de Fudge. Mais tarde, viu a mesma expressão no rosto de Dumbledore, e aquilo foi um tapa na cara tão grande que ele parou de rir.

"Deus, proteja o filho teu,

Não deixa o mal ganhar

Por onde se escondeu enquanto o céu caiu

E a chave não abriu e a estrada se acabou

E a ponte não passou pra lá desse lugar?"

Enquanto estava sendo levado para fora do ministério, algemado e arrastado, viu Remus misturado com os repórteres que berravam perguntas. Tentou o olhar. Tentou dizer uma última coisa. Tentou fazer com que ele visse que o amava. Que não tinha feito nada daquilo.

Mas o rapaz virou o rosto, desviando de seu olhar, e saiu andando. Sirius sentiu-se partido ao meio. Não sentia mais o aperto dos aurores, ou a escravidão gelada das algemas. Ele não sentia mais o chão sob seus pés. Não sentia mais nada.

Tudo era um imenso vazio que se apoderava dele com mais força a cada instante. Lílian e Tiago mortos. Harry órfão. Remus sozinho no mundo. Pedro solto.

E então amaldiçoou a injustiça, amaldiçoou Voldemort, amaldiçoou sua idéia tola, amaldiçoou a sua desconfiança, amaldiçoou seus pais, e todas as famílias sangue puro, amaldiçoou Slytherin, amaldiçoou seu nascimento, e no final, amaldiçoou Deus.

Não havia mais esperança no mundo.

"Eu vou tentar por mais um dia

Manda essa cavalaria

Que hoje a fé me abandonou."

N/A: Okay, eu abusei do direito de esmiuçar a tristeza das pessoas, eu sei. Olha, que incrível, eu até gostei do resultado dessa experiência.

O primeiro que me disser "O Harry era só um bebê, não conseguia fazer isso", vai tomar uma panelada na cabeça. O Arthur tem agora exatamente essa idade e consegue fazer muito mais.

No mais, obrigado pela atenção o/

Voltem sempre xD