Um mapa do Fim de Tudo

ii. Adeline

Adeline trabalhava em uma taverna no centro da cidade de Ankh-Morpork. Era garçonete, o que não era uma coisa boa, mas ganhava um salário alto, o que não era uma coisa ruim.

Aquele havia sido um dia normal. Pelo menos até agora. Somente algumas brigas, uma invasão e alguns magos bêbados de sempre.

Nada de especial.

Nesse instante, ela estava indo para casa. O sol já estava nascendo, e o sono deixava seus olhos pesados e sensíveis à claridade.

Ela era o que se poderia chamar de habitante comum de Ankh-Morpork: adulta, economicamente ativa, classe-média e absolutamente perigosa.

Mas agora ela era a mais mortal dos mortais, enquanto caminhava em direção à sua casa. Não havia nada mais em sua mente, a não ser sua cama lhe esperando.

Adeline morava no pior lugar possível de se morar, às margens do rio Ankh. O fedor era tão grande que a obrigava a fechar as janelas o tempo todo e tapar os buracos com pedaços de pano, e mesmo assim procurava passar o mínimo de tempo lá dentro, somente o necessário para dormir.

Sua casa estava perto, e ela sentia que se demorasse mais iria cair de sono no meio da rua. Os poucos metros que a separavam pareciam infinitos, impossíveis de se alcançar, eternos.

A rua onde estava, de um lado de pequenas casas e barracos, do outro as águas ácidas do Ankh, encontrava-se estranhamente deserta, e ela percebeu isso.

Ela parou, olhando para os dois lados. Somente o barulho da correnteza borbulhante podia ser escutado e aquilo estava errado. Ela vivera ali boa parte de sua vida e nunca vira nada parecido.

O cheiro do rio parecia ter ido embora e o ar ganhara uma consistência pastosa, pesada, como se fosse um líquido. Adeline respirou fundo aquele ar estranho e sentiu como se estivesse respirando água, água que entrava em seus pulmões e penetrava em seu corpo, percorrendo toda a sua corrente sangüínea, até sair pelos poros de sua pele.

Com os movimentos lentos por causa de uma resistência anormal, ela tentou correr, mas escorregou no ar ("Como assim, no ar?" pensou, antes de bater no chão) e caiu, engolindo areia suja. Sentindo-se miserável, descobriu que estava fraca demais para se levantar, estava com muito sono e estava tão difícil se mexer.

Ela sentia sua consciência indo embora, caída no chão, esmagada pela pressão daquele ar, quando uma estranha constatação atingiu seu cérebro.

"Eu não estou sozinha."

De fato, ela ouvia os passos de alguém se aproximando, e uma sombra bloqueou o sol.

Desesperadamente, tentou falar, mas o ar-água já enchera seus pulmões, e ela teve a sensação de que bolhas saiam de sua boca.

"Me ajude." Seus lábios pesadamente gesticularam essas palavras.

Ela sentiu uma mão pousar sobre a sua cabeça e puxar desleixadamente o seu cabelo. Com o corpo tenso de dor, ela foi levantada até a altura do peito do estranho.

-Olhe, - disse ele. – Não é pessoal. Não tenho absolutamente nada contra você. Eu nem sei o seu nome. Mas... o quê?

Adeline havia pronunciado alguma coisa baixo e ele não havia escutado.

-Adeline... – murmurou ela novamente, sentindo bolhas saindo de novo de sua boca.

-Adeline? É esse o seu nome? – ele parou um momento para ponderar. - Bem, Adeline, como eu já disse, eu não tenho nada contra você, mas há algumas coisas que precisam ser feitas, mesmo contra a nossa vontade, não é?

Ele deu um pequeno sorriso encorajador.

-Não precisa ter medo, você só irá começar a ver o mundo de outro ângulo. Não há nada a temer, eu garanto. Todos um dia passarão por isso. – ele parou pensativamente. – Menos eu, espero.

Adeline deu um pequeno chiado raivoso e, se pudesse, teria cuspido em seu rosto.

-Desculpe. Com licença. – disse ele, e levantou a outra mão até seu rosto, tapando os olhos dela. Ela o escutou falando algumas palavras estranhas em alguma língua estranha e tudo ficou negro.

Tudo estava escuro, mais escuro do que o céu em uma noite sem estrelas, e Adeline sentiu que alguma coisa sua estava indo embora, em direção ao escuro. Como se alguém estivesse retirando um fio brilhante de seu coração.

Ela estava perdida na escuridão e uma parte de sua alma se esvaia aos poucos em direção ao nada.

Abrindo os olhos, o sol nascente sobre o Ankh a machucou. Com dificuldade e piscando várias vezes, ela olhou em volta.

Estava em pé, parada, exatamente no mesmo lugar em que estava antes.

Olhou novamente para todos os lados, confusa. Estava na rua de casa, entre a cidade e o rio, em meio a manhã de um radiante e promissor novo dia em Ankh-Morpork. O ar continuava irrespirável, mas desta vez por causa do cheiro do rio, e com consistência normal. O barulho voltara a toda e um homem um pouco a frente já preparava a vitrine de sua loja. O mundo parecia ter voltado ao normal.

Adeline estava paralisada. Cuidadosamente, experimentou dar um passo.

Nada aconteceu.

Incrédula, olhou em volta, procurando algum sinal do que havia acontecido.

Nada. Não havia qualquer marca na areia e suas roupas estavam limpas.

Sem pressa, começou a andar para casa. Parou em frente a porta e abriu sua bolsa, procurando suas chaves.

Sentiu uma coisa macia e peluda passeando entre suas pernas e, olhando para baixo, viu que era um gato.

-E aí, companheiro? – ela abaixou para fazer carinho entre suas orelhas. – Será que eu estou ficando maluca?

Ela pegou as chaves e abriu a porta. Silenciosamente, o gato entrou seguido por ela, que fechou a porta atrás de si.

Repentinamente, lembrou do quanto estava com sono. Jogando a bolsa em um canto qualquer, despencou na cama, os olhos já embaçados. Lançando um último olhar ao gato, que a observava deitado no chão, ela sorriu.

"Deve ser só o sono..." foi seu último pensamento, antes de mergulhar em um sono sem sonhos, nem luz.

Somente trevas.