ED. 3/6/2012: Capítulo repostado com modificações semi-perceptíveis. A história pode ser localizada mais ou menos após o arco da invasão da Ordem Negra, mas antes do arco que introduz o personagem Timothy Hearst. Grande parte dessa história se foca num OC, um personagem original, mas -Man (FF vai cortar esse nome pela metade, eu aposto) e todos os seus personagens pertencem à dona Katsura Hoshino. Espero que apreciem a leitura.
xx Katsucchi
PEDAÇO DE ESPELHO
Segundo Ato
Frio, frio, frio, frio...
Parecia impossível imaginar que em algum momento em sua vida ele conhecera o calor. Todas as memórias eram sobre o frio constante, implacável, insaciável...
Em todas as memórias, ele estava sozinho.
Mesmo assim, o tecido branco era como uma coisa viva o abraçando e talvez aquela tenha sido a única razão para ele ter conseguido dormir. Normalmente, seus olhos permaneciam abertos por horas que se tornavam noites e dias, até cederem à mais completa exaustão.
"Mantenha seus olhos abertos..."
Odiava aquilo.
Não. Não odiava nada, porque não sentia nada.
Não tinha permissão para sentir.
- Allen-kun?
Allen levantou a cabeça assustado quando ouviu alguém o chamando e focou os olhos claros na pessoa que se aproximava, abrindo um sorriso sem graça quase de imediato.
- Ah... Olá, Lenalee.
A garota de cabelos escuros e curtos sorriu satisfeita em vê-lo, e puxou uma das cadeiras da enfermaria para perto da dele, ao lado da cama.
- Komui-niisan disse que vocês haviam voltado, mas quando perguntei aos outros, me disseram que você ainda estava na enfermaria. – ela falou. – Fiquei preocupada, porque pensei que havia se machucado.
- Não... – Allen balançou a cabeça, em tom tranqüilo. – Eu estou bem. Só... – seu olhar escapou para a pessoa na cama. – Só pensei que ele podia querer companhia.
Lenalee também olhou naquela direção e sua expressão anuviou-se. Ela perguntou em voz baixa:
- É a criança que vocês encontraram? – Allen acenou que sim. – Lavi me disse que Road Camelot o manteve prisioneiro.
- É. – confirmou o garoto em voz baixa. – Eu não consegui fazê-lo falar nada. Ele nem ao menos reclamou da dor.
Lenalee assentiu e estendeu uma mão para os cabelos escuros do garoto – sabia que os remédios da enfermaria provavelmente o impediriam de sentir o toque -, afastando-os para ver o pouco de seu rosto que ele não escondera sob as cobertas.
- Ele é mesmo pequeno. – comentou e sorrindo levemente. – E parece ainda menor dormindo assim, todo encolhido, não é?
Allen deixou escapar um riso, explicando quando ela o olhou:
- Eu durmo assim também, de vez em quando. – ele apoiou-se na beira do colchão. – Provavelmente algum hábito de infância.
- Hm... – fez Le, com o sorriso ainda brincando nos lábios. – Não parece lá muito confortável, Allen-kun. – observou, fazendo-o rir mais.
- Depende do ponto de vista. – ele disse. – Eu achava muito... Seguro, dormir assim.
Lenalee o olhou, mas não falou nada. Por algum tempo, os dois apenas observaram a criança adormecida, e provavelmente por esse motivo chegaram a notar o primeiro tremor. Allen endireitou-se na cadeira à primeira indicação de movimento e, por instinto, tocou o ombro do garoto que se encolhia.
- O que foi? – perguntou Lenalee preocupada. – O que ele tem?
- Não sei. – respondeu o exorcista de cabelos brancos, pousando uma palma contra as costas da criança. – Talvez ele esteja com frio. – considerou num murmúrio.
- Com frio? – repetiu a garota, confusa, se aproximando da cama também. – Por que ele estaria com frio debaixo de todas essas cobertas? Será que está com febre?
- Não... – Allen negou, tocando a testa do garoto sob os cabelos negros. – Não, ele só... Está com frio. A pele também está gelada. Ele falou... Ele falou que estava com frio antes. – seus olhos se desviaram para a capa que pendurara nas costas da cadeira. – Foi por isso que...
A voz dele se perdeu enquanto apanhava o manto branco e o estendia sobre o garoto. Lenalee observou a criança segurar o tecido e enroscá-lo muito naturalmente em volta de si. Crown Clown, a Innocence de Allen, pareceu envolvê-lo de volta suavemente, como fazia com o próprio exorcista, e só então o garoto relaxou. Ela olhou para Allen, vendo que ele também observava.
- Allen-kun... – chamou em voz baixa, fazendo-o olhá-la. – O que foi isso?
O rapaz deu de ombros, meio sem jeito.
- Eu lembrei que ele também se acalmou quando eu emprestei a capa antes. – murmurou se abaixando de novo para tocar os cabelos negros da criança. – Sei lá, vai ver ele gostou dela.
Lenalee não agüentou e soltou uma risada.
- Sério, Allen... Assim parece que ele é seu irmãozinho.
Allen sorriu para ela, a mão estendida roçando o curativo no rosto do garoto.
- É? Eu estou cuidando dele como Komui-san cuida de você, Lenalee?
A garota corou e ele riu.
- Ora, cale a boca!
XXXXX
A próxima vez em que Allen viu o garoto foi na manhã seguinte, quando foi chamado até a enfermaria depois do café sem explicações. Confuso (e não de todo feliz por deixar a refeição pela metade), ele obedeceu e presenciou... O Caos.
O lugar estava cheio, pois um grupo de finders e exorcistas retornara naquela madrugada com uma quase totalidade de feridos. Um tanto desorientado, o rapaz buscou a Chefe das Enfermeiras e a localizou distribuindo ordens a algumas novatas. Ele se aproximou, chamando:
- Com licença, senhora...
- O que foi agora? – Allen pulou para trás com a pergunta gritada e viu as enfermeiras novatas fugindo às costas da mulher. – Ah, é você! Por que demorou tanto?
- Ah... Eu... Sinto muito...? – gaguejou Allen suando frio.
- Que seja, que seja... Vamos logo porque isso aqui já está uma baderna completa! – e, dando-lhe as costas, começou a andar em uma direção, obrigando o garoto a correr para acompanhá-la no passo veloz.
- Hãã... A senhora pode me dizer por que me chamaram aqui? – perguntou enquanto corria.
- Você está vendo como estão as coisas por aqui. – apontou a Enfermeira-chefe. – Eu realmente não tenho tempo para fazê-lo comer, e ele precisa para se recuperar. Além disso, talvez você consiga fazê-lo falar alguma coisa... – Allen abriu a boca para perguntar, mas ela parou de súbito, puxando uma cortina. – Pode ficar à vontade, e boa sorte.
E deixou Allen sozinho em frente à cama onde um corpo se encolhia como uma bola sob o tecido branco da sua capa de Innocence.
- Ah... – Allen sentiu claramente uma gota de suor escorrendo pela nuca enquanto a cortina de privacidade do leito se fechava atrás dele.
Ao lado da cama, sobre o criado-mudo, havia uma bandeja intocada. O exorcista suspirou em tom conformado, se aproximando da cama e sentando-se na beira do colchão.
- Você não está dormindo, está? – perguntou antes de tudo.
Alguns segundos de silêncio. Nenhuma resposta. Allen sentiu uma veia pulsar na têmpora e estendeu a mão.
- Crown...
Na metade do chamado, a criança descobriu a cabeça para espiar. Ele inclinou-se a fim de encará-lo com um sorriso vitorioso.
- Hora de comer. – avisou. O garoto escondeu a cabeça de novo. – Ei, qual é... Você não pode simplesmente ficar sem comer. – a capa se repuxou mais um pouco. – Ei... – Allen segurou a capa, puxando no sentido contrário, mas encontrando resistência. – Mas que... – ele levantou-se, apoiando um pé na cama. – Solta...!
Seguindo as leis de Newton, o exorcista acabou estatelado no chão coberto pela própria capa. Allen soltou um gemido de dor impaciente e afastou-a do rosto, sentando-se com uma expressão irritada.
- Muito engraçado... – avisou por entre os dentes.
O garoto, no entanto, apenas ajeitou-se na cama e o encarou com os olhos muito verdes. Ele estava coberto de curativos, rosto, pescoço e mãos. Continuava pálido e com olheiras escuras sob os olhos. Foi justamente seu olhar que fez a raiva de Allen evaporar.
Porque sua expressão não parecia dizer absolutamente nada.
- Você não está com fome? – perguntou o exorcista, se aproximando de novo e se abaixando para que ficassem os dois no mesmo nível. A criança acenou que não com a cabeça. – Não? Não está mesmo? – de novo, o garoto negou resolutamente enquanto Allen sentava ao seu lado e apanhava a bandeja. – Olha lá, hein? A comida do Jeryy é muito boa. Muito, muito, muito boa mesmo. – os olhos do garoto o miraram e ele sorriu, tirando a tampa da bandeja. – Não vai nem querer provar?
A criança encarou o prato de omelete, mas continuou em silêncio. Allen prosseguiu:
- Jeryy pode cozinhar qualquer coisa que você pedir. – ele contou. – É sério, eu estou tentando encontrar algo que ele não consiga fazer desde que cheguei aqui. – acrescentou rindo. – E ele também consegue fazer tudo muito rápido. Por isso, você não devia deixar esfriar, certo? – completou empurrando a bandeja para o outro.
O garoto ainda encarou longamente o prato antes de, devagar, apanhar o garfo e provar um pouco da omelete. Allen sorriu satisfeito e perguntou quando ele pousou o talher:
- Você pode me dizer como se chama? – o garoto franziu a testa para ele. – O meu nome é Allen. Allen Walker.
A criança inclinou um pouco a cabeça para o lado e o exorcista teve a impressão de que ele examinava uma charada. Então, sua boca se abriu.
- Aa... len...? – ele repetiu num tom ligeiramente confuso.
A voz era rouca e fraca, como se não houvesse sido utilizada em muito tempo, e assustou Allen um pouco. Mas ele forçou um sorriso e repetiu:
- Al-len. – pronunciando bem as sílabas para ele. – Allen Walker.
- Allen. – a criança fez eco obedientemente, arrancando-lhe um sorriso mais honesto.
- Isso mesmo. – ele aprovou. – Esse é o meu nome. Qual é o seu?
- Nome... – repetiu o garoto, franzindo a testa de leve. E então, com mais decisão: - Spiegel.
Allen o encarou.
- Spiegel? – repetiu, meio desconcertado. Ele acenou com a cabeça, confirmando:
- Spiegel.
Deve-se dizer que o nome soou estranho na mente do exorcista. Não era "espelho" em alemão? Mas foi um avanço, então ele sorriu para a criança e falou:
- É um prazer conhecê-lo, Spiegel.
Spiegel baixou os olhos, sem responder, para os próprios pés. Allen empurrou a bandeja.
- Quer mais omelete? – ele apanhou o garfo e levou outro pedaço à boca. – Sabe dizer qual a sua idade, Spiegel?
O garoto o encarou sem entender.
- Idade...? – repetiu, como se não soubesse o que a palavra significava. Allen se perguntou se inglês era sua língua nativa.
- Sim. – confirmou. – Quantos anos você tem?
Compreensão surgiu nos olhos do garoto e ele mirou as mãos, dando a impressão de que contava nos dedos. Por fim, falou quase vitorioso, voltando a encará-lo:
- Onze anos. Quatro meses.
Onze anos! Allen não sonhava que ele tivesse onze anos; mal conseguira se convencer de que tinha dez. Se bem que... Ele mesmo não fora a mais alta ou forte das crianças, principalmente antes de encontrar Mana. Talvez ele e Spiegel fossem mais parecidos do que ele imaginava em certos aspectos.
- Onze? É mesmo? – Spiegel fez que sim com a cabeça e, ainda o encarando, juntou palavras para perguntar:
- Quantos anos... Allen... Tem?
- Eu? – fez Allen, pego de surpresa. – Eu tenho quinze anos... Se bem que vou fazer dezesseis no Natal. – lembrou.
- Ah. – fez Spiegel, em sinal de entendimento. Ele olhou para a omelete quase inteira e Allen avaliou com desaprovação sua relutância em apanhar o garfo.
- Sabe, se você não comer, não vai ficar bom logo. – ele avisou, fazendo o garoto moreno encará-lo de novo. – E, além disso, você precisa se alimentar bem para crescer.
Spiegel fechou a cara para esse comentário, o rosto pálido colorindo-se ligeiramente de vermelho, e balançou a cabeça. Allen achou graça.
- É verdade. – falou, recebendo outra negação. – Vamos, Spiegel... Não custa nada terminar a omelete.
O garoto pareceu erguer uma sobrancelha e então mostrou as mãos enroladas em ataduras, num sinal de que não conseguia segurar os talheres.
- Ah, é assim? – fez Allen ao entender a jogada. – Não tem problema, Spiegel, eu te ajudo. – apanhou o talher e ergueu um pedaço de omelete com um sorriso torto para ele. – Abra a boca, vamos.
Derrotado, o garoto deixou que ele lhe desse a comida, mas, enquanto mastigava, prestou atenção em outra coisa. Ele segurou a luva que cobriu a mão esquerda de Allen antes que ele pudesse apanhar outra porção e lhe franziu a testa. Allen sorriu sem graça.
- Você quer ver isso? – perguntou, e Spiegel fez que sim com a cabeça. – Tudo bem.
Os olhos verdes do garoto observaram-no pousar o garfo e desabotoar a luva, revelando a mão enegrecida com unhas afiadas e a marca da cruz. Allen imitou-o em mirar o membro ao perceber que o garoto tivera a atenção captada pela imagem.
- Não é muito bonito, não é? – perguntou em voz baixa, vendo-o inclinar um pouco a cabeça. – É uma arma contra os akuma. – Spiegel olhou-o sem entender. – Os monstros que você viu ontem. – o olhar do garoto escureceu. – Eles são derrotados por isso. Por Innocence.
Spiegel baixou de novo os olhos para a mão dele e repetiu com alguma dificuldade:
- Inno... cence...?
- Isso. – confirmou Allen. Ele já ia recolocar a luva quando outra coisa aconteceu.
Muito devagar, o garoto estendeu as mãos para tocar sua palma. O exorcista ficou tão surpreso que mal pôde reagir, e Spiegel virou e revirou seu pulso para examinar a arma. Os dedos dele eram gelados em qualquer parte que não fosse coberta por bandagens e Allen observou-o em silêncio seguir as linhas da cruz e tocar as pontas das unhas longas. Uma curiosidade tão simples e honesta... Ninguém nunca havia mostrado antes, e por isso ele não soube o que pensar.
Quando se deu por satisfeito, Spiegel envolveu sua mão com a própria, e o olhou como se esperando uma resposta. Allen não conseguiu pensar em nenhuma, além de devolver o aperto de mão.
E Spiegel ergueu os cantos dos lábios no primeiro sorriso até então antes de falar com sua voz inconstante:
- Prazer... Em conhecer você... Allen.
E o exorcista sorriu de volta diante do sentimento estranho que aquilo provocava.
