Capítulo 1
O corpo de Remus Lupin resolveu desobedecê-lo, deixando-o completamente congelado onde estava. Ele abriu e fechou a boca diversas vezes com um certo assombro, até finalmente conseguir dizer, "C-como assim, eu fico?"
O outro sorriu de canto. "Eu acho que fui bastante claro," disse, como se achasse graça na situação. O que provavelmente é verdade. "Você está terminantemente proibido de deixar esse quarto de hotel sem a minha presença, blá, blá, blá. E não me irrite."
Lupin se deixou cair na cama ao lado, fixando seus olhos no chão acarpetado do cômodo. "O que você quer de mim? Dinheiro? Quer comunicar alguém da minha família e pedir por um resgate?", perguntou, o desespero claramente estampado no som de sua voz.
Sirius riu com gosto. "Preste atenção no hotel onde estou hospedado. Você realmente acha que a mísera quantia do seu resgate me faria alguma diferença?"
Remus continuou fitando o carpete. De fato, o criminoso estava certo. Era realmente um hotel de alto luxo, com suas suítes espaçosas e decoração sofisticada. Sentiu-se amedrontado. "O que, então?"
"Bem, eu simplesmente preciso de cuidados médicos com certa frequência. Entenda, meu 'emprego' apresenta diversos riscos. E é um porre chamar uma tonelada de médicos diferentes, pode aumentar o número de denúncias contra a minha humilde pessoa. Além de que eu estou com uma tosse importunante, está estragando a minha imagem."
"Por que eu?"
"Oras, e eu vou saber? Eu pedi um médico jovem. Você veio, e acabei tendo essa idéia," falou, se sentando na beira da cama para cuidadosamente vestir suas calças. Remus percebeu pela primeira vez a enorme quantidade de cicatrizes na pele do outro. Pensou em pegar o revólver que agora estava no criado-mudo, mas decidiu que seria demasiadamente arriscado.
"Por quanto tempo você vai me manter preso?"
"Ainda não sei," Black respondeu, se ajeitando na cama e ligando a grande televisão no aparador à sua frente, freneticamente mudando de canais pelo controle remoto. Pegou a arma de cima do criado-mudo com sua mão livre, mas não apontou-a na direção do médico.
Lupin desejou ser acordado por alguém naquele momento para descobrir que nada daquilo estava acontecendo. Ou então voltar ao passado e impedir a si mesmo de atender o telefonema que o trouxera ao hotel. Com certa insegurança, perguntou, "Você quer que eu lhe examine? Por causa da tosse, quero dizer."
"Eu estou vendo tv," o outro respondeu, sem desgrudar os olhos da tela, onde um noticiário era televisionado. "Sinta-se livre para fazer qualquer coisa que não me incomode."
Remus hesitou por um momento antes de tirar os sapatos e deitar-se na cama onde estava, de costas para o seu sequestrador. Apesar do desespero, o sono acabou atingindo-o em poucos minutos.
Acordou com um forte empurrão em seu ombro. "Hey. Doutor. Nós vamos embora agora, ok? Doutor?"
Lupin se levantou lentamente, esfregando os olhos. Sirius o fitava com as sobrancelhas franzidas. "Para onde vamos?"
"Ora, para onde vamos! Minha casa!" Ele respondeu. "Minhas malas já estão sendo levadas..." Parou de falar por um momento, olhando para o outro com uma expressão engraçada. "Qual seu nome, mesmo?"
"Lupin."
Black revirou os olhos. "Eu sei disso. Estou falando do seu nome, nome."
"Ah. Remus," respondeu, abaixando-se para calçar os sapatos que estavam jogados no chão.
"Hm. E você tem um irmão chamado Romulus?"
"... essa é uma pergunta idiota."
"Bom, você tem? Não consigo dizer pelo seu tom de voz se é óbvio que sim ou que não," Sirius disse, sorrindo.
"Não," foi a resposta um tanto irritada de Remus.
"Ah, hm, ok. Menino-lobo, nós realmente precisamos ir, meu motorista está esperando na rua. Já fiz o check-out e tudo o mais."
Lupin se levantou e andou em direção à porta, assustando-se levemente quando sentiu um braço se apoiando em seus ombros. Tentou ignorá-lo ao máximo, juntamente com a pressão que o revólver gelado fazia em seu quadril. Ambos desceram as escadas, passando pela recepção até chegarem na saída. Somente então o médico percebeu que já anoitecera.
"O carro é aquele ali," Sirius disse, apontando para um automóvel preto, empoeirado e, muito provavelmente, caro; Remus não entendia de carros, portanto era difícil saber com certeza.
Eles atravessaram a rua e logo entraram no carro pela porta de trás. O médico fitou o motorista por alguns segundos. Era um homem loiro e obeso, e tinha as bochechas rosadas como se estivesse embriagado.
"E aí, Peter, meu chapa? Como vão os negócios?" Sirius quebrou o silêncio, rindo.
"Vão bem, vão bem... Er, quem é esse?"
Black pareceu chocado por um momento, e então sorriu. "Oras, devo estar ficando louco! Nem fiz as apresentações. Petter Pettigrew, Remus Lupin. Remus Lupin, Peter Pettigrew," disse, parando por um momento para dar um tapinha amigável no ombro de Lupin. "Ele é o meu médico."
Remus fixou o olhar na janela ao seu lado, envergonhado demais para olhar os outros dois homens em sua companhia no veículo.
