Evelyn ficou ali, parada.
Por que diabos ela hesitava tanto? Não era isso que ela queria? Conversar com a proprietária daquela casa. Eileen Prince...OU melhor, Eileen Snape...que já tinha morrido, o que, provavelmente tornava o mal humorado homem à porta o atual proprietário. Essa era a razão pela qual Evelyn tinha decidido se mudar para a Rua da Fiação, não?
Quando chegou naquela manhã, depois de passar a noite num hotel na parte mais movimentada de Cokeworth, Evelyn teve a vívida impressão de estar entrando numa cidade fantasma. "Não é assim que a maioria dos filmes de terro começa?" Ela se perguntava, enquanto olhava as casas decrépitas que se sucediam pela janela do seu carro. Pelo pouco que ela tinha pesquisado, Evelyn sabia que toda aquela vizinhança tinha sido construída para as famílias dos empregados da fábrica. A própria fábrica se elevava sinistramente sobre as ruas e becos imundos e escuros, sua grande chaminé apontando para um céu outonoal cor de aço. Estava fechada desde os anos 80, mas permaneceu ali, de pé, como um fóssil, o esqueleto de um monstro outrora vivo, mas agora morto e abandonado.
De fato, toda a Rua da Fiação parecia morta. A maioria dos habitantes daquela parte da cidade tinha se mudado depois do fechamento da fábrica. Pelos jornals que Evelyn lera na biblioteca local, o êxodo tinha começado muito antes disso. Aparentemente a fábrica oferecia condições de trabalho insalubres, e o maquinário causava acidentes constantes, e muitos empregados tinham sofrido ferimentos graves. Mais ainda, o lixo se empilhava nos campos ao redor e muito dele ia parar no rio, severamente poluindo suas águas. Quando as autoridades competentes finalmente fecharam a fábrica, quase metade dos residentes das cercanias já tinha ido embora, e restante não demorou a fazer o mesmo.
Era provável que Eileen Prince não morasse mais lá
Em retrospecto, vir para a Rua da Fiação provavelmente tinha sido uma idéia estúpida desde o princípio. Tudo o que Evelyn sabia era que seu avô tinha uma casa na cidade de Cokeworth, localizada numa rua chamada "rua da Fiação". Ninguém sabia disso até o dia em que seu pai morreu, deixando para trás algumas caixas cheias de livros e papéis, escondidas no sótão desde a morte de seu avô.
Era tudo muito estranho.
Evelyn estava morando em Dublin quando seu avô morreu. Ela vinha pensando em voltar para Doolin, sua cidade natal, e a morte dele apenas apressou a decisão. Depois do enterro, sua avó dera a seu pai vários objetos velhos e caixas cheias de coisas peculiares que o avô mantinha trancados num quarto vazio. Evelyn tever que se esforçar muito para convencer o pai a não jogar tudo for a. Em vez disso, ele tinha trancado tudo no sótão e nunca a deixou ver nada (nem Evelyn, nem mais ninguém, aliás). As caixas ficaram lá, abandonadas e juntando poeira por dois anos, até que seu pai, por sua vez, também falecesse. Só então Evelyn descobriu o que havia dentro delas.
Entre as muitas coisas bizarras que Evelyn encontrou ali, estava a escritura da casa na Rua da Fiação. Até onde ela sabia, seu avô tinha deixado a Inglaterra quando ainda era adolescente, e tinha vivido da Irlanda até sua morte. Ele não tinha parentes ou amigos na Inglaterra. Tudo o que ela sabia era que ele tinha nascido em Londres. Que ele pussuíse uma numa cidade no norte da Inglaterra era uma completa surpresa para ela e para o resto da família. Bem, talvez ela não devesse ter ficado assim tão surpresa...Havia muitas coisas sobre o seu avô que ninguém sabia, nem mesmo sua avó. Ainda assim, a casa na Rua da Fiação tinha lhe intrigado.
Se mudar para a recém-descoberta casa de seu avô não fora um plano muito bem pensado. Mas ela só percebeu que tinha sido uma má idéia ao ver a Rua da Fiação pela primeira vez. Evelyn tinha enviado seus os livros e pertences de Doolin, arranjando para que fossem entregues na manhã de sua chegada in Cokeworth. O dia anterior ela tinha dedicado a pesquisar a história da cidade, mas nada poderia tê-la preparado para a Rua da Fiação. Quando parou o carro na frente de seu novo lar, Evelyn teve que checar a escritura novamente para ver se estava no endereço certo.
Era uma casa quase no fim da rua..Só havia mais uma casa entre ela e a floresta (a casa de Eileen Prince, precisamente). Era exatamente como se esperaria que uma casa abandonada por décadas fosse: pichações ofensivas e uma grossa camada de imundície e poeira cobriam as paredes, a tal ponto que era impossível dizer qual era a cor delas; muitas janelas estavam quebradas e as poucas que permaneciam intactas estavam tão sujas que os vidros tinham ficado opacos; faltavam muitas telhas no telhado. O fedor que vinha do rio próximo era quase insuportável, e a quantidade de lixo jogada pela rua fez com que ela percebesse que uma infestação de ratos era uma possibilidade bastante real.
Ainda assim, ela tomou fôlego e entrou.
Para a sua surpresa, toda a mobília original ainda estava lá dentro...Por alguma razão os vândalos que assolavam as áreas vizinhas não tinham causado danos no interior da casa. Objetos mais delicados como espelhos e vasos estavam quebrados, mas cadeiras, poltronas, mesas, cabinetes, pinturas, tapetes, livros...todos estavam lá, ainda que cobertos de poeira. Mas a parte mas desconcertante não era que os objetos estivesse ali...eram os próprios objetos. A rua da Fiação era uma vizinhança pobre onde moravam os trabalhadores da fábrica, mas, ainda assim, aquela casa em particular tinha mobília de alta qualidade e decorações em estilo Art-Nouveau. Parecia que, quem quer que tivesse decorado a casa, tinha tentado, propositadamente, esconder todo aquele luxo por trás de uma fachada de pobreza.
Evelyn agradeceu aos céus por ter tido a previdência de manda checar as instalações elétricas e o encanamento. A rua da Fiação não estava completamente abandonada, então ainda recebia eletricidade e água...ela deveria, ao menos, ver se tudo estava funcionando antes de se mudar. A fiação e instalações elétricas datavam dos anos 20, o que significava que foi umas das primeiras casas na região a ter luz elétrica. O eletricista e o encanador que ela tinha chamado ficaram pasmos que tudo ainda funcionasse.
Depois de mandar trazer seus pertences para dentro, ela decidiu explorar. Todos os quartos estavam trancados. No meio dos misteriosos objetos do avô, Evelyn tinha encontrado muitas chaves, e não ficou muito supresa de ver que cada uma delas parecia ser a chave de uma das portas da casa...
Ainda que a casa seguisse o padrão simplista das demais casas da rua, como uma sala, uma cozinha, dois quartos e um banheiro, todos em proporções minúsculas, cada cômodo estava tão ricamente decorado quanto a sala. Descontando a poeira, nenhum deles parecia ter sido tocado. Provavelmente porque estavam trancados por todos esses anos. Parecia que os ocupantes da casa tinham saído para um passeio no parque e nunca mais voltado, deixando tudo para trás do jeito que estava.
Roupas e objetos pessoais ainda estavam lá, organizados e guradados em seus lugares apropriados, como se esperassem a volta de seus donos. No meio de coisas banais como sapatos e livros, havia numerosos objetos que ela não conseguia identificar...Não dava nem para começar a imaginar que utilidade eles teriam
O mais perturbador, no entanto, era a alarmante ausência de ratos, baratas ou qualquer outro tipo de peste. Como uma casa abandonada por mais de 70 anos não tinha um único rato? Ela abriu os armários, os gabinetes, tinha olhado as roupas, os livros, virado os colchões...e nada. Nem um único inseto, um rato, nem sinal de cupins ou traças. Nem mesmo uma mais surpreendente, ela não encontrou nem traço de mofo, infiltrações, rachaduras nas paredes...nem mesmo rasgos no papel de parede.
Era tudo muito bizarro.
A curiosidade tinha sempre sido um de seus traços mais proeminentes. Seu avô e seu pai frequentemente elogiavam sua natureza inquisitiva, e lhe davam total liberdade para exercitá-la. Eles alimentavam sua curiosidade com livros, filmes, contos de fadas, qualquer coisa que pudesse servir como combustível para o seu intelecto e imaginação. Na infância, ela recordava, seu passatempo favorito era explorar as ruínas celticas e medievais espalhadas pelos campos ao redor de sua cidade natal, na companhia de seu irmão mais velho, Paul. Sua mãe não era uma grande entusiasta dessas aventuras ao ar livre, mas seu pai e avô tinham orgulho de suas explorações. Desde muito cedo parecia óbvio que ela seguiria os passos do pai e se tornaria uma historiadora. Na verdade, Evelyn tinha ido até mais longe. Enquanto seu pai era um professor de história numa pequena escola católica, em uma pequena vila no campo, Evelyn era uma professora universitária, e uma acadêmica de sucesso, a julgar por seus livros publicados. Sua natureza inquisitiva a tinha levado longe, e ela tinha orgulho disso.
Mas naquele dia, enquanto andava pelos cômodos da estranha case que seu avô tinha-lhe deixado, ela começou a pensar que, talvez pela primeira vez em sua vida, ser tão curiosa não era algo tão bom assim. Seu maior defeito, no entanto, não era a curiosidade...Era a teimosia. O que significava que ela terminaria o que tinha começado. Evelyn tinha se mudado para a casa do avô, então agora ela tinha que encontrar Eileen Prince
A casa de Eileen Prince era bem ao lado, e tudo o que Evelyn tinha que fazer era ir até lá e bater na porta. Era muito simples. E ainda assim, de pé na frente da porta, ela se sentiu desanimada...O que ela sabia sobre Eileen Prince? Apenas seu nome e data de nascimento...E se ela não morasse mais lá? O que fazer, então? Retornar à papelada de seu avô e reler tudo, procurar mais pistas naquela casa indecifrável? Tentar dar sentido à tudo parecia algo que Evelyn não podia fazer sozinha...Eileen Prince, quem quer que ela fosse, era provavelmente a única pessoa que poderia ajudá-la. O que Evelyn faria se ela não estivesse lá? Ela bateu na porta e, como temia, ninguém atendeu. Ela continuous a bater...uma, duas, três...seis vezes...Como se fosse adiantar...
E justo quando ela estava para desistir, amaldiçoando o dia em que tivera a brilhante ideia de começar aquela investigação ridícula, a porta se abriu e seu coração literalmente pulou uma batida. Obviamente não foi Eileen Prince quem atendeu a porta, mas um homem alto, de nariz adunco, e pele pálida e amarelada, vestido de preto dos pés à cabeça. Por um momento ela imaginou se ele já estaria vestido para o Halloween, ainda que estivessem apenas na primeira semana de Outubro. Aliviada por encontrar alguém com quem pudesse falar, ela tentou iniciar uma conversa, mas ele não parecia interessado. Mas não interessava o quão rude ele era, Evelyn tinha que conseguir as informações que queria. Tentando permancer calma, apesar das respostas mal-criadas, ela insistiu, não dando importância à resistência dele. Afinal de contas, ela não tinha vindo da Irlanda só para que um grosseirão qualquer atrapalhasse seus planos. Depois de um pequeno cabo-de-guerra verbal, ela finalmente conseguiu fazer a pergunta que queria:
"Eu só estou procurando uma pessoa" ela disse, no tom mais polido que conseguiu, considerando sua crescente exasperação "Eileen...Prince. Ela mora aqui?"
Evelyn nunca tinha visto a expressão de um homem mudar tão rapidamente. O sorrisinho debochado desapareceu dos lábios dele, e seus olhos escuros e agressivos tornaram-se confusos e melancólicos em um segundo.
"Snape" ele disse num tom quase gentil
"Me desculpe?"
"Eileen Snape...Prince era o nome de solteira..." sua voz tinha-se enchido de um inequívoco tom de tristeza.
"Ah, então é aqui que ela mora?" ela perguntou sem nem pensar, só para que ele continuasse falando.
"Não mora mais..." a voz grave ficava mais sombria com cada palavra. Aquele tom quieto e calmo fez com que, só então, ela percebesse que ele tinha uma bela voz de barítono.
"Entendo...se mudou, então?
"Ela morreu...faz mais de vinte anos, na verdade" A última frase era pouco mais que um sussurro.
Evelyn olhou para o rosto daquele homem. Sua expressão condescendente tinha desaparecido completamente deixando para trpás apenas um rosto melancólico. Os olhos negros pareciam olhar através dela. Tendo perdido seu irmão muito cedo, e o pai e o avô recentemente, Evelyn conhecia aquele olhar perdido. Era óbvio que esse homem era muito próximo de Eileen...Ele era jovem demais para ser marido ou irmão dela...talvez fosse seu filho? Evelyn imediatamente se arrependeu de tê-lo importunado tanto.
"Eu lamento muito...Nesse caso, creio que...é melhor eu ir andando..."
Mas assim que ela se virou, a voz resonante dele chegou aos seus ouvidos, e não havia mais desprezo em seu tom. Apenas uma seriedade pristina.
"Espere um momento, senhorita...como disse que era o seu nome?"
"Black. Evelyn Black." ela relaxou, sentindo, pela primeira vez, que poderia ter uma conversa normal com ele. "Senhor...Snape, eu suponho?"
"Severo Snape..." Ele abriu a posta genticulando para que ela entrasse.
Evelyn ficou ali, parada.
Não era isso que ela queria? Eileen Prince estava morta, mas esse homem...Severo Snape...Severo Snape estava bem ali na sua frente, convidando-a a entrar.
Evelyn ainda não estava certa, mas Severo Snape poderia ser aquele por quem ela estava procurando...A pessoa que a ajudaria a descobrir os segredos de seu avô
Então, ela entrou.
