Esclarecimentos:
Como sabem Sailor Moon não me pertence, pertence sim a Naoko Takeuchi.
E esta linda história também não me pertence, pertence a Tuca Hassermann.
Espero que gostem de a ler como eu gostei. Quero simplesmente a da-la a conhecer mas com os nomes dos meus personagens favoritos.
O Príncepe e a Plebéia
Enjoi.
CAPÍTULO 1
O palácio do sheik Ártemis Faraj recendia a ervas aromáticas. Aquele era o dia do casamento de seu filho mais velho, Mamoru, seu sucessor ao governo de Nakabir. Toda a ilha estava em festa para celebrar a união — acertada desde o nascimento das crianças — do príncipe Mamoru com a belíssima Beryl, filha de Umigo, o melhor amigo do sheik.
Havia três dias Beryl vinha sendo preparada no harém, segundo a tradição. Todos os cuidados com a pele, os cabelos, as unhas vinham sendo tomados. Sua beleza e sensualidade naturais estariam ainda mais evidentes, para agradar seu futuro marido.
Naquela noite, Beryl iria se tomar mulher; e uma princesa. Se tivesse sorte, engravidaria durante a lua-de-mel, dando início a sua família com Mamoru.
A vida não poderia ser mais maravilhosa para Beryl. Nenhuma jovem sobre a face da terra podia estar mais feliz do que ela. Desde menina sempre foi muito respeitada por ser a prometida do príncipe Mamoru, o sucessor do soberano. Todas as amigas a invejavam, mas se continham perante seu poder. Afinal, um dia ela seria rainha.
Seu pai, Umigo, era um homem muito rico. O sheik Ártemis costumava recompensar com generosidade os que colaboravam com ele, desde um simples carregador de água até o grão-vizir. Contudo, nenhuma fortuna, em toda a região, poderia se equiparar à do sheik.
Riqueza, formosura, respeito e um marido poderosíssimo para protegê-la. O que mais Beryl poderia pedir aos céus?
Fitou-se no espelho. Seus cabelos vermelho fogo cintilavam quase tanto quanto seus olhos. Naquela noite, no leito de seu marido, poria em prática tudo o que aprendera desde os doze anos com as mulheres do harém. Em sua cultura, o sexo era um ato sagrado, a ser realizado apenas entre marido e mulher. No entanto, era dever de ambos dar o máximo de prazer um ao outro. Por isso, desde cedo as meninas eram iniciadas na arte da sedução. Elas aprendiam centenas de maneiras diferentes de como utilizar seus corpos para agradar, para levar um homem à loucura. E Beryl sempre recebera elogios por sua desenvoltura, aplicação e interesse por todas as técnicas. Poder-se-ia dizer que se tratava de uma virtuose.
E agora, finalmente, iria dar vazão a todo aquele fogo que a consumia por dentro. Sua feminilidade atingira o ponto máximo. Seu corpo e sua alma estavam mais do que prontos para aquele casamento.
O príncipe Mamoru entrou nos aposentos do sheik. Não saberia dizer o que fazia ali, mas experimentava um peso no coração. Uma sensação de que algo estava muito errado o acompanhava desde cedo, naquela manhã.
Não compreendia a si mesmo. Durante anos aguardara pelo momento em que, enfim, desposaria Beryl. Ela era lindíssima, e seu poder de sedução era tal que ninguém ficava imune a seus encantos. Assim que entrava em um ambiente, todos os rostos se voltavam para ela.
Tudo conspirava a seu favor. Todas as bênçãos do deus de seu povo foram derramadas sobre sua cabeça desde que viera ao mundo. Fora agraciado pela formosura, pela valentia, por pais amorosos.
Sua mãe era inglesa, e trouxera para Nakabir, após se tomar rainha, tudo de melhor que sua cultura possuía. Graças à convivência com ela, o sheik se tomara mais acolhedor, tolerante e sorridente. O amor que Ártemis dedicava à rainha Luna era tamanho que ele mandara construir um imenso oásis no deserto, apenas para desfrutar de românticos momentos a sós com sua adorada.
Os trinta e cinco anos de seu casamento produziram seis filhos, cinco rapazes e uma moça: Mamoru, Hassin, Miled, Fariso e Sardok, e a princesa Maata, a caçula. Os príncipes eram todos morenos como o pai, e seus olhos , azul profundo.
Maata, porém, se tomara de uma beleza incomum. Tinha pele clara, cabelos muito loiros e olhos negros. Era o grande amor de todos no palácio, a luz que iluminava cada um com sua alegria contagiante. Seu único defeito era ter nascido independente demais para aquele mundo em que os homens davam as ordens e as mulheres obedeciam.
Maata jamais se conformou com isso. Não costumava entrar em conflito com os irmãos ou o pai. Sorria com a imensa doçura que sempre os desarmava, mas fazia exatamente o que queria. E ninguém tinha coragem de admoestá-la quando ela olhava no fundo dos olhos e dizia:
— Eu não falei que ia obedecê-lo. Portanto, não menti. Por que está tão bravo?
E lá vinha aquele sorriso maravilhoso, e a pessoa já não lembrava mais o motivo de sua zanga.
De repente um arrepio subiu pela coluna de Mamoru.
— Papai?
Sem obter resposta, ele se dirigiu ao dormitório do aposento real. Então, avistou uma folha de papel cor-de-rosa sobre a cama, encimada por um pequeno arranjo de flores.
Outro arrepio.
Leu sem demora:
Paizinho amado,
Quando você estiver lendo esta carta, eu me encontrarei bem longe daqui. Não quero que você, mamãe ou meus irmãos se aflijam. Sei o que estou fazendo. Aproveitei justamente este dia em que todos estarão ocupados com os últimos preparativos do casamento de Mamoru para fugir. Caso contrário, dificilmente eu teria outra chance.
Sei que vocês todos querem o melhor para mim. Como poderia ser diferente, se tanto me amam? Porém, não pretendo, de forma alguma, desperdiçar todo o meu talento artístico num país que não dá crédito algum às mulheres. Estudei tanto, papai! E me tornei uma desenhista de jóias de primeira linha. Superei até meus mestres, que nunca esconderam uma ponta de inveja por aquilo que eles — e eu! — consideram um dom.
Pretendo ganhar o mundo. Quero ser reconhecida por meu trabalho. Irei para o Ocidente, e lá serei famosa por meus próprios méritos. Jamais me conformarei em ser a esposa perfeita de um homem que talvez eu nem ame, só porque o destino assim o quis. Meu destino eu mesma farei.
Amo demais toda a minha família. Nunca duvidem, nem por um segundo, que eu morreria por vocês. Mas creio que minha porção inglesa — que herdei de mamãe — é forte demais para ser ignorada.
Por favor, dê-me suas bênçãos, papai. E fique tranquilo, eu saberei me cuidar.
Diga a mamãe que não chore. Assim que possível, entrarei em contacto, dando notícias.
Só uma coisa: não mande ninguém atrás de mim. Se eu tiver de voltar à força, não hesitarei em levar o caso às autoridades do país onde eu estiver. Não se esqueça de que, assim como meus irmãos, tenho nacionalidade inglesa. Desse modo, fora de Nakabir, vocês não mandam em mim, visto que sou maior de idade.
Até breve.
Com todo meu amor,
Maata
Mamoru releu a carta várias vezes, para ter certeza de que não entendeu errado e de que aquilo não era um pesadelo.
Como podia ser?
— Ela não pode ter ido longe… Ou pode? Quando foi a última vez que a vi?
Então Mamoru se deu conta de que não via Maata havia dois dias. Os preparativos para o casamento também consumiam muitas horas do noivo, entre orações, banhos e conversas com os mais velhos. Portanto, sua irmãzinha, àquela altura, já poderia ter deixado o país.
O príncipe decidiu não se entregar ao desespero. Era um homem prático e acostumado ao comando. Assim, respirou fundo e mandou que Motoki, seu serviçal mais antigo, convocasse uma reunião urgente com seus irmãos e o pai.
— Leve-os sem demora para a sala dourada, Motoki, a mais distante da área do harém, pois não quero que minha mãe saiba de nada, por enquanto. Em quinze minutos estarei lá.
— Sim, Alteza — e Motoki se foi, apressado.
Ártemis empalideceu e levou a mão ao peito.
— Como Maata pôde fazer isso comigo?
— Papai, acalme-se. Nós a traremos de volta.
— Não entende, Miled? Maata é uma princesa real, que esteve cercada de todos os mimos e de toda a proteção desde que nasceu. Ela não sabe tomar conta de si!
— Nenhuma mulher sabe.
— Nossa mãe sempre soube.
— Não me irrite, Hassin! Nossa mãe é inglesa. As ocidentais são diferentes. Elas desprezam os homens.
— Sardok, o que diz é um disparate!
— Não é! As mulheres têm de ser dirigidas. Quando não são, só fazem bobagens!
— Como pode dizer algo assim? Se nossa mãe ouvir o que você fala é bem capaz de lhe dar umas boas palmadas!
— Parem de discutir! — o sheik bateu com força no tampo da mesa. — Não me importo nem um pouco com a opinião de vocês! Quero minha menina aqui, junto de mim, e agora! Isso é uma ordem!
Todos se calaram e baixaram a cabeça, submissos.
Foi Fariso quem quebrou o silêncio:
— Ela não pode ter ido muito longe. Motoki verificou em seu quarto e encontrou muito dinheiro em seu cofre particular.
— Maata é tão rica quanto vocês. Sua fortuna fica depositada no banco; o dinheiro no cofre é apenas para despesas imediatas. Além disso, eu lhe dei todo o ouro e as pedras preciosas que me pediu, para fazer suas jóias. Minha filha pode viajar ao redor do mundo várias vezes, se assim o quiser — o sheik, inconformado, encarou o filho mais velho. — Mamoru, prepare-se. Você irá agora mesmo atrás de Maata. Leve consigo tudo e todos de que necessitar.
O príncipe ia dizer algo, mas o sheik o impediu:
— O casamento será adiado. Beryl ficará no harém até que você retome. E não volte sem minha filha!
Os príncipes fizeram uma reverência ao sheik para se retirar da sala dourada quando as portas se abriram e a rainha entrou.
Luna continuava esplendorosa aos cinquenta e cinco anos e depois de ter tido seis filhos. Era uma mulher de média estatura, corpo curvilíneo, longa cabeleira cor de areia e olhos azul-turquesa. Assim que olhou para eles, tantos anos atrás, o sheik Ártemis foi tomado de uma paixão tão fulminante que não descansou enquanto não conquistou o indómito coração de Luna. O que se mostrou uma tarefa árdua, visto que ela era dotada de muita personalidade e talento para a política.
Na ocasião em que se conheceram, Luna cursava comércio exterior na faculdade, e pretendia seguir carreira diplomática. Ártemis a cobriu de presentes caríssimos, achando que assim ela enxergaria logo quanta vantagem teria em se tomar amante dele. Sim, porque nem de longe ocorria ao sheik desposar uma plebéia — e além do mais, estrangeira.
Luna devolveu de imediato todas as jóias e raridades que vieram das mãos do sheik, com um sonoro "Digam-lhe para me deixar em paz!". Quando se deu conta de que não queria mais mulher nenhuma no mundo além dela, Ártemis capitulou. E, usando de muita astúcia e um elaboradíssimo estratagema, conseguiu se aproximar de Luna, que não resistiu ao charme devastador do sheik.
Mas o pedido de casamento só foi aceito quando Ártemis jurou que não haveria mais concubinas no harém. As mulheres que lá viviam ganharam o direito de optar: poderiam continuar no palácio como empregadas remuneradas, viver por conta própria com uma pensão vitalícia ou deixar que Ártemis lhes arrumasse marido.
Sem demora, a prática — embora não tivesse sido imposta aos súbitos — se tomou comum entre os cidadãos de Nakabir, e a monogamia passou a se tomar mais e mais aceita entre os homens.
— Mamãe! a que faz aqui? Não deveria ter vindo, esta reunião é só…
Luna se aproximou de Sardok e lhe fez um carinho na face.
— Fique quietinho, meu filho. Se nem seu pai me diz o que fazer, imagine se você teria esse poder.
Sardok enrubesceu.
Muito altiva, Luna se aproximou do sheik e o cumprimentou segundo o protocolo.
— Majestade, espero que não seja necessário que eu recorra a meios escusos para descobrir o que se passa neste salão.
— Querida, depois falaremos sobre isso.
— Se pretende ser indulgente comigo, Ártemis, terá de arcar com as consequências.
Era dificílimo para o sheik, mesmo agora, ouvir uma mulher se dirigir a ele daquela maneira. No entanto, aquela era a sua Luna. Ela não era apenas seu amor; era seu coração inteiro. Tinha adoração pelos filhos, mas sua rainha pulsava em suas veias. E aquele carácter de guerreira do deserto o encantava, mais do que o aborrecia.
Assim, suspirando, Ártemis indicou-lhe que se sentasse e a colocou a par de tudo.
Luna empalideceu um pouco, mas não se deixou abater.
— Que providências vocês tomaram?
— Mandei que Mamoru saísse à procura dela sem demora.
— E para onde ele irá?
— Devo começar a procurá-la no aeroporto, mamãe.
— Sei… Mas não faz dois dias que não vê sua irmã? Nesse caso, não lhe parece um tanto difícil encontrá-la ainda no aeroporto?
— Eu pretendia checar os vôos, para descobrir para onde Maata viajou.
— Algo que você poderia fazer com um simples telefonema.
— Ainda não tinha pensado direito, mamãe. Claro que ia encontrar uma ideia melhor.
— Alguma sugestão, minha adorada Luna?
A rainha segurou a mão do marido e a apertou, trocando com ele um olhar repleto de significados. Então, ficou de pé e começou a andar de um lado para o outro. Ártemis conhecia bem esse seu método; era dele que lhe vinha uma clareza de raciocínio em geral estupenda.
— Deve fazer também uns dois dias que não vejo minha filha. Com toda essa azáfama dos preparativos do matrimónio de Mamoru com Beryl, me mantive tão ocupada! Além do mais, Maata fica tanto tempo trancada em seu estúdio, trabalhando em suas peças, que não me importei com sua ausência.
A rainha tocou o anel de turmalina azul em seu dedo anular da mão direita. Aquela foi uma das primeiras jóias confeccionadas por Maata, que ela ofertou à mãe. O aro e a caixa que envolvia a pedra eram em ouro branco, num trabalho em filigrana delicadíssimo. A turmalina tinha catorze quilates, e a lapidação utilizada por Maata era tão moderna que espantara os tradicionais ourives conhecidos do sheik, que não entendiam de onde ela tirava aquelas ideias tão avançadas.
— Imagino que a nenhum de vocês tenha ocorrido verificar o computador dela.
Os irmãos se entreolharam, embaraçados.
— Como lhe falei, mamãe, assim que eu tivesse oportunidade de me acalmar, decerto seria a primeira providência que tomaria.
— Claro, Mamoru. Antes de sair em disparada para o aeroporto, não é?
Ártemis não conteve um sorriso. Adorava a ironia fina de sua rainha.
— Duvido que Maata tenha se decidido pela Inglaterra. Na verdade, creio que nenhum país da Europa seria seu escolhido.
— Ela fala vários idiomas. Pode viver onde quiser.
— Evidente, Myleidi. Mas minha intuição materna me diz que Maata daria preferência a um lugar de grande extensão territorial, o que tomaria mais difícil encontrá-la. Seu deslocamento seria fácil e não haveria necessidade de passaporte, como aconteceria se estivesse na Europa.
Todos assentiram.
— Vocês estão se afligindo à toa — Fariso fez um esgar. — Assim que Maata utilizar o cartão de crédito, descobriremos onde está.
Luna o encarou.
— Filho, foi justamente por querer fugir desse tipo de mentalidade retrógrada que sua irmã deixou Nakabir. Garanto que ela tomou todos os cuidados necessários para não deixar rastros; usar os cartões de crédito seria a última coisa que faria, portanto — a rainha tornou a andar. — Todos vocês sempre a trataram como um ser inferior, que gostava de se divertir com seus brinquedinhos caríssimos que ela mesma fazia. Maata é uma artista talentosíssima, e jamais teve o apoio do pai ou dos irmãos.
— Está sendo injusta, mamãe. Nós sempre elogiamos as peças dela.
— Sim. Com os sorrisos indulgentes que se lançam às crianças quando elas vêm nos mostrar as primeiras palavras que conseguem escrever. Não com a admiração que ela merecia. Eu me esforcei tanto para fazer meus filhos enxergar o absurdo dessa postura machista e ultrapassada… — Luna respirou fundo. — Falhei miseravelmente.
— Mamãe, entenda. Maata é nossa irmã. E caçula, ainda por cima. Não está pedindo demais que homens como nós, de nossa estirpe e cultura, olhem para ela e vejam mais que uma menina a ser protegida? Não nos peça o impossível.
— Não posso acreditar que ela tenha preferido enfrentar o mundo, com todos os riscos que ele oferece, a ficar aqui connosco, ao lado da família, que tanto a ama — Ártemis meneou a cabeça, desconsolado.
— Também me preocupo com a segurança dela. Maata nunca enfrentou dificuldades, jamais teve de lavar um copo sequer. Mas ela tem o direito de seguir o próprio caminho.
— Não tem, não, Luna! — o sheik ficou de pé, vermelho de indignação. — A obrigação dela é morar connosco e nos obedecer!
Luna e o marido ficaram se encarando, numa comunicação muda que os filhos haviam presenciado em diversas ocasiões. O resultado era sempre o mesmo: o sheik suspirava e aceitava o desejo dela. E dessa vez não foi diferente.
— Se você tivesse permitido que Maata abrisse a joalheria que tanto queria, Ártemis, nossa filha estaria aqui connosco, sã e salva.
— Como uma princesa real pode trabalhar como uma mulher comum?
— Vê? Você não deixou saída para ela.
— A culpa é minha, então?
Silêncio.
— Bem, acusações não nos levarão a nada — Luna ajeitou os cabelos. — Nem sair correndo como baratas tontas por aí. Portanto, fiquem todos quietos e prestem atenção a minhas instruções.
Beryl se trancou em seus aposentos. Jamais perdoaria Maata por ter escolhido justo o dia de seu tão esperado casamento para resolver fugir.
E fugir do quê, afinal? ela se perguntava. Do amor da família, do luxo, de todo bem material que qualquer ser humano poderia almejar?
— Vou arrancar todos os cabelos dela quando a encontrar! — Beryl jurou, e se atirou na cama aos prantos.
De repente, parou de chorar.
— Não, nada disso. Não vou ficar aqui, infeliz, aguardando o regresso de meu noivo, que estará em outros países se esbaldando com todas as mulheres bonitas que encontrar pelo caminho. Fiz tudo o que cabe a uma moça decente, obedeci meus pais, obedeci Mamoru. E o que ganhei com isso? Ninguém neste palácio se importa comigo. Podiam ter mandado um outro irmão atrás daquela infeliz, mas não. Teve de ser Mamoru! Daí, basta que me tranquem no harém, como uma jóia dentro de um cofre, até a hora em que meu amo e senhor resolva se lembrar de que existo!
Levantou-se e foi lavar o rosto. Enxugou-o com a toalha imaculadamente branca e se mirou no espelho.
— Eu decidi que hoje me tomaria mulher, e assim será. Vou dar um jeito de me divertir muito por aqui enquanto meu noivo estiver se divertindo no Ocidente. Os que vivem neste palácio não perdem por esperar!
Beryl se despiu e admirou suas formas voluptuosas no espelho. Sabia muito bem que o que pretendia era arriscado, mas seu corpo ardia, exigindo ser saciado; e estava disposta a tudo para satisfazê-lo. Se fizesse tudo direito, teria uma noite inesquecível de sexo. Mais tarde pensaria numa boa desculpa para dar a Mamoru quando, enfim, se casassem. Afinal, ele poderia demorar meses, até mesmo anos, para achar Maata.
Retirou do armário seus diversos véus de seda. Com muita arte, seguiu todas as instruções aprendidas com as ex-concubinas do harém, e envolveu suas curvas perfeitas com eles. Ao terminar, o resultado era magnífico. Até mesmo um homem morto ficaria de queixo caído ao vê-la.
Àquela hora da noite, todos no palácio deviam estar dormindo, menos os seguranças. Todos eles eram fortes, musculosos, altos. Portanto, qualquer um serviria.
Num instante de hesitação, Beryl quase voltou atrás. Se fosse flagrada, seria exposta à execração pública. Toda sua família seria apontada na rua, e ela nunca mais poderia sair de casa, devido à vergonha.
Mas sua forte libido — e também o fato de se sentir muito humilhada por não ter merecido sequer que os futuros sogros mandassem chamá-la para informá-la pessoalmente do ocorrido determinou que continuasse avante. Se houvesse um escândalo, a família real ficaria em maus lençóis. Portanto, sem dúvida procurariam abafar qualquer mau passo que ela pudesse vir a dar.
Beryl, sorrindo por sua esperteza, cobriu-se com um manto que ia até os pés, envolveu a cabeça e o rosto com um véu vermelho, que lhe ocultava as feições, e se esgueirou para fora do quarto.
Beryl se escondeu atrás de uma coluna para observar os arredores. O harém era separado do palácio por um átrio, no meio do qual se erigia uma fonte que despejava, com suavidade, sua água sobre o pequeno lago artificial, onde nadavam peixes de diversas variedades. Aquela parte era pouco vigiada, pois não havia portas que davam para fora, o que impedia a entrada de invasores.
Sem fazer ruído, ela se esgueirou para dentro do palácio, e, sempre encostada na parede, continuou em frente.
Já havia caminhado bastante sem encontrar ninguém.
Droga! Será que até os guardas resolveram dormir hoje? Então, o ruído de uma porta se abrindo muito perto dela a assustou, e Beryl correu escada acima, agachando-se embaixo de uma mesa decorativa, no hall que dava para o corredor que conduzia aos aposentos dos príncipes.
O segurança, muito treinado, ouviu o barulho e exigiu saber:
— Quem está aí?
O coração de Beryl disparou. Devia se apresentar a ele e tentar seduzi-lo? Sim, claro, era para isso que estava ali.
Então por que não o fazia? O que a impedia?
O guarda começou a subir os degraus.
Beryl olhou para a porta do hall. Seria atrevida a ponto de adentrar a área reservada aos homens? Quem encontraria lá dentro?
O segurança se aproximava cada vez mais.
Enfim, ela se decidiu e correu para a ala dos príncipes. Uma vez lá, disparou adiante, arrependida de toda aquela insensatez, que poderia, inclusive, destruir a amizade entre seu pai e o sheik.
O corredor era imenso. E aquela parte do palácio lhe era desconhecida. Nenhuma mulher entrava ali, a não ser que fosse convocada.
Beryl estacou e olhou para trás. A sombra do guarda surgiu debaixo da porta. Não havia mais tempo a perder.
Estendendo a mão esquerda, Beryl, desesperada, girou a primeira maçaneta que encontrou e se refugiou lá dentro.
Hassin saiu do boxe e começou a enxugar os cabelos.
Despertara suando, em meio a um sonho muito erótico, no qual uma mulher maravilhosa dançava para ele e o convidava para o amor, e decidiu tomar um banho frio.
As imagens foram tão reais que ainda sentia o perfume da pele dela.
Voltou para o quarto, decidido a ler um pouco até o sono retomar. Colocou a mão no interruptor para acender a luz quando ouviu um ruído suave e o clique da porta.
Ficou imóvel. Alguém entrara em seus aposentos. Mas quem se atreveria a tal?
A tênue luminosidade do luar permitiu-lhe ver um vulto encolhido atrás da poltrona. Hassin apanhou uma estatueta pesada de sobre a escrivaninha e se aproximou.
— Levante-se bem devagar. Se tentar alguma gracinha, eu racho sua cabeça ao meio.
Um soluço de surpresa escapou da garganta do intruso. Mas ele obedeceu.
Perto de Hassin, aquela pessoa era muito pequena. Seria uma mulher? Não, impossível. Só podia ser alguém que lhe desejava fazer mal.
Assim que endireitou a coluna, a pessoa que invadiu seus aposentos deixou cair o manto que a cobria. O movimento levou até o príncipe um delicioso aroma.
O mesmo da mulher em meu sonho!, Hassin reconheceu.
— Quem é você? O que faz aqui?
— Sou a resposta a suas preces, Alteza. Tudo o que quero é fazê-lo feliz.
A uma leve batida na porta se seguiu a voz do segurança:
— Alteza? Perdoe-me pelo adiantado da hora, mas… o senhor está bem?
Embora confuso, Hassin atendeu ao guarda.
— Sim, tudo em ordem.
— Ouvi passos no corredor e vim checar se…
— Era eu. Venho tendo problemas de insónia. Fique tranquilo, ninguém invadiu o palácio.
— Certo. Boa noite, Alteza.
Hassin se virou para a mulher, e mesmo na penumbra pôde perceber que ela se sentiu aliviada.
Beryl olhou em torno e avistou o aparelho de som. Foi até ele, escolheu um CD e o pôs para tocar.
Uma música muito erótica soou em instantes. Ela caminhou até Hassin, tomou-lhe a mão e o fez sentar-se na beira da cama. Beryl tremia. Era a primeira vez que se via diante de um homem nu. E, embora estivessem na semi-escuridão, podia notar que o corpo dele era esplêndido.
— Deixe-me acender a luz — ele pediu.
— Nada disso. O mistério é muito mais excitante.
Hassin não devia permitir aquilo. A mulher poderia ser uma assassina, enviada por alguma das diversas milícias rebeldes de fanáticos religiosos que odiavam o sheik por julgá-lo condescendente e progressista demais. Muitos diziam ser uma heresia de Ártemis ter abolido a prática da poligamia, que fazia parte da cultura de Nakabir. Não bastasse, ele deu permissão a todas as mulheres para estudar e até cursar universidade, além de trabalhar e receber salários quase iguais aos dos homens. Os adversários do sheik sabiam que seria um golpe terrível contra ele se um de seus filhos morresse. Não era segredo para ninguém o amor de Ártemis por sua família.
Entretanto, Hassin se via refém da dança sensualíssima daquela jovem como um camundongo hipnotizado por uma serpente. Ao ritmo inebriante da música árabe, ela ia retirando os véus, um a um, num meneio de quadris capaz de ressuscitar os mortos.
Em segundos, uma excitação vigorosa tomou conta do príncipe. A prova ficou muito evidente na erecção que se seguiu.
Beryl, prevendo o fim da melodia, curvou-se diante dele e lhe atirou o último véu. Estava nua diante do príncipe, com apenas o rosto coberto. Seus olhos cintilaram ao ver o resultado de sua dança no baixo-ventre de Hassin.
O príncipe sentiu mais uma vez o perfume único daquela jovem, que lhe surgira em sonhos pouco antes de ela invadir seu quarto. Aquela podia ser a última noite de sua vida, mas nem uma explosão nuclear o impediria de tomar para si aquela beldade de seios incríveis.
Hassin estendeu o braço e a puxou para si, jogando-a deitada sobre o leito.
— Não sei quem é você, moça misteriosa, mas não vai sair daqui sem que eu prove todas as suas delícias.
— De modo algum, Alteza. Estou aqui para servi-lo.
Com um gemido estrangulado, Hassin ia lhe tirar o véu de sobre o rosto, mas Beryl o impediu.
— Só o que lhe peço é que não me veja.
— Mas como irei beijá-la?
Com habilidade, Beryl expôs a boca.
— Apenas meus olhos e meus lábios Vossa Alteza verá. Concorda?
Embora intrigado, Hassin estava adorando aquele jogo.
— Só se prometer que não me negará mais nada.
— Tem minha palavra, Alteza.
Hassin a abraçou forte e a beijou com paixão.
— As preliminares ficarão para a próxima vez. Preciso tomá-la para mim agora mesmo, senão sou capaz de morrer!
Beryl gargalhou, feliz por sua capacidade de sedução.
E gritou quando Hassin a penetrou, acalmando-se aos poucos à medida que ele prosseguia nos movimentos cada vez mais intensos.
O auge atingiu os dois ao mesmo tempo. Beryl cravou as unhas nas costas de Hassin, arqueando-se toda, permitindo que ele se satisfizesse por completo.
Horas depois, Beryl saiu da cama com todo o cuidado, apanhou seus véus, vestiu o manto e retomou a seus aposentos no harém. O príncipe ainda dormia.
Mas qual dos irmãos de Mamoru seria ele? Todos os cinco eram muito parecidos, e na penumbra ela não pôde enxergar direito as feições.
Em seu quarto, trancou a porta e se ajeitou logo entre as cobertas. Começava a amanhecer.
O que fiz, meu Deus? Embora os momentos de intensa paixão com o príncipe tivessem sido inesquecíveis, naquele momento, passada a raiva e aplacada sua luxúria, Beryl se dava conta da loucura que fizera.
E o preço a pagar talvez fosse alto demais.
— Seu desempenho foi merecedor de um Oscar!
— E o seu então, minha amada? Você chegou até mesmo a empalidecer! Como conseguiu aquilo?
— Eu estava muito nervosa, Ártemis. Nossos filhos são muito inteligentes. Bastaria um deslize para que nosso plano fosse por água abaixo, e nós tínhamos de tirar Mamoru de Nakabir com urgência.
Luna e Ártemis, deitados entre as almofadas de sua imensa cama, não conseguiam dormir. Eram muitas as preocupações que os afligiam.
— Maata telefonou?
— Sim, querido. Fique tranquilo, nossa menina está óptima.
— Quanto tempo terei de ficar sem vê-la?
— Só permitirei que Maata e Mamoru retomem a Nakabir quando o perigo que nos ronda tiver terminado, Ártemis.
— Esses malditos fanáticos!
— Os espiões infiltrados nas facções extremistas vêm fazendo um excelente trabalho. Em breve você terá os líderes em suas mãos. Aí então, quando o governo não estiver mais ameaçado, nosso Mamoru, o primeiro na linha sucessória, voltará a Nakabir. Por enquanto, Maata terá de se encarregar de mantê-lo muito ocupado bem longe daqui.
O sheik suspirou.
— Você tem razão. Não poderíamos nos arriscar. Se o pior nos acontecer, Mamoru, estando em outro país, poderá pedir asilo político e em época melhor retomar e reivindicar seus direitos. Caso contrário, tudo estaria perdido, e Nakabir ficaria à mercê daqueles dementes.
— Pois é. Nosso primeiro dever é com o povo. Para cuidar dele, todo sacrifício é válido.
— Você está sempre certa, Luna. Tomara que Maata tenha metade de sua inteligência e sagacidade.
Luna sorriu.
— Metade? Às vezes tenho a impressão de que ela tem o dobro!
Ártemis a beijou, apaixonado.
— Tenho pena de Beryl…
— Porquê?
— Luna, a moça ia se casar hoje!
— Ora, Ártemis, não seja tão sentimental. O destino de Nakabir está em jogo. Se o país for tomado pelos rebeldes, a vida de nenhum de nós valerá nada. Quem dera meu maior, problema fosse a frustração de Beryl.
— Mesmo assim, gostaria de poder compensá-la de alguma forma.
— Vamos esperar pelo desenrolar dos acontecimentos. Talvez tudo se resolva antes do que imaginamos, e, nesse caso, Mamoru retomará logo e se casará com ela. Preocupo-me mais com nossos quatro filhos que ainda continuam aqui. Seria tão bom se pudéssemos enviá-los para fora do país também…
— Isso é impossível. Todos ocupam cargos importantes no governo. Ficar sem Mamoru já é desfalque suficiente no Conselho.
Luna apagou as velas a seu lado.
— Sei disso, querido. Bem, que tal tentarmos dormir um pouco? Logo o sol nascerá.
— Sim, e teremos um longo dia pela frente. Mamoru ficou de telefonar assim que chegar a Londres. Muito boa aquela pista falsa que Maata deixou no computador. Até descobrir que a irmã não está na Inglaterra, terão se passado algumas semanas.
— Não seja tão optimista. Mamoru é esperto e muito intuitivo. Agora, meu amor, chega de conversa.
— Durma bem, querida.
