– "Você deseja falar com nosso padre querida?"

– "Não!"

– "Eu sei bem como se sente...perder a mãe assim, tão nova!"

A irritação era maior do que a tristeza!

– "Conheço algumas pessoas, sabe, um grupo que se reúne todas as terças, as sete da noite. Eles trocam experiências, ajuda a passar por este momento, meu bem..."

– "Existe algum problema?"

Os olhos dela se arregalaram, eram verdes.

– "Oh querida, de forma alguma."

– "Então eu já posso retirar a urna, ou falta mais alguma coisa?"

– "Bem, não falta nada! Mas a casa oferece o espaço para algum culto, uma ultima homenagem."

– "Para quem?"

– "Para os que ficam, para os que se vão...é um encontro com Deus..."

– "Minha mãe não acreditava em Deus!"

Eu me sentia revivendo um sonho ruim. O gosto amargo trancava a minha boca. Mexi meu corpo, me revirando e gritei em seguida, uma pontada na minha cabeça me fizera despertar. Depois senti o macio de um colchão e o cheiro do amaciante nas cobertas. Meus dedos deslizaram pelo lençol, sim era uma cama. Como eu fui parar nela era a pergunta. A última coisa que me lembrava era de estar deslizando na estrada principal de Forks, presa pelo pé na minha moto. Abri meus olhos e me deparei com o teto branco. Percebi que o lugar estava na penumbra. Não me mexi, apenas fiquei olhando para aquele teto idiota. Então eu pude ouvir o silvo do vento que estava forte, e, muito burra, me ergui de uma única vez para somente gemer de dor. Voltei a deitar no travesseiro, lagrimas saíram dos meus olhos.

– Merda!

– Você bateu a cabeça com força no chão. – a voz era estranhamente familiar. Virei meu rosto para o lado que ela vinha, a um canto do quarto, lá estava ele. Alto, na semi escuridão apenas notei isto.

– Quem? Tio Seth?

– Você deve ser Diana Clearwater.

– Taylor!

– Como? O homem tinha uma voz muito bonita, que me transmitia paz, segurança. Ele deu um passo em minha direção e eu vi olhos negros me olhando. Ele era jovem, sei lá, talvez vinte ou vinte e dois anos.

– Diana C. Taylor! Quem é você e como vim parar aqui? Eu deveria estar em um hospital, ou no necrotério...!

– Chad Uley, eu, bem, te achei na estrada...

– Então estou viva mesmo?

Ouvi o riso baixo, era quente e atrativo.:_Você se sente morta?

– Do jeito que meu corpo dói, não! Mas é estranho.

– Você sofreu um acidente de moto, mas esta tudo bem, o médico já te examinou.

Fiquei um instante em absoluto silencio, tentado absorver tudo.

– Médico é? Então, estou em um hospital?

– Não, esta na reserva Quileute, em La Push. Esta é minha casa, você esta na minha cama.

Quanta hospitalidade e desde quando Forks tinha uma reserva indígena? Rapidamente me lembrei de quando era criança, na escola as meninas me chamavam de Pocahontas, diziam que meus cabelos eram muito lisos e negros.

– Ainda estou em Forks, não é?

O riso dele saiu mais longo e alto, sei lá, mas aquilo me irritou de repente.

– Você está desorientada.

– Bem, depois de ver um lobo do tamanho de um urso e derrapar na estrada, talvez este sintoma seja mesmo normal, não é mesmo?

– Chad?

Uma mulher alta e magra entrou pela porta aberta do quarto, ela tinha cabelos lisos enormes e, mesmo na penumbra, eu vi uma horrível cicatriz no rosto dela. Sem pensar direito eu levei meus dedos até meu rosto e suspirei aliviada, havia apenas algumas escoriações. Mas não tive muito tempo para divagar, pois em seguida fechei os olhos com força, a luz do quarto foi acessa. A dor era intensa.

– Ai!

– Desculpe, deveria ter acendido o abajur primeiro, como você se sente? – a voz dela era agradável também, simpática diria.

– Moída!

– Sim! Mas tenho certeza que logo vai se recuperar, lhe trouxe um caldo. O Dr. Cullen nos orientou a lhe dar algo leve nas primeiras horas.

Doutor? Quem eram eles?

– Moça, na verdade, eu acho que posso me levantar e...

– Você não pode! – eu olhei bem para ele, era muito alto e bem trabalhado.

– É chad, não é?

– Chad Uley.

– Então, eu sinto cada pedacinho do meu corpo da forma mais dolorida possível, o que é um bom sinal! E posso mexer meus dedos e meus pés, então não tenho nenhum osso quebrado. Olha eu agradeço por tudo o que tenha feito, mas vou sair desta cama e procurar por Seth Clearwater.

– Calma Diana, seu tio já sabe que você está aqui, ele logo vira. – olhei para a mulher, ela era bonita, se tentasse vê-la sem aquela cicatriz, que na claridade da luz era medonha. Mas ela tinha algo de familiar também, não sei dizer o que exatamente, mas a moça me surpreendeu quando disse que eu era muito parecida com mamãe, a não ser pelos olhos.

– Você conheceu a minha mãe?

– Sim, eu sou Emily, Leah nunca falou de mim ou de Sam?

Quem? me limitei apenas a balançar a minha cabeça.

– Eu sou prima da sua mãe e este é meu filho.

Ah! – a incredulidade passou pela minha cara, imagina! Eles tinham idade para serem irmãos!

– Tome, beba! Você vai sentir-se melhor.

Não pude evitar de franzir o nariz, odiava sopa. Mas o cheiro estava muito bom.

– Então, Emily, eu realmente estou surpresa com muitas coisas, minha mãe nunca falou nada da família dela e, veja só, eu nem acredito que ela era descendente de índios, que eu seja na verdade. Que loucura cara!

– Leah perdeu contato conosco já faz muito tempo...Isto não foi bom para ela!

Com sopa cheirando bem ou não, eu não ia deixar a dona cicatriz falar mal da minha mãe.

– Eu não sei o que vocês fizeram para mamãe, mas deve ter sido algo muito ruim! Eu não me lembro dela ter falado qualquer coisa de vir de uma tribo no fim do mundo, tão pouco ser prima da noiva do Frankenstein.

Meu sangue esquentou, literalmente! Eu joguei as cobertas para longe e me coloquei em pé.

– De novo muito obrigada por tudo, mas eu vou embora!

– Diana, por favor, foi um mal entendido...!

– Ah, tá! Olha aqui prima, minha mãe era uma mulher forte. Eu a vi uma única vez chorando em toda a minha vida, foi no leito do hospital antes dela morrer. Eu não sei pelo o que ela passou, mas não vou deixar ninguém falar mal dela!

Eu vi que Emily olhou para o rapaz que ela chamou de filho, havia tristeza no seu olhar. Depois senti dedos tocando a pele do meu ombro e um arrepio me percorreu por inteira.

– Diana, minha mãe não quis te ofender e nem falar mal da prima Leah. Nós sentimos muito que ela tenha morrido, é somente isto. Por favor, não vá, fique!

Eu não estava disposta aquilo! Tive que erguer bem meu rosto, eu sempre fui alta, mais alta do que muitos garotos da minha classe. Mas Chad, ele era enorme!

– Tá, fica assim então! Mas eu vou embora. Cadê minhas roupas? – foi ai que eu percebi que estava usando somente calcinha e camiseta, que ia até a altura das minhas coxas.

– Elas molharam, colocamos para secar.

– Merda! E a urna?

– Não aconteceu nada com a urna, ela esta ali.

Chad apontou para umas prateleiras na parede, caminhei sem nenhuma dificuldade até ela que estava sem nenhum arranhão. Lembrei do dia em que o advogado me procurou, no hospital mesmo, mal havia recebido a noticia da morte de mamãe. Ele me levou para tomar um café. Que modo estranho de conduzir as coisas. Eu estava bem nervosa naquele dia, mas isto parecia não afetar o cara. Ele abriu a maleta e tirou alguns envelopes, depois me disse que minha mãe havia me deixado uma poupança, algumas jóias que ela havia ganhado de papai, para por ultimo, a noticia que me levara até aquele lugar dos horrores.

– Uma carta?

– ''Sim, ela deixou outra aos cuidados do escritório, com ordens expressas. Eu sugiro que a senhorita leia em um lugar tranqüilo, mas que não se demore. Pela vontade de sua mãe, ela deseja que seu corpo seja cremado e que suas cinzas sejam jogadas no mar."

– "O senhor só pode estar brincando?" – pelo jeitão do homem, ele não estava. E o que conhecia de mamãe, ela não era muito boa com piadas também. Mas a surpresa que quase me fez cair da cadeira veio quando o homem de preto me falou que não era qualquer mar não, tinha um especifico, localizado na península de Washington, em um lugarzinho que eu nunca ouvira falar antes, Forks.

Eram tantas coisas em tão pouco tempo. Não consegui evitar de fungar, na verdade eu nem sabia como estava lidando ao certo com tudo aquilo. Perder papai foi muito difícil e, a forma injusta como ele se foi. Depois veio o destino e me deu outra rasteira. Eu não conseguia imaginar dor maior da que a que senti quando enterrei papai, mas um ano depois eu vivenciei outra ainda pior, cruel e inumana que me dilacerou lentamente em um período de seis meses. Acompanhar mamãe em todo aquele processo foi horrível. Mas eu faria tudo de novo se houvesse a menor possibilidade de tirá-la daquela com vida. Eu nunca chorei perto dela, nunca. Mesmo quando ela começou a perder os cabelos, foi naquele dia que mamãe chorou. Ela me dizia que eram os cabelos que o papai mais gostava nela. Fiquei em um mundo só meu, naquele quarto estranho e familiar ao mesmo tempo. Eu sabia que eles estavam me olhando muito atentamente, um nervoso tomou conta de mim e eu me virei com a urna bem presa nos meus braços para eles. E foi a pior coisa que eu fiz, pois vi os olhos negros de Emily, eram os mesmos de mamãe.

Algo acontecia comigo enquanto olhava para aqueles olhos. Lembrei de mim mesma sentada na varanda de casa, lendo aquela carta, acho que ela escreveu poucos dias antes de partir, era o ultimo pedacinho que eu tinha dela. Senti algo molhado escorrendo na minha face, eu estava chorando.

– Diana, por favor, me perdoe! Saiba que eu amava a sua mãe...

Emily começou a falar, mas minha mente estava longe. Eu lembrei de um trecho da carta:

...Eu não me arrependo das escolhas que fiz, pois se não as tivesse feito não teria conhecido seu pai e não teria você. Há muito eu deixei morrer quem eu era, deixei de lado minha origem achando que seria mais fácil esquecer tudo estando longe. Mas me enganei, há algo dentro de mim que onde quer que eu vá vai estar comigo, e eu quero que você tenha a chance de descobrir isso dentro de você...

Limpei a lagrima que molhava meu rosto e falei muito baixo:

– Você pode me falar como era a minha mãe, Emily?

Continua...

Olá!

Estou particularmente surpresa com a quantidade de leitores e, ficarei feliz em receber alguns reviews!

Bjus!