Capítulo 1 – Depois
Em toda Hogsmeade não havia uma alma andando em suas ruas. Casas e lojas com suas portas e janelas trancadas e com as cortinas fechadas, placas anunciando "Vende-se" ou simplesmente "Fechado" não eram surpresa. De dia ainda haveria algumas pessoas atravessando rapidamente a vila, sem intenção de permanecer muito.
Para todos os efeitos Hogsmeade tinha se tornado uma cidade fantasma, com a exceção notável da hospedaria Cabeça de Javali. Sua antiga má reputação entre os estudantes de Hogwarts de acomodar uma clientela duvidosa se provava mais do que verdadeira. Em realidade, os únicos visitantes do vilarejo eram exatamente o que se chamaria de "clientela duvidosa". A hospedaria era o único local que se mantinha imutável depois de tantos anos.
As luzes estavam acesas, iluminando a entrada do edifício. O vento forte, que trazia chuva, balançava violentamente a placa com o desenho de uma a cabeça de javali. Enquanto o resto da vila estava em completo silêncio, vozes exaltadas vinham de dentro no primeiro andar, onde o bar ficava. Uma ou duas vezes, risadas foram ouvidas.
Uma única figura solitária estava sentada num banco de madeira que ficava encostado na parede da hospedaria. A figura se abraçava numa tentativa de aquecer o corpo contra o frio da madrugada. Ao seu lado tinha um gato empoleirado de aparência desagradável, era velho, possuía pêlo amarelado e nariz achatado. Apesar de aparentar estar dormindo, uma vez ou outra suas orelhas viravam na direção de algum som suspeito.
Vez ou outra, um vulto mais negro que a própria escuridão da noite passava ao longe, patrulhando silenciosamente as ruas vazias e com sua presença esfriando tudo ao seu redor.
Com mais uma explosão de risadas dentro do bar, um homem idoso com uma barriga farta e longos cabelos e barba apareceu na entrada, sua silhueta formando um buraco negro no chão, aonde a luz vinda do lugar deveria estar. Vestia roupas sujas, um avental com uma série de manchas suspeitas e sua expressão era de irritação.
- Eu aconselharia você a entrar, mocinha. A companhia aqui fora pode ser mais silenciosa, mas é bem mais perigosa.
A figura, virando para a luz e finalmente distinguível, revelou ser de uma jovem moça em seus vinte e tantos anos. Seu rosto era pálido, um pouco doente talvez, acompanhado de um nariz arrebitado e rosto comprido, tinha cabelos negros curtos e olhos da mesma cor.
- Daqui a pouco – respondeu, acariciando devagar o gato velho e quase ignorando a outra presença.
O velho não saiu do lugar, ao invés, cruzou os braços, passou a língua nos dentes amarelados e depois cuspiu no chão.
- Qual é o problema?
A jovem abriu um sorriso sem verdadeira felicidade por trás.
- Hoje é Dia das Bruxas, lembra?
Com um balanço da cabeça e um resmungo, o homem voltou para dentro fechando a porta atrás de si, gesto que abafou os sons alegres e diminuiu consideravelmente a iluminação de fora.
A solidão não pareceu afetar nem o gato nem a jovem, que voltaram a suas posições originais. Uma vez ou outra o rabo do animal se mexeria preguiçosamente ou ela soltaria um suspiro profundo. Por muito tempo apenas estes eram os eventos.
De repente a porta da Cabeça de Javali se escancarou e dois homens em vestes pretas saíram gritando um com o outro, seus rostos escondidos por horripilantes máscaras brancas.
- Você está bêbado de novo, Rowle! Seu verme miserável.
- Aff, cale a boca Dolohov! Por acaso é minha mãe agora?
O mascarado claramente embriagado deu um passo em falso, quase caindo se não fosse pela mão do outro o puxando pelas vestes.
- Miserável, se formos... – sua voz virou um sussurro ao continuar. -... Se formos castigados de novo por sua causa, eu juro pelas botas de Salazar que...
A resposta foi vômito em seus sapatos. Dolohov soltou um urro de ódio e se virou para a moça sentada.
- Você! Vai pegar um copo de água para ele! – mandou enquanto limpava a sujeira com sua varinha.
A má educação não lhe incomodou e ela se levantou sem delongas, entrando no bar. Era um cômodo relativamente pequeno, se considerado o número de pessoas reunidas naquele momento, havia por volta de dez mesas abrigando não mais que cinco cadeiras cada, mas muitos patronos conjuravam bancos para se acomodar. Ela se dirigiu para o canto mais afastado onde estava o balcão do bar, a escada estreita para o segundo andar ficava atrás.
O velho, que aparecera algum tempo antes, estava servindo bebidas para um grupo de homens animados. Tudo indicava que aquele conjunto era a razão das risadas anteriores, pois o restante da clientela se mantinha quieta e relativamente preocupada com seus próprios assuntos.
Ao chegar perto do balcão, a moça pálida chamou a atenção do grupo, provocando assobios e convites sugestivos. Um deles chegou até segurá-la pelo braço, tinha o rosto quadrado e sobrancelhas grossas.
- Marietta, doce Marietta! Quer olhar minha Marca? E não estou falando daquela no braço esquerdo!
O resto do grupo caiu em gargalhadas. Não vestiam máscaras, apesar das vestes negras familiares. Claramente se julgavam superiores ao uniforme e ao segredo de suas identidades.
A resposta de Marietta para o convite foi queimar a mão que a prendia e continuar seu caminho. Sua reação violenta não os enfureceu ao invés os instigando mais ainda a continuar seus assobios.
- Flint, acho que ela gosta de você!
Mais gargalhadas. O barman revirou os olhos e perdendo a paciência os mandou de volta para a mesa ameaçando não servir mais uísque se continuassem a se comportarem como porcos. Enquanto isso, Marietta já havia pegado o copo de água e atravessava outra vez as mesas, em direção à porta.
- Não acredito que tenho você como parceiro... Age como aqueles idiotas lá dentro, bando de moleques arrogantes...
Dolovoh parou de falar quando a moça apareceu novamente, lhe dando o copo de água.
- Por que demorou?! – gritou, enfiando o copo na boca de Rowle e não esperando resposta.
Distraído com a tarefa de obrigar o outro a engolir todo o conteúdo, não notou a irritação de Marietta que parecia se esforçar para segurar sua vontade de responder violentamente a má educação a qual era obrigada a agüentar todas as noites.
Finalmente, o bêbado tomou toda água e foi puxado para longe da hospedaria por seu parceiro irritado, o som de suas reclamações carregado pelo vento mesmo quando já distantes. A tensão nos ombros da jovem se esvaiu apesar da raiva permanecer em seus olhos. Sentiu o gato passar por entre suas pernas, quem sabe numa tentativa de confortá-la.
Marietta não tinha motivos para comemorar o Dia das Bruxas como os homens dentro do bar. Para ela o dia significava não vitória, mas morte e desolação.
Pegou o bicho velho no colo e ousou entrar novamente, sabendo que era o horário em que os clientes começariam a ir embora e o momento em que sua ajuda seria mais necessária, limpando mesas e empilhando as cadeiras. Além de auxiliar na retirada de bêbados e arruaceiros.
Ao pisar dentro do bar o gato pulou, rapidamente desaparecendo entre as várias pernas e cadeiras, seu destino o balcão e o armário de bebidas, que era o seu ponto predileto do cômodo por ser o mais alto. Marietta pegou um avental do cabide preso na parede perto da porta e o prendeu na cintura, era consideravelmente mais limpo que o do barman.
Alguns patronos notaram sua presença, a observando com o canto dos olhos, mas o grupo de bêbados anterior estava concentrado demais em uma competição de consumo de álcool para importuná-la outra vez. E então logo estava servindo bebidas e anotando pedidos.
- Abe, duas garrafas de rum élfico.
- Duas? – rosnou o velho barbudo pegando as garrafas. – Malditos bêbados, meu melhor estoque perdido pra esses malditos...
- Pelo menos se estão bêbados aqui, não estão matando algum pobre coitado lá fora – murmurou para ele.
- Pft, grande consolo – acenou com a mão rudemente, a idéia de perder boa bebida para salvar algumas vidas não sendo muito reconfortante para ele.
Marietta balançou a cabeça, não surpresa com a indiferença do dono da hospedaria. Desde que havia começado a trabalhar com o rabugento era a mesma coisa, com o tempo aprendeu que Aberforth preferia guardar sua compaixão há sete chaves.
Felizmente, pouco a pouco o bar foi esvaziando. Alguns saindo cambaleantes, sendo carregados por companheiros, outros sorrateiramente deixando moedas na mesa e desaparecendo. Era madrugada quando terminaram a limpeza.
- Minhas costas estão me matando. Vou subir, não demore pra ir dormir mocinha. Conheço você, perde tempo com bobagens – depois terminou com um tom um pouco mais sério. – O que passou, passou. A vida continua.
- Boa noite Abe – foi apenas o que disse, não lhe dando garantias de que aquele seria o dia que mudaria de atitude.
O velho subiu as escadas balançando a cabeça em reprovação e murmurando sozinho. Marietta sorriu fracamente, enquanto colocava uma das últimas cadeiras em cima da mesa com os pés para cima.
Depois de um tempo sozinha, acompanhada apenas pelos roncos vindos do segundo andar, resolveu sentar e abrir uma garrafa de cerveja amanteigada. No entanto, no instante que foi pegar a bebida no armário, o gato (que até agora estivera dormindo calmamente) saltou do alto do móvel e lhe deu um susto.
- Bichento, por Merlin, quer me matar do coração?
Mas o bicho estava com o pêlo ouriçado e nervoso, olhava atentamente para a porta com o corpo inteiro rígido. Marietta tinha varinha na mão de imediato, se concentrando para ouvir qualquer som estranho além do ronco de Abe.
Uma luz fraca entrou pela fresta da porta da frente, crescendo em intensidade rapidamente e tinha um tom familiar de prata. Não dando tempo de reação, a porta se escancarou e a luz prata invadiu e iluminou bar inteiro.
Uma lebre prata se aproximou de Marietta, parando em seus pés por um breve instante e finalmente evaporando em fumaça.
- Ah, olá Gina. Por que a mudança no cabelo?
Marietta encarou a figura que acabara de entrar, sua expressão mudando de surpresa para felicidade. No entanto, ainda estava chocada demais para responder à saudação.
- Muitos dementadores essa noite, realmente nada agradável. Talvez por causa da data?
A jovem, que não podia passar da idade de Marietta, tinha um sorriso amigável no rosto e seus olhos eram grandes da cor de um sábado de sol. O tom de sua voz era distraído, como se achasse tudo a sua volta um tanto interessante da mesma forma como um espectador considera uma peça de teatro. Suas vestes estavam um pouco rasgadas e havia um corte feio em sua testa, os cabelos cumpridos da cor de areia tinham sangue e sujeira em alguns pontos.
Mas o mais surpreendente era que apoiava um menino ofegante e em um estado bem pior que o dela. Seus olhos estavam quase fechados e no canto da boca havia sangue. Ao vê-lo, de imediato Marietta, ou Gina se preferir, correu para perto deles e se abaixou, analisando melhor o estado da criança.
- Ah sim. Esse é Teddy – comentou a loira, o tom um pouco menos casual.
- Luna, o que aconteceu? Faz semanas que não dá notícias... Eu...
- Semanas? Tanto assim? – se perdeu um pouco em pensamentos, provavelmente tentando recontar as horas que passaram. – Passou mais rápido do que o normal – concluiu como se a culpa fosse do tempo.
Gina não conseguiu controlar sua frustração.
- Sim, semanas! – respondeu ríspida. – Nem você, nem Neville! Como...
- Neville está na Grécia, tentando ajudar algumas famílias. Disse que traria presentes.
A jovem de cabelos negros encarou a loira, tentando não enlouquecer. Sua frustração, porém, foi colocada de lado ao lamento de dor de Teddy. Reagiu rapidamente, o levitando com cuidado para o quartinho em que dormia. Luna a seguiu, observando o bar agora escuro com interesse.
- Cheira a cabras. Você já notou? – comentou casualmente.
Teddy foi colocado na cama devagar. Além da mandíbula quebrada por provavelmente socos, havia um corte profundo em sua perna. Gina se concentrou em curar os ferimentos o máximo que era capaz, trabalhando principalmente no corte. Enquanto cuidava do menino, Luna curava os próprios ferimentos sem dificuldades.
- O que aconteceu com vocês? – questionou, dando um gole de poção contra febre à Teddy, que havia caído no sono graças à exaustão.
- Ah bem... O de sempre suponho – seus olhos focaram no menino, parando de observar o quartinho finalmente. Seu sorriso diminuiu um pouco, mas não sumiu. – Um grupo de Inquisidores comemorando o Dia das Bruxas.
Não foi preciso maiores explicações.
- E a família dele?
Luna balançou a cabeça negativamente.
- Vamos encontrar um lugar seguro para ele – disse Gina, tentando engolir a raiva que sentia. – Filho de trouxas, traidor de sangue ou mestiço?
- Não perguntei na hora para ser sincera. Acha que faz diferença?
- Não. Não de verdade, mas...
Parou de falar, suspirando e se perdendo em pensamentos. Teddy agora dormia tranquilamente, as dores dos ferimentos e a febre já não lhe incomodando. Luna voltou a analisar o quarto, notando a falta de qualquer coisa que lembrasse sua amiga, não havia nenhuma foto nas paredes, cor ou personalidade.
- Por que o cabelo? – questionou outra vez.
- Um deles me reconheceu há alguns meses.
- Ah, entendo.
Gina passou a mão pelos cabelos negros, sentindo alguns fios com cuidado e lembrando do dia em que foi forçada a abandonar o ruivo e criar mais uma nova identidade. Sua expressão era triste e de culpa. Os fios que usava na poção polissuco eram constantes lembranças de seu erro.
- Agora sou Marietta, a nova ajudante daqui. Sobrinha de segundo-grau de Abe.
- Gostava mais de Juliette, filha dos Masion, família puro-sangue da França.
- Eu gosto muito mais de Ginevra, mas o que podemos fazer não? – riu amargamente.
Ficaram em silêncio, observando o menino descansar, seu peito descer e subir calmamente como se não tivesse sido torturado e observado a família morrer algumas horas antes.
- Acha que um dia tudo isso vai terminar? – murmurou sem esperança, encarando Teddy. – Existe alguma luz no final desse túnel?
Luna olhou para o teto, talvez achando curioso o ronco de Aberforth vindo o andar de cima ou mesmo imaginando as estrelas muito além das limitações físicas das paredes da hospedaria.
- Acho que todas as coisas acabam encontrando seu próprio jeito de arrumar o que está errado – fez uma pequena pausa. – Mais ou menos como gnomos de jardim. Eles sempre voltam não importa quantas vezes os jogamos contra a parede ou além da cerca, não é mesmo? Na verdade, é uma habilidade mágica fascinante, gostaria de ter tempo para estudá-los melhor.
Gina sorriu, tirando esperanças do discurso confiante, mesmo que simples, da amiga. Sentiu saudades dela nas semanas que Luna acreditava terem sido dias, e também estava mais do que ansiosa para rever Neville. Os últimos membros da Ordem da Fênix e o mais próximo que ela tinha de uma família agora.
- Acredita que faz onze anos, Luna? Mais de uma década? E ninguém conseguiu derrotá-lo? Uma geração inteira cresceu estudando o que ele quer, para pensar do jeito que ele deseja? Novos Comensais sendo criados a cada ano.
- Temos Teddy, no entanto. E Patrick, Susan, Kate, Thomas...
- Refugiados e caçados.
- Enquanto eles forem perseguidos, para cada Comensal novo existirá um futuro oponente.
Sempre foi impressionante a habilidade de Luna crer na vitória não por esperança ou determinação, mas argumentando através de sua própria e inusitada lógica. A questão era que infelizmente teoria e prática nem sempre coincidiam.
- Por enquanto acho que somos apenas nós três contra o mundo.
- Prefiro falar com você quando não é Dia das Bruxas, Gina. A conversa é muito mais agradável – olhou para um relógio de pulso dourado. – Na verdade, já não é mais 31 de outubro, você pode voltar a ser otimista agora.
Gina abriu um sorriso, mas era mais um sem felicidade. Estava prestes a responder quando Teddy acordou subitamente, sentando na cama e ofegante. As duas o fitaram, não entendendo o que havia acontecido. Gina fez um movimento com a mão, pretendendo colocá-la na testa do menino, procurando febre, mas ele se esquivou antes assustado.
- Onde... Onde eu estou? – perguntou sua voz tremendo.
Luna colocou uma mão em seu ombro para lhe confortar, o menino virou o rosto e a reconheceu imediatamente se acalmando.
- Você está seguro agora - informou Gina suavemente. – Estamos numa hospedaria em Hogsmeade. Vamos tomar conta de você, então descanse um pouco.
Teddy acenou com a cabeça fracamente, voltando a encostar sua cabeça no travesseiro. Em questão de minutos sua respiração rápida diminuiu e estava dormindo. Não querendo acordá-lo outra vez, as duas foram para o bar, sentando em uma mesa para conversarem. Bichento tinha voltado ao seu lugar predileto, mas seus olhos brilhavam na escuridão, observando atentamente tudo a sua volta.
Gina acendeu a vela que ficava em cada mesa e uma pequena chama azul iluminou seu rosto e o de Luna. Uma chuva fina tinha começado a cair, o som de pingos batendo contra os vidros das janelas. Os roncos de Abe continuavam como se não houvesse ocorrido nada a noite toda.
- Quer cerveja amanteigada? – ofereceu Gina, chamando dois copos do armário com sua varinha.
- Talvez um gole antes de eu ir.
- Já? Não vai ajudar Teddy?
- Ah sei que você vai cuidar bem dele. Mas preciso voltar para a minha missão – respondeu tranquilamente, como se não estivesse prestes a continuar arriscando sua vida.
- Tenho ouvido muitas reclamações da Romênia, suponho que você tem a ver com elas? – sorriu. – Há algumas semanas atrás dois Comensais passaram aqui antes de irem para Hogwarts, tendo que beber vários copos de uísque antes de juntar coragem para comunicar mais más notícias de lá.
- Oh sim. Eles não sabem lidar com dragões suponho. Se tivessem experiência com o Humpekt de três chifres quem sabe já não estariam usando-os contra o Egito?
- Nem quero pensar nisso...
- Carlinhos tem me ajudado bastante na verdade.
Gina ficou em silêncio, concentrando seu olhar fixamente no copo de cerveja em sua frente. Luna notou seu desconforto, mas como sempre falava certas verdades acreditando que era o melhor caminho. E de certo sua fascinação com as interações humanas lhe proporcionava um desapego da noção de "conversa desconfortável".
- Ele é o último irmão seu que está vivo. Achei que gostaria de ouvir sobre como está indo.
- Não é o último.
Luna tomou seu gole de cerveja amanteigada.
- Verdade – seu sorriso sumiu quase por completo. – Ronald era uma ótima companhia... Tenho saudades. Meu pai acreditava que ele e Hermione foram capturados pelo governo americano trouxa.
- E você?
- Hmm. Acho que o governo trouxa não conseguiria segurá-los por muito tempo. Talvez se tivessem um especialista em bruxos para ajudar? É uma teoria interessante, mas não tive muito tempo de discutir com meu pai, visto que ele explodiu algumas semanas depois de formulá-la.
A outra jovem estava acostumada demais com o jeito de Luna para ficar surpresa com o tom quase causal que ela utilizara para falar da morte do pai. Era simplesmente como ela escolhia lidar com perda e dor. Algumas vezes Gina gostaria de conseguir agir da mesma forma.
- Mas o que você acha que aconteceu com eles então?
- Não tenho a mínima idéia – sorriu abertamente. – Mas quando eles estiverem prontos, vão aparecer.
A possibilidade de que os dois estivessem vivos era tão remota que até mesmo Luna parecia não estar muito convencida de suas palavras. Mas era uma pequena esperança que Gina guardava consigo e não estava disposta a desistir da idéia tão cedo.
Terminaram de beber sem falar mais nada, cada uma concentrada em seus próprios pensamentos. Luna voltaria para sua missão, a qual Gina só podia supor o que envolvia, já que evitavam discutir em detalhes o que cada um pretendia fazer, em uma tentativa de diminuir riscos.
Sabiam "em geral" onde cada um estaria, mas nada que poderia colocar em risco seus planos em missões. Gina conseguia ter uma noção do que cada um fazia graças a sua posição como "espiã" em Hogsmeade, ouvindo as reclamações e notícias sobre a guerra pela boca do próprio inimigo. Decidira permanecer em um lugar só, pois ainda guardava a esperança de que um dia algum Comensal falaria mais do que a boca deixando escapar algum segredo tão grande que a resistência conseguiria finalmente a chance de destruir Voldemort. Era tolice, verdade. Mas enquanto aquilo não acontecia recolhia o máximo de informações que podia e passava para Luna e Neville.
Os últimos membros da Ordem não eram os únicos a lutar contra Voldemort, havia ainda resistências no resto da Europa e, principalmente, no resto do mundo. Mas a Grã-Bretanha havia se curvado perante o Lorde das Trevas e agora era o símbolo de tudo que Voldemort representava. Seu domínio estava tão aprofundado que até mesmo os trouxas sentiam seus horrores. Não havia mais estatuto para manter o segredo da magia. Comensais não tinham mais nenhuma relutância em matar pessoas comuns e destruir cidades trouxas. Dementadores sugavam toda a felicidade do país e havia milhares e milhares deles agora, procriando com uma rapidez assustadora.
As autoridades trouxas até tentaram lutar contra a horda de pessoas estranhas e com poderes assustadores, mas simplesmente não sabiam como e com o Ministério da Magia deposto e acabado, ninguém os podia ajudar. Com os principais e mais importantes trouxas mortos, a maioria da população inglesa se viu perdida e assustada.
Filhos de trouxas, mestiços e traidores de sangue haviam fugido a principio para longe das cidades, rondando as ilhas numa tentativa de escapar da perseguição. Aqueles que não haviam sido rápidos o bastante para desaparecem quando o Ministério caiu foram sistematicamente identificados, assassinados ou presos. Com a ameaça de uma rebelião diminuindo com os anos e a superlotação de Azkaban, um novo método surgiu e atualmente quem não apresentasse seu status de sangue a cada mês para os Comensais era torturado e suas posses roubadas, acabando nas ruas pedindo por esmolas ou tentando fugir do país e recomeçar a vida.
A principal missão de Gina era ajudar pessoas a criarem identidades falsas e levá-las em segurança para fora de território conquistado. Com dementadores patrulhando grande parte das cidades e lobisomens caçando todas as noites, era extremamente perigoso fazer tal coisa, mas ela estava disposta. Era assim que pretendia ajudar Teddy, achando uma nova família para ele em algum país distante onde as garras de Voldemort ainda não tinham chegado.
Mas parecia apenas uma questão de tempo até que o mundo inteiro caísse na escuridão.
Uma figura mergulhada na escuridão observava de uma distância segura as janelas iluminadas fracamente por velas azuis.
Cabeça de Javali. Quem imaginaria. O último lugar em toda a Inglaterra que alguém pensaria em encontrar uma Weasley. E bem ao lado do castelo onde o Lorde das Trevas residia.
Ao menos tinha que admitir que se era incrivelmente estúpido se estabelecer bem debaixo do nariz do inimigo, também era estrategicamente genial.
Satisfeita com suas observações a figura aparatou para longe.
N/A: Thanks pelas reviews! Sobrevivi ao sétimo livro e felizmente continuo interessada em escrever fics, só espero que vocês continuem querendo lê-las :P
