Capitulo 2 – Notícias já esperadas, outras nem tanto.


Ela estava cansada. Céus, se cansaço fosse medido em área o seu seria equivalente ao tamanho da fodida China. Eram oito horas da manhã de uma segunda-feira e ela não dormia desde sábado. Apertou o botão no painel do carro e esperou que o portão de ferro batido abrisse, batucando os dedos no volante. Pelo menos, tinha só que informar seu irmão sobre as corridas do fim de semana e finalmente poderia ir para casa e dormir até terça-feira a tarde de preferência.

Ela estava cansada. Céus, se cansaço fosse medido em área o seu seria equivalente ao tamanho da fodida China. Eram oito horas da manhã de uma segunda-feira e ela não dormia desde sábado. Apertou o botão no painel do carro e esperou que o portão de ferro batido abrisse, batucando os dedos no volante. Pelo menos, tinha só que informar seu irmão sobre as corridas do fim de semana e finalmente poderia ir para casa e dormir até terça-feira a tarde de preferência.

Engatou a primeira e manobrou o carro, seguindo pela alameda rodeada de cerejeiras e parou em frente à enorme porta de carvalho. Desceu do carro e olhou ao redor, apreciando a beleza do jardim com seus bonsais bem cuidados e a grama excepcionalmente verde. Seus olhos correram pela fonte circular em meio ao pátio, onde dois samurais de pedra travavam seu combate em meio aos jatos d'água. Desviou os olhos rapidamente. Odiava aquela fonte. Detestava a casa inteira se fosse ser honesta, embora não pudesse negar que a casa e seus domínios eram projetos arquitetônicos muito bonitos e confortáveis. Pelo menos quatro gerações do Clã Takeshi haviam vivido ali e aumentado o complexo para o tamanho enorme que tinha hoje. Dinheiro nunca havia sido um problema, então não era de se estranhar que além da casa de dois pisos imensa e do jardim com lago para carpas, piscina, quadra poliesportiva e um estacionamento enorme, ainda tivesse uma garagem que acomodava facilmente trinta carros, mais um salão de festas, um salão de tiro, um ginásio de esportes totalmente equipado e um estábulo que abrigava os melhores cavalos puro-sangue do país.

Agradecia a Kami por não ser mais obrigada a viver ali. Havia muita gente morando no lugar, entre empregados, seguranças, jardineiros, subordinados do Clã e os próprios Takeshi ela sentia como se nunca pudesse estar sozinha em nenhum lugar, nem mesmo seus aposentos privados eram tão privados assim. Como neta do líder do Clã, ela tinha uma ala da casa inteira para si, assim como seus dois irmãos mais velhos, que ainda viviam na casa, mas o contínuo fluxo de serventes e seguranças lhe deixava sufocada. Com exceção dos anos em que sua mãe era viva, a permanência naquela casa sempre lhe significou tensão e normas tão rígidas e sufocantes quanto um quartel. Pior na verdade, porque no quartel em que ela serviu nos anos em que esteve no Exército ela se sentia muito mais a vontade do que naquele lugar.

Cumprimentou os empregados que encontrou enquanto seguia pela casa em direção aos aposentos privados de Yoshin. Pelo horário, seu irmão mais velho ainda estaria em casa, provavelmente já tomando o café-da-manhã. E ela preferia mil vezes tratar com ele de que com seu avô. Na verdade, o plano era sair antes sequer que o velho soubesse que ela estava na casa. Evitava o velho tanto quanto lhe era possível, e ainda assim o bastardo conseguia lhe arruinar os dias com uma frequência impressionante.

- Bom dia, Hime-sama. – o secretário de seu irmão a cumprimentou, com uma mesura respeitosa.

Ele era um homem alto, rosto anguloso com uma fina cicatriz na bochecha direita, olhos sérios, cabelo curto e corpo musculoso, enfunado num terno preto. E era também o principal guarda-costas de Yoshin e um homem de inteira confiança de seu irmão.

- Bom dia Kenji-san. Yoshin ainda está em casa? – perguntou ela enquanto o outro abria a porta e lhe oferecia passagem.

- Sim, está no salão branco tomando café-da-manhã. Zareshi-sama está com ele.

Ótimo, era só o que faltava. Se ter que enfrentar seus dois irmãos juntos numa segunda-feira as oito da manhã era um indicativo de como seria o restante da semana, então ela não queria nem saber o quão ruim o restante da bendita seria. Pelo menos o velho não estava junto.

- Bom dia Yoshin – ela cumprimentou, sentando-se à direita dele. – Bom dia Zareshi.

- Bom dia Inoue. – Yoshin respondeu, acenando para uma empregada que rapidamente colocou um prato junto com os talheres, uma xícara e uma taça em frente a ela. – Presumo que você ainda não tomou café.

Ela deu de ombros e se serviu colocando uma panqueca de chocolate e uma porção de maçãs no prato. Escolheu o suco de laranja ao invés do café. Não precisava de mais cafeína no momento. Tinha intenção de ir dormir logo.

- Acompanhei todas as corridas em Osaka sábado à noite, como você queria. Toshiro vai te passar os resultados mais tarde. Tem um piloto novo dos Ukira correndo. Já pedi para Toshiro dar uma examinada nele também. O cara é bom piloto, precisa de um pouco mais de treino talvez. – levou um pedaço de panqueca a boca e quase gemeu de contentamento pelo sabor perfeitamente equilibrado entre a massa doce e o chocolate amargo - Por enquanto está ficando na dele, não criou encrenca nem se enturmou muito. Correu aqui em Tóquio ontem à noite também. Não nas minhas corridas, as quais eu ganhei, por sinal. Aquele piloto dos Tara que você comentou também foi substituído, ainda não sei se definitivamente.

Ela tomou um gole do suco e olhou para Zareshi.

- Por certo, tua amante estava na pista ontem à noite. – Viu o outro enrijecer levemente. – Parece que Hanake Soji a quer de animadora das corridas. – acrescentou num tom zombeteiro.

- Inoue. – Yoshin a repreendeu.

- O que? Ele ia saber de todos os modos. Todo mundo estava cochichando sobre isso. A essa hora o Japão inteiro já sabe.

E Inoue confessava que ser ela quem entregava a notícia lhe dava uma pontinha de satisfação. Zareshi era absurdamente arrogante e achava que ninguém era melhor que ele em nada. Era bom que ele visse que as coisas não são bem assim. E ser trocado publicamente por uma modelo de quinta categoria era um bom chute no orgulho. A garota não lhe agradava também, então que seu irmão se livrasse dela era um bônus. Só tinha pena pelo Hanake, no geral ele era um homem agradável e ela não tinha certeza se ele sabia que a fulana que passou a noite toda pendurada nele esquentava a cama de Zareshi. Mas dado o histórico de rivalidade entre os dois homens, saber ou não era indiferente. Zareshi não compartia, nunca, e mesmo que a garota fosse só uma amante ocasional ele exigia exclusividade e agora tanto ela quanto Hanake estavam na mira dele. Pena por ambos.

- Enfim – Inoue deu de ombros e virou-se para o irmão mais velho – Vou para casa. Na quarta-feira tenho uma reunião com meu advogado e depois outra com o gerente do Princesa do Sul. Vou para Moscou na quinta à tarde. Você precisa de alguma coisa antes disso?

Ela colocou o guardanapo de linho azul-claro sobre a mesa e se recostou na cadeira, observando o outro mastigar calmamente.

- Tudo bem. – Yoshin respondeu, depositando os talheres no prato – Creio que aqui está tudo certo. Conseguiu um acompanhante para a recepção em Moscou?

- Não me lembro de ser obrigatório levar um. – Ela retrucou, arqueando a sobrancelha.

Yoshin deu um sorrisinho, olhando-a divertido. Adorava provocá-la. Embora soubesse que a relação entre ambos estava fazendo água por todo lado, Inoue ainda era sua irmãzinha e velhos hábitos custavam a morrer. Esperava sinceramente que ela encontrasse alguém que fosse capaz de mitigar aquela solidão dolorosa que via nos olhos dela. E que ela permitisse a essa pessoa atravessar a muralha que ela havia construído ao redor de si mesma. Conhecia-a quase tão bem quanto a si mesmo e embora ela fosse hábil em esconder seus sentimentos, ele podia ver que a moça não se sentia feliz. Céus, mesmo Zareshi podia enxergar isso e a relação entre seu irmão e Inoue era ainda pior que a dele com a garota.

Tinha especulado acerca do acompanhante porque sabia que ela tinha ido para Seul na semana anterior, depois de ir pessoalmente até Praga comprar uma partitura. E Yoshin não era burro, era evidente que a partitura era para o cara que ela foi ver na Coréia. Esperava que essa pessoa tivesse sucesso no que ele e Zareshi haviam falhado. Podia contar nos dedos de uma mão todas as vezes em que tinha visto Inoue sorrir honestamente nos últimos sete anos, sabia que se dependesse apenas da vontade dela ela iria embora e nunca olharia para trás.

E ele e Zareshi tinham combinado de não mencionar o assunto das idas esporádicas dela para Seul. Se ela quisesse que eles soubessem ou se o cara fosse um namorado ou algo assim ela mesma teria dito. Mas de novo, não era como se Inoue deixasse qualquer um dos dois saber da vida particular dela por vontade própria. Se eles perguntassem alguma coisa, Yoshin teria que dizer a ela que tinha posto uma pessoa averiguando aonde ela ia, e ela iria lhe arrancar o coração com aquela katana que tanto adorava por isso.

Mas diferente de seu avô, só fazia isso porque se preocupava com ela, não tinha nenhuma intenção de controlá-la ou meter o nariz em seus assuntos. Os Takeshi tinham inimigos complicados e ele queria sua irmã longe da linha de tiro tanto quanto possível. Outra razão para ver com bons olhos que ela demonstrasse um interesse maior em alguém novamente. Ele tinha medo que depois do que aconteceu anos atrás ela não fosse se arriscar novamente. E seria culpa dele e de Zareshi, outra vez, se isso ocorresse.

- Yoshin? Você está bem?

Ele piscou ao ouvir a pergunta e se alegrou ao ver a pequena pontada de preocupação nos olhos dela. Porque isso significava que ela ainda tinha algum tipo de consideração por ele. Fazia tempo que eles não mantinham uma conversa que não fosse sobre negócios ou sobre as vontades de seu avô. E tanto quanto ela odiava o velho, essas conversas eram sempre tensas e formais e depois de cada uma ele tinha a impressão de que o contato entre ambos esfriava ainda mais. Ele olhou para Zareshi e viu que o outro também tinha percebido o olhar dela.

- Sim, está tudo bem. Estava pensando sobre as reuniões que eu tenho hoje. Para as quais já estou atrasado. - ele levantou e puxou a cadeira para ela.

Ela o olhou, meio desconfiada, mas resolveu deixar passar essa. Não tinha intenção de se envolver nos assuntos de Yoshin a menos que fosse estritamente necessário. Levantou e seguiu os dois homens até a saída. Com um aceno de despedida entrou no brilhante Chevelle vermelho, quando alcançou a rodovia, pisou no acelerador pensando que de modo geral até que as coisas haviam saído muito bem para uma manhã de segunda-feira.


Definitivamente ele detestava acordar cedo. As manhãs eram do mal. Sem exceções. Maldito hábito de madrugar que seu pai tinha. Irritado, Woo Bin jogou a gravata amarrotada na bancada do imenso closet e pegou outra minuciosamente engomada da fileira, fazendo o laço com movimentos bruscos. Deu uma volta em frente ao espelho de corpo inteiro e ficou satisfeito ao ver que seu aspecto estava impecável, desde os sapatos de couro italiano até a gravata de seda pura. Seu pai não tolerava desleixo, independente da hora do dia que fosse. Como também não tolerava a impontualidade. Razão pela qual ele estava acordado e pronto para sair às oito horas da manhã de uma segunda-feira. Seu pai o havia convocado para tomarem café juntos e conversar sobre os recentes ataques que havia sofrido. Preferia fazer isso num horário decente, mas como Hyun lhe havia dito o horário não era opcional.

E ele não queria meter Hyun em problemas ainda maiores chegando atrasado. Além se ser seu secretário pessoal e guarda-costas, Woo Bin também considerava o homem como um amigo. Sabia que Hyun era indiscutivelmente leal a ele e agradecia profundamente ao homem por isso. Sendo franco Woo Bin sabia que se ainda estava vivo e numa peça só era em grande parte devido a Hyun. O homem era sensato, coisa que Woo Bin admitia não ser às vezes, e essa qualidade lhes havia salvado a vida inúmeras vezes.

Song pai havia posto Hyun como seu guarda-costas logo após Woo Bin ser sequestrado pela segunda vez, alegando que ele precisava de uma sombra competente e que tivesse pulso firme o suficiente para impedir Woo Bin de fazer tolices que fossem colocá-lo em perigo. E Hyun tinha levado a tarefa a sério. Não só o protegia desde que ele completou treze anos, como também o tinha ensinado a se defender por conta própria. Hyun ensinou Woo Bin a atirar e a lutar, assim como a entender as regras e o funcionamento do submundo que seu pai transitava e que ele estava incluído por tabela. Desceu as escadas e encontrou Hyun esperando-o na porta de entrada.

- Bom dia Jovem Mestre.

- Bom dia Hyun.

Ambos seguiram para o sedã preto que o motorista se encarregou de abrir a porta.

- Já sabem quem foi que me atacou dessa vez? – Woo Bin perguntou ao outro.

- Sim. Mas seu pai já cuidou do assunto. – Woo Bin fez uma careta e Hyun o ignorou – Um antigo funcionário que foi demitido por chegar repetidamente atrasado resolveu que seu pai precisava de uma "dose de humildade" como ele mesmo disse.

- Grande, e para isso ele precisava me partir as costelas? Por que ele não tentou atacar meu pai então? – Woo Bin perguntou sarcástico.

Hyun se permitiu um pequeno sorriso.

- Algumas lições são mais eficientes se o que se ataca é um ponto fraco do oponente.

Woo Bin rodou os olhos, exasperado.

- Porque obviamente eu sou um ponto fraco do meu pai.

- Você é. – o outro disse agora sério - Todo mundo sabe disso, mas também é uma jogada idiota, porque seu pai caçaria o responsável até no inferno se necessário. E todo mundo sabe disso também. Às vezes a retaliação só não compensa a satisfação do ataque. O problema é quando compensa. E é com esses que devemos ter mais cuidado.

Woo Bin assentiu, encerrando o assunto e olhou pela janela, observando a multidão de pessoas caminhando como formigas pela calçada, indo do metrô para onde quer que fosse. Passou em frente à loja de mingau em que Ga Eul e Jan Di trabalhavam e lembrou-se de ligar para Yi Jung e perguntar como iam as coisas. Yi Jung parecia meio deprimido desde que voltou da Suécia e ele tinha a leve impressão de que isso era devido a não-relação dele com Ga Eul.

Realmente, seus amigos eram idiotas quando o assunto era relacionamentos. Primeiro Ji Hoo se apaixonava pela garota que Jun Pyo amava, garota que antes gostava de Ji Hoo e agora era perdidamente apaixonada por Jun Pyo, e tanto Jan Di quanto Jun Pyo se sentiam culpados por estarem juntos e felizes enquanto ambos sabiam dos sentimentos do jovem médico. Depois Yi Jung se apaixonava por uma plebéia que afortunadamente era apaixonada por ele também, mas era covarde demais para admitir isso mesmo para si próprio, quem dirá para Ga Eul, razão pela qual ambos estavam nessa situação onde não estavam juntos, mas também não estavam livres, porque ela esperava que ele desse o primeiro passo dessa vez e ele não queria que ela procurasse outra pessoa, mas também não dizia a ela que a queria para si.

E logo estava ele. Sua última namorada o havia dispensado dizendo que estava cansada da sua bondade. De todos os motivos que ela poderia ter para reclamar foi justo sua bondade o que ela escolheu. Na época isso o havia deixado pasmado, pasmado e ferido, além de furioso. Agora, depois de ter o F4 de volta e pensar com calma no assunto, ele havia se dado conta de que ele sequer foi apaixonado pela garota e que ele havia compensado com ela a falta que sentia de seus amigos e o fato de que ele realmente se sentiu solitário sem eles. Logo, não era de estranhar que ele tivesse acabado sufocando a menina com seu excesso de atenção.

- Jovem Mestre, chegamos.

Desceu do carro e observou a imponente mansão onde seu pai morava. Sua mãe adorava aquela casa e mesmo depois de tantos anos que ela havia falecido Woo Bin ainda esperava ver a bela mulher descendo as escadas para recebê-lo. Observou com satisfação que as rosas que sua mãe plantara estavam sendo bem cuidadas, florindo graciosamente no jardim. Seu pai fazia questão de que tudo na casa permanecesse exatamente como sua esposa havia escolhido e isso incluía os jardins que ela própria cultivou. Nesse ponto Woo Bin sentia uma pequena pontada de inveja de seus pais. Era inegável que ambos se amavam profundamente e a morte dela tinha afetado seu pai ainda mais do que a ele. Seu pai havia se tornado quase neurótico com sua segurança depois que sua mãe havia levado um tiro.

Encontrou o Sr. Song sentado à cabeceira da mesa, esperando-o. Olhou o relógio sobre o console da lareira e viu que eram oito horas e trinta minutos em ponto. Viu o leve sorriso de seu pai ao ver o gesto e conteve a vontade de praguejar. Que bom que ao menos alguém estava se divertindo, pensou ainda meio irritado. Seu pai sabia que ele odiava acordar cedo, então só podia supor que o horário escolhido fosse proposital.

- Bom dia pai. – cumprimentou o moço, sentando-se à direita dele.

- Bom dia Woo Bin. Dormiu bem, eu presumo? – perguntou o mais velho, observando divertido a expressão irritada no rosto do seu único filho.

Sabia que o garoto odiava ser tirado da cama antes das dez da manhã. Mas ele queria verificar a condição de seu menino com os próprios olhos. Embora não fosse muito expressivo com seus sentimentos, o Sr. Song adorava Woo Bin e quase tinha tido um ataque ao saber que ele foi ferido numa emboscada, outra vez. E muito embora seu filho já fosse um homem crescido e pudesse cuidar de si mesmo não podia evitar manter um olho nele constantemente. Sabia que sufocava Woo Bin com seu excesso absurdo de preocupação e que o jovem Song detestava suas manias controladoras, mas simplesmente não podia perder ele também. Woo Bin era tudo o que restava de sua amada esposa e ele havia jurado para ela que cuidaria do filho de ambos. E cumpriria essa promessa custasse o que custasse.

- Sim, e o Senhor? – Woo Bin aguardou a empregada lhe servir o café e olhou novamente para o pai – e então, o que o desejava falar comigo?

O outro riu.

- Para que tanta presa? Tome seu café e depois tratamos de negócios.

Woo Bin ficou tenso. Isso não podia ser bom. Pelo geral seu pai não era um homem de rodeios, muito pelo contrário, era conhecido por ser franco quase ao ponto da rudeza. Só podia supor que fosse algo a ver com os assuntos dúbios do pai, e que ele definitivamente não tinha vontade de se envolver. Tomou o café em silêncio, observando a maneira relaxada como o pai mastigava suas torradas e decidiu que talvez, se ele tivesse sorte, não seria o que ele estava pensando.

- Primeiro, vamos ao mais importante – o Sr. Song depositou os talheres e se concentrou no filho. – Quero que você me diga exatamente o que aconteceu semana passada, quando te atacaram na entrada da Shinhwa.

E lá se foi a esperança de boa sorte. Suspirando, Woo Bin agarrou a xícara e tomou um gole do café puro, como lhe agradava.

- Desci do carro e três homens me atacaram. Levei um chute nas costelas. Uma garota me socorreu e eles saíram correndo. Fim da história.

- E por que raios você saiu sem Hyun ou algum dos outros?

Woo Bin escolheu as palavras com cuidado ao ver o olhar duro que o pai estava lhe dando. Não convinha ser impertinente quando o outro estava nesse humor.

- Hyun estava de folga, e eu não achei que alguém fosse me emboscar num lugar tão público e em plena luz do dia. No geral, tendem a ser mais sorrateiros e discretos que isso. – acrescentou sem poder evitar ser sarcástico.

- E quem é essa garota que te socorreu? – perguntou o mais velho curioso. De todo o assunto, essa era a única informação que ele não tinha. Por alguma razão qualquer, nenhum de seus homens conseguiu descobrir quem era a misteriosa mulher que ajudou seu filho.

- Por que o Senhor quer saber? – Woo Bin olhou o outro desconfiado. Não queria colocar a morena linda, como ele a chamava interiormente, em problemas.

- Por nada em particular. Só para agradecê-la.

- Não a conheço, ela é uma amiga de Ji Hoo que foi até a Escola procurá-lo. – ele respondeu, ainda sem dar muito crédito às palavras do outro.

- Do jovem Yoon? Ela tem um nome? – o mais velho arqueou uma sobrancelha, perguntando-se por que o garoto estava tão relutante em compartir informação hoje.

- Sim, se chama Takeshi Inoue. É japonesa.

Viu com curiosidade como seu pai ficar tenso, com o copo de suco a caminho da boca e se perguntou o que é que havia de errado para surpreender tanto ao outro.

- Takeshi? Tem certeza? E como era essa garota?

- Pai? Que passa com ela? – Woo Bin se preocupou.

- Responda primeiro Woo Bin. – demandou com voz séria. Não era possível que fosse o que ele estava imaginando. Takeshi não era um sobrenome tão incomum assim. Viu apreensivo o lento sorriso do filho. Conhecia esse sorriso. Era o sorriso que tinha dado a reputação de conquistador ao garoto. Praguejou mentalmente, já imaginando onde iria acabar a conversa.

- Espetacular. Morena, olhos e cabelo negros, rosto ovalado e umas pernas de infarto. O mais engraçado foi que ela tinha uma katana pendurada no punho. Nunca tinha visto alguém carregar uma coisa dessas na rua. E parecia muito competente no manejo dela.

Perdeu a expressão preocupada do pai ao sorrir lembrando a garota. Definitivamente pensava muito nela. Não sabia por que, mas não conseguia tirar a morena da cabeça. Lembrava perfeitamente do clak-clak dos saltos dela no piso do salão e da maneira melancólica que ela tinha acariciado as teclas do piano de Ji Hoo. E da hesitação dela antes de mandá-lo pôr gelo nas costelas. Tinha a impressão de que ela não era dada a dar conselhos a ninguém, muito menos a um completo estranho.

Falando em estranhos, também lhe deixou curioso o fato de ela nem sequer tentar descobrir quem era ele. Adoraria perguntar a Ji Hoo se ela tinha dito algo a seu respeito, mas não queria que o amigo pensasse que ele estava interessado nela. Demônios, eram as garotas que corriam atrás dele, não o contrário.

- Te mantenha longe dela.

- O que? - perguntou confuso.

- O que você sabe sobre a máfia japonesa?

- Não muito, só que está dividida em clãs menores que obedecem um clã principal. Mais ou menos como funciona aqui e na China. – Respondeu, continuando sem entender o que uma coisa tinha a ver com a outra.

- Exato. E quais são os clãs principais?

O clique em sua mente lhe desconcertou. Piscou os olhos e olhou para o pai, que o encarava sem desviar os olhos, analisando cada uma de suas reações.

- Os Xiung na China e os Takeshi no Japão, certo?

Merda. Era só o que lhe faltava. Que a morena linda fosse uma mafiosa. Pior, que estivesse tão próxima de Ji Hoo. Isso complicaria muito as coisas. Esfregou a testa, irritado. Com todo o esforço que fazia para manter seus amigos longe desse lado de sua vida, ia Ji Hoo e fazia amizade justo com ela.

- Sim. Os Takeshi comandam os negócios no Japão. E pela descrição que você me deu, essa garota não é qualquer uma, é a neta de Takeshi Renji, atual chefe dos Takeshi.

- Você a conhece?

- Não, mas conheci a mãe dela, uma mulher linda, muito parecida à descrição que você fez. E conheço Renji. Não é um homem que você gostaria de se envolver, mesmo no nosso ramo. Treinou os netos para assumir o lugar dele, já que a única filha morreu uns anos atrás. Pelo o que ouvi dizer, essa garota é muito próxima de Xiung Han, que é o herdeiro dos Xiung.

- Sério isso?

- Sim. O que me intriga é como o jovem Yoon se tornou amigo dela.

- Parece que ela sofreu um acidente aqui em Seul uns anos atrás e foi parar no hospital de Ji Hoo. Eles se conheceram lá. Pelo menos foi o que Ji Hoo nos disse.

- Entendo. – observou Woo Bin e decidiu que já era hora de que ambos tivessem uma conversa séria acerca do futuro. Sabia que o filho não queria assumir seu lugar na máfia, mas não é como se ele tivesse muita escolha. Assim como ele próprio não tinha tido. E Woo Bin teria que lidar com isso. – De qualquer modo, se você não quer acabar envolvido em problemas até o pescoço fique longe dela. Não quero uma disputa com os Xiung porque você resolveu arrastar asa para a garota do chefe deles. Fui claro?

- Ora pai, não é como se eu fosse ir atrás da garota. Vi ela uma vez só e duvido que vá ver outra.

- Bom, porque tanto quanto você não quer herdar meu lugar, se envolver com essa garota vai te arrastar direto para ele.

- Pai, você sabe que...

- Eu sei Woo Bin. Mas você também sabe que você não pode simplesmente dar as costas aos Song e a tudo o que isso significa. Se você quer cuidar só da parte legal do negócio, que seja, vou te dar isso, mas você também tem que saber o que está acontecendo no restante. Isso não é negociável. – disse cortando com um aceno o protesto do filho - Você precisa saber o que está acontecendo por uma questão de segurança Woo Bin, você é meu único filho, logo todo mundo espera que você tome o meu lugar. Se você demonstrar fraqueza ou hesitação, você está morto. Eu não vou viver para sempre. Você vai ter que criar sua própria reputação. Pode que você legalize todos nossos negócios um dia, mas você vai ter que fazer com que todos te respeitem, porque se um deles achar que você amoleceu, teus amigos e tua futura família vão pagar por isso.

- E o que você sugere então? Que eu mate todos que forem contra mim? – irritado, jogou o guardanapo na mesa e encarou o pai.

- Medo funciona tão bem quanto bondade Woo Bin. Cabe a você descobrir quando um é melhor que o outro. – entendia a indignação do filho, mas tinha que fazê-lo entender que nem tudo na vida eram rosas - Veja Hyun e teus empregados, por exemplo. Eles são leais a você antes que a mim. Para eles, você é o Príncipe Song, futuro líder do Clã, mas também é Woo Bin, o garoto pelo qual eles são responsáveis. Você não precisa amedrontar nenhum deles, porque a bondade com que você os trata já lhe garantiu a lealdade deles. Você tem a mesma habilidade que sua mãe.

Sorriu ao ver a surpresa no rosto do filho. Woo Bin realmente lembrava Eon Shi. Tinha a mesma bondade e coração generoso que sua esposa. E também tinha a dureza e inteligência dele. Por isso ele tinha certeza de que o filho seria um bom líder para o Clã e talvez conseguisse mudar os Song. Apostava nisso.

- Sua mãe também conseguia que os outros confiassem nela, assim como você. Mas simplesmente há pessoas que não entendem isso. Você vai ter que mostrar pulso firme em mais ocasiões do que você gostaria. Tem gente que só falar e ameaçar não resolve. E você sabe tão bem quanto eu disso. E você faz o que for necessário para proteger os seus, assim como eu.

Sabendo que não tinha como discordar do pai, Woo Bin baixou a cabeça, sopesando as opções.

- E então pai? O que quer que eu faça?

- A princípio, vou te deixar a cargo dos hotéis e dos cassinos. Vejamos como você se sai e tocamos a partir daí.

Viu seu secretário entrando e percebeu que estava na hora de ir para o escritório. Odiava chegar atrasado. Levantou-se e fez sinal para o filho o acompanhar até a saída. Parou ao lado do carro.

- Trabalhou muito bem na construtora nos últimos anos. Vou ajeitar algumas coisas e depois conversamos.

Woo Bin esperou o mais velho entrar no carro, surpreendido pelo elogio e fechou a porta para ele.

- Pai?

O outro abaixou o vidro.

- Obrigado por entender.

O outro só assentiu e fechou a janela. Observou o carro se afastar enquanto Bon Jovi começou a ressoar de seu bolso. Pegou o celular enquanto se dirigia ao próprio carro.

- Hey, Jun Pyo, o que passa cara?

Ouviu divertido o outro e assentiu, enquanto Hyun entrava atrás dele.

- Ok, ok. Estou indo para aí. Até mais.

Desligou o celular e ordenou ao motorista que seguisse para a casa de Jun Pyo.


Quando chegou à casa de Jun Pyo, Woo Bin encontrou todos já esperando-o. Cumprimentou a todos e franziu a testa ao ver o quadro desconfortável. Jun Pyo estava numa de suas crises de entusiasmo habituais, tagarelando com Yi Jung e Ji Hoo isolado fingindo cochilar numa poltrona. O que lhe chamou a atenção realmente foi Jan Di. Ela estava numa mescla de euforia com preocupação rara nela. Por mais explosiva e enérgica que a moça fosse pelo geral ela reservava seus arrebatos de energia para discutir com Jun Pyo. Ela era quase sempre muito educada e gentil com os demais e hoje estava andando de um lado para o outro como se não suportasse ficar sentada, entremeando a conversa a sussurros que mantinha com Ga Eul com olhadas de canto entre Jun Pyo e Ji Hoo.

- Bom, onde é o fogo, Jun Pyo? – perguntou querendo quebrar o gelo e descobrir por que foi chamado com tanta urgência.

- Fogo? Não tem nada queimando Woo Bin.

Woo Bin rodou os olhos.

-Eu sei idiota, é só um jeito de falar.

- Quem é idiota? Quer morrer? – retrucou o outro, zangado, com os demais rindo dele. – calem a boca já, que eu e Jan Di temos um anúncio a fazer.

Jan Di sentou ao lado do noivo e respirou fundo. Era hora.

- Eu e Jun Pyo temos um anúncio para vocês. Nós...

- Eu já disse isso. – cortou ele.

- Cale a boca Jun Pyo. Combinamos que eu falaria. – cortou ela, olhando de cara feia para ele. – Continuando, eu e Jun Pyo queremos contar para vocês que finalmente, nós vamos nos casar. – acrescentou com um grande sorriso, apertando a mão de Jun Pyo, que tinha um sorriso tão grande quanto o dela no rosto.

O primeiro a reagir foi Yi Jung, que levantou animado para abraçar os dois e felicitá-los. Logo Woo Bin e Ga Eul também foram abraçar os noivos.

O último a levantar foi Ji Hoo, muito consciente de todos os pares de olhos da sala cravados nele, observando suas reações. Com o sorriso suave tão característico seu, abraçou Jan Di e lhe desejou tudo de bom. Soltou-a um segundo depois e olhou para Jun Pyo, que o olhava sério.

- Não vou poder felicitar o noivo? – perguntou meio zombeteiro.

Jun Pyo sorriu largamente e abriu os braços.

- Parabéns meu irmão – Ji Hoo o abraçou – Seja muito feliz. De verdade. Vocês dois realmente merecem que tudo dê certo daqui pra frente.

Soltou-o e sorriu para ambos.

- E então, quando vai ser o casamento? – perguntou, sentando novamente e apoiando os pés na banqueta.

Ji Hoo observou Jun Pyo sentar animado, puxando Jan Di para o seu lado e sentiu uma leve pontada no peito. Ignorou o assunto e se concentrou em manter o sorriso no lugar. Ninguém precisava saber que seu coração tinha soltado todos os remendos e estava num doloroso quebra-não-quebra. Infernos, todos ali sabiam o que ele sentia de um jeito ou de outro, mas de nenhuma maneira ele arruinaria um dia tão especial para seus dois melhores amigos com seus choramingos. Sendo honesto consigo mesmo ele sabia que esse dia chegaria. Desde que Jun Pyo voltou dos Estados Unidos e fez a proposta à Jan Di ele esperava essa notícia. Só que não doía menos por isso.

Pescou palavras como padrinhos, férias e viagem e se obrigou a retornar a atenção na conversa.

- Então eu e Jan Di pensamos em passar as próximas duas semanas todos juntos. Faz cinco anos que nós não saímos de férias todos juntos e assim vocês como padrinhos podem nos ajudar a planejar a festa de noivado, que vai ser no fim do mês. Marcamos para esse fim de semana. Então, se tiverem algo pra fazer, desmarquem.

- E para onde vamos? – Yi Jung perguntou, divertido, vendo o entusiasmo de Jun Pyo.

- Suíça. Vamos ficar numa estação de esqui.

- Ótimo. Gosto de esquiar.

Ji Hoo abstraiu da conversa outra vez. Não tinha a menor vontade de passar duas semanas inteiras com o feliz casal. Adorava os dois, mas ainda doía vê-los juntos. Sabia que tinha que se acostumar com isso, porque essa seria uma constante no restante de sua vida, mas que difícil era isso. O pior era que não tinha como escapar da tal viagem sem mostrar que a notícia o havia abalado.

Vendo os demais, o que não entendia era por que Yi Jung não acertava logo as coisas com Ga Eul. Ambos estavam se olhando quando achavam que o outro não estava vendo desde que chegaram, com aquele desespero silencioso que não tinha razão de ser. Não era como se ambos tivessem algum real impedimento para ficar juntos, como o fato de um deles ser apaixonado por outra pessoa. Genial, transferir suas frustrações para seus amigos era tudo que precisava. Frustrado consigo mesmo, resolveu que necessitava um pouco de ar.

Saiu silenciosamente da sala, ignorando a mirada indagadora de Jun Pyo e resolveu sentar no jardim. Ficou parado olhando a fonte e deixou que as lembranças aflorassem. Quanto antes se livrasse delas, mais facilmente ele seguiria em frente. Ou isso pensava. Brincou uns instantes com o celular e um dos registros de chamada lhe deu uma idéia. Talvez ele não precisasse passar a viagem toda choramingando sozinho. Apertou o discar e torceu para que ela o atendesse.


PS: Referente à máfia, sua organização e clãs aqui não são reais, estou colocando-os como me convém para minha história.

Qualquer dúvida ou sugestões podem me encontrar no twitter como LannyZnask.

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