Gata Borralheira
O clima estava agradável naquela noite, com direito a uma sutil brisa fria, e o local estava parcialmente lotado. Os mais importantes convidados faziam-se presentes. Itachi subiu os degraus, de mãos dadas com sua esposa, enquanto eram conduzidos por um dos funcionários do lugar até a ala exclusiva do camarote, de onde eles tinham uma vista privilegiada e também panorâmica de todo o concerto. Trajando um terno Dolce & Gabbana cinza, o arquiteto estava deslumbrante, tendo seus longos cabelos negros penteados para trás e meticulosamente presos em um rabo de cavalo baixo, os calçados eram Ecco, bastante sofisticados tal como seu dono. Ao seu lado, e não menos resplandecente, Izumi vestia um Chanel longo marrom com um corte em V na perna esquerda e também um discreto decote entre seus seios, trajava luvas pretas, a cor preferida de seu marido e exibia com orgulho, o colar de rubis dado um dia antes, quando eles completaram três anos de casamento. Os olhos castanhos encararam as íris escuras do Uchiha, que sorrindo apaixonadamente ergueu a mão dela para o alto e depositou um cálido beijo em sua mão direita.
—Esse lugar foi uma cortesia de um velho amigo. — ele comentou discretamente, enquanto mais algumas pessoas juntavam-se a eles no camarote, há tantos metros acima do chão. Ele e a mulher estavam estrategicamente sentados na frente, como o combinado como o responsável por aquela surpresa. Ele particularmente não era um dos maiores devotos da música clássica, mas fazia o que estava em seu alcance para agradar a incrível mulher que tinha ao seu lado. — Você gostou? Devo parabenizá-lo?
—Sem sombra de dúvidas, esse lugar é majestoso! — ela exprimiu um suspiro encantado. — Você é o melhor marido do mundo, e eu o amo tanto. Sou muito grata.
Ele sorriu. Felizmente, ele não era idiota o bastante para dar ouvidos a Sasuke, que havia afirmado que mulher nenhuma gostaria de ganhar de presente de casamento ingressos para um concerto que poderia assistir a qualquer hora. Parando para analisar aquele conselho estapafúrdio, conteve-se em recusar todas as sugestões esdrúxulas do outro, enquanto de maneira sorrateira, ele deliciava-se com as expressões de contentamento da esposa.
Não tardou muito para que o concerto começasse, pontualmente as sete e quarenta e cinco, os musicistas apresentaram-se para o público antes de darem início. Era um verdadeiro fenômeno de cores, sons e Itachi estava fascinado com a disciplina que todos tinham, a sincronia e sintonia eram impressionantes e com toda certeza fatores determinantes para o futuro de qualquer ópera. Ele ajeitou-se em sua cadeira, apertando a mão da esposa de maneira carinhosa.
Os olhos castanhos de Izumi detinham de um brilho especial naquela noite. Fechou-os por um segundo, sorrindo enquanto sentia toda a emoção que era transmitida pelas notas, pelos acordes e especialmente pela voz dos cantores, tudo somado formava um excelente conjunto agradável aos olhos, ouvidos e principalmente ao íntimo da pessoa. Ela sempre se perguntava como as pessoas podiam ser tão ignóbeis ao ponto de desgostar de um gênero musical que, decididamente, poderia ser descrito como lírico.
Quando a apresentação teve fim, a senhorita Uchiha foi a primeira a pular de seu assento para ovacionar, muitíssimo emocionada, enquanto ao seu lado, o marido com uma expressão indecifrável aplaudia também, ora observando a reação exasperada da morena, ora de olho nos agradecimentos finais dos músicos. Minutos depois, o casal adentrava novamente o Maybach 2017 do arquiteto, que sempre fazia questão de dirigir quando estava com a sua mulher.
—O que houve? Você está distante desde o segundo ato, meu amor. — a morena levou uma mão até o rosto dele.
—Estou pensando no meu próximo projeto, apenas isso. — ele voltou a encará-la brevemente, antes de dar a partida em seu automóvel. Seguiram viagem em silêncio, algumas vezes tecendo comentários a respeito da apresentação e das expectativas sobre os cantores da ópera, além de relembrarem algumas das obras mais prestigiadas de Mozart.
De volta à mansão Uchiha, Itachi estacionou o carro na garagem e então desceu para abrir a porta para sua mulher. Abraçados, adentraram a mansão da família que estava parcialmente silenciosa.
Gargalhando, a loira jogou o corpo de um lado para o outro, com as mãos nos quadris, rebolava desinibidamente, os cabelos louros acompanhavam o ritmo de sua dança. Vestido uma calça jeans apertada e uma camiseta regata branca, a Yamanaka calçava saltos de dezessete centímetros e sua maquiagem complementava, ao invés de comprometer, sua beleza natural. Era sexta feira à noite e para alegria dos céus, havia conseguido folgar três dias seguidos. Ela ergueu as mãos para o alto e fora descendo, rebolando até o chão antes de subir novamente e caminhar, com o rosto e corpo banhados em suor, até Shino que estava do outro lado do bar.
—Por que você insiste em vir a esses lugares, se não é para se divertir? — ela perguntou, aos gritos, já que as caixas de som faziam a casa noturna literalmente estremecer.
—E quem disse que eu não estou me divertindo? — ele retrucou, abrindo um sorriso malicioso na direção dela. — Com licença, estou em um encontro! — exclamou e então apontou na direção de uma morena de cabelos preto-azulados que andava até eles.
Com um sorriso satisfeito e aceno de cabeça, Ino afastou-se, ainda rindo.
—Divirta-se, garanhão. — e logo voltou-se para a morena, com uma expressão intimidadora. — E você, cuide bem dele. O NAN é muito caro, então... — fugiu antes que Shino a jogasse uma garrafa de vodka.
Limpando algumas gotas de suor da sua testa, ela decidiu fazer o que sabia fazer de melhor: dançar como se o dia ou a noite nunca tivesse um fim. Era tão prazeroso aquela sensação de liberdade que, por alguns segundos, ela não conseguiu lembrar-se de Mikoto, nem daquela família asquerosa para quem trabalhava.
Ali era apenas ela, uma jovem sem muitas ambições e completamente livre de corpo alma e mente.
Rodopiou, rindo, continuou a dançar sem ver as horas passarem e quando dera por si, já era quinze para as duas da manhã.
Já deveria passar das duas horas da madrugada, quando Ino recobrou sua consciência. Estava devidamente bêbada e desalojada, de forma que não restava-lhe alternativa exceto voltar para a mansão da família Uchiha. Conhecendo Shino e, avaliando o perfil da garota que ele provavelmente encontrou pelo tinder, estava mais do que claro que a última opção viável era dormir no apartamento dele, quem dirá lhe pedir carona. A passos rápidos, ela pusera-se a caminhar. Tinha acabado de descer do ônibus da linha vermelha, uma das três que fazia diariamente o trajeto até aquele maldito lugar.
Fora surpreendida quando um carro parou ao seu lado e, ainda mais nervosa, estava pronta para gritar ou até mesmo sair correndo de salto, quando a janela baixou revelando a sua motorista demoníaca: Sakura.
—Bom, já que eu não encontrei uma lixeira reciclável, vai em você mesmo —e, dito isso, jogou sobre a loira algumas embalagens bastante reconhecíveis.
—Filha da puta! — gritou, ameaçando socar o vidro, entretanto a adversária fora mais rápida e dera a partida no carro saindo dali a toda velocidade.
Ino não hesitou antes de tirar o próprio salto e atirá-lo contra o veiculo, que infelizmente distanciava-se cada vez mais. Agora triplamente humilhada e com o corpo cheirando a esperma, ela permitiu-se gritar furiosamente, sem mesmo temer a possibilidade de um pervertido passar e cantá-la. Não importava.
Choramingando, afinal aquela era sua blusa preferida, a loira resolveu tirá-la e jogá-la na lata de lixo mais próxima que encontrara. Agora, vestindo apenas um sutiã roxo que escondia os seios fartos, obrigou o seu corpo a se movimentar mais depressa. Sentia-se uma vadia daquela maneira, mas então se lembrou das palavras da cretina medica de quinta. "Você deveria virar garota de programa!" como se ela também não tivesse sido instruída! Ao menos, nessa parte, os Uchihas não pecaram contra ela, a fazendo estudar desde pequena e somente ao completar seus quinze anos, é que começou a trabalhar. Aliás, esse era outro motivo que a impedia de deixar a mansão, ela precisava pagar de volta todo o investimento educacional. Afinal, se tinha uma coisa que ela havia aprendido com a vida e especialmente com aquela família era que nada vinha de graça. Absolutamente tudo na vida tinha um preço.
Estalando o pescoço, ela olhou para trás algumas vezes para ter certeza de que nenhum maníaco a estava seguindo. E com alguma dificuldade, mais alguns minutos depois, ela conseguiu chegar sã e salva, ainda que com os seios de fora, até a casa. Estava se dirigindo ao seu quarto, que ficava do outro lado do corredor, próximo a lavanderia, quando as luzes da cozinha foram acesas, revelando a face de um Sasuke sonolento.
Imediatamente ela corou, tratando de cobrir os seios com os enormes cabelos, enquanto o patrão andava de maneira distraída em direção as geladeiras.
—O que aconteceu com sua blusa? — questionou, sem virar-se para encará-la. Ele pegou uma garrafa d'água e retirou a tampa, bebendo a gargalos.
—Um terrível incidente. Eu sinto muito, senhor Sasuke, cheguei muito tarde e ainda mais vestida dessa maneira, sei que isso provavelmente é motivo para justa causa e...
Rindo energicamente, o Uchiha parou de beber água subitamente, entregando-a á garrafa.
—Ei, relaxe. Você fala demais e ainda por cima está bêbada. — ele sorriu amigavelmente. — Não precisa se justificar para mim, Inozinha. Apenas vá para seu quarto e tome um banho antes de dormir, certo? Odiaríamos que minha mãe a flagrasse nesse estado.
Ela sorriu, profundamente aliviada e grata pela atitude inesperada do moreno. Por fim, ela riu também, constrangida, enquanto bebia um pouco d'água.
—Sasuke... Obrigada.
—Não precisa me agradecer, somos amigos certo? Quer dizer, lamento ter te empurrado na piscina daquela vez... Mas enfim, você deveria mesmo tomar uma ducha gelada agora, está muito bêbada.
A loira meneou a cabeça afirmativamente, já deixando a cozinha e andando em direção ao seu quarto, quando um detalhe deveras importante passou pela sua cabeça. "Se o Sasuke está em casa, e estava dormindo até agora, com quem aquela songa monga estava?"
Ignorando esses pensamentos em decorrência do sono, resolveu esquecer aquele assunto por hora e focar em seu descanso. Seu corpo estava implorando por uma boa noite de sono.
Ela acordou dez minutos mais cedo naquele dia, para compensar a sua chegada triunfal na noite passada, diga-se de passagem. Começou a limpar a parte debaixo da casa, encontrando somente Karui. Apreensiva, ela a questionou a respeito, foi quando a angolana a explicou que Chouchou não estava se sentindo muito bem e pedira para ir ao médico. Atordoada, desejou melhoras á irmã da amiga e cobrou atualizações sobre o estado de saúde da mesma. Em seguida, a dupla dividiu parte das tarefas, visto que o lugar era enorme, e os demais empregados só deveriam chegar pela tarde.
—Oh céus, por que não fiz aquele curso de costureira? — perguntou fitando o teto por alguns segundos, antes de recomeçar a varrer o corredor.
—Já está de pé há essa hora, garota? — Fugaku era tão silencioso ás vezes, que a loira chegava a esquecer que ele morava ali. Virando-se, ela fez um cumprimento educado, vendo-o abrir um sorriso divertido. — Não deveria trabalhar tanto assim, Yamanaka.
—Bom, se eu quiser mesmo tirar algumas férias, infelizmente tenho sim, senhor Uchiha. — ela sorriu divertida. — Bom dia para o senhor. Está indo para o trabalho?
—Hoje não, preciso resolver algumas pendências críticas na cidade. — explicou categoricamente. — Você já fez o desjejum garota? — quando ela abriu a boca, ele acrescentou, sem dar-lhe tempo de responder verbalmente — Venha comigo, hoje você irá me fazer companhia. Afinal de contas, como todos sabemos, Sasuke não deve despertar antes das três da tarde e Mikoto está fazendo algum ritual de embelezamento.
Ino riu e suspirou com dramaticidade.
—Receio que não, senhor, como diz a senhora Uchiha "o chão não vai se varrer sozinho".
—Deixe de besteiras, você e seu pai costumavam fazer todas as refeições conosco, acaso não se lembre. — ele arqueou a sobrancelha e então indicou com a cabeça de que ela deveria segui-lo.
Vendo-se encurralada pelo excesso de gentileza do patrão, a loira o acompanhou. Não era todos os dias que ela era tratada daquela maneira, até porque, para seu desalento, Fugaku passava mais dias dentro de sua empresa do que dentro da própria casa. Mas, com uma mulher tão fútil e desagradável quanto Mikoto, parecia a única opção, de fato.
O patrão convidou não somente ela, como também Karui, a juntar-se a ele, e os três serviram-se, sem depender de outros empregados, em meio a conversas, completaram o desjejum envoltos por uma tranqüilidade que sabiam que não possuiriam com a presença dos demais membros da família. Fugaku despediu-se de maneira cordial das garotas, pedindo que não fizessem além do necessário dentro da casa e então deixou a residência, para resolver os seus compromissos emergenciais.
Quando a carruagem voltou a ser abobora, e ambas as duas arrastadas de volta a cruel realidade que as cercava, ocuparam-se com seus afazeres um tanto quanto satisfeitas pela maravilhosa variedade de pães e outras delícias que haviam provado.
Por volta das três horas da tarde, quando o almoço já havia sido servido, a loura preparava-se para retornar ao seu cômodo, para descansar.
—Ino, querida, por que você não conta para a sua patroa o que você estava fazendo na rua até tão tarde na noite anterior? — indagou Sakura, sentada no sofá, de costas para a doméstica, que parou de andar rapidamente, inspirando fundo. Do outro lado do sofá, Mikoto retirava os óculos de leitura, interessada.
Até mesmo Izumi, que normalmente era chamada de 'planta' por não fazer nada além de compras fora de casa, ergueu a cabeça para assistir o desenrolar da cena.
—Sim, se não me lembro bem eu lhe dei o fim de semana inteiro de folga — observou Mikoto, desconfiada. Os olhos azuis fuzilaram, sem delicadeza alguma, as costas esguias da rosada.
Ela abriu e fechou a boca diversas vezes, preparada para responder que o que fazia fora dali era problema inteiramente seu, mas, o bom senso a impediu de ser tão cretina na frente da víbora-mãe.
—Fui dançar com um amigo meu e, precisei voltar para casa mas... Aconteceu um imprevisto e...
—Ela voltou com os seios de fora, parecendo uma completa vadia. — emendou Sakura, repousando a xícara de volta ao centro da mesa e cruzando as pernas de nadadora, com o seu melhor olhar teatral. — Eu acho que a coitadinha levou a sério o meu conselho de virar garota de programa. — ela sorriu, vitoriosa, ao ver a outra empalidecer.
—Isso é verdade, Yamanaka? — Mikoto a analisou.
Constrangida, a loira negou com a cabeça.
—Então por que motivo você voltou para casa com os peitos de fora? — inquiriu, estreitando os olhos.
—Ah, cale a boca. — a voz de Sasuke ecoou alta pela sala. — O que ela faz do portão para fora não diz respeito a ninguém aqui, principalmente a você Sakura, já que não é a dona desta casa e não é você quem paga o salário dela.
A loira deixou que um sorrisinho cínico brotasse em seus lábios, encarando a rosada. Então, o Uchiha, prostrado ao lado dela continuou, em tom duro:
—Quanto a você — ele virou-se para a Yamanaka. — Preciso que faça aquela torta de maçã, é uma emergência intestinal.
Rindo, prestes a chorar de alívio, a loira assentiu.
—Sim, senhor Uchiha, é para já.
Assim que ela saiu, Sakura levantou-se, cada vez mais estupefata.
—Como você se atreve a defender essa aprendiz de puta, Sasuke? Eu sou sua noiva! Você deveria ficar do meu lado!
—Pensei ter dito para você calar a boca. — ele irritou-se. — Ino e eu fomos criados juntos, ela é praticamente minha irmã e eu não vou tolerar que a trate dessa forma, então, cuidado Sakura. E, ah — estalou os dedos, parecendo se lembrar de algo. — Por que você não conta para a minha mãe, o que você estava fazendo na noite anterior? Tenho certeza de que ela vai adorar os detalhes cabeludos.
