"Heróis nascem heróis
Ídolos são fabricados."
(Golden boy – Natalie Merchant)


Apocalipse, Please
Por Dana Norram

—X—

Capítulo Dois: A Donzela de Ferro

—X—

Não importava que nenhum único archote estivesse aceso no longo corredor que dava acesso à Ala Norte da mansão. Draco Malfoy já fizera aquele caminho tantas e tantas vezes que acabara o decorando por completo. Mentalmente, enquanto dava passos curtos e arrastados, o bruxo ia formulando frases e sentenças, palavras chaves que poderiam lhe ser úteis. Um incauto observador talvez pensasse que Draco estava prestes a ser interrogado sobre algum crime que cometera, quando, na verdade, ele só se preparava para enfrentar Narcissa Malfoy.

Draco sabia muito bem que não poderia fazer a mãe mudar de idéia, não importava o que dissesse. Mas ele precisava tentar ou jamais ficaria em paz com a própria consciência.

O ruído de seus passos morreu repentinamente quando Draco alcançou um feixe de luz amarelada que escapava pela fresta de uma enorme porta de madeira. Ele inspirou fundo, o braço erguido sobre o batente, pensando se não deveria simplesmente dar as costas, tomar o caminho de seu próprio quarto e dormir. Já que não havia nada o que se fazer, poderia deixar para quando amanhecesse, certo? Sua consciência não o mataria da noite para o dia, afinal.

"Entre, Draco, está aberta." Veio a voz abafada, e o loiro soltou um palavrão baixinho.

'Como ela faz isso?', ele se perguntou ao mesmo tempo em que abria a porta com um estalo baixo, protegendo os olhos por reflexo. Passara tanto tempo andando a esmo por aqueles corredores escuros que se desacostumara à claridade.

"Venha. Chegue mais perto para dar um beijo na sua mãe."

A voz de Narcissa continuava a mesma que Draco se lembrava de quando era criança. Doce, tranqüila e cuidadosa. Ele espiou pelas frestas dos dedos que mantinha sobre os olhos e abaixou as mãos devagar, inconscientemente admirando o rosto de sua mãe.

Narcissa encontrava-se deitada na enorme cama de dossel que pertencera ao marido, as costas apoiadas em inúmeros travesseiros. Seus cabelos loiros presos numa única e longa trança que descia graciosamente sobre seus ombros. O rosto era tão pálido quanto o do filho, mas possuía contornos mais suaves, levemente arredondados. Os implacáveis olhos azuis eram grandes e vívidos, tornando as minúsculas rugas que os rodeavam quase imperceptíveis. Apenas suas mãos magras e finas denunciavam os cinqüenta e dois anos que possuía. A postura continuava firme e ereta. Aristocrática. Havia um ar de indiscutível sabedoria exalando de sua figura. Não havia como negar que a velhice caíra muito bem em Narcissa Malfoy.

"Mãe." A bruxa inclinou o rosto de leve quando Draco se curvou ao seu lado, lhe dando um beijo na bochecha direita. "Está precisando de alguma coisa?" Ele perguntou quando endireitou o corpo, evitando olhar nos olhos dela. Draco às vezes se perguntava se sua mãe tinha alguma perícia em oclumência. Não que isso fizesse diferença. Ele nunca conseguira mentir para ela, de qualquer forma.

"Você é gentil." Narcissa abriu um sorriso, revelando uma fileira de dentes muito brancos. "Mas não, obrigada, já me recolhi há algum tempo. Estava só lendo, esperando você chegar."

Narcissa indicou um livro de capa de couro de dragão ao seu lado, e Draco imediatamente reconheceu o título em letras douradas. Era um dos livros que seu pai costumava ler sempre que tinha tempo, algo sobre técnicas de administração, se não lhe falhava a memória. Bem técnico. Draco não se perguntou por que aquele tipo de literatura poderia interessar a sua mãe, pois ele conhecia muito bem a resposta.

A morte de Lucius fora um grande golpe para Narcissa Malfoy, em vários graus. Havia se passado pouco mais de um ano desde a derrota do Lorde das Trevas, e Lucius já tinha conseguido recuperar boa parte de seus contatos políticos e, conseqüentemente, de seu prestígio. Tudo caminhava num ritmo quase tranqüilo. Novas alianças feitas e muitas antigas sendo reatadas. Claro que seu pai pretendia retomar o antigo status que pertencia aos Malfoy, embora ainda houvesse um longo caminho à sua frente.

Mas Lucius não tinha pressa. A temporada do pai em Azkaban havia lhe ensinado que tempo era justamente a maior arma que se poderia oferecer a um inimigo. Dando-lhe tempo, essas foram as palavras dele, você também lhe dava desejo de superação. Dava-lhe espaço para pensar qual seria a melhor forma de retribuição. Durante os dois anos em que ficara encarcerado, Lucius decidira que, se saísse vivo de lá, não voltaria a ser fiel a ninguém além da própria família.

Os contatos certos lhe garantiram a segurança de que precisava para sobreviver ao caos da guerra, àquele período negro em que a contagem dos mortos normalmente apagava qualquer vestígio de esperança do ar. E, no final, Lucius fizera aquele acordo que o Ministério tanto evitara e, graças às suas informações, eles puderam se gabar de ter prendido um comensal ou dois, acalmando assim a população ávida por colocar a culpa em alguém. Em meio a tantos indo e vindo da ilha-prisão, o nome de seu pai não fez real diferença na balança e, quando a guerra finalmente acabou, Lucius Malfoy estava livre de qualquer acusação formal. Todos, afinal, tinham direito a uma segunda chance, como os advogados da família fizeram questão de frisar.

Mas, de longe, o que realmente espantou Lucius foi descobrir que seu plano de vingança seria muito mais simples de se executar do que imaginava. De fato, seria também infinitamente menos prazeroso. Sobretudo porque não havia sentido medir forças com alguém que simplesmente jogara a toalha ao primeiro toque do gongo, ele dissera a Draco alguns meses depois de voltar para casa.

Várias vezes seu pai se perguntara se valia a pena botar seu plano em prática, acabando por se decidir pelo sim. Sim, Lucius Malfoy decidiu que deveria aproveitar enquanto Harry Potter ainda era um rapazinho que não contava com nada mais do que um pouco de sorte na vida. Enquanto não reivindicasse o posto de salvador do mundo bruxo, Potter era como um grande e iluminado alvo, implorando para ser atingido. E não, seu pai nunca pensava em matar Potter. A morte só o transformaria num mártir, em uma idéia. Uma idéia que jamais morreria com ele.

O que seu pai precisava era virar a mesa. Transformar Potter em algo que, aos olhos do mundo bruxo, seria uma ameaça em potencial. E, claro, Lucius Malfoy precisava de alguém para estar à frente disso quando a sociedade se visse mais uma vez desesperada, sem referência alguma onde se apoiar. Alguém com um nome forte, apoiado pelas pessoas certas e com uma boa fortuna para convencer bruxos menos esclarecidos. Lucius seria a pessoa ideal para essa função, claro, mas seu passado depunha contra ele. Era uma mancha que não poderia ser apagada do dia para a noite.

Curiosamente, a idéia de usar a sua figura jovem e praticamente imaculada viera da própria Narcissa, que de pronto assumira a tarefa de continuar com o plano de Lucius, quando este se fora de forma tão trágica.

Sozinha, sua mãe marcara encontros, firmara contratos e tomara as decisões necessárias a fim de garantir o futuro que o pai queria para o filho. O futuro que Lucius não pôde ter, mas que Draco teria, ela não se cansava de repetir. O nome Malfoy voltaria a ser grande no que dependesse de Narcissa, e Draco sabia que sua mãe fizera muito mais do que isso. Ela tinha se superado.

Obviamente apenas as circunstâncias que envolveram a morte de seu pai abriram o caminho pelo qual Narcissa decidiu seguir, mas era aí que estava o grande mérito das ações dela. Transformar uma tragédia aparentemente sem solução na maior cartada que ela poderia lançar sobre a mesa de um jogo perdido. Draco, apesar de às vezes se sentir como uma simples peça num tabuleiro, precisa admitir que estava orgulhoso de sua mãe.

O dia seguinte ao falecimento de Lucius Malfoy encontrou o mundo bruxo em polvorosa. E o motivo não era a ironia de um ex-condenado arrependido encontrar a morte pelas mãos daqueles que um dia foram seus aliados. Não era, porque nunca se conheceu a verdadeira face dos fatos. A razão de tamanha comoção foi o emotivo discurso que sua mãe preparara para o enterro de Lucius, mas que ficou conhecido pelo tom sóbrio e pelo pesar impregnado na sua própria voz. Cada palavra cuidadosamente escolhida ficou gravada na mente dos presentes, que por sua vez as repetiram a familiares e amigos. Em pouco tempo, a notícia se espalhou.

Para boa parte da sociedade bruxa, agora, graças à sua imagem do filho desolado, os Malfoy não passavam de outra família vítima do Lorde das Trevas, fragilizada pela guerra e pelo desespero. Afinal, quem era o Lorde se não um mestiço, igualzinho àquela quem matara seu pai? Um mestiço que se deslumbrara diante dos poderes que nunca fora preparado para compreender? Era agora o trabalho dele, de Draco, como um puro sangue legítimo, impedir que outra ameaça surgisse. 'Os trouxas', ele dissera em seu discurso, a voz levemente embargada, 'mais uma vez trouxeram o pesadelo da inquisição para dentro do mundo bruxo, desta vez se valendo do pior dos artifícios: um igual. Sem saber em quem confiar ou acreditar', continuara Draco, 'nós lutamos uns contra os outros. Nós deixamos que o sangue impuro dele, que sua ignorância, aliada ao desejo de ser alguém que nunca poderiam ser, machucasse e destruísse nossas famílias...'

E Draco vira Narcissa Malfoy sorrir por trás de seu véu negro, orgulhosa do filho que seria maior do que o pai.

Afinal, Lucius obviamente fizera algumas escolhas erradas, que Narcissa, em seu papel de esposa, aceitara em silêncio. Mas Draco sabia que agora seria diferente. Narcissa exerceria nele uma influência que jamais teria funcionado com seu pai. Sua mãe se valeria do fato de Draco ser em parte ela. Uma parte que Narcissa traria à tona. Que guiaria e encheria de conselhos.

Conselhos estes que o trouxeram até aquele instante.

"Imagino que tenha conversado com Blaise, não estou certa, meu querido?"

Draco piscou algumas vezes antes de se voltar para a mãe. O rosto dela o mirava com graciosa atenção, e tudo que ele pensara, todas as palavras e frases escolhidas se esvaeceram de sua mente como que por encanto. Ele sabia que jamais a convenceria. Aliás, sempre havia a probabilidade de Narcissa fazê-lo mudar de idéia, apresentando o problema sob uma ótica que ele não havia pensando até então. Fora um erro visitá-la, ele sabia disso.

Mas não podia voltar agora. Draco a encarou, tentando sorrir diante da máscara de ferro que na verdade era o rosto de porcelana de sua mãe.

"Sim. E imagino que você saiba minha opinião. Eu não acho isso certo."

E Narcissa sorriu. Sorriu de verdade, sem os artifícios costumeiros. Desprovida de sua postura rígida ela abriu os braços, puxando o filho por uma das mãos até que ele se aninhasse em seu peito. Draco arregalou os olhos imediatamente, sem ter coragem de fugir do abraço do qual tanto sentira falta.

"Ah, meu querido. Querido, eu entendo. Eu entendo." Disse Narcissa ao mesmo tempo em que acariciava os cabelos do filho, soltando-os do rabo de cavalo. "Sei o que você deve estar pensando: 'aquelas pessoas estão praticamente mortas, por que fazer isso com elas? O que vamos ganhar? E se der tudo errado? Por quê? Pra quê arriscar?'"

Draco soltou um suspiro e fechou os olhos, retribuindo o abraço de sua mãe. Sim, ela o entendia, ou ao menos, sabia melhor do que ninguém o que ele estava pensando. Talvez, talvez não tivesse sido uma idéia tão ruim assim vir vê-la. Talvez sua mãe lhe fizesse ver o que ele não conseguia. Fizesse-o entender por que a idéia de dar um fim definitivo aos pacientes da Ala Fechada do St. Mungus não era absurda, muito menos errada.

"Mas nada vai acontecer, você verá, meu bem. Na pior das hipóteses, faremos Potter sair da toca, certo? E aí daremos um jeito nele de uma vez por todas. E você terá seu caminho livre..."

Draco prendeu a respiração, se perguntando se sua mãe fazia idéia o quanto ouvir aquele nome lhe perturbava.

"Mas-"

Narcissa puxou Draco pelos ombros, fazendo com que ele a encarasse. Olhos azuis fixos nos cinzas. O sorriso da face dela não esmoreceu, pelo contrário, se ampliou. Narcissa segurou o rosto do filho entre suas mãos magras, apertando-o com delicadeza.

"É a oportunidade que precisávamos para nos livrar delas. A enfermeira infiltrada no St. Mungus diz que as duas têm tido momentos de lucidez e nós não queremos isso, certo?"

"E por que não apenas uma...?"

"Porque levantaria suspeitas, querido, você sabe disso. Uma coisa é baixar um decreto que talvez até venha incomodar algumas pessoas, mas, bem, como isso não as atinge de verdade, logo elas irão esquecer, certo? Outra é tentarmos tirar um proveito óbvio de uma situação como esta. As pessoas precisam pensar que é uma decisão difícil para nós também. Que iremos sair prejudicados, mas que estamos fazendo tudo em nome de um bem maior."

"A senhora não acha que as pessoas podem pensar que agir assim é, digamos... desumano?"

Narcissa apertou com mais força o rosto do filho entre suas mãos. Ela ainda sorria.

"Não é desumano matar quem já está morto, querido, é misericordioso. Apenas diga às pessoas o que elas querem ouvir e tudo ficará bem."

"Mas não faz parecer que estamos tentando controlar a vida delas?"

O sorriso que Narcissa ostentava esmoreceu por um mísero instante e em seu lugar outro sorriso surgiu. E Draco viu nele o tipo de força que definitivamente não vinha dos Malfoy, mas dos Black. O tipo de força que fazia de sua mãe alguém muito mais implacável do que seu pai. E ele engoliu em seco, desejando não ter feito aquela pergunta, pois sabia que a resposta seria definitiva e indiscutível.

"As pessoas gostam de controle, meu querido, não se iluda do contrário. Se sabem que estão sendo controladas, elas se sentem seguras." Narcissa então afrouxou o aperto em Draco, dando-lhe palmadas sem força na sua face pálida. "E isso sim é poder. Mostre a essas pessoas que você está aqui para protegê-las, para mantê-las em segurança. Que você, meu filho, irá assumir o controle da vida delas, se for necessário."

X—

Harry sabia que estava sonhando, afinal, aquela não era a primeira vez em que ele era obrigado a enfrentar seus fantasmas internos sob a forma frágil de Ginny Weasley.

Mas esse era diferente dos pesadelos anteriores. No sonho, ele não tentava salvá-la e era impedido por forças invisíveis que o seguravam parado no lugar. Sequer foi repetida a já conhecida imagem de sua própria figura se atirando na frente do feitiço que a mataria. Desta vez, Harry se via parado na entrada de gringotes, escutando as vozes de dezenas de bruxos ecoando pelas paredes de mármore e o bater incessante das balanças onde Duendes pesavam moedas de ouro e prata. Devagar, ele caminhou na direção de um dos balcões, uma das mãos dentro do bolso interno das vestes, sentindo o pedaço de madeira entre seus dedos.

Ginny encontrava-se junto à superfície lisa, seus braços esbeltos apoiando o rosto, os cabelos longos e vermelhos caindo sobre as costas levemente arqueadas enquanto ela dizia algo para o duende que a atendia. Desta vez, Harry não gritou para que ela se protegesse porque alguém estava ali para matá-la. Ele se aproximou em silêncio, parando atrás de Ginny, a varinha firme em sua mão, mas quando a sua figura fez menção de puxá-la para fora, uma voz chamou seu nome:

"Potter!"

Harry voltou o pescoço e viu, parado em meio à pequena multidão que circulava em Gringotes, a figura pálida de Draco Malfoy. Ele, porém, não se parecia em nada com o Draco jovem e amedrontado que uma vez Harry vira abaixar a varinha. O homem parado no meio da multidão tinha o rosto adulto de alguém que passara por muita coisa em pouco tempo e mesmo assim tentava fingir que nada de ruim lhe acontecera. E quando se aproximou mais, Harry percebeu que todos os presentes da multidão possuíam o mesmo rosto de Draco, como se usassem máscaras, como se tentassem se passar por ele.

"Harry?"

Harry voltou-se para onde Ginny estava e sentiu seu sangue gelar, porque no lugar da face sardenta e sorridente da caçula dos Weasleys, estava mais uma vez o rosto de Draco. O mesmo Draco dos cartazes espalhados por todo banco que o encaravam com desprezo. Harry puxou a varinha, apontando-a na direção de Ginny. Não, aquela não era Ginny. Aquele era Draco, o responsável pela sua desgraça. Pela desgraça de seus amigos, de seu afilhado...

O bruxo moreno ergueu o braço, a varinha em riste pronta para atacar e ninguém se mexeu ou tentou impedi-lo quando a maldição da morte saiu de sua boca e explodiu na forma de um clarão de luz verde. Harry então se aproximou da figura caída, cuja máscara que estava sobre o rosto se quebrara em mil pedaços. E ele sentiu a boca secar ao se dar conta de que o corpo tombado não era o de Draco Malfoy. Tampouco o de Ginny Weasley.

Era de si mesmo.

"Harry!"

Harry abriu os olhos de repente, sentindo-se preso e sem ar. Seu coração batia tão forte que parecia querer explodir o peito que o aprisionava. O ar entrava e saía com dificuldade, e ele precisou de quase um minuto inteiro para se dar conta de que tinha acordado e estava num dos quartos dos fundos do Caverna do Dragão. Segurando seus braços com força encontrava-se a figura imponente de Kingsley Shacklebolt e parado, de pé, ao lado da cama, a expressão que tomava conta do rosto de Remus Lupin era de preocupação.

"Harry, você está bem?"

Sem forças para falar, Harry balançou a cabeça e puxou os braços, para que Shacklebolt o soltasse. O bruxo negro lançou um olhar a Lupin, que concordou com um aceno, os olhos castanhos fechados. Ao se ver livre, a primeira coisa que Harry fez foi procurar por seus óculos na mesinha de cabeceira e secar o suor que se acumulara em sua testa. A cicatriz não doía, o que era longe de ser um consolo.

"Você estava gritando, Potter. Remus me chamou quando não conseguiu acordá-lo. Tem certeza de que está bem?" A voz profunda de Shacklebolt ecoou pelas paredes do pequeno quarto quando ele se levantou, parando ao lado de Lupin. Harry fez um novo aceno, ainda respirando rápido.

"Quanto tempo eu dormi? Que horas são?"

Ouviram-se vozes do lado de fora. Lupin e Shacklebolt trocaram um rápido olhar, e o bruxo negro deu as costas para a cama e saiu do quarto, fechando a porta com cuidado ao passar.

"Foi alguma coisa que eu disse?" Perguntou Harry, estranhando a atitude do outro bruxo. Lupin balançou a cabeça e sentou-se na cama, ao lado de Harry.

"Não. Kingsley só voltou ao bar. Estamos cheios hoje." Respondeu Lupin com tranqüilidade. "Mandei uma coruja a Hermione mais cedo, avisando que você dormiu por aqui, para eles não se preocuparem."

Harry concordou com um aceno e enfiou os dedos nos cabelos, tirando a espessa franja da frente dos olhos. O ritmo de seu coração se acalmando aos poucos.

"E para sua informação, rapazinho, são quase seis horas da tarde do dia primeiro de novembro e você apagou pouco antes de fecharmos o bar, às cinco da manhã." Disse Lupin com um pequeno sorriso ao que Harry arregalou os olhos. Tinha dormido quase doze horas seguidas!

"Eu fiz alguma idiotice?" Perguntou Harry enfiando o rosto nas mãos novamente, uma dor de cabeça bem familiar começando a se alastrar.

"Nada grave." Respondeu Lupin, dando pequenos tapinhas nos ombros de Harry. "Só ameaçou azarar Kingsley quando eu pedi que ele o trouxesse para cá. Você não estava muito disposto a ser carregado, sabe?"

Harry soltou um risada meio contida, fazendo uma anotação mental para pedir desculpas a Shacklebolt mais tarde. O ex-auror vinha sendo muito bom para Lupin, afinal. Harry não conseguia pensar em ninguém mais indicado para ser segurança do Caverna do Dragão.

"Está com fome?" Perguntou Lupin, fazendo com que Harry o encarasse. "Por que não toma um banho enquanto vejo o que posso arranjar na cozinha? Ainda temos o resto do cordeiro que Kingsley trouxe na terça e acho que o gosto continua bom, o que você me diz?"

Com um aceno e um pequeno sorriso, Harry concordou e estava começando a se levantar da cama quando a porta se abriu novamente. Shacklebolt tinha voltado e parecia decididamente transtornado com alguma coisa. Numa das mãos, ele trazia um exemplar do Profeta Vespertino.

"Kingsley?" A voz suave de Lupin soou levemente aflita. "Que houve?"

Shacklebolt estendeu o jornal na direção deles.

"Acho bom vocês darem uma olhada nisso."

X—

Já fazia horas que Draco estava trancado em seu quarto, deitado na cama, o antebraço esquerdo erguido sobre o rosto. Em profundo e pesaroso silêncio, ele observava os contornos borrados e quase imperceptíveis da antiga marca negra em sua pele pálida.

Às vezes ele se perguntava o que faria caso um dia acordasse sentindo a caveira e a cobra queimando novamente. De fato, Draco às vezes acordava, muitas delas gritando, para então se dar conta de que tudo não passara de um sonho ruim. O Lorde, afinal, estava morto, e era apenas uma questão de tempo até que os últimos vestígios da marca que ele lhe deixara sumissem por completo. Draco sabia que não era com um punhado de rabiscos na pele que ele deveria se preocupar.

Depois da conversa com sua mãe, ele imediatamente mandara chamar alguns assessores e entrara madrugada adentro redigindo uma nota que deveria ser divulgada no Profeta o quanto antes. Porém, devido à natureza extremamente delicada do assunto, foram necessárias várias horas até que Draco considerasse o artigo terminado. Isso impediu a sua publicação no jornal da manhã, mas garantiram que a edição vespertina lhe daria o devido destaque. No mais, uma notícia como aquela seria melhor recebida num horário em que as pessoas estão voltando para seus lares, um lugar onde há coisas mais importantes do que o destino de uma meia dúzia de bruxos esquecidos do mundo.

Exausto, Draco finalmente se deixara vencer pelo cansaço e tinha acabado de amanhecer quando ele adormeceu. Foi acordado na hora do almoço por um elfo doméstico que empunhava uma badeja com chá e meia dúzia de biscoitos, acompanhando por uma edição matutina do Profeta. A manchete trazia uma foto sua, acenando para uma multidão com os fogos de artifício estourando ao fundo. O mesmo jornal agora se encontrava jogado no chão ao lado da cama e os seis biscoitos continuavam intocados, embora o bule de chá estivesse vazio.

O som de aplausos fez Draco desviar o rosto de seu antebraço. Parado na soleira da porta encontrava-se Blaise, aplaudindo de modo entusiástico e teatral. Um sorriso largo e quase obsceno se formando no rosto negro, os olhos brilhando em expectativa.

"Nada mal, meu caro." Ele disse, puxando a edição do Profeta Vespertino que trazia dentro das vestes, desdobrando-a com um gesto largo e evasivo. "Nada mal mesmo."

Draco estreitou as sobrancelhas e levantou da cama imediatamente. Logo ele havia alcançado um roupão que estava jogado sobre uma cadeira, vestindo-o por cima do pijama. Blaise o encarou com um sorriso, e Draco se empertigou, engolindo em seco.

"E isso lá são horas do salvador da pátria ainda estar na cama?"

O loiro ignorou as palavras de Blaise e caminhou em direção ao banheiro que havia no outro extremo do quarto, batendo a porta ao entrar. A força, porém, fez com que a porta ricochetasse contra o batente, mas sem fechar. Blaise aproveitou para seguir Draco, que soltou um muxoxo irritado ao vê-lo no mesmo cômodo. Mas, em vez de expulsá-lo, Draco começou a se livrar das roupas e ligar as torneiras da banheira, sem parecer se importar de verdade com a presença do outro.

"Fiquei até de manhã escrevendo essa porcaria." Disse o loiro enquanto desabotoava a parte de cima do pijama, de fronte ao espelho sobre a pia. Por cima do ombro viu Blaise mordendo o lábio inferior, sem conseguir desviar seus olhos negros das costas pálidas que Draco ia exibindo ao poucos. "Não venha me censurar por ter dormido até tarde."

Os cantos dos lábios de Blaise se ergueram num sorrisinho sarcástico.

"Okay. Não está mais aqui quem falou." O bruxo negro ergueu os braços em rendição. "De qualquer forma, o senhor está de parabéns, meu caro. Que artigo, Draco. Que artigo! Se eu não te conhecesse diria que você realmente concorda com tudo isso."

Draco voltou o corpo, ambas as mãos na cintura. O loiro fitava Blaise com nítida impaciência.

"Você pensa que sim, Zabini, mas não, você não me conhece."

"Não conheço, é?" Disse Blaise com mais um sorriso, abrindo o jornal que tinha nas mãos e começando a ler alguns trechos em voz alta: "'A medida talvez não seja a mais convencional, mas se mostra necessária. Quase dez anos se passaram e essas pobres pessoas continuam na mesma situação. Mantê-las vivas por um mero capricho é simplesmente indigno. Nós não temos esse direito.'" Blaise soltou uma gargalhada alta. "Oh, nós não temos o direito! É claro que não podemos deixá-las vivendo a nossas custas, Draco. Mas, por outro lado, temos todo o direito de matá-las já que elas estão loucas demais para dizer 'oh, por favor, senhor Malfoy, não me mate, eu gosto tanto de viver!'"

Blaise parou de falar quando Draco passou por ele, tomando-lhe o jornal. O loiro voltou para o quarto e começou a rasgar as folhas com as mãos, os ombros trêmulos de raiva.

"Você não me engana, Draco Malfoy." Agora a voz de Blaise, longe de ser sarcástica, parecia tentar expressar algum tipo de conforto. "Nunca me enganou. Fico imaginando o quanto destas são palavras suas e quais vieram da boca da sua mãe!"

O loiro ergueu a mão, pronto para estapear Blaise, mas o homem negro foi mais rápido e segurou-o pelo pulso, empurrando Draco na direção da cama.

"Me larga." Ofegou Draco ao sentir suas pernas bateram contra a madeira do estrado, as tiras de jornal presas entre os dedos. "Me larga, Zabini."

"Estamos nervosinhos hoje, não estamos?" Sussurrou Blaise, ainda segurando Draco com força. "Respire, Draco, respire. Isso. Não adianta perder o controle, certo? Você nunca não vai me convencer de que não está nem aí para o destino daqueles pobres infelizes. Você se preocupa, sim, e isso não é errado, mas você não vai chegar a lugar nenhum agindo desta forma. Sua mãe pode até ter uma pedra no lugar do coração, mas ela quer o melhor para você, Draco. Então, já que chegamos a esse ponto, seria bom escutá-la, é claro, mas não tente me convencer de que você concorda com o que ela diz, porque isso é mentira."

O rosto de Draco estava vermelho e as juntas dos dedos que apertavam os pedaços de papel jornal tinham embranquecido diante da força que o loiro fazia. Blaise afrouxou o aperto em torno do pulso de Draco, que deixou os braços caírem lado a lado do corpo, a respiração rasa fazendo o peito nu subir e descer num ritmo lento e compassado.

Os olhos cinzas piscaram várias vezes, sem se desviar da mão que o segurava sem força, a tonalidade escura de Blaise num contraste extremo com o de sua própria pele. Foi quando Draco sentiu ser segurado pelo queixo e acabou por erguer o rosto encontrando um par de olhos negros e brilhantes o encarando com altivez.

Draco engoliu em seco e tentou se afastar, mas atrás dele só havia a cama. Blaise sorriu e se aproximou devagar. Draco fechou os olhos e esperou, como se acabasse de perder uma batalha que sequer tivera a coragem de lutar.

O ruído de algo se partindo o fez abrir os olhos, e Draco imediatamente reparou em três coisas. A primeira era que Blaise largara seu pulso e lhe dera as costas, caminhando em direção a porta. A segunda era que agora havia apenas cinco biscoitos na bandeja ao lado da cama. E a terceira era que as tiras de jornal em suas mãos tinham sido reduzidas a meros fragmentos ilegíveis de papel.

Continua...


NA.: Cissy é uma graça, não? Segundo capítulo postado, pessoas, e praticamente do mesmo tamanho que o anterior. Na verdade, acho que ele é até um pouquinho maior. E foram umas duas semanas de espera, tá bom assim, né? Vou tentar escrever o próximo mais ou menos neste prazo. Favor não se esquecerem de dizer o que acharam. Reviews são meu maior incentivo, eu juro!

Agradeço imensamente a todos aqueles que leram e principalmente aos que deixaram comentários felizes: Calíope Amphora (Eu dei muita risada sobre o seu planejamento estético. Calíope para prefeita JÁ!), Sarih (Prefere, é? Então pelo menos uma pessoa não vai me odiar caso eu resolva matar alguém!), Lady Yuuko (Sim, eu dei fim na coitada da ruiva.), Elizabeth Bathoury Black (Espero que sim, Lizzy!), Cami Rocha (#incapaz de responder algo decente porque ainda está rindo da review#), Rafael9692 (Não, o Draco não vai morrer. Quero dizer, eu ainda não sei.), Ferfa (Não foi exatamente o Draco quem se aproveitou, mas...), Cristina Melx (Farei o possível quanto a isso!), DW03 (Hogwarts não é apenas de puros-sangues, isso será explicado mais para frente. Ah, e o tal prédio abriga apenas o que sobrou da Ordem, não todos os "refugiados". xD), Marck Evans (Boa pergunta. Qual o grau de culpa? Só o Harry para responder!), Danee Black (Ginny está mortinha da Silva, só isso que posso garantir.), Isis (A situação vai mudar logo, eu espero!), Sy.P (Prefiro o título à música, sabe?), Re Tonks (Eles devem se encontrar no capítulo quatro, mas não do jeito que vocês estão pensando.), Amy Lupin (Remus é tudo de bom, né? Não importa fazendo o quê. Eu não tive coragem de matá-lo, Amy!), Lang (Espero que continue gostando!), Jo (Não era bem o Blaise quem queria, né?), Lily Carroll (Já ouvi, mas não fui muito com a cara não. Talvez se fosse apenas instrumental...), Karla Malfoy (Não, você não leu errado, eu não pus a classificação angst.), gutinha (Eu me empolguei com essa história!), Maaya M. (Mas eu juro MESMO!), Bru Black (Vamos ver como me saio, né?), LelyInTheSky (V DE VINGANÇA! Até que enfim alguém percebeu! #explode o parlamento#), Mel Deep Dark (Do Muse eu prefiro a "Time is Running Out".), Nanann Trootle (Será que ele vai pra hogwarts? SERÁ? xD) e Lisse (Huahauhaua, não, não me impede, né?). Muito obrigada, pessoas/o/