Esse é o ponto de vista da Maura, achei que era necessário.


Meu dia havia sido como sempre, um novo caso, um novo corpo, uma nova autópsia.

Tudo seria exatamente igual se não fosse pelo sútil porém persistente fato de que eu não tinha visto Jane o dia todo.

Depois daquele episódio estranho de manhã, no qual ela parecia tão nervosa, nós simplesmente não nos encontramos mais.

Eu não fazia a menor ideia do que podia ter acontecido, mas sabia que algo estava errado, pois primeiro ela não respondeu quando eu disse bom dia, apenas ficou me olhando, pensei que talvez só estivesse distraída mas quando perguntei ela se esquivou e disse que queria ficar sozinha. Talvez eu devesse ficar mais tranquila já que ela me garantiu que o problema não era comigo, mas ainda sim eu não conseguia tirar aquilo da cabeça.

O que teria acontecido para essa mudança repentina?

Sim, porque algo havia mudado, já que durante todo o dia Jane não apareceu no necrotério, e quando precisei informar alguma novidade sobre a vítima, eu a chamei por mensagem, mas sempre quem vinha era Frost.

Eu nunca tinha visto ela desse jeito antes, nem mesmo quando estava zangada comigo ela se afastava assim, na verdade nunca misturou as coisas, a não ser que fosse realmente necessário.

Só que se ela estava com raiva de mim, eu estava em desvantagem, porque nem sequer sabia o motivo.

Senti que devia força-la a me dizer, talvez mencionar o que ocorreu de manhã e tentar obter algum tipo de confissão.

Esperava sinceramente que não fosse nada grave.

Já passava das sete da noite quando decidi que seria melhor procura-la, mas fui interrompida com a chegada de alguém, por um momento pensei ser ela, mas me descobri enganada ao ver Frost entrando no necrotério, e pude perceber pelo rosto dele que estava evitando olhar para o corpo na mesa.

– Hey, você chamou? Algo sobre a vítima? - perguntou ainda se esquivando.

– Chamei, na verdade eu encontrei algumas lacerações que indicam que ela foi estuprada, não sei como não vi antes, mas enfim...

– Certo, e fez o teste do sêmen?

– Fiz, aqui está! - entreguei o relatório.

– Esse é o ex-namorado dela. Então ele a estuprou! - leu mais um pouco – Certo, obrigado.

Eu me lembrei que aquela poderia ser a minha ligação para chegar que estava incomodando Jane.

– Det. Frost?

– Sim? - respondeu ao parar um pouco antes da porta.

– Sabe se a Jane está com algum problema?

– Não, por quê?

– Eu não sei, parece que ela está me evitando mas não consigo encontrar uma razão para isso.

– Talvez ela só esteja tendo um dia ruim.

– Como está agindo com você?

– Como sempre... Mas agora que você falou, sim, ela parece estar meio preocupada.

– Faz alguma ideia de com que seja?

– Não. Mas duvido que seja algo grave, ela nos diria.

– Talvez.

– Não se preocupe, tenho certeza que ela não está chateada com você.

– Como sabia que eu estava pensando nisso?

– Você não é tão indecifrável Drª Isles!

Dito isso ele saiu.

Pensando bem, talvez não fosse mesmo.

Se Jane estava agindo normalmente com os outros, menos comigo, então algo de fato estava errado em relação a mim. Eu precisava descobrir o que.

Peguei minha bolsa e me dirigi ao andar de homicídios.

Ao chegar procurei por entre as mesas, mas não a encontrei. Entrei mais no espaço e me deparei com uma voz masculina, era Korsak:

– Ela não está! Foi pra casa.

– Oh, pensei que ainda estivesse aqui, sempre fica um pouco mais...

– Sim eu sei, mas hoje ela disse que estava cansada e ia antes.

– Certo, eu vou também. Boa noite.

– Boa noite.

O estacionamento está escuro e silencioso, acho que sempre foi assim, mas naquele dia eu reparei nos detalhes, minha cabeça procurava entender os fatos, mas não conseguia chegar a uma conclusão.

Tirei meu celular da bolsa e chequei as mensagens: nada.

Nenhum aviso de Jane, ela nunca saía sem me avisar ou me desejar boa noite. Mas daquela vez evitou aquele contato.

Eu entrei no meu carro e fui para o único lugar que sabia que podia resolver minhas dúvidas, a casa dela.

O trajeto é como sempre, o trânsito está moderado já que ainda não atingiu seu horário de pico.

Após cerca de vinte minutos eu estaciono meu carro em frente ao prédio e desço.

Suponho que me distraí ao longo do caminho, pois quando me dei conta já estava parada em frente a porta de Jane.

Não tinha ideia do que encontraria do outro lado. Ela podia estar chateada, com raiva ou tudo ao mesmo tempo.

Mas me deixei iludir pela expectativa de que também pudesse ser tudo um mal entendido, apenas um dia ruim que ela descontou da forma errada, e tudo terminaria bem.

Respirei fundo e bati na porta.

Segundos depois eu a vejo em frente a mim, com aquelas mesma roupas que ela gosta de usar quando está em casa, uma camisa leve e um moletom vinho.

– Oi. - ela diz.

– Oi, posso entrar?

Sem resposta, apenas um assentimento e um rápido movimento para que eu pudesse passar.

Ao entrar eu me surpreendo ao me sentir mal, como se não fosse bem vinda, se acreditasse em intuição diria que essa sensação vem do modo como Jane olha para mim.

Um modo diferente, parece assustada, toda vez que seus olhos encontram os meus não dura muito tempo.

Resolvo começar.

– Você já pode me dizer. - falo enquanto coloco minha bolsa sobre o sofá.

– Dizer o que? - pergunta ao ir para a cozinha.

– Vamos Jane, não faça isso!

– Desculpe, mas não sei do que está falando. - ela abre a geladeira.

– Ah não? Então por quê não vem até aqui e me olha nos olhos pra que eu possa te explicar?

– Eu... - tenta, mas para e fecha a geladeira com uma garrafa de água na mão.

– Você não consegue? Não consegue me olhar nos olhos? - eu me aproximo – Por quê?

– Eu já te disse hoje mais cedo Maura, não é nada com você.

– E eu acreditei quando disse antes, mas depois de ver você me ignorando o dia inteiro, passei a duvidar da sua palavra.

– É uma pena porque essa é a verdade. - despeja o liquido em um copo que já estava sobre o balcão.

– Tem certeza?

– Sim. Por quê eu mentiria?

– É o que eu gostaria de saber. Acho que tenho pelo menos esse direito.

– Eu não ignorei você.

– Ignorou sim. Ou vai me dizer que todas as vezes em que eu te chamei pra falar sobre o caso você mandou o por pura diversão?

– Eu achei que seria bom pra ele lidar um pouco mais com essa coisa toda de gente morta, pra quem sabe superar o trauma... - bebeu a água.

– Por favor, você sempre disse que devíamos deixar que ele encarasse isso como achasse melhor. Inclusive quando eu tentei ajudá-lo com a terapia de imersão você foi contra. Lembra?

– Sim, mas eu... Mudei de ideia. - não soou muito convincente.

– Ok, largue esse copo. - ela me olhou – Largue! Nós duas sabemos que você não está com sede de verdade.

– Então por quê mas eu estaria bebendo? - voltou a colocar o copo na boca.

– Para disfarçar sua tensão com a conversa que estamos tendo! - afirmo ao pegar o copo e afasta-lo dela.

– Ei! Nem água eu posso beber mais? Vai controlar isso também?

– O que quer dizer?

– Não sei, talvez só esteja tentando beber um copo d'água. Será que eu tenho a sua permissão doutora?

– Ah você não vai mudar de assunto.

– Eu só quero água.

– E não vai ter enquanto não falar comigo corretamente!

– Quem é você? Minha mãe?

– Se isso fizer você falar comigo eu poderia ser.

– Não tem nada pra falar, eu estou bem.

– Eu não acredito!

– Bom então aí já é um problema seu!

– Jane... Eu sei que algo está errado, sei que algo aconteceu, e por mais que você negue não vai me convencer do contrário! Eu te conheço bem demais pra isso!

– Talvez não conheça.

– Como assim?

– Vai ver eu não sou quem você pensava.

– Eu não entendi.

– É, nunca entende mesmo...

– Como é?

Eu vi uma repentina mudança no olhar dela, pareciam fixos em mim, mas nunca imaginei o que viria a seguir:

– Eu quero dizer, que você sempre é assim, tão complicada! E isso me irritava as vezes mas agora...

– Agora o que?

– Se tornou insuportável!

– Você está dizendo...

– Isso mesmo Maura, eu cansei desse seu jeito todo certinho, sempre complicando tudo e sempre encontrando um jeito de falar coisas pelas quais ninguém se interessa.

Eu sinto uma dor, não sabia que era possível doer tanto ao ouvir aquelas palavras da boca dela. Minha amiga, minha melhor amiga estava mesmo dizendo aquilo para mim?

Tinha que ser um engano.

– Jane eu acho que você está irritada por algum motivo, e entendo que queria descontar em mim...

– O motivo é você!

– O que?

– Não queria tanto saber? Pois aí está! Eu tentei evitar te dizer com todas as letras mas você não me deu outra escolha.

– O que eu fiz?

– Nada especificamente, só o mesmo de sempre. Sabe essa coisa de nunca ficar calada e tentar ser engraçada mesmo sabendo que não consegue. Pra falar a verdade foi o conjunto de tudo em você que me irritou.

Abaixei minha cabeça. Não podia olhar para ela.

– Eu pensei que não se importasse, que talvez até... Gostasse. - não queria que aparentasse tão melancólico, mas não pude mudar meus sentimentos.

– Acho que se enganou.

– É eu também. Mas não só sobre isso. - respirei fundo e me virei para pegar minha bolsa, mas antes de sair, continuei – Eu me enganei em relação a você, e ao tipo de pessoa que eu pensei que você fosse.

Girei a maçaneta e saí, não olhei para trás. Eu não conseguia.

Por quê fez aquilo Jane?

Por quê me disse coisas tão horríveis?

Eu esperava ouvir algo assim de todos, menos de você.

Entrei no carro mas não consegui colocar a chave no contato, algo me prendia, minhas mãos tremiam.

E eu chorei.


Eu tentei avisar... Adoro dramas.

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