Deixou-se cair lentamente. Atordoado, afastou os fios loiros do rosto. O que acontecia?
Tinha plena certeza de que o desconforto ia muito além do físico. Não era possível, era? Havia semanas que aquela situação acontecera. O tempo parecera acelerar, entretanto, apenas para contrariá-lo, para ditar que ele não tinha as rédeas de todos os aspectos da vida. Talvez fosse alguma provação. Mais uma.
Agradeceu aos deuses pelo pouco movimento do local. A mera idéia de alguém vê-lo em um momento de fraqueza o apavorava e o apavoraria ainda mais se a pessoa em questão fosse Mu. Não sabia ao certo o motivo que levara seu raciocínio já deturpado e prejudicado ao ariano. Definitivamente, havia algo bastante errado.
Na verdade, notou, não se tratava de pouco movimento no local. Conhecia aquela habitação. Estava novamente na casa de Mu, no entanto, não havia sinal dele.
As orbes azuis estavam desfocadas, procuravam avidamente algo...
Pensou que ele o tivesse visto, mas não reagia. Sua mente pregava-lhe peças? Depois de tudo, era só o que lhe faltava...Por outro lado, loucura explicaria aquele turbilhão dentro dele. Loucura pouparia-lhe o trabalho de remexer aquela parte conflituosa, que clamava o rapaz de cabelos lilases para si.
Sentia tudo em uma intensidade até então desconhecida para ele. Quanta ironia...Logo ele, que julgava ter o perfeito conhecimento e controle de si mesmo...
Um perfume conhecido invadiu-lhe não apenas o olfato, como também sua memória. As mãos absurdamente delicadas pousaram sobre o ombro de Shaka.
- Shaka... Você precisa se levantar.
A vertigem persistia, o foco fugia. Aquele não era ele. Não poderia ser ele...Ele nunca se entregara daquela forma. E não demonstraria fraqueza, ainda mais na frente de Mu.
Com alguma dificuldade, a mão trêmula de Shaka agarrou-se à de Mu. Apesar de ter consciência de que tinha os pés bem fincados no chão, sentiu que cairia indefinidamente para o nada. Apesar do orgulho ferido, era grato a Mu, que apoiou-lhe e tirou-lhe dali quase imediatamente.
Encarava o líquido rubro na taça, distanciado em seus pensamentos. Em seus planos quase adolescentes. Focado nos primeiros amores. Ergueu os olhos verdes, fingindo encarar a tela de projeções do palestrante. Shion fizera questão de ressaltar que Mu era um convidado de honra naquele evento.
Como era habitual, tratava-se de um novo patrocínio. Os representantes do laboratório fizeram questão de levar o grupo de médicos a um dos melhores restaurantes da cidade. Mu considerava tudo aquilo bastante enfadonho, mas a companhia do vinho dava-lhe certo conforto.
Suspirou quando Shion começou a falar sobre o mecanismo de ação de determinado grupo de medicamentos. Sempre os famigerados fármacos patrocinados pelos laboratórios...
Em poucos minutos, seria aquela mesma ladainha que Mu julgava já ter escutado por tempo demais: os benefícios do tratamento com tal medicamento do Laboratório X. Tudo aquilo era apenas comércio, e ele estava muito mais interassado nas vidas, não em propagandas vãs e repetitivas. Só mesmo Shion para arrastá-lo para um evento daqueles.
- ... assim, no estudo, tivemos um melhor controle dos sintomas pós-operatórios de pacientes submetidos a cirurgias cardíacas...
Suspirou, desolado. Realmente estava difícil conseguir acompanhar o mais velho naquele... circo. Procurava algum rosto conhecido em meio aos proeminentes e pomposos médicos.
- Já vi você mais feliz, meu filho.
Mu lançou um olhar quase glacial a Shion, maldizendo aquela mania que o mais velho tinha de chamá-lo de filho. Na verdade, quando Shion começava com aquilo, o discurso ou sermão seriam longos... Embora Mu não deixasse transparecer, estava impaciente. Preocupado, como admitiria mais tarde. O mais jovem resmungou qualquer coisa, o que foi o estopim para o sermão.
- Mu, você ainda é tão jovem para afligir-se dessa forma...Sempre tão preocupado! Eu te conheço, sei que há algo errado. Não vai dizer o que é para o seu velho amigo? - Quando Mu finalmente terminou a residência, o mais velho, (que fora seu preceptor no internato e uma espécie de guru em sua profissão), começara a tratá-lo como igual e não mais como um rapaz imaturo propenso a cometer erros. Mu ainda sentia que era avaliado por Shion a todo momento.
O rapaz estranhou aquele discurso cheio de camaradagem. Em geral, Shion era rígido, quase cruel, e sempre muito exigente. Mu só pôde chegar a uma conclusão: ou o fim do mundo estava próximo, ou todos próximos a ele estavam agindo de forma muito estranha, por algum motivo desconhecido. Talvez fosse alguma força do além, abduções alienígenas ou qualquer coisa do gênero.
Levantou a taça à altura de seu rosto, numa tentativa de esconder-se de Shion. Tentava, ao mesmo tempo, organizar os próprios pensamentos. Os acontecimentos - e as estranhezas - dos últimos dias, para não dizer semanas, ainda não digeridos. Tudo e todos pareciam tão...estranhos. Talvez, no fundo, fosse apenas ele. Mas havia a desconfiança...a intuição gritando-lhe algo que ele mal pôde interpretar.
Duas semanas antes...
- Quero as respostas...agora!
Visivelmente alterado, e ferido em seu orgulho, o loiro bradava com os outros dois. Na verdade, ele não conseguia admitir que perdera a consciência ou que se esquecera de qualquer coisa daquelas últimas horas. Seria possível que estivesse sofrendo de algum distúrbio dissociativo? Impossível... Não era louco, sabia disso. Talvez fosse Burnout. Sim, com Burnout ele saberia lidar. Mu suspirou, assoprando em seguida uma mecha do cabelo lilás que insistia em cair sobre o olho.
- Simples, Shaka! Simples demais!
- Nesse caso, juro que realmente não entendo nada! Explique-se.
Céus! Como tanta arrogância poderia caber em um homem só? Mu sabia daqueles pequenos defeitos de seu amigo, mas desconhecia as proporções que eles poderiam tomar. Estava tentado a apelar para o drama. Muito tentado.
- Salvei a sua vida. - Disse simplesmente, direto e sem titubear, e em seguida dirigiu-se ao seu próprio quarto. O outro desgastou-o durante aquele dia.
Aliás, naquele dia acontecera bastante coisa difícil de acreditar. Começava a ficar confuso. Por que se importava tanto assim com a segurança e a saúde de Shaka? Eram amigos, era fato, mas nada justificava a intensidade do sentimento. Nem Milo fizera os escândalos que o sempre centrado e calmo Mu protagonizara.
Apertou as têmporas, antes de levantar-se, impaciente. Estava decidido: Shaka teria uma lição. Uma bela lição. Sentiu um conhecido calafrio. O ariano sabia muito bem que era observado. E sabia muito bem por quem.
Deixou que um sorriso se esboçasse. Soltou os longos cabelos lavanda, deixando que eles cobrissem boa parte de sua silhueta. Não importava que o loiro o estivesse espionando. Aliás, até facilitaria parte de seu plano.
Shaka, por sua vez, apoiava-se ao batente da porta, silencioso. O silêncio, porém, não bastou para que ele não fosse flagrado.
- Gosta do que vê, Shaka?
- Certamente. Mesmo que os encontros sejam casuais, fortuitos, me disponho a selecionar apenas os melhores. Não menos.
O ariano não deixou-se abalar pela alfinetada de Shaka.
- Pode se tornar infinitamente melhor, Shaka. Mas isto depende apenas de você...Sabe, se concordar em ficar aqui por mais alguns dias, terá muito mais. - Mu sorriu com uma inocência surpreendente para alguém que segundos antes tentava utilizar-se de sedução.
- Você é inacreditável, Mu! - Shaka estava exasperado, quase irado, não se podia esperar menos...Quase caía naquela jogo do ariano. E depois, ele sabia melhor do que ninguém, não haveria volta. Aquele falso anjo era envolvente demais, embora não ostentasse suas conquistas como faria com um troféu. Mu era, para dizer o mínimo, intrigante.
Permitia que água escorresse desde os cabelos lilases, secretamente desejando sentir-se limpo. Desconhecia o motivo de querer purificar-se, se é que a purificação era necessária. Tolice dele, concluiu. Tudo aquilo por ser observado? Nunca tivera aqueles pudores. Ele já teve um controle muito melhor das próprias emoções. Atribui a sensação de sujeira ao fato de adotar aquele comportamento manipulador detestável.
- Quer juntar-se a mim, Shaka?
- Novamente: Você é inacreditável!
- Você não tem nada a perder. De qualquer forma, tenho a impressão de que me usará como escape e me abandonará...
- Não seja tolo!
Pela primeira desde a entrada no banheiro, Shaka desviou o olhar para longe do corpo de Mu. Sabia que soara mais mordaz do que pretendia e sentia-se culpado, embora jamais se colocasse em posição de pedir desculpas. Sabia também da sensibilidade de Mu, que ficaria ferida.
- Sou bem diferente daquele seu vizinho grego, não sou?
Neste ponto, o ariano desligou o chuveiro e observou atentamente o loiro. Estaria envergonhado?
- Então se trata de ciúmes? - Shaka ergueu uma sobrancelha, ainda fingindo-se hipnotizado pelo piso.
- Você deveria me conhecer melhor. Não é você o senhor todo poderoso da observação infalível?
Shaka não conseguiu conter uma risada escarnecedora.
- Não sabia que faz tão má ideia de mim, Mu.
- Foi um elogio.
- Não me pareceu.
Shaka tentava manter a calma, sem muito sucesso. Arrancou a roupa, em meio à irritação. Se era o seu corpo o que Mu queria, então ele teria seu corpo. Não precisava ficar eternamente naquele jogo... Sua disposição a satisfazer os caprichos do ariano começava a dar sinais de esgotamento.
- Até quando faremos isso, Shaka?
Seria possível que o outro escutasse pensamentos? Cedendo aos apelos de Mu e de seu próprio corpo, juntou-se ao outro homem.
- Isso o que, Mu? - Empurrou o ariano contra a parede úmida, segurando-lhe as mãos. Beijou-lhe o canto da boca e, no momento em que Mu entreabriu os lábios, afastou-se. - Oh, imagino que se referia ao que estamos fazendo agora...Não considera agradável?
Noites e dias poderiam passar e eles ainda cederiam àquela batalha de palavras e provocações. Mu algumas vezes imaginava que eles fossem óleo e água, imiscíveis.
Não demorou para que ambos começassem a tremer devido ao frio.
- Hora de nos agasalharmos.
Falava com sua calma característica, ignorando as provocações que trocara com o loiro. Quando se tratava dos dois, era sempre daquela maneira: ao raiar de uma nova manhã, era como se a história da noite anterior se apagasse. E era a falta de memórias e definições que o cansava. Sentia-se usado e descartado, como previra. Sentia-se, também, mais imaturo do que pretendia. Foi mordaz ao pensar que, se ele agia com imaturidade, Shaka era bem pior.
Teve suas ponderações interrompidas por uma figura que trajava não mais do que uma toalha sobre os cabelos loiros.
- Sua oferta ainda está valendo, Mu? Pensei em dormir aqui, por hoje...
- E quer me pedir roupas?
- Não acho que precisemos delas. Quero, contudo, pedir a sua permissão para permanecer aqui.
Mu, largando-se no sofá e bocejando, fez um estabanado sinal de sentido.
- Permissão concedida.
- É tudo o que tem a me dizer?
- Não... - Mu tampou a boca com a mão direita, enquanto esticava o braço esquerdo, espreguiçando-se. - Você sabe bem onde ficam as minhas roupas. Vá se vestir, por favor!
- O que há? Por acaso não consegue controlar-se ao me ver nu? - Apoiou um braço esguio e desnudo no sofá, outro na perna do ariano, afastando-se em questão de segundos. - Não se preocupe, me vestirei.
Pelo resto daquela noite, Shaka não apenas vestira-se, como também parara com as provocações. Tornara-se estranhamente quieto.
Surpreendente para Mu fora encontrá-lo ainda em sua cama na manhã seguinte. Era um acontecimento inédito e não pôde deixar de sentir-se contente. Obviamente, os dois já eram homens feitos; não fazia sentido continuar com dramas melhor encarnados por adolescentes.
"Que papelão estive fazendo... Shaka adora colocar-se como superior. Adora dizer-se mais experiente, mais maduro, melhor em tudo...No entanto, age como criança há dias."
Mu não conseguia deixar de imaginar, de sentir, que havia algo errado. Não se tratava apenas do volume de trabalho... Para corroborar sua constatação, sentiu uma pequena agitação vinda do emaranhado de cobertas ao seu lado. Tremores. Não havia frio que justificasse aquilo. Removeu as camadas de roupa de cama que abrigavam Shaka e, com as mãos experientes e acostumadas ao expediente, tocou-lhe a testa.
Suspirou. Talvez a febre alta explicasse o motivo pelo qual o virginiano permanecera ali até aquela manhã... Previa, também, a teimosia que se seguiria. Para o momento, o melhor que poderia fazer era oferecer-lhe um antitérmico e esperar que aquela febre abaixasse.
N.A.: Antes muito tarde do que... extremamente tarde? Não, ainda não serve... De qualquer forma, eu ocuparia um espaço imenso aqui pedindo desculpas a quem esperou e tudo o mais. E, de novo, a história toma um rumo que eu não previa. Para o próximo capítulo: bem-vinda de volta, linearidade!
