Eu deixarei que morra em mim
o desejo de amar os teus olhos
que são doces
Porque nada te poderei dar
senão a mágoa de
me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença
é
qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto
existe o teu gesto e em minha voz a tua voz
Não te quero ter
porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em
mim
como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar
uma
gota de orvalho
nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a
minha carne
como nódoa do passado
Eu deixarei...
tu irás
e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão
outros dedos
e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não
saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo
da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite
e
ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da
névoa
suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a
misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só
como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei
como ninguém
porque poderei partir.
E todas as lamentações
do mar,
do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua
voz presente,
a tua voz ausente,
a tua voz serenizada.
Ausência, de Viníciu de Moraes
Eram passos sinuosos em meio à neve. Para trás as luzes da cidade à meia-noite. Para trás uma vida indesejada. Os carros cortavam a noite como uma navalha, moviam o ar num zumbido preciso, tudo no seu devido lugar, tudo menos ela.
O ar gelado entrava dolorido nos pulmões. As mãos débeis mantinham se dentro dos bolsos na tentativa de buscar algum calor. Uma atitude inútil quando tudo a sua volta perde o sentido. Para certas pessoas o mundo parece uma opção, mas esse não era o caso. Sabia que aquele sossego abençoado não duraria para sempre, mas que fosse infinito naquele momento, ao menos naquele momento.
Sentia falta de um vazio pleno e confortável, do limbo aconchegante que somente a alienação concedida pode promover. Muitas vezes é mais cômodo ignorar tudo o que há de errado na vida e contentar-se com uma ou outra regalia. Uma cama quente, um prato de comida, uma noite de sono tranqüilo, mas do que serve tudo isso se não há um motivo para esperar o próximo dia? Não tinha respostas, nem sabia se as queria de fato. Afinal, o que havia de real em tudo aquilo?
Forte, muitos diriam. Talvez ela realmente fosse isso. Havia sobrevivido a tanta coisa, a tanta dor, e provara para o mundo que era capaz. Capaz de que? Ela ainda preferia a sensação do fim, ou do começo. Aqueles bem ditos instantes em que simplesmente ignorava e desconhecia a si própria. Daria tudo pela sensação de vazio pleno ao invés do tumulto doloroso de agora. Os carros continuavam e ela sabia que em um deles estaria a sua outra parte.
Outra parte, duplo, sombra, era isso o que ele era, não é mesmo? Ou seriam esses nomes apenas uma maneira de justificar aquela presença sempre constante e sempre inconveniente? Não sabia mais como justificar tanto tempo. Preferia deixar tudo para trás, mesmo tendo aquela certeza intima de que seria em vão.
O barulho de pneus e a aproximação do veiculo. Não virou o rosto para ver do que se tratava, no fundo já sabia.
Entra dentro do carro!- a ordem veio macia e firme, como sempre fora àquela voz. Ela ignorou e continuou seguindo. O carro acompanhava os passos dela, numa esperança vã de que ela acatasse a ordem. Aos poucos ele perdia a paciência. – Entra logo!- a única coisa que ela se dignou a fazer foi encara-lo com seus olhos vazios. Os carros que vinham atrás buzinavam e seus condutores mostravam-se nervosos. Ele não estava com paciência para o transito, não naquele dia.- PASSA POR CIMA! – foi a resposta aos veículos – Entra logo na merda do carro! Precisamos conversar! – Ela seguia indiferente, diante disso ele não teve escolha. Parou o carro junto ao meio fio e desceu. Sem a menor cerimônia agarrou-a pelo braço e arrastou até o carro e jogou-a lá dentro. Logo ele estava de volta ao volante.
Ela permanecia muda, apenas encarava com seus olhos parados a paisagem noturna. Não conhecia aquele caminho, mas não fazia diferença. Ele a olhava esporadicamente para decifrar sua expressão, mas não havia de fato algo a ser decifrado. Sabia de tudo dentro dela, mas aquela era a maneira de tentar ignorar sua própria existência e tentar achar desculpas para falhas que no fim eram sempre dele. Estava inquieto, queria falar, mas com o carro ainda em movimento as chances de se descontrolar e provocar um acidente seriam maiores. Não que fizesse muita diferença, de qualquer modo sua vida já não tinha controle há muito tempo, e o controle que ele tentou exercer sobre a vida dela nunca existiu realmente.
Pararam em frente a um hotel. "Sofisticado de mais" Ela pensou, mas foi algo tão fugaz que seu cérebro nem mesmo registrara o pensamento. O manobrista logo apareceu para pegar o carro. Ele desceu e a carregou consigo meio arrastada pelo braço. Para evitar tumultos, seguiram por uma entrada restrita. Ser alguém de berço tinha lá suas vantagens. Suíte 1800, cobertura.
Trancou a porta e jogou-a sem a menor cerimônia sobre a cama. Ela mantinha-se indiferente.
Vamos resolver isso, está bem?- passou a mão pelos cabelos, deixando-os ainda mais desalinhados.- Você...Você não devia ter saído daquele jeito.- andava de um lado a outro, parecia um animal selvagem – Eu sei... Sei que estava errado, mas você não me permitiu nem tentar explicar. Queria o que? Me deixar louco de preocupação?
Já acabou? – foi a primeira vez que ela se pronunciou a respeito e o fez como uma mera obrigação, somente para abreviar a longa conversa a caminho. Não obteve sucesso.
Você só pode estar brincando comigo. - encarou-a com indignação pulsando em seus olhos.
Em qual parte, você diz? A que eu perguntei se havia acabado ou à parte em que eu disse que acabou? – o tom de trivialidade dava a ela um trejeito sarcástico que ele reconheceu imediatamente. Era tempos de mais para se viver sem absorver alguma característica. Odiou-se por ela ter capitado justamente seu predicado mais irritante.
Acabou? Não, meu bem. Estamos apenas começando!- ela fazia de conta não ouvi-lo. - Eu já vi esse filme uma vez, não quero rever o final dele.
Então por que raios resolveu aparecer mesmo sabendo da minha decisão?- as vozes já se alteravam. A garoa fina gradualmente tornava-se uma chuva densa com sinais de tempestade. Lá fora a neve caia mansa contrastando violentamente com a cena.
Você escolheu me esquecer, mas eu ao menos fui honesto e continuei com a sua lembrança, mesmo que para mim o inferno fosse mais agradável! Vê-la novamente foi o sinal que eu precisava pra tentar consertar tudo o que houve de errado no passado! – não havia realmente um passado, já que nunca existiu um presente ou um futuro. Era apenas um instante vagamente luminoso, com brilho de chama de vela, em meio a uma realidade opaca e difusa. Sempre foi assim.
No entanto, nada mudou, não é mesmo? Mentiras e mais mentiras. – e a asfixia vinha suave e apavorante, num frêmito de loucura, tragédia e agonia. Ela começava a perder a sensibilidade dos braços e os ombros pareciam carregar o peso do mundo.
E você sugere o que? Ponha-se no meu lugar! Você escolheu esquecer tudo! Não fazia idéia de quem eu era e atirar sobre você todo o meu passado só pioraria as coisas. Criar outra pessoa me pareceu na ocasião o melhor a fazer.
Achou que eu nunca descobriria? Eu ainda tenho família, amigos que saberiam me dizer quem realmente é você. – ela tinha esperança no mundo a sua volta, ele teria adorado saber em que momento exatamente ele deixou de fazer parte deste mundo.
Sinceramente? Eu realmente achei que não recuperaria a memória. E mais! Quanto aos seus parentes e seus amigos, eu passei os últimos meses planejando uma maneira de mantê-los bem longe de nós! – não tinha remorso por nada, aquela era apenas uma verdade pura e simples. Nunca esteve disposto a dividi-la, mesmo que ela sempre insistisse em achar que acabaria convencendo-o de que um pássaro livre era mais atraente.
Eu tinha minhas duvidas do quão baixo você poderia ser. Agora eu vejo o tipo de pessoa que você é. – nos olhos dela nada alem do desprezo – Você não mudou absolutamente nada, Draco. – porque no fundo o amor não muda uma pessoa por inteiro. Quando o sentimento é forte pode, quando muito, adormecer uma parte de nós, seja ela uma parte agradável ou não, mas ela permanece ali para lembrar quem realmente somos, ou gostaríamos de ser.
Não fale assim. Você não tem idéia do quanto tem sido difícil. – ele tentava a muito custo manter a calma, mas estava cada vez mais impossível.
Não importa se é ou foi difícil. O que importa é que acabou! – aquilo poderia ser um ponto final, mas preferiu a pausa incômoda, a transição de oração, a subordinação, o divisor de águas, ou simplesmente o prolongamento da loucura.
Isso nunca! – definitivamente a paciência havia ido pro espaço. Um anticlímax adiado a duras penas, mas inevitável de qualquer maneira. Porque ambos sabiam que eram teimosos e parecidos de mais para aceitarem uma derrota. A demência ocasional cegava, ensurdecia, debilitava e pervertia. Era um corpo esguio e maciço atirado a um resumo de massa delgada e suave. Uma lembrança de que eram o agouro de morte e insânia um do outro. A compressão do ar entre o ínfimo espaço de uma boca a outra o desvio orgulhoso, a insistência. – Não há possibilidade, ou final alternativo. Ou temos um ao outro, ou temos nada. – o arrepio contido, mas irrefreável a denunciou por uma fração de segundo.
Não sei quanto a você, mas o nada sempre me pareceu um lugar agradável. Algo como uma casa de campo no meio das brumas. – ela riu enigmática, mas não sabia se ela estava rindo dele ou apenas sorria para a possibilidade de uma visão tão apaziguadora.
É essa a sua idéia de paraíso? – as mãos dele mantinham-se possessivas sobre os pulsos anormalmente finos.
Não. É apenas a minha maneira de compreender a ausência de dor e lembrança. É o alento de saber que isso existe e que um dia me mantive nesse intervalo delicado em um estado absolutamente feliz e pleno. Essa é a vantagem de nunca esperar do mundo coisa alguma, viver na ausência e achar que aquilo é toda perspectiva e felicidade que a vida pode oferecer.
Por que a ausência?
Porque nós dois sabemos que essa é a única coisa que nos resta. A incapacidade de evoluir e mudar nos resume a isso. E não adianta dizer que teria sido diferente, ou melhor.
Talvez tivesse, se houvesse ao menos a chance... – encarou-a com os olhos doloridos por longos segundos. Parecia que num olhar tão profundo e indiscreto o tempo se esticava e eram naquele momento dois sábios com o infinito entre eles. – Poderia ter sido um universo completo, ou até mesmo uma casa em meio às brumas, só que ao menos haveria uma lareira e um bocado de aconchego dentro dela.
Ou seria uma ruína sombria e inóspita, como sempre foi toda vez que algo falava mais alto. Seremos sempre eu, você e as convicções contrarias. Nós somos possessivos de mais e ao mesmo tempo amamos a liberdade de tal modo que qualquer interferência nessa rota é para cada um algo pior que a morte.
E em todo esse seu discurso é o medo do adeus e a necessidade dessa tua rebeldia que me mantém aqui. É esse meu vicio em você que me dilacera como uma praga, e eu sinto que qualquer vida longe dessa sua toxina me parece insuportavelmente dispensável.
Como sempre é essa semelhança que nos destrói.
Então o que nos resta?
Nada alem de uma ausência compartilhada.
A verdade é que aquilo tudo era doentio, amava-o e para sentir-se amada entregava-se sem reservas, mas com um medo aterrador de tudo o que vinha dele. Cada carinho lhe doía, cada beijo um gosto diferente do mesmo sangue. Feria-se, mas amava a dor que só ele lhe causava, amava o jeito como só ele a amava.
Eu nunca tive qualquer intenção de perder você, não seria diferente agora. – ele a encarou com olhos duros por um segundo e ela não teve coragem de dizer nada – Depois de tantos anos, será que não dá pra você entender que não havia como mudar nada? Aconteceu! Nós nos envolvemos, talvez no momento errado, talvez por puro tesão na época, ou carência. Não importa! Aconteceu! Nenhum de nós teve culpa por ele ter morrido, aliás sempre me pareceu que esta era a vontade dele.
Não fale das vontades dele! – ela retrucou ríspida, mas o loiro não deu a menor importância.
Sinto te informar, mas ele não era um santo como todo mundo gosta de pensar. Pra mim ele sempre quis isso, um descanso, talvez para encontrar os pais. A fama sempre foi um atrativo que ele tinha e eu nunca vou poder competir com isso, não é mesmo? Com isso e com a idealização do homem perfeito. – ele disse num tom seco e ressentido – Eu nunca vou ser perfeito. Aliás, eu sou cheio de falhas e fraquezas. Eu escolhi o lado errado, pra isso eu posso usar a desculpa de que era isso o que minha família esperava de mim, mas até que ponto é uma justificativa válida? Eu sempre me considerei superior a meio mundo, sinceramente, isso não mudou muito já que eu ainda me considero melhor que a maioria. Eu sempre odiei você. – a voz dele morreu e ambos contemplaram a dança dos flocos de neve que caiam do lado de fora.
Então por que simplesmente não me deixa em paz agora? – ela murmurou, talvez fosse um pedido.
Você e sua paixão por tudo aquilo que eu considerava inferior e indigno... – ele resmungou – Suas sardas, cabelos vermelhos, suas roupas gastas. Eu nunca entendi direito, porque alguém que tem sangue puro, que vem de uma família tão antiga quanto a minha, consegue simplesmente ignorar tudo isso e viver de uma maneira tão degradante quanto você viva. É uma dúvida incômoda e talvez eu nunca saiba porque ela me aborrece tanto. – ele se levantou da cama e caminhou até a janela. Não estava prestando atenção em nada, mas a cena parecia trazer alguma paz a ele – Potter sempre se encaixou no seu mundo. Tão perfeito, tão magnânimo, quase um santo. – ele desdenhou em cada palavra – Confesso, quando soube que vocês estavam juntos naquela época eu fiquei curioso. Eu quis saber o que você tinha de especial pra atrair o "escolhido" e mais da metade dos nossos colegas de escola. Obviamente você já era bonita naquela época, mas eu me perguntava se não havia algo mais além disso. Pode me chamar de bastardo, sem vergonha, canalha, eu provavelmente mereço cada adjetivo desses, mas eu fui até você por pura curiosidade. Isso e a sensação de provar o fruto proibido. A mulher do meu inimigo, a filha mais nova dos Weasley, acredite ou não, foi um afrodisíaco e tanto.
Você não presta mesmo, mas a esta altura isso não é uma novidade, não é nem mesmo surpreendente. – ela resmungou enquanto abraçava os próprios joelhos numa posição defensiva.
Mas eu não sou o único culpado aqui. Se por um lado os meus motivos foram escusos, você cedeu a todos eles. Eu nunca forcei você a nada e ouso dizer que aproveitou o momento tanto quanto eu. – havia uma nota de crueldade na voz dele. A ruiva não respondeu, em parte por culpa, em parte por concordância. – Eu te odiei ainda mais só por não conseguir me afastar de você.
Draco, nós sabemos que nunca houve a menor possibilidade disso dar certo. – ela secou com sua mão enluvada a lágrima teimosa que fugiu de seus olhos. Ele era cruel até mesmo quando tentava demonstrar sentimentos. Ela estava tão confortável em seu limbo, anestesiada pela ignorância, e agora ele estava ali, torturando-a com um passado morto.
Houve, Ginny. No momento que eu decidi mudar por você houve uma possibilidade. – Draco voltou a encará-la de forma acusadora. Mudar. Quem ele queria enganar com aquilo? Eles nunca mudariam, os preconceitos estavam enraizados de mais para isso. – Eu tinha voltado para o lado da Ordem, eu estava reavaliando meus conceitos, eu estava envolvido com você. Então ele morreu. Por um momento, um momento bem curto, eu achei que podia dar certo, que estávamos livres. Eu fui idiota, fui tão ingênuo quanto aquela sua amiga descompensada. O que eu estava pensando? Que a noiva do santo ficaria com alguém como eu? Com um agente duplo, um ex-traidor, um Malfoy. Não, você era boa de mais pra ficar comigo.
O que esperava que eu fizesse?! – ela finalmente estava reagindo, estava trazendo a tona todo aquele fogo que estava escondido dentro dela. A Ginevra que ele conhecia não era tão conformada, não era tão frágil e débil. Fogo era parte dela. – Ele era meu noivo e a pesar de tudo eu o amava! – Ele a encarou com fúria.
Amava? Pela minha limitada experiência no assunto o que eu sei é que uma mulher não traí alguém que ama. Você viu a minha aproximação, você respondeu ao meu flerte, você foi pra cama comigo sem que ninguém te dissesse que aquilo era algo que você devia fazer. Você sempre soube o que estava fazendo e se amava tanto Potter, por que você enganou a mim e a ele? – um tapa teria doido menos. – Vou te dizer o porque. Potter estava ocupado de mais perseguindo a própria morte pra dar a devida importância a você e eu era um tipo de vingança perfeita contra o seu namorado perfeito, sem contar que eu era de longe o homem mais sexy que já caiu na sua rede. – ele acrescentou com uma nota de cinismo.
Não se dê tanta importância. – ela resmungou. Aquilo pareceu uma atitude infantil da parte dela, mas algo nele achou aquilo adorável mesmo quando sentia a raiva fervendo dentro de suas veias.
Meu palpite é que depois da morte dele você foi acometida de um surto de culpa e remorso. Mesmo que você saiba que não foi sua culpa, mesmo que não tenha sido você quem o matou, tudo o que aconteceu entre nós envergonhava a memória dele. – ele passou a mão pelos cabelos denunciando seu nervosismo. Sentia que ia explodir. – Me sinto um idiota depois de tudo.
Por quê? – ela perguntou num tom tímido e vago, aquilo o desarmou. Ele a encarou por um momento então ela percebeu que nunca sofreu sozinha naquela história.
Porque eu estava disposto a esperar até que você se sentisse confortável para ficar comigo. Sabia que não seria fácil, que você precisaria de tempo, mas eu achei que valia a pena. O que aconteceu, Ginny? Por que você achou que o melhor era esquecer-se de tudo enquanto eu enlouquecia por sua causa?
Um dos meus irmãos... – ela disse num tom baixo, enquanto sentia uma pontada de dor na cabeça – Gui descobriu o que estava acontecendo. Ele não fez exigências, ele não ameaçou contar pro resto da família, mas eu vi o quão decepcionado ele estava. Eu o magoei e acabaria magoando todos quando descobrissem.
Então o medo de encarar sua família levou você a apagar sua memória? – ele tentava controlar a indignação – Você é mais covarde do que eu imaginava e Loony Lovegood é tão louca quanto eu sempre pensei que fosse.
Luna me prestou um favor. – Ginny tentou defender a amiga, mas Draco não deu qualquer importância. – Ela tentou me convencer a desistir.
Então sou obrigado a fazer uma correção, a louca é você e talvez Lovegood tenha mais juízo do que eu imaginei. – ele respondeu seco. – O melhor de tudo é saber que você ainda tem a cara de pau de me condenar por ter mentido pra você. Acho que tenho tantos motivos para me sentir ferido quanto os que você alega ter.
É tudo? – ela falou tentando parecer entediada com a conversa, mas por dentro ela tremia. Estava vulnerável e ele tinha razão em cada ponto que havia citado. Ele tinha todos os motivos para exigir o silêncio dela, ele nunca errou sozinho. Daniel Malcom, o nome pra encobrir o passado dele, para recomeçar uma vida do zero. Ela não havia feito a mesma coisa? Ela havia colocado aquela história no papel, dois velhos conhecidos e eternos estranhos, tentando recuperar o tempo perdido. Ela escolheu um nome para recomeçar também, um pseudônimo sugestivo. Magnólia Willburn era o nome de uma nova vida. M, Malfoy, W, Weasley...Ginny nunca havia reparado na mensagem sutil de seu inconsciente. – Eu não vejo um propósito nesta conversa. Você desabafou tudo o que queria, você ouviu a minha história, agora é isso, cada um segue seu caminho. Acabou, nós dois sabemos disso.
EU JÁ DISSE QUE NÃO ACABOU! – ele se atirou em cima dela num acesso de descontrole. Ginny se limitou a arregalar os olhos de medo ao vê-lo sobre ela, com as mãos ao redor de seu pescoço fino numa ameaça explícita. Ele sempre foi um péssimo perdedor, mas ela não tinha o que fazer naquela situação. – O que existe entre nós não vai acabar assim, Ginevra. – ele disse num tom raivoso, mas controlado, junto ao ouvido dela. O nariz dele roçou a pele do rosto de Ginny provocando arrepios leves. Só ele conseguia fazer isso, chamá-la pelo nome como se buscasse por ele dentro da alma dela. - Você vai ficar comigo, isso não é negociável. Ou é isso, ou eu mesmo vou contar para eles sobre cada noite que você fugiu do dormitório pra me encontrar. Vou contar que na véspera da morte do seu amado Harry você estava na minha cama. Vou contar que a sua perda parcial de memória não foi um acidente, que foi tudo premeditado. Eu vou dizer tudo e ai você terá motivos pra me odiar de verdade. – ela estremeceu.
Você não pode fazer isso! – ela murmurou, ainda sentindo o peso dele sobre si. – Não vão acreditar em você!
Podem até não acreditar, mas ficaram em dúvida. Eu poderia usar um pouco de Veritasserum na sua amiga, Luna. Ela confirmaria tudo. – Draco ameaçou em tom frio e indiferente - Mas se você fizer a escolha que devia ter feito anos atrás, então tudo será bem mais fácil. Você volta para os seus amigos e sua família e assume que temos um relacionamento. Eles não vão gostar, eu não ligo a mínima pra isso. Mas entre a raiva passageira e a magoa eterna, acho que eu como seu namorado sou uma opção bem mais aceitável, do que uma mácula na memória de Harry Potter e na sua honra. – então ele viu nos olhos dela as mesmas lágrimas de dúvida da noite em que ela perdeu Potter para a morte. Uma parte dele, talvez a mais humana, vacilou por um momento e ele pensou em deixá-la em paz, mas anos a serviço da total falta de caráter deixaram suas marcas.
Por que... – ela murmurou num soluço estrangulado, tentando conter o choro – Por que você insiste nisso?
Porque eu preciso de uma razão para sair do inferno que era a minha vida quando você me deixou. – ele a deixou na cama novamente e olhou para qualquer ponto sem importância do outro lado do quarto – Porque ter nada ao seu lado sempre foi melhor do que ter o mundo e não ter você para preenchê-lo. A sua ausência, foi o meu pesadelo.
E você acha que eu conseguirei amar você por obrigação? – ela perguntou indignada e ele se virou para encará-la com olhos paradoxalmente serenos. Ele lançou a ela um sorriso cínico e o passado doeu um pouco mais.
Você não pode culpar um homem por tentar. – ele disse simplesmente – Em todo caso, se não funcionar, ao menos eu me sentirei vingado. Terei me vingado de você por sua covardia e terei me vingado do santo Potter por ele se intrometer na minha vida mesmo quando já não tem a dele. – Draco caminhou calmamente até o lado oposto da cama enquanto desabotoava a camisa. Jogou a peça de roupa longe e se deitou ao lado dela sem o menor constrangimento – Você tem um dia para pensar na proposta e se eu fosse você não tentaria deixar o hotel a uma hora dessas, pode acabar pegando uma gripe.
Vai dormir aqui? – ela perguntou incrédula, ele deu de ombros sem olhar para ela.
Já faz algum tempo que dormimos na mesma cama e já fizemos coisa bem pior do que só dormir. Eu não tenho problema nenhum com isso e se eu quisesse você longe da minha cama eu não teria feito a proposta, então não seja tão puritana. No fundo, você gosta tanto quanto eu.
No silêncio da noite de inverno a ausência de sons foi uma maldição inconveniente para uma mente atormentada. Eram só dois corações batendo, só um passado insistente. Eram muitos erros cometidos para que a vida ignorasse o débito.
Nota da Autora: É, eu estava precisando escrever alguma coisa, mas como eu estava bloqueada pra continuar minhas outras fic's eu decidi retomar um projeto antigo e melhorá-lo. Essa fic ainda está meio cinzenta na minha cabeça, mas vou tentar desenvolve-la da melhor maneira possível. Espero que gostem.
Comentem por favor! É bom, é de graça e não engorda. E ainda faz minha mente funcionar melhor!
Bjux
Bee
