Le Femme Musketeers
By Dama 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Ducase, Anjou, D'Arjan e Aaron são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.
Boa leitura!
Capitulo 1: 1674.
.I.
O ano era 1674, a França estava no auge de seu poder, carruagens e mais carruagens cortavam as estradas rumo ao Palácio de Versalhes, aquele seria o primeiro baile de primavera da temporada.
Damas e cavalheiros de todas as partes da França chegavam a Paris para saudar o rei e sua corte, os mosqueteiros que até então eram limitados a cede, passaram cada vez mais participarem dos eventos reais e foi nessa festa, que tudo começou.
Dizer que aquele tipo de festa lhe agradava seria uma terrível mentira, esquivou-se dos gracejos das damas voluntariosas do salão e buscou a tranqüilidade de uma sala reservada.
Estancou ao encontrar uma totalmente vazia, os orbes dourados correram por toda parte, apenas as luzes dos archotes lá fora e da lua iluminavam o local, voltou-se para o centro da sala onde uma grande estatua de mármore estava.
Aproximou-se com cautela e surpreendeu-se ao ver a imagem de quatro homens entalhada sobre o mármore. Abaixou os olhos até uma placa dourada abaixo do monumento.
Um dia já ouvira falar que Shion mandara erguer um monumento em homenagem aos mosqueteiros mais leais da ordem, que serviram fielmente sob a coroa do avô tanto quanto do pai.
Os quatro mosqueteiros que construíram a história da França, retirou o chapéu negro de abas largas em sinal de respeito, enquanto os cabelos caíam graciosamente pelas costas.
Os conceitos aos poucos estavam mudando, já não eram mais como na época deles. Os mosqueteiros estavam ficando enfadados da missão que tinham e os lordes, aqueles que deveriam reger o Parlamento e as novas leis, eram tão sujos quanto os ratos das docas.
Alguém precisava tomar uma providencia para impedir que o caos tomasse conta de Paris. Suspirou pesadamente, não fazia muito tempo que chegara a França, embora muitos ali lhe confundissem com um nativo.
Os longos anos estudando vários idiomas por ordens de sua mãe lhe conferiram a chance de passar incógnito entre os demais.
-É como se pudéssemos encontrá-los em qualquer parte daqui; uma voz intensa lhe fez estremecer, instintivamente levou a mão ao cabo do florete. –Se não fossem eles, nós não estaríamos aqui;
Virou-se intrigada e encontrou um homem encostado na porta da sala, com um dos ombros tocando o batente e os braços cruzados na frente do peito. Parecia uma pose descontraída, mas qualquer um que reparasse nas finas linhas abaixo dos olhos, poderia conferir que ele estava tenso, empertigado como um felino a caça.
-Infelizmente eles não estão mais aqui; o mosqueteiro murmurou antes de vestir o chapéu novamente, mantendo um tom de voz baixo, para que a diferença no timbre não fosse notado.
-Mas alguém precisa continuar o que eles começaram; o estranho falou.
A face estava oculta por uma mascara preta, mas conseguia ver perfeitamente o brilho intenso de seus olhos, ou a forma graciosa que os cabelos lilases caiam por sobre seus ombros. Ele tinha um chapéu de abas largas nas mãos, era preto como o seu, mas a pena era escarlate.
Foi quando seus olhos se tornaram mais perscrutadores e começaram a avalia-lo. Embora aquela fosse uma festa a fantasias, ele parecia bastante à vontade com o personagem que interpretava. Suas roupas eram negras, mas pode ver uma capa balançar em suas costas. Só esperava que ele não estivesse interpretando o papel de Carlos da Inglaterra. Infelizmente os ingleses não eram bem vistos ali na França, não quanto tantos espiões cruzavam a fronteira freqüentemente.
Sem contar é claro, aquele conhecido episódio que a princesa inglesa casada com Filipe, irmã do avô do atual rei, fora jogada na bastilha e presa como traidora da coroa, apenas por não aceitar se tornar amante do rei. Assim, declarou a plenos pulmões que preferia a morte a compartilhar o leito com ele.
O conflito entre os países seria eminente, mas foi ainda mais ferrenho quando a princesa morreu na prisão, a causa, ninguém sabe. Mas a questão era que, ingleses não eram vistos com bons olhos ali.
Entretanto, quem poderia ser aquele estranho?
-Pode me chamar de Mú... Mú Cardelli; ele falou apresentando-se.
-Ducase; o mosqueteiro responder fitando-o em desafio. –Anteros Ducase.
.II.
França/ Lyon 1677... Três anos depois...
As mãos estavam vermelhas quando jogou a pá no chão, enxugou a testa que pingava suor com a manga da camisa xadrezada. Suspirou pesadamente, prendendo fortemente os longos cabelos castanhos em um coque.
O último tumulo fora feito, embora com o coração pesado e a alma nublada pela dor. As lágrimas que não chorara caiam agora do céu com aquela chuva torrencial.
Nuvens negras cobriam a pequena propriedade rural, eram tempos difíceis, mas a tendência era só piorar. A cidade se perdera, se sobrara alguém alem de si vivo, era por muita sorte.
O padre do vilarejo dizia que aquilo era um castigo divino, mas porque às crianças sendo tão inocentes também haviam pagado por isso perecendo naquela epidemia cruel?
Os orbes castanhos amendoados estavam anuviados, como a neblina que subia sobre o lago a sua frente. Logo a noite cairia e precisava se preparar para partir.
Tinha uma missão a cumprir em Paris e quando mais se demorasse ali, pior seria.
.III.
França/ Nice 1677...
Qual era o limite de paciência de um ser humano comum? –ela se perguntou, enquanto mantinha o ouvido colado ao cálice de cristal, que estava igualmente fixo sobre a porta.
As vozes lá dentro da biblioteca eram baixas, mas nem por isso desistiu de se infiltrar naquela ala da casa e ouvir a conversa que estava acontecendo lá dentro.
-Compreendo meu marido que seja um bom investimento para a família, mas ela é tão jovem; a mãe falou inquieta.
Mesmo que não pudesse ver, conseguia imaginar a mulher alta e esguia do outro lado, com os dedos entrelaçados entre ambas as mãos, sentada ereta em uma cadeira, enquanto o pai, com a expressão austera, olhava pela janela, abertamente ignorando as idéias da esposa.
-Mas já passou da idade de se casar. E isso não é bom para nossa família; a voz soou grave e taxativa.
-De mais uma chance a ela, ela é ainda muito jovem. Mal participou de seu primeiro baile na corte;
-Que por sinal foi um fiasco;
Encolheu-se instintivamente ao ouvir o pai bater o punho no tampo da mesa, sabia que ele ainda estava furioso com isso, mas o que poderia fazer. Não iria deixar um francezinho afetado, tomar liberdades consigo, apenas porque ele era chamado de Vossa Graça, alias, que não tinha graça alguma.
Uma xícara de café insossa, era mais saborosa do que ter de aturá-lo por mais do que cinco segundos, mas não... O pai insistia em lhe dizer que fora uma imensa falta de cortesia para com o rapaz, no meio da valsa, ter-lhe dado um pisão no pé, que o deixou a ver constelações, não apenas estrelas.
Se fosse levar em conta sua língua afiada, o pai não ficaria aborrecido, mesmo porque ele sabia que isso não poderia controlar em si, mas tinha a leve impressão de que o que o deixara furioso fora dizer no meio do baile, que a intenção, era mesmo deixá-lo prostrado no chão, porque jamais vira um homem tão fresco e frouxo.
Cinco dias trancada dentro do quarto, só recebendo as refeições diárias, fora o castigo que levara e quase a enlouquecera. Estava acostumada a ser livre, não viver entre gaiolas e correntes, mas os pais não entendiam isso. A época em que viva, não era capaz de compreender. Duvidava muito que existisse algum homem capaz de compreender seu desejo por liberdade. Por isso, sempre se esquivava de qualquer pretendente.
-Lorde Prastell é muito maduro para nossa pequena Angel;
-Prastell; ela sussurrou, com ar enojado. O idiota com cara de pastel, não era a toa que tinha aquele nome. Mas porque raios seus pais, queriam lhe ver casada com aquele bode velho?
-Por enquanto ele é só um Visconde, mas assim que seu tio falecer, ele será o novo conde e é importante que ainda tenhamos voz no Parlamento; o pai falou.
-Que por sinal é uma instituição falida, meu marido; a mãe se empertigou. –Eu desejo mais para nossa filha do que um velho que poderá morrer do coração na noite de núpcias.
As palavras da mãe reverberaram atemorizantes em sua mente ao pensar nisso. Bem, desde que compreendera, em que realmente consistia o casamento dos pais, acabaram-se as ilusões do príncipe encantado e da fada madrinha, mas dificilmente se contentava com pouco e um bode velho daqueles compartilhando-lhe o leito, era simplesmente inconcessível.
-Amanhã ele virá fazer o pedido oficial, por isso trate de colocar um pouco de juízo naquela desmiolada;
-Não fale assim da-...;
Não ficou ali para terminar de ouvir as discussões que viriam. Precisava agir rápido, não podia ficar ali. Correu para o quarto, rezando para não encontrar ninguém no caminho.
Por sorte a irmã mais nova já estava casada, sorte sim, pelo menos nisso tinha de concordar. Não fora um casamento de conveniências e ela realmente gostava do cunhado, mas não podia envolvê-los em seus planos e comprometê-los.
Suspirou pesadamente, ainda bem que não teria de se preocupar com a irmã. Ela estava bem e bem longe dali. Entrou no quarto correndo, sua dama de companhia já a esperava, com um vestido cor de pêssego nas mãos, pronta para lhe arrumar para o jantar, o último antes da sentença de morte.
-Milady esta agitada, o que aconteceu? –Rebeca perguntou ao vê-la andar de um lado para o outro.
-Não posso ficar aqui;
-Como? –ela perguntou confusa.
-Rebeca, posso confiar em você, não é? –Angel indagou voltando os profundos orbes castanhos para a jovem.
-Claro, milady; Rebeca falou veemente.
-Ótimo, preciso que me ajude a fazer uma mala e depois desça e diga a meus pais que não estou bem para descer e jantar; a jovem falou ajoelhando-se ao lado da cama e afastando a colcha.
-Mas milady; Rebeca hesitou.
-Depois vá e fique com os demais na cozinha. Não quero que você volte aqui em cima nem deixe ninguém mais subir depois que o jantar começar; Angel falou voltando-se para ela com um olhar tão frio quanto cortante.
-Como quiser milady; ela assentiu, temendo o que sua senhora pudesse fazer nesse meio tempo.
Levantou-se com a caixa nas mãos, deixou-a sobre a cama e aproximou-se da jovem. Respirando fundo, tomando-lhe as mãos entre as suas.
-Obrigada minha amiga, por tudo que tem feito por mim esses anos todos; Angel falou, tentando conter o disparar do coração. Não sabia se teria coragem de seguir com aquele plano desesperado, mas era melhor morrer tentando.
-Tome cuidado, milady; Rebeca sussurrou, abraçando-a fortemente. –O Cavaleiro Negro sempre diz, mesmo que as coisas estejam difíceis, há sempre um fio de esperança e até o último suspiro pode-se cometer um milagre.
Assentiu se afastando, lembrava-se das histórias que um jovem poeta contou no vilarejo próximo a sua casa. A história sobre um cavaleiro de longas melenas negras e olhos hipnotizantes. Capaz abrir uma ferida no vento e calar a todos, apenas com sua voz.
Não acreditava em contos de fadas, mas já ouvira o mesmo poeta afirmar que aquele cavaleiro era real, tão real, que poderia tornar seus sonhos realidade. Só precisava encontrá-lo. Com a pista que possuía iria encontrá-lo, estava certa disso.
Agora mais do que nunca, precisava de um cavaleiro montado sobre um corcel, capaz de lhe salvar da bruxa má e do anão trapaceiro.
-Agora vá; Angel a apressou.
A jovem assentiu, viu-a sair e aproximou-se da porta, trancando-a em seguida. Com uma rapidez surpreendente, livrou-se do vestido e das anáguas. Abriu a tampa da caixa sobre a cama e retirou de lá de dentro, uma calça, uma camisa, botas e uma túnica preta.
As roupas haviam sido feitas sob medida, para ficarem largas o suficiente para as curvas não serem notadas, mas confortáveis para que pudesse montar e manter-se equilibrava.
Aproximou-se da lareira e de dentro do vaso ao lado onde ficava o atiçador, retirou um florete de punho dourado. Os orbes castanhos brilharam, recebendo a luz da espada e das chamas que tremeluziam dentro da lareira.
-Angel... Anjou... Uhn! Christian D'Anjou; ela sussurrou.
Embora seu pai fosse conhecido como Lorde Grandell, eram poucos os que sabiam, que por parte de mãe, sua herança era inglesa. Alias, o pai fizera um esforço muito grande para esconder que sua mãe, era uma das poucas da linhagem da casa de Anjou, já que os conflitos entre França e Inglaterra ainda eram muito ferrenhos.
Mas a questão era, que antes dos conflitos entre Carlos da Inglaterra e Luiz da França, houve um tempo em que as duas nações eram amigas e isso, permitira que os poucos York e Lancaster tivessem um solo tranqüilo para restabelecerem suas vidas.
Ninguém imaginou que após a Guerra das Rosas, que quase destruiu ambas as famílias e que deu a vitória a casa de York, os herdeiros do trono inglês fossem morrer, um a um, e no fim, todos os quinze.
Margarida, a rainha consorte após ser presa na bastilha foi salva pelo rei francês, que conseguiu soltá-la e deixá-la viver seus últimos dias em Anjou. Muitos disseram que metade dos York que foram assassinados, foi a mando dela e os outros, em nome de Guilherme o Bastardo, como assim era conhecido, aquele que também teve o trono usurpado com a Era Tudor.
Entretanto a questão agora era que, graças a seu pai ter escondido de todos as origens de sua mãe, o velho tio Christian poderia lhe ajudar e muito. Ainda se lembrava do velhinho que conhecera há muitos anos atrás, quando ainda era uma criança.
Ele era tido com a ovelha negra da família, porque detestava convenções e acima de tudo, sempre falava o que pensava. Uma vez, ele lhe disse que era melhor dizer a verdade e lidar com o peso dela, do que não saber como lidar, com o peso de uma mentira.
Suspirou pesadamente, agora Angel Grandell não existia mais e sim... Christian Anjou; ela pensou, guardando o florete na bainha e preparando-se para partir.
.IV.
França/ Toulouse 1677...
Olhou para a caneca de cerveja a sua frente e conteve um suspiro. Ouvia as vozes animadas de uma infinidade de homens jogando baralho nas mesas vizinhas, bebendo ou tentando agarrar as garçonetes.
-Bando de porcos sem cérebro; resmungou levando a caneca até os lábios.
Os longos cabelos castanho-avermelhado estavam escondidos por dentro do chapéu de abas largas que cobria seus olhos. Estava quieto numa mesa dos fundos, não desejando ser incomodado.
-Hei! Amigo, quer companhia? –um bêbado desengonçado perguntou, puxando a cadeira.
-Não; respondeu friamente.
O homem pareceu não se importar e sentou-se mesmo assim. Respirou fundo, tentando se controlar. Alias, controlar aquele gênio de pavio curto, que poderia detonar tudo aquilo ali em segundos.
-Deseja mais uma cerveja senhor? –uma jovem perguntou, aproximando-se dele ao vê-lo colocar a caneca vazia em cima da mesa.
-Não...;
-Hei gracinha, venha aqui; o bêbado falou, puxando a jovem para seu colo.
Agoniada a jovem tentou se soltar, mas a desvantagem era imensa entre ambos.
-Solte a moça; D'Arjan avisou, ainda mantendo os olhos baixos.
-Estou me divertindo garoto, se você não sabe como é o problema não é meu; o homem falou, estreitando os braços em torno da cintura fina.
Um soluço desesperado escapou da garganta da jovem que tentava se libertar. Ninguém ali parecia dar atenção para o que o bêbado pretendia, alias, agiam como se fosse à coisa mais normal do mundo.
-Sabe o que me diverte, milorde? - D'Arjan falou, recostando-se na cadeira e voltando-se para ele com os orbes castanhos, levemente dourados pela ira.
-O qu-...; o homem pareceu congelar, no momento que pretendia forçar a jovem a beijar-lhe e voltou-se para D'Arjan, que estava calmo e impassível.
-Dar uma surra num porco bastardo como você; ele falou movendo o florete com tanta suavidade por baixo da mesa, que ninguém ao redor notou o que iria acontecer se ele fizesse um movimento mais brusco.
-O que quer moleque? –o bêbado falou, suando frio, ao sentir a ponta da lamina do florete tocar-lhe a virilha.
-Solte a moça; ele repetiu.
-Eu na-... Tudo bem, só aponte isso para outro lugar; o bêbado gaguejou.
Soltou a moça que rapidamente esquivou-se de si e lançou um olhar de gratidão, antes de sair correndo.
-Agora; D'Arjan falou voltando-se para ele. –Coloque suas mãos de novo nela e eu vou garantir que você não precise mais fazer suas necessidades em pé; ele falou em tom letal.
Puxou o florete e deixou-o sair correndo, para outra mesa.
Jogou umas moedas ao lado de sua caneca e levantou-se. As roupas negras ondularam com seu caminhar, deixou a taberna, antes que mais alguém lhe notasse.
Mal havia ganhado a rua, uma figura pequena e hesitante aproximou-se. Parecia à mesma garota da taberna; D'Arjan pensou, ela estava com uma capa, enrolada nas costas e a segurava fortemente.
-Milorde é D'Arjan, não é? –ela perguntou tremula.
-...; assentiu desconfiado, olhou para os lados garantindo que estavam sozinhos ali.
-Por favor, venha comigo, ele gostaria de falar com você; a jovem pediu.
-Quem é você?
-Danette; ela falou num sussurro, como se temesse ser ouvida. –Trabalho para a casa de Ducase;
-Ducase; arqueou a sobrancelha por puro reflexo, quando pensou no que aquele nome lhe sugeria, até que... –Ducase da Itália;
-E da Grécia, sim; Danette concordou.
-O que o embaixador, quer comigo? –ele perguntou desconfiado.
-Não o embaixador, não ele; Danette falou temerosa. –Anteros... Anteros Ducase;
O cavaleiro negro das lendas que ouvira. Não seria a primeira nem a última vez que ouviria sobre o lendário mosqueteiro, mas durante um tempo pensou que fosse apenas uma fabula para entreter as crianças.
O nome Ducase nesse caso não queria dizer nada, já que, sendo um personagem de uma história, poderia ter qualquer nome. Mas ele existia. O mosqueteiro existia.
-Venha comigo milorde, por favor; Danette pediu. –Não podemos conversar aqui;
Queria muito conhecer Ducase, não podia negar. Mesmo que a prudência lhe mandasse desconfiar daquela menina de ar inocente. Antes que se desse conta, já estava atravessando a rua e seguindo-a entre as vielas.
.V.
França/ Melbourne 1680...
Os orbes castanhos correram pelo porto, logo estaria desembarcando, depois de seis anos longe dali. Os longos cabelos vermelhos oscilaram com o vento. Segurou fortemente a folha que tinha nas mãos e instintivamente, comprimiu-a contra o peito.
Aquela era uma carta de um grande amigo. Pedindo-lhe um favor de igual magnitude.
Às vezes, quando se sentava na janela de seu quarto, vendo a neve cair em San Petersburgo, ou as carruagens correrem pelas ruas iluminadas e o palácio do czar todo iluminado. Pensava em como o destino era engraçado e as pessoas nem mesmo notavam isso.
Seis anos atrás, partira de Melbourne com o tio, rumo a San Petersburgo, porque o irmão mais velho, achou que teria mais chances ao viver em outro país do que permanecer no meio das confusões políticas que aconteciam em Paris.
Na época não contestou, com o coração apertado por deixá-lo. Seguiu em frente. Suspirou lembrando-se das telas, estojos e tintas que estavam vindo dentro de baús no navio. Todos seriam mandados para a casa em Paris, mas chegariam antes que ela.
-Milady, logo vamos desembarcar, é perigoso ficar tão perto da borda, pode cair; um marinheiro falou hesitante, as suas costas.
-Esta tudo bem; Aisty murmurou, com os olhes perdidos na água.
Segurou-se em uma corta, retesada próxima a seus olhos. Graças a dois grandes amigos, agora sabia o que queria de sua vida. Alias, sabia que queria mais do que a França poderia lhe dar, mas... Somente ela mesma poderia conseguir virar a mesa.
As peças aos poucos se moviam e aquela carta era prova disso, muitos já estavam em Paris a pedido dele, como ela também. Kamus ficaria louco se soubesse em que estava metida, mas até mesmo o tio aprovava sua decisão.
O navio se aproximou do porto, os marinheiros corriam pelo convés. Essa foi à deixa para se afastar e voltar para sua cabine. Desceu as escadas com passos calmos e equilibrados, embora estivesse ansiosa.
Mas um problema que teria de contornar em breve. Era emotiva demais. Quando criança tinha o péssimo habito de se irritar com qualquer coisa, ou simplesmente sentar e chorar, mas agora precisava agir friamente, principalmente para ir até o fim com a missão que tinha.
-Milady precisa se arrumar, iremos desembarcar logo; uma das criadas do tio, que lhe acompanhava na viagem falou.
-Eu sei; Aisty respondeu suspirando pesadamente. A companhia também fora uma forma do tio saber que ela andaria na linha apesar de tudo. –Lisa, pode me fazer um favor?
-Sim, milady; a jovem respondeu rapidamente.
-Coloque numa pequena sacola, aquele vestido bordô, com detalhes em dourado e aquela caixinha que guardei entre as roupas no baú menor; ela falou indicando um próximo a cama.
-Mas...;
-Por favor, isso tem de ser feito rapidamente; Aisty falou, enquanto trancava a porta da cabine e começava a tirar o vestido azul que usava.
Bufou exasperada, quando os braços ficaram presos entre tantas camadas de tule, teria rasgado tudo se Lisa não houvesse corrido, para puxar o vestido por sua cabeça e lhe ajudar.
-Detesto isso; Aisty bufou, arrumando os cabelos despenteados.
-Milady deveria ter dito que queria trocar os vestidos, eu-...; Lisa parou quando viu a jovem ficar apenas com a combinação de cetim e tirar uma caixa de dentro de um dos grandes baús. –O que é isso? –ela perguntou curiosa, vendo-a tirar uma infinidade de tecidos negros de dentro.
-Isso minha queria, sou o que seria daqui a alguns minutos; a jovem falou com um largo sorriso.
-Uhn?
-Agora coloque o vestido azul; Aisty falou indicando a peça. Enquanto começava a vestir a calça negra e a camisa. Graças ao corpete que apertava-lhe ate a alma, a curva dos seios ficaria encoberta e a camisa preta seria necessária para ocultar o resto.
Como diria o "Escorpião", melhor amigo de seu irmão. Os homens começavam a reparar nas mulheres, da cintura para cima. Então, como o resto estaria encoberto, eles não se demorariam em seu rosto, por conseqüência, não notariam a forma delicada dos lábios, nem o contorno gracioso dos olhos, menos ainda os cílios longos e femininos.
Homens, tinham tão pouco cérebro, que não eram capazes de notar uma mulher, se ela estivesse vestida de homem e isso era simplesmente perfeito; ela pensou.
-Ande. Ande... Não temos tempo; Aisty falou agitada, enquanto vestia a túnica. Prendeu os longos cabelos negros num coque no alto da cabeça e revirou a caixa mais um pouco. Tirando uma massa de fios negro lá de dentro.
-O que é isso? –Lisa perguntou enquanto tentava vestir o vestido de forma cuidadosa, para não danificar a peça.
-Uma peruca, os franceses são cheios dessas frescuras, então não vá se assustar se um deles tirar os cabelos junto com os chapéus, uma hora ou outra; ela avisou a jovem russa.
-Por quê?
-Eles se sentem mais machos andando com cabelos cheios de cachinhos, como se vivessem enrolados em bob; Aisty brincou.
Arrumou a peruca de fios pretos e jogou-a sobre sua cabeça, colocando-a facilmente de forma que uma franja rebelde caísse sobre seus olhos e o resto dos fios se espalhasse pelas costas.
Com a ponta dos dedos penteou-os para trás e prendeu-os com uma tirinha de couro, saída da caixa também. Totalmente vestida, aproximou-se de um espelho e olhou-se demoradamente. Não parecia tanto com uma mulher agora.
-Milady; Lisa chamou.
Virou-se para ela e notou que a jovem já estava vestida, tinham quase a mesma constituição física, o que ajudaria na troca. Voltou-se até o baú e tirou mais duas caixas de lá.
-Agora só falta isso; Aisty falou, tirando uma peruca de cabelos tão longos e vermelhos quanto os seus.
-Mas...;
Antes que al pudesse protestar, Aisty já havia prendido-lhe os braços num coque e arrumado a peruca em sua cabeça.
-Para ninguém notar a diferença. Não tire o chapéu; ela falou colocando sobre sua cabeça um chapéu de abas curtas, mas com um véu em toda a volta do mesmo, como era moda em Paris naquela época. –Agora sim, quando atracarmos, você segue para Paris com as coisas e em hipótese alguma deixe alguém saber que você não é Aisty Bering, quando chegar em casa, mande chamar diretamente Fiona a governanta, ela saberá como proceder;
A jovem assentiu ainda temerosa com relação aquele plano. Mas antes que seus temores fossem aplacados, Aisty já havia pegado o florete que trouxera no baú e saído do cômodo.
Com passos mais pesados que o comum, subiu ao convés. Não era novidade que muitos mosqueteiros viajavam como civis e que ao entrarem na França colocavam o uniforme, por isso ninguém se preocupou ao lhe ver passar, nem perguntou quem era.
O navio encostou no porto, os marinheiros começaram a descarregar. Logo viu Lisa saindo hesitante da cabine, enquanto alguns marinheiros traziam os baús. Viu um deles tropeçar e quase derrubar o baú no chão.
Teve o impulso assassino de jogar o rapaz no mar, porque se a tela que estivesse ali dentro fosse danificada, mataria sem piedade o infeliz, mas como se prevendo seu olhar letal, Lisa adiantou-se e pediu a eles que tivessem mais cuidado, já que carregavam coisas frágeis.
Conteve um suspiro, a menina estava aprendendo. Agora só precisava acreditar que ela continuaria assim até chegar em casa. Com a sacola nas costas desceu as escadas. Tudo que precisava estava ali.
Passou por um ferreiro na rua do porto e viu vários cavalos ali na frente.
-Estão à venda? –ela perguntou com a voz em tom sóbrio.
O velho ferreiro ergueu os olhos e como o previsto, lançou um olhar perscrutador a si, que logo se tornou desinteressado, ao subir a cintura e notar o uniforme de mosqueteiro, nem ao menos olhou em seus olhos.
-Estão;
-Dou dois guineus por aquele ali; ela falou indicando com a cabeça um cavalo branco, entre os cinco amarrados em uma baia.
-Vinte; o ferreiro falou, enquanto voltava a bater com um martelo em uma ferradura na bigorna de aço.
-Cinco e não mais;
-Dez;
-Cinco; falou taxativa.
O homem resmungou, batem com mais força na bigorna e no fim, acabou por assentir. Jogou-lhe as moedas que foram pegas no ar e aproximou-se do cavalo.
-Se chama Vésper; ele avisou, antes que montasse.
Sorriu levemente acariciando a crina do animal, que foi imediatamente receptivo.
-Bastante propicio. Vésper; Aisty sussurrou, antes de disparar. Primeiro iria a Paris, encontrar o conselheiro e entregar a missiva que tinha, depois finalmente poderia rever o "grande amigo". –Ducase, as coisas estão se encaminhando da forma que você sempre desejou; ela falou.
Continua...
N/a: Apenas para fim de esclarecimento, essa parte da história se passa antes da chegada de Aisty a França, mas é algo de suma importancia para a compreensão da história.
Ao longo da mesma, varios personagens serão apresentados nas mais inusitadas situações, mas fiquem atentos, porque cada capitulo contém uma pista sobre a trama que liga Ducase, Anjou, D'Arjan, Bering e um misterioso mosqueteiro que em breve irá se revelar.
