We had just split in two…
Bretanha, Castelo de Hogwarts, 1239As flores nos cabelos de Guinevere apenas ressaltavam a palidez da pele da jovem. Pele clara demais, combinando com os cabelos de um ruivo muito vivo, e que ganhavam um brilho estranho sob o Sol de fim de inverno, e começo de desgelo.
O ar se tornava lentamente mais úmido do que durante os dias de neve, e o sol, quando resolvia aparecer, aquecia apenas o suficiente para transformar o gelo em uma água escura e lamacenta.
Mesmo assim, depois de quase três meses praticamente trancados no castelo devido a um inverno particularmente rigoroso, os dias de Sol eram convites para saídas aos jardins.
Hogwarts era um dos poucos lugares onde as antigas comemorações ainda podiam ser realizadas sem medo de intrigas entre inimigos, ou perseguições de trouxas apavorados.
Como era mesmo o nome que deram à nova maneira de caçar e torturar supostos bruxos? Santa Inquisição? Guinevere gostaria de saber o que havia de santo naquilo
E como se não bastasse, os próprios bruxos estavam em guerra.
Magia branca, magia negra. No começo, eram apenas uma. Os problemas surgiram quando a magia começou a se dividir nesses dois lados.
Para Guinevere Fieri, as coisas eram complicadas demais. Magia era magia, apenas. Não devia ser divida e classificada. Se alguma parte dela feria os princípios de alguém, esse alguém poderia evitar essa parte.
Suspirou. Sabia que como filha de sacerdotes do lado branco, esse era um pensamento perigoso para se ter.
Olhou ao redor com um sorriso. Ostara estava se aproximando depressa, e o castelo decorado era fascinante.
Mas foi ao olhar os estudantes que seu olhar se prendeu em um professor.
Cabelos negros e olhos espetacularmente verdes, e bastante alto.
Draco R. Black, professor de Artes das Trevas em Hogwarts.
A matéria era, logicamente, opcional. Muitos pais proibiam seus filhos de assistir tal aula, e na verdade, havia entre os próprios estudantes uma forte resistência.
Guinevere sabia que mesmo que desejasse, jamais teria a permissão para freqüentar as aulas daquela matéria, uma vez que seus pais se esforçavam ao máximo para acabar com a Arte das Trevas.
Mas...havia algo. O assunto sempre lhe interessara.
Uma forma mais rápida e eficaz de fazer a magia funcionar, sempre ouvira dizer. Mais fácil de ganhar poder do que pela magia convencional. Exigia, contudo, muito estudo e dedicação. Para alguém como ela, parecia perfeito.
Até que um dia, resolveu ir falar ela mesma com o professor. Estava no quinto ano, onde a matéria começava a ser lecionada, e se quisesse entrar para o curso, talvez ainda houvesse tempo.
- Professor. Black? –chamou levemente, ao entrar na sala dele.
O homem que antes examinava os papéis, levantou os olhos até ela. Guinevere procurou não notar o sorriso desdenhoso que o professor abriu ao avista-la.
- Ora, ora...o que traz a jovem senhorita Fieri até a minha sala?
- Eu gostaria... –ela procurou ser o mais calma possível –De conversar com o senhor sobre suas aulas.
O olhar dele ficou subitamente interessado.
- E o que a senhorita, filha dos Fieri, teria para conversar comigo sobre minhas aulas?
Quando ela terminou de falar, ele sorria. Mas Gunevere não saberia dizer se era de surpresa ou desdém.
- Assistir as minhas aulas? Sem que seus pais tenham conhecimento? A senhorita por acaso enlouqueceu?
- Eu estou certa que não, senhor Black.
- Então.. o que a leva querer aprender as Artes Negras, criança? Acha que uma jovenzinha como você pode domina-las, por acaso?
Eu não acho, tenho certeza, pensou Guinevere, furiosa.
- Você não deveria ter certeza de nada. Não sabe nem ao menos proteger sua mente.
A ruiva paralisou ao ouvi-lo. Jamais imaginara que o professor pudesse fazer aquilo.
- Quer dizer que a mais difícil das Artes a atrai sem que você saiba com o que está lidando...
O desdém na voz dele fazia a jovem queimar por dentro.
- Se o senhor não me ensinar, –ela tentou –vou aprender sozinha.
Ele riu.
- E você acha que é capaz?
- Acho.
Ele parou de rir.
- E os seus pais?
- Como eu disse ao senhor, eles não precisam saber.
- Eu posso contar a eles que você veio me procurar com essas idéias, criança.
- Me perdoe por dizer isso, prof. Black, mas não acredito que eles iriam acreditar no senhor.
Ele a olhou por um longo tempo, como se a analisasse. Por fim, acenou com a cabeça.
- Acho melhor que você pare com essas idéias absurdas de aprender sozinha e permita que eu lhe ensine. É perigoso aprender Magia Negra sem ter um instrutor.
- E quanto aos meus pais? –ela perguntou, incerta.
E assim o acordo entre os dois fora estabelecido, dois anos atrás. Black seria seu professor, desde que ela se mostrasse uma aluna competente.
E Guinevere se mostrara.
Sorria cada vez mais ao aprender as lições com rapidez e perfeição, enquanto Black parecia ao mesmo tempo satisfeito com o progresso da aluna, e frustrado por não ter muito para corrigi-la. Mesmo assim, era o mais desagradável possível.
E agora Guinevere não pode deixar de sorrir ao ver que ele a observava.
Teria aulas com ele, durante aquela noite. Sabia que precisava ser sigilosa, e poucas de suas amigas sabiam o que a ruiva fazia fora do Salão Comunal da Slytherin durante as noites de sexta-feira.
Não que todas a apoiassem. Mas pelo menos, a ajudavam.
Black, ao perceber que aquele sorriso de desafio era direcionado a ele, desviou o olhar, num tom de superioridade que lhe era habitual. Guinevere riu por dentro.
- O que estava fazendo sozinha?
A voz suave para um rapaz lhe chamou a atenção. Sorriu ao ver Eric, seu amigo de infância e seu prometido sentando-se ao seu lado.
Eric T. Lupin era filho de grandes amigos dos seus pais, e ele e Guinevere foram prometidos um ao outro quando ainda eram pequenos. Guinevere não se importava em ter Eric como marido. Ele era uma boa pessoa e um grande amigo, mesmo que estivesse na Griffyndor, enquanto ela estudava na Slytherin. Além disso, era bonito. O cabelo castanho claro caía com perfeição sobre os olhos cor de mel.
- Apenas observando o movimento, Eric.
- Entendo. É bom poder sair do castelo depois desse inverno, não?
- É ótimo.
Guinevere sorria quando ele pegou sua mão. O toque de Eric não tinha outra definição além de...acolhedor.
- Sabe, agora a temporada de quadribol vai poder recomeçar... estou ansioso pelos jogos.
Guinevere também amava quadribol. Sua maior lamentação era a de que mulheres eram proibidas de entrar para os times das Casas. Costumava jogar com seus primos durante as férias, e tinha orgulho em ser boa naquilo.
Mas achava que era muita coragem mesmo de Eric falar nisso sabendo da rivalidade entre as Casas.
- Slytherin está na frente, não está? –ela brincou.
-É, imagino que sim. Mas vamos ver por quanto tempo.
Ele passou as mãos pelos cabelos bagunçados. Ela adorava aquela maneira particular dele de fazer aquilo.
E sem que a ruiva estivesse preparada para isso, os lábios dele tocaram os seus, apaixonadamente. Eric era cauteloso e suave, mas costumava fazer aquilo quando ninguém estava olhando. Guinevere sentia o amor de Eric, e jamais duvidou de seu amor por ele também.
- Eric... estamos nos jardins... –sussurrou, quando se afastaram, quase sem fôlego.
- É mesmo... –o rosto dele ficou subitamente corado –Desculpe.
- Tudo bem.
- Ainda bem que só faltam alguns meses para o nosso noivado oficial agora...
- É mesmo. –ela sorriu.
Fora de comum acordo que as famílias decidiram que os dois noivariam logo após completarem seus estudos em Hogwarts, uma vez que tinham a mesma idade.
O que para tanto Guinevere quanto Eric, era ótimo.
- Hm, desculpe atrapalhar os pombinhos, mas acho melhor entrarmos, Gui.
Os dois se viraram ao ver Amanda Raven os observando. A garota era simplesmente a pessoa mais inteligente que ela e Eric já haviam conhecido, e a mais rígida monitora-chefe que já devia ter passado por Hogwarts. Mas, Guinevere pensava sempre se lembrava daquilo, nada além do esperado para a descendente direta de Rowena Ravenclaw.
Por sorte, era amiga dos dois.
- O que houve? –Eric olhou para ela sem entender.
- Eu tenho que terminar o dever de poções junto com a Gui, Eric. Lembra? –ela fuzilou a ruiva com o olhar.
- Bem... eu tinha esquecido.
A loira revirou os olhos.
- É, imaginei. Vem, é para amanhã, lembra?
- Eu sei. –a ruiva assentiu, desanimada –Até mais, Eric.
- Até mais, Gui. –ele sorriu, e lhe beijou a mão em despedida.
Ao entrarem dentro das paredes escuras e úmidas do castelo, a ruiva não conseguiu conter um suspiro.
- Você parece um cão-de-guarda, Amanda.
Ela riu.
- Não é intencional, juro. O noivado de vocês é em agosto, não é mesmo?
A ruiva concordou, com um sorriso.
- E você vai ser nossa madrinha, lembra?
- Eu não poderia esquecer.
A noite chegara. A temperatura havia caído consideravelmente, Guinevere não pode deixar de notar com um estremecimento.
O jantar acabara há aproximadamente cinqüenta minutos quando ela entrou silenciosa e discretamente na sala de Black.
-A senhorita está atrasada sete minutos.
Guinevere rolou os olhos. Claro, Black jamais deixaria aquilo passar. Falou, em tom mais polido possível.
- Me perdoe, professor, tive um pequeno contratempo.
- Talvez, se você tivesse dito ao seu noivo porque estava tão apressada, ele lhe tomasse menos tempo.
Maldita mania de ler minha mente, a ruiva pensou furiosa. Eric jamais me perdoaria se soubesse.
- É justamente essa minha, nas palavras da senhorita, maldita mania, que você deveria estar aprendendo a evitar.
- Eu estou praticando a Oclumência antes de dormir, como me foi recomendado. –ela falou entre dentes.
- Bom saber disso. Bem, é claro que uma arte de tamanha dificuldade como essa pode estar além das suas capacidades, mas...
- Podemos ao menos tentar hoje?
Paciência nunca fora o forte de Guinevere. E aquele professor imbecil tinha a capacidade de acabar com a pequena parcela que a jovem tinha.
As aulas com Black tinham como o diferencial, serem bastante cansativas. Mas a daquela noite estava deixando Guinevere mentalmente exausta.
A jovem cansou de ter sua menta vasculhada pelo homem à sua frente. Viu e reviu cenas de sua infância, quando soube que ela e Eric estavam noivos, seu ingresso em Hogwarts. Seus antigos medos e derrotas.
Aparentemente, Black não estava interessado nas suas conquistas.
Uma parte essencial da oclumência consistia em saber bloquear suas emoções. Seria simples, se o professor não estivesse a provocando ao máximo possível.
E se ela própria não se irritasse tão fácil.
- Como você quer aprender se estiver calma? –perguntava Black, numa voz letal –Em um campo de batalha, em frente aos seus inimigos, as emoções estão sempre à flor da pele. E se você não aprender a se manter impassível diante delas, será imediatamente derrotada.
- Eu não pretendo me tornar uma guerreira, professor. Sinto lhe informar, mas informações sobre como funciona uma guerra por hora não me interessam.
-E a senhorita acha que, por ser filha de sacerdotes, estará protegida? Ao contrário, será uma entre os primeiros convocados. E se não souber proteger seus pensamentos pela Oclumência, terá seus pontos fracos visíveis. Então, senhorita ,–ele tocou no rosto dela com a ponta dos dedos, suave e perigosamente, assim como sua voz – se possui amor à sua vida, aprenda a se defender.
Suas mãos estavam geladas, Guinevere reparou. O toque a fez estremecer por dentro, enquanto as íris esmeralda a encaravam.
Ele estava lendo tudo o que se passava em sua mente, via seu nervosismo. Enquanto ela se sentia paralisada, sem saber o que fazer ou o que pensar.
Até que uma idéia perigosa lhe ocorreu.
- Protego.
A situação mudou de imediato. De repente, ela não via mais suas próprias lembranças ou os olhos verdes do seu professor. Imagens que não eram suas passavam pela sua mente.
Viu um menino de cabelos negros torcendo as mãos, nervoso, enquanto esperava pela sua hora na Seleção das Casas. Viu esse menino,agora um rapaz com o uniforme da Ravenclaw, abraçado numa moça de cabelos negros. Viu-o já um homem frio, segurando uma espada ensangüentada.
E foi nesse instante que sentiu seu corpo ser atirado para trás.
Quando levantou os olhos para Black, viu que ele a encarava com algo muito similar à fúria.
- Então parece que a pequena criança sabe se defender...muito bom...
A voz era completamente desprovida de qualquer emoção. Mas Guinevere não esqueceria o rápido vislumbre de descontrole anterior.
- A aula por hoje está encerrada.
- Mas...
- Você me ouviu, senhorita Fiery.
A ruiva não podia fazer nada senão engolir a raiva, contrariada.
Mas foi ao tentar levantar que Guinevere percebeu algo errado.
- Professor...
- Sim?
- Eu não consigo levantar.
- Hein?
Ele arqueou a sobrancelha.
- O meu tornozelo...
Ele acenou a cabeça, entendendo. E foi até ela, caminhando lentamente.
As mãos frias dele seguraram as suas, ajudando Guinevere a se levantar.
- Obrigada.
Ele não respondeu, como se aquilo não significasse nada. E não significava.
- Consegue andar?
Ela firmou o pé no chão. Doía um pouco, mas nada que não fosse insuportável.
- Consigo.
- Eu vou com você até o Salão Comunal.
- Não precisa se sentir culpado.
- Não é culpa. É para você não acabar em detenção caso tope com o zelador.
O detalhe curioso daquilo, Guinevere notou, é que normalmente as aulas acabavam bem mais tarde e ele nunca se oferecera a estar com ela para salva-la de detenções. Controlando a vontade imensa de rolar os olhos, ela concordou.
O percurso até o as masmorras não era extenso, mas sim tortuoso.
O tornozelo não estava quebrado, mas doía tanto quanto. Além disso, a jovem sentia que ele estava começando a inchar.
Mas a idéia de procurar a Ala Hospitalar lhe pareceu no mínimo, desprezível.
Alguém deveria ter uma poção de cura no Salão Comunal, nem que fosse alguém da equipe de Quadribol, acostumados a acidentes durante os treinos.
Mesmo que no começo Guinevere estivesse dispensando a companhia de Black, em certos momentos teve de admitir a si mesma, ainda que a contragosto, que ele estava a ajudando. Especialmente quando encontravam uma escada.
-Acalme-se, senhorita Fiery. Esse é o último lance para descer até a entrada do seu Salão Comunal. –o moreno comentou quando Guinevere xingou baixinho os degraus.
A voz de Black, apesar da censura, estava nitidamente divertida.
A jovem assentiu com a cabeça. Apenas cinco degraus. Apenas quatro. Apenas três...
- Ai!...
Um passo em falso, e o tornozelo machucado perdeu todo o equilíbrio.
Guinevere sentiu lágrimas virem aos seus olhos com a dor que sentiu, e pôs as mãoS para frente, se preparando para o tombo.
Foi quando se surpreeendeu ao sentir braços fortes a segurando, e fazendo seu corpo ir de encontro a outro.
Ergueu os olhos para encontrar íris esmeralda a observando.
- Tome cuidado. -ele sussurrou.
A ruiva sentia o rosto queimar. O seu corpo estava praticamente colado ao do moreno.
Ele era atraente, sem sombra de dúvida. O professor mais jovem do corpo docente de Hogwarts, apesar ainda de ser mais velho do que aparentava ser, ou pelo menos, ela imaginava que fosse. O rosto alongado tinha claros sinais de uma linhagem nobre. Era um Black, afinal de contas.
- Me solte... –murmurou, num fio de voz.
Mas as mãos dele continuaram no mesmo lugar. O mesmo estremecimento que sentiu antes naquela noite, quando ele começou a ler sua mente, percorreu sua coluna. Fechou os olhos.
Os lábios dele roçaram os seus levemente, a princípio. Vendo que ela não resistiu, contando, Draco aprofundou o beijo.
Se para Black foi uma surpresa perceber que a jovem Firei o correspondia, ele não deixou que ela notasse.
Quando se afastou um pouco, encerrando o beijo, disse apenas.
- Boa noite.
E sem dar maiores explicações, se dirigiu rapidamente para sua sala, deixando para trás uma Guinevere pálida e confusa.
Apenas quando se viu entre as paredes seguras de seus quarto, é que ambos se permitiram perguntar.
- Pelos deuses, o que eu fiz?
Foi quando Draco reparou que segurava com força uma fita de cetim negro. Fazia sentido o porquê dos cabelos dela terem escorregado soltos pelas costas dela, naquela noite, quando ele se lembrava dos cachos estarem amarrados para trás durante a aula.
Cetim. Ele nunca imaginara que alguém usaria uma fita daquele material para prender os cabelos. Mas, vindo de Guinevere Fieri, era quase compreensível.
O perfume de narcisos impregnava o ar, junto dos risos dos estudantes. Era Ostara, afinal. Aqui e ali, alguns alunos mais novos corriam com ovos pintados por eles mesmos, tentando convencer algum professor mais complacente a colocar o seu no Altar principal.
Guinevere riu ao ver a professora West, de Feitiços, ser puxada de um lado a outro por dois primeiroanistas ansiosos.
Lembrava do seu fascínio na primeira vez em que vira a imensidão dos Festivais da Tradição na sua escola. Hogwarts era, de fato, o lugar mais fantástico de todo o mundo bruxo.
As velas iluminavam toda a área central dos jardins e em frente ao lago. Era uma noite quente para o equinócio de primavera, e praticamente toda a neve derretera, dando lugar a um tapete de cores vivas e de perfumes deliciosos.
Eric estava ao seu lado, rindo também da animação dos alunos mais novos. Amanda, no seu papel de monitora-chefe, tentava controlar os mais agitados. Para os alunos do sétimo ano, também havia um clima de nostalgia naquilo. Era a última vez que veriam aquele espetáculo.
Por isso, fora extremamente cuidadosa ao colher as flores naquele dia. O Salão Comunal e o dormitório feminino da Slytherin estavam cheio delas, apanhadas pela própria Guinevere e pelas demais estudantes¹.
Procurou com o olhar, Amelia Welstire, sua amiga e colega de dormitório, mas não conseguiu localiza-la.
Outra pessoa que a ruiva tentava inutilmente tentar ver entre os presentes era op professor Black.
Depois daquela noite, ele nunca mais a chamou para suas aulas. Quando pediu a Mia –que tinha permissão de sua família para freqüentar as aulas dele –que perguntasse a ele sobre isso, em particular, a amiga voltou dizendo que o professor desconversara, falando que estava ocupado demais com os preparativos para o Ostara. A própria Maya achava aquela uma razão bastante convincente.
Era lógico que ela não sabia nada sobre o beijo entre a ruiva e Black. Ninguém além de Guinevere –e seu estranho professor –sabiam.
E se dependesse de Guinevere Firey, ninguém mais iria saber. Nunca.
Mesmo assim, a jovem não deixou de estranhar o afastamento que ele impusera entre os dois, a ponto de cancelar as aulas, quando podiam simplesmente fingir que nada acontecera.
- Ei, quem você está procurando?
- Hein?
A ruiva se virou para encontrar os olhos castanhos de Eric.
- Você está olhando de um lado a outro. Nem me ouviu falar sobre os jogos...
Certo. Tudo bem que dali a três dias Griffyndor teria um jogo decisivo contra Ravenclaw, mas será que seu noivo não sabia mais falar sobre outra coisa que não fosse quadribol?
- Eu queria saber por onde a Mia anda. Ela disse que precisava falar comigo.
Aquilo era verdade, ao menos.
- Aquela morena de cabelos lisos, que anda sempre com você?A ruiva concordou com a cabeça.
- Ela mesma.
Guinevere não podia repreender Eric por nunca lembrar direito o nome das suas amigas, uma vez que ela também era praticamente incapaz de identificar a maioria dos amigos dele.
- Se é tão importante assim, pode ir procura-la.
Eric, o perfeito cavalheiro, Guinevere pensou com um sorriso. Mas balançou a cabeça.
- Daqui a pouco a gente se encontra. Seja lá o que for, não é tão importante quanto você.
Ele sorriu abertamente, olhando ao redor primeiro, e então beijando de leve os lábios dela.
- Falando nisso...daqui a pouco eu tenho de ime reunir com os professores. Você não se importa de ficar alguns minutos desprotegida, não é? –ele brincou, segurando entre os dedos uma mecha do seu cabelo.
Ela riu.
- Vai lá, Godric Griffyndor.
Todo Festival era a mesma coisa. Dentre os alunos do sétimo ano, o melhor de cada Casa, sempre duas moças e dois rapazes, participavam da parte ritualística do sabbat –ou seja, do Festival.
Eric fora escolhido para representar a Griffyndor naquele ano. Bem, nada mais óbvio, uma vez que ele e Amanda eram os monitores-chefes.
Guinevere não se destacava tanto assim para ser escolhida para representar Slytherin. Mia conseguira aquela posição bem antes que ela pudesse sequer pensar em concorrer.
Pela Ravenclaw estava ali Amanda, como era de se esperar. E pela Hufflepuff, um rapaz que ela conhecia de vista chamado Henry Weasley. Nada que não fosse esperado. Mesmo assim, sempre era algo bonito de se ver.
Foi quando os professores se reuniram para formar o círculo que Guinevere conseguiu encontrar Black. Os cabelos negros caíam livremente sobre os olhos, e a ruiva teve a impressão de que ele estava mais cansado do que o normal.
Bem, talvez ele tivesse dito a verdade a Mia.
Todos se reuniram ao redor de um caldeirão de água. E abriram o círculo mágico.
E então, a magia começou.
Para Guinevere, mesmo que os festivais em geral não envolvessem feitiços, eram envoltos pela magia em sua forma mais pura.
A professora West, começa a cerimônia.
- Abençoada seja a Primavera que chegou.
Agora as flores mostram toda a sua vida através das cores .
A estação da esperança e da alegria chegou.
Que a Deusa e o Deus abençoem a Terra com equilíbrio e renovação
As velas foram acesas. A professora continuou a recitar. A magia envolvia tudo o todos ali presentes, numa sensação impossível de se explicar.
-Eu acendo essas velas em homenagem à Rainha da Primavera para que a luz do Sol possa trazer alegria e vida.
Guinevere sentia-se leve.
Ela colocou as flores no caldeirão, e lavou as mãos nele. Aquela era a hora de mentalizar seus desejos.
Guinevre fechou os olhos, apenas sentindo a vibração daquilo tudo. Sabia que a seguir a professora pegaria um dos ovos delicadamente pintados, e a ouviu recitar.
- Abençoada seja a primavera que regressou. Que a Roda da Vida sempre gire. Que assim seja e assim se faça!
Cada um que estava no círculo, bebeu um gole de água, como um brinde aos Deuses.
Alguns alunos bons em música começaram a tocar. Alguns estudantes se reuniam em pares, para dançar.
-Me concede esta dança?
Guinevere viu Eric lhe estender a mão, sorrindo. Ela aceitou.
A música animada envolvia o lugar, Eric a guiava com habilidade.
Pararam apenas quando se sentiram realmente cansados.
- Sentiu minha falta antes?
Eric a entrelaçou outra vez, mas Guinevere não estava prestando atenção. Seu olhar estava fixo no homem alto que desaparecia para as ares dos jardins que não estavam iluminadas próximas à Floresta Proibida.
- Eu acho que vou procurar a Mia agora, Eric...
O rapaz apenas assentiu com a cabeça, sem entender.
A ruiva não foi atrás da amiga, entretanto. Sem ser notada, ela se encaminhou para a mesma direção em que seu professor há pouco se dirigira.
Longe das velas, era fácil se perder, especialmente quando a lua estava nova. Guinevre se mantinha olhando de um lado para outro, caminhando perto da orla da Floresta, tentando descobrir onde Black estava.
Sentiu uma mão sobre sua boca, a impedindo de gritar enquanto, com um súbito sentimento de pânico, era levada para a Floresta.
- O que está fazendo atrás de mim?
Foi quando ela respirou aliviada, e ele a soltou. Guinevere se virou para tentar encarar Black.
- E quem lhe disse que eu estava atrás de você? –respondeu, irritada.
- E não estava?
Guinevere pensou em negar, mas as íris esmeralda aparentemente fixas nela, lhe diziam que não iria dar certo.
- Queria saber por que cancelou as aulas.
- Sua amiga, a senhorita Welstire, não lhe avisou que eu estava muito ocupado?
- Avisou
- E então?
- Por que não me disse logo que teria de parar com as aulas então, duas semanas atrás?
- Por acaso eu lhe devo satisfações, senhorita?
A voz dele era incisiva. A ruiva porém, respondeu com voz doce.
- Depois daquela última noite, na verdade, comecei a achar que o senhor não queria me ver por medo.
A raiva brilhou com tanta força nos olhos dele, que por um instante Guinevere pensou que ele seria capaz de agredi-la.
Mas ele não fez nada além de continuar a encarando.
- Por que teria medo?
- Por que não me beija outra vez, se não está com medo?
Ela não pode deixar de se divertir da expressão surpresa dele.
- Como?
- Me dê uma prova que não me teme.
Ele passou a mão sobre seu rosto, levemente. Dedos gelados sobre seu rosto que queimava.
- Você é proibida para mim, criança.
- Por que seria?
- Está noiva, lembra?
- Eric não precisa saber.
- Seus pais são meus inimigos na Guerra, sabia?
Ela ficou alguns instantes antes de responder, e quando o fez, a voz já não estava tão firme.
- Eu sei.
Foi a vez de ele ficar em silêncio, pensando no que poderia dizer.
- E eu sou seu professor.
- E isso já me faz uma desencaminhada, uma vez que eu não devia participar das suas aulas.
- É algo completamente diferente!
A voz dele também não estava mais tão firme. Guinevere se permitiu sorrir. Ele não podia ver seu rosto, afinal.
- Como eu já disse, professor, é só um tipo diferente de desencaminhamento.
- Não se faça de inocente, porque o papel não cabe em você.
- Nunca falei que cabia.
Ele riu com desdém.
- Tenho pena de seu noivo.
- Eric aprendeu a lidar comigo.
- Isso porque ele não sabe quem você é realmente.
- O que quer dizer com isso?
- Eu não posso dizer sem deixar de ser delicado.
A raiva explodiu com força dentro dela. Ela levantou a mão, e o som do tapa se fez bastante audível.
Segundos depois, ela sentiu seu braço ser segurado com força.
- Nunca mais faça isso outra vez, ou pode se machucar.
- Me solta!
- Não era a senhorita quem queria que eu a beijasse? Para isso é necessário contato físico.
- Não quero mais!
- Agora, ao que me parece, é a senhorita que está com medo.
Era bastante óbvio que ele estava se divertindo.
- Não estou com medo.
- Não?
- Não!
Então ele a soltou.
- Então faça o favor de ir embora e não me incomodar mais.
Guinevere entretanto, não mexeu
- Lhe incomodo, então?
- A resposta parece óbvia.
- Não, não é.
Guinevere o ouvir suspirar, num tom de resignação, e sem que tivesse tempo para ao menos dizer algo, sentiu-o enlaçar sua cintura e capturar seus lábios.
O corpo dele estava colado ao seu, e Guinevere sentiu o rosto pegar fogo. As mãos dele percorriam sua nuca, enquanto as dela, trêmulas, passavam pelas costas de Draco.
E do mesmo modo súbito com que o beijo começou, ele teve fim.
- Está satisfeita agora, com a prova de que não a temo?
A voz dele era fraca, como a de alguém que ainda não recuperara totalmente o fôlego.
Guinevere agradeceu mentalmente por estarem longe de qualquer tipo de iluminação, ou Black veria seu rosto extremamente corado. Ele ainda estava abraçado a ela, tendo descido as mãos da nuca, para as costas. A ruiva percebeu que não se importava.
Não quando ela própria estava com seus braços envoltos no corpo dele.
- Estou.
- Agora pode me explicar que raio de prova de coragem foi essa?
Ela riu.
- Nem eu sei direito. Apenas me pareceu um desafio que o senhor não aceitaria.
- Você é louca, criança. Eu sou muito mais velho que você.
- Quantos anos o senhor tem?
- Me chame de você, por enquanto. Bem, completei trinta e cinco em janeiro.
Ele era terrivelmente mais velho do que ela aparentava ser. E do que ela imaginara.
- Dezoito anos de diferença...
- Eu tenho idade suficiente para ser seu pai, não acha?
Ela odiava admitir, mas era verdade.
- Sim...
- Então, por que me provoca desse jeito, menina?
Delicadamente dedos frios tocaram seu rosto.
- Eu não sei. Você aceitou a provocação, afinal.
- Isso nunca havia acontecido antes. Outras alunas já haviam me provocado de formas piores...
Guinevere tinha certeza de que ele não dizia aquilo para agrada-la. Era provável que se sentisse culpado, e precisasse se justificar de alguma forma.
Mas sorriu. De certa forma, ele involuntariamente a estava elogiando.
- Eu não sou como as outras, professor.
- Eu sei.
Ela não imaginava que ele fosse confirmar.
Nem que ele tomaria seus lábios outra vez após dizer aquilo.
¹ No dia de Ostara os antigos europeus iam até o campo para colher as flores e as levavam para casa, pois acreditavam que as flores colhidas no Equinócio da Primavera eram mágicas e, através delas, seriam capazes de conectarem a energia de toda a natureza.
N/A: Obrigada pelas reviews, Jana, Sadako e Nezita (fui eu quem inventou o trecho, sim...que bom que gostou).
E se você está lendo e também está gostando...reviews, please.
