Quando Dois Deslocadores se Encontram
Foi nesse momento que uma coisa prendeu a minha atenção. Alguns metros atrás do Slater-Olhos-Perfeitos eu vi aquele brilho espectral, que sempre me deixa um pouco arrepiada.
Era uma líder de torcida.
Era uma líder de torcida fantasma.
Era uma líder de torcida fantasma e pelo visto muito irritada.
Merda!
Capítulo 2: A líder de torcida fantasma
Depois do que eu vi não consegui me concentrar em mais nada. O diretor do Beverly High, Henry Miller, abriu o "Bom Dia de Boas Vindas" como ele faz em todo semestre a mais de 20 anos. O Sr. Miller é um senhor de lindos cabelos grisalhos brilhantes e devia ter quase uns 70 anos de idade embora não aparentasse ter tanto devido ao seu porte atlético e sua grande energia e disposição.
Agora o diretor estava no meio da quadra andando com um microfone na mão de um lado para o outro fazendo o seu discurso de boas vindas. Junto dele estava a sua secretária, Lucy Walters, uma senhora que eu sempre achei muito simpática. O que ele estava falando eu não fazia a mínima idéia, provavelmente era alguma variação do discurso do semestre passado. Algum tipo de história que no final sem tinha uma lição de moral.
O "Bom Dia de Boas Vindas" se desenrolou sob os meus olhos. Depois do discurso do diretor Miller foi a vez da orquestra da escola se apresentar. Eles já estavam a postos em suas cadeiras no meio da quadra e iam tocar alguma peça de Morzart, mas eu não tenho certeza. Eu não estava conseguindo prestar atenção no que eles tocavam, tudo aquilo era indiferente para mim. Tudo em que eu conseguia pensar era naquela líder de torcida fantasma e no que ela poderia estar planejando fazer.
Minha mente agora trabalhava a mil por hora. Quem era ela? O que ela queria? Por que ela olhava tão intensamente na direção de Justine? Bem, qualquer que fosse o seu motivo provavelmente ele não era nada bom, a julgar pela cara de irritação que ela fazia.
Eu olhava constantemente para o outro lado do ginásio na direção dela, porém ela não percebeu, acho que estava ocupada de mais lançando olhares raivosos a Justine. Observando com um pouco mais de atenção e a julgar por suas roupas e penteado, ela me parecia ser da década de 60. O seu uniforme tinha a mesma cor vermelho amarronzada do meu. Ela usava uma minissaia vermelha pregueada e um moletom branco com um enorme B vermelho pregado no meio. Pude reconhecer esse como sendo o antigo uniforme das líderes de torcida, que ainda era usado até uns 10 anos atrás, quando foi substituído pelo mini-vestido que usamos hoje (pelo menos foi o que Rachel me disse certa vez). Os cabelos dela tinham o mesmo tom de castanho dos meus, iam até a altura dos ombros e tinham as todas as pontas dele voltadas para fora. Eu estava tão entretida em meus próprios pensamentos que nem percebi que Julie estava ao meu lado me cutucando.
- Terra chamando Kate! Terra chamando Kate! – Falou ela estalando os dedos em minha frente.
- Hã?
- Kate, acorda sua bobinha! Faz séculos que eu estou aqui te chamando e você nem se quer me ouviu.
- Ah desculpe, eu estava meio distraída.
- Sei. Estava pensando em quê? Ou melhor, em quem? – Falou com um sorriso meio malicioso no rosto.
- Eu não estava pensando em ninguém não ok? Só estava repassando a coreografia mentalmente. – Eu menti, na verdade eu estava pensando em alguém sim, mas não era nada daquilo que ela provavelmente estava imaginando.
- Esta bem queridinha, vou fingir que acredito em você.
- Que horror Julie! Você tem uma mente tão maldosa.
- Eu? – Disse com uma cara inocente apontando para si mesma.
- É, você.
Julie se limitou a rir.
- Vamos Kate querida, levanta, já esta na hora de irmos. Vamos nos apresentar agora.
Eu levantei e segui Julie para o meio da quadra que agora já se encontrava vazia. Todas as cadeiras e os porta-partituras que a orquestra tinha usado já haviam sido retiradas. Eu estava tão distraída pensando que sequer notei que a apresentação da orquestra havia terminado. Acho que Mozart, Beethoven, Tchaikovsky ou o que quer que fosse que eles estivessem tocando, não foi o suficiente para prender a minha atenção.
O diretor Miller estava de novo no centro da quadra fazendo as devidas apresentação. Nós íamos fazer uma pequena amostra da coreografia que íamos apresentar nos jogos de basquete do colégio, na nova temporada que iria começar.
As líderes de torcidas são bem populares aqui no Bev, as pessoas gostam de nos ver dançar, não que sejamos excepcionais dançarinas nem nada do tipo (embora a Rachel goste de pensar desse jeito). As pessoas gostam de nos ver dançar somente porque somos a distração delas nos jogos de basquete da escola, nós entretemos a torcida com várias coreografias animadas e gritos de guerra divertidos, já que os jogos por aqui são bem monótonos e previsíveis. Nós SEMPRE perdemos.
O nosso time de basquete é uma lástima. A última vez que ganhamos o campeonato de basquete estudantil da Califórnia eu sequer sonhava em nascer. Na verdade creio que assistir a nossa orquestra tocar em festivais seja mais emocionante do que ver os meninos jogarem, pelo menos eles sempre ganham algum prêmio.
No meio da quadra já estávamos todas posicionadas em nossos devidos lugares. A Justine estava logo em minha frente e eu pode sentir ela começando a ficar tensa, mas eu não queria me preocupar com isso agora.
Olhei para frente, dei o meu melhor sorriso e botei na minha cabeça que tudo ia dar certo. Íamos apresentar a coreografia e sair do meio do ginásio o mais rápido possível. Qualquer que fosse o motivo para aquele fantasma estar olhando para a quadra de forma tão irritada, nada ia acontecer.
É isso aí Kate, pensamento positivo! - Falei para mim mesma, tentando me tranqüilizar.
E então a música começou, já estávamos agora todas dançando enquanto a platéia ia ao delírio. Enquanto eu dançava dei uma rápida olhada para a arquibancada e pude ver que a líder de torcida fantasma não estava mais olhando para a quadra, agora ela olhava para o teto do ginásio de uma forma muito... compenetrada.
Ainda dançando dei uma olhada para o teto e eu não gostei nadinha do que eu vi. A lâmpada que estava em cima das nossas cabeças e que devia pesar no mínimo uns 5 quilos estava balançando. Ninguém, nenhuma das outras garotas dançando nem a platéia tão entretida assistindo pareceu notar que aquela lâmpada estava preste a cair sobre nós, mais precisamente em cima da Justine.
Então tudo aconteceu. Foi tão rápido que um segundo depois de eu ver aquela lâmpada balançando, ela partiu-se do cabo que a segurava com um barulho estridente e com direito a faíscas sendo lançadas para todo lado.
O meu rápido reflexo me fez pular em cima da Justine no mesmo instante tirando-a do caminho. Aquela pesada lâmpada caiu bem do nosso lado partindo-se em milhares de pedacinhos. Eu caí de mau jeito com ela em cima do meu braço, na hora eu senti um dor forte e latejante por causa do choque do meu cotovelo com o chão.
Por um segundo tudo que eu pude escutar foi o choro alto e soluços de Justine, que no instante em que assimilou o que havia acontecido, ou o que pelo menos quase aconteceu, abriu o maior berreiro.
A queda da lâmpada causou um curto-circuito no ginásio que fez com que todas as outras lâmpadas desligassem e a música parasse de tocar. O ginásio agora estava na penumbra sendo iluminado apenas pelos raios de sol que vinham do lado de fora. Todos que estavam lá dentro e que a instantes atrás riam e batiam palmas, agora estavam de pé, boquiabertos e em silêncio observando toda aquela cena surreal.
E então com a mesma rapidez que aquele silêncio repentino veio ele se foi e trouxe com ele um barulho ensurdecedor. Todos agora conversavam assustados e o pânico se alastrou. O diretor Miller agora gritava, já que estava impossibilitado de usar o microfone devido ao curto, ele pediu silêncio e calma a todos, pediu também que os alunos voltassem as suas salas calmamente e que estava tudo sob controle.
Era óbvio que ninguém estava ouvindo, as pessoas sequer prestavam atenção ao diretor. Tudo o que havia ocorrido a instantes atrás foi de mais excitante, assustador e inesperado para fazer com que elas prestassem atenção a outras coisas. Foi necessário que os professores e funcionários começassem a escoltar todos os alunos para fora do ginásio para que ele fosse devidamente desocupado e assim qualquer outro acidente fosse evitado.
Eu ainda estava sentada no chão tentando consolar a Justine que continuava a chorar e soluçar feito uma louca. As outras meninas se aproximaram de nós formando um círculo e nos ajudando a levantar, elas nos abraçaram agora querendo saber se estávamos bem e tentavam consolar a Justine. O diretor Miller aproximou-se de nós e disse com sua voz grave:
- Srtas. Harrison e Anderson acho melhor vocês irem a enfermaria, verem se não estão machucadas. Creio que a Srta. Anderson precisa se acalmar um pouco e se recuperar do susto.
- Sim, senhor. – Respondi por mim e pela Justine que finalmente havia conseguido para de chorar e nesse momento só fungava e soluçava de uma forma bem irritante.
- Faça isso Srta. Harrison e certifique-se de que a Srta. Fox não se esqueça de te examinar também.
- Eu estou bem... – porém ao ver a cara séria dele completei rapidamente, – mas vou pedir para ela não se esquecer de me examinar. Vamos Tine.
Peguei ela pelas mãos e a conduzi para fora do ginásio. As minha costas pude ouvir o burburinho das meninas que até aquele instante haviam permanecido caladas, também pude escutar Jessica e Samantha falarem com o diretor.
- Nós podemos ir com elas também? – Perguntaram em uníssono.
- Creio que a presença da Srta. Harrison seja mais do que suficiente. – Ouvi a voz dele ao longe. – Agora voltem para as suas salas garotas.
E então eu saí do ginásio. Durante o caminho para a enfermaria as pessoas davam passagem para nós no corredor e cochichavam ao observarem Justine fungando sem parar. Ao chegarmos lá fomos atendidos pela enfermeira da escola, a Srta Fox. A enfermaria era uma sala branca com algumas macas do lado direito da parede e poltronas de espera posicionadas do lado oposto, no fundo da sala ficava a mesa da Srta Fox, ao lado desta havia um grande armário com portas de vidro em que era possível ver alguns remédios e materiais de primeiros-socorros e próximo a última maca da sala havia um bebedouro daquele tipo em que se coloca um galão de água mineral nele. A enfermaria era uma sala nem um pouco aconchegante, apesar dos esforços da Srta Fox em deixar o lugar mais alegrinho colocando uns quadros com umas paisagens rurais nas paredes.
A enfermeira do Bev, a Srta. Fox, era uma mulher que beirava os 30 anos, tinha cabelos pretos brilhantes que estavam sempre presos em um coque apertado no alto da cabeça, seus olhos eram de um azul acinzentado muito bonito e seu sorriso (ela estava sempre sorrindo) era perfeito. A Srta. Fox faz muito sucesso entre os alunos aqui no Bev. Nós garotas gostamos dela porque ela é sempre simpática com todas nós, ela realmente entende os nossos problemas quando buscamos algum aconselhamento com ela. Já os garotos a adoram porque ela é linda, e quando eu digo linda é muito linda mesmo. Ela poderia ser modelo se quisesse, com toda aquela altura e beleza que ela tem, porém ela escolheu ser somente uma enfermeira ao invés de levar essa vida glamorosa.
- Oh queridas – a Srta. Fox disse nos recebendo – que tragédia essa que aconteceu com vocês. Eu mal acreditei quando me contaram a alguns minutos, eu fiquei aqui na enfermaria resolvendo alguns problemas. Graças a Deus nada de muito grave aconteceu. Agora venham, sentem-se aqui.
E nos levou até a maca onde Justine sentou aparentando estar bem mais calma, fungando somente de vez em quando. A Srta. Fox começou me examinado apesar de eu ter dito repetidas vezes que eu estava bem. Eu tinha certeza disso porque depois de tantas visitas aos hospitais com alguns tornozelos torcidos, braços quebrados, ou concussões, devido as minhas "missões", eu meio que acabei pegando o jeito de como saber se alguma coisa grave aconteceu comigo. Porém como a Srta. Fox desconhecia esses meus pequenos conhecimentos médicos ela não tinha como saber que eu somente tinha batido o braço esquerdo e que uma pomada antiinflamatória ou uma bolsa de água quente seriam suficientes para aliviar a dor, por isso ela teve que me examinar e constatar isso por ela mesma. Após tudo isso, ela passou uma pomada a base de cânfora no meu braço.
Depois ela foi examinar a Justine e viu que ela não havia sofrido nenhum dano físico também. Feito isso, a Srta. Fox foi até o armário de remédios que ficava no fundo da enfermaria, ao lado de sua mesa. Ela o abriu e de lá pegou uma caixinha de calmante e tirou um comprimido. Então ela veio em direção ao bebedouro que estava afastado a duas macas de onde eu e Justine estávamos. Ela pegou um copo descartável, misturou um pouco de água gelada com natural e logo após veio até Justine entregando-lhe o comprimido e o copo d'água.
- Tome isso aqui minha querida, é um calmante. Vai fazer você se sentir um pouco melhor – falou ela de um jeito carinhoso.
Tine acenou com a cabeça obedientemente e tomou o comprimido que a Srta. Fox lhe ofereceu.
- Agora eu vou deixar vocês descansarem um pouco. Qualquer coisa é só me chamar, eu vou estar na minha mesa.
A Srta. Fox retirou-se para sua mesa e ocupou-se em preencher alguns relatórios. Justine que antes estava sentada em sua maca, agora encontrava-se deitada olhando fixamente para o teto branco sob a sua cabeça.
Eu estava entediada ali naquela enfermaria, mas não podia sair de lá e deixar a Justine sozinha. Cansada de ficar deitada vendo a Srta. Fox trabalhar em sua mesa e a Justine mirando o teto, eu levantei-me da minha maca e fui em direção a outra extremidade da enfermaria onde ficavam algumas poltronas e uma mesinha com algumas revistas. Peguei a que eu vi primeiro em minha frente, uma edição antiga da National Geographic, e voltei para a minha maca. Após algum tempo lendo uma matéria sobre os elefantes do Zimbábue, a Srta. Fox desviou a minha atenção.
- Meninas, vou até a secretaria entregar esses relatórios – falou apontando para algumas pastas em seus braços. – Volto em cinco minutinhos, ok?
Eu e Justine acenamos que sim com a cabeça e então a Srta. Fox deixou a enfermaria. Quando vi que estávamos sozinhas, abandonei a revista e me aproximei da maca ao lado.
- Tine? – Toquei o seu braço falando bem baixinho para não assustá-la. – Você esta bem?
Ela virou o rosto desviando os olhos do teto e olhando para mim de uma forma meio assustada, então sentou-se na maca encostando as sua costas na parede. Ela abriu a boca para falar alguma coisa, mas então fechou- a de novo. Fez isso algumas vezes, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas para me dizer algo. Seus olhos agora começavam a marejar e parecia que toda aquela crise de choro estava prestes a voltar a qualquer momento.
- Me desculpa Tine, que pergunta idiota a minha não? É lógico que você não esta bem, quase se machucou hoje – falei com o tom de voz mais delicado que eu tinha, olhando dentro de seus olhos numa tentativa de acalmá-la. – O que eu quis dizer foi que hoje mais cedo, no vestiário, eu te achei tão abatida e amedrontada. Então eu fiquei me perguntando se tem alguma coisa acontecendo com você. Queria saber se você esta bem.
- Ah Kate! – Ela deu um grande soluço e me abraçou. – Você percebeu?! Nenhuma das outra meninas percebeu isso no vestiário.
- Você estava tão tristonha que não tinha como não notar. Você gostaria de me contar o que aconteceu? Quem sabe eu não possa te ajudar?
- Ai... foi horrível. Eu acho que estou... amaldiçoada – ela sussurrou. – Eu não quero morrer, Kate. Eu não quero morrer!
Eu a olhei por um instante e então eu falei:
- Como assim amaldiçoada?
- Você já ouviu falar do boato de que a muitos anos atrás, mais ou menos na década de 60, uma líder de torcida foi assassinada aqui dentro do Bev?
- Não, mas o que é que isso tem a ver com o fato de você esta amaldiçoada.
Justine endireitou-se, sentando-se mais confortavelmente, limpou algumas lágrimas que rolaram de seus olhos a uns segundos atrás com as costas das mãos, respirou fundo e continuou a falar.
- A Jess passou as férias de inverno com a avó dela em um cruzeiro pela América do Sul. Ela me contou que durante a viagem, a sua avó encontrou no navio uma antiga amiga dos tempos de escola. Ah, a avó de Jess também estudou aqui no Bev. Voltando ao que eu dizia, ela reencontrou uma amiga no navio e elas passaram a viagem toda juntas, relembrando os velhos tempos. Um dia a Jess acabou ouvindo elas comentarem sobre uma tal garota que era uma líder de torcida na época delas e o boato que havia corrido de que ela havia sido assassinada dentro da nossa própria escola, embora a versão oficial da polícia na época era de que ela estava desaparecida, já que nunca encontraram o corpo dela.
"Quando a Jess voltou de viagem, ela contou essa história para mim e para Sam, então a Sam teve a idéia de fazer uma brincadeira que ela havia visto uma vez na internet. Com um compasso e uma folha de papel nós íamos poder nos comunicar com o espírito dessa garota que segundo diziam, havia sido assassinada atrás do ginásio. Nós faltamos a primeira aula, que ia ser de física, para fazer isso, então fomos para trás do ginásio e sentamos em baixo daquela arvore que tem lá. A Jess pegou uma folha de papel, desenhou um circulo e em volta dele escreveu as letras do alfabeto, os números de 1 a 9, e as palavras sim e não. Para começar a brincadeira era preciso rezar o Pai-nosso, mas sem dizer o "amém" no fim da oração. A Sam fez isso, enquanto eu apoiava levemente o dedo indicador na parte de cima do compasso, mantendo ele, desse modo, em pé na folha de papel. Ela perguntou 3 vezes "Tem alguém aí?" , e então na terceira vez, como num passe de mágica, a perna do compasso pendeu levemente para o sim. Foi inacreditável! Aí começamos a fazer varias perguntas para quem estávamos nos comunicado: Homem ou mulher? Mulher. Já estudou no Bev? Sim. Em que ano? 64. Como morreu? Assassinada. Dentre muitas outras perguntas. E então agente teve certeza mesmo que era a garota do boato."
"A partir daí eu comecei a ficar com medo, sabe, nunca fui muito fã dessas histórias de fantasmas. Falei com as meninas e disse que queria sair da brincadeira, só que para sair você tem que pedir permissão para o espírito com o qual você estava se comunicando. E foi o que eu fiz, eu pedi a ela para sair, só que ela não quis deixar. Nesse momento eu gelei completamente já sentindo que aquilo estava começando a sair do controle. Depois de alguns segundos eu pedi para sair novamente, mas ela continuou negando, parecia até que ela estava ficando com raiva. Nessa hora eu já estava bastante assustada e pedi para as meninas saírem da brincadeira comigo também, eu pensava que se todas nós quiséssemos sair talvez ela deixasse. Jess e Sam concordaram comigo, acho que elas já estavam ficando assustadas também, então quando eu peguei o compasso para fechá-lo e terminar logo com aquilo, ele escorregou de minha mão e eu me machuquei."
Justine me mostrou a palma de sua mão esquerda, que até então eu não havia percebido, estava coberta com um Band-Aid .
- No mesmo instante em que me machuquei – ela continuou – os galhos da árvore de trás do ginásio começaram a balançar, só que não estava ventando. E então a porta do fundo do ginásio, aquela que dá para os vestiários, sabe, bateu de uma forma muito violenta. A Jess levantou-se de onde estávamos sentadas e foi até a porta, girou a maçaneta, mas não conseguiu abri-la, parecia que a porta tinha emperrado. Eu já estava em pânico agora e a Sam mais do que eu naquele momento. Ela começou a me pedir desculpas, dizer que sentia muito e que ela nunca imaginou que isso poderia acontecer. A Sam disse que quando uma pessoa se machuca nesse tipo de brincadeira que envolve espíritos, ela fica com seqüelas para toda vida. A pessoa fica amaldiçoada e coisas ruins passam a acontecer com ela, inclusive a morte de uma forma muito dolorosa.
Ela deu uma grande fungada.
- Ah Kate, eu não quero morrer, eu nem consegui tirar a minha carteira de motorista ainda. Eu quero ir para a faculdade, casar ter filhos e ver os filhos de meus filhos. Eu não quero morrer, eu não quero!
E desatou a chorar novamente.
- Calma Tine, você não vai morrer – eu disse passando minha mão direita por seus cabelos pretos de forma a acalmá-la.
- Você não acredita em mim, não é? Acha que tudo isso não passa de imaginação de minha cabeça, que eu estou ficando louca e que fantasmas não existem.
- É claro que eu acredito em você Tine.
-E agora Kate? O que é que eu vou fazer? – Justine olhou dentro dos meus olhos de uma forma meio desesperada.
- Bem, primeiro você tem que se acalmar, não é? E depois, eu acho que você deveria voltar para casa, só por via das dúvidas. Leve a Jess e a Sam com você. Um pouco de descanso ia fazer bem para vocês, e amanhã você vai ver como tudo já vai ter voltado ao normal.
- Você acha?
- Acho. Vai por mim, você não vai morrer. Quer dizer, a não ser que você fique pensando constantemente que isso vai acontecer, ai acontece mesmo. Você nunca ouviu falar que pensamentos negativos só atraem coisas negativas?
Ela assentiu com a cabeça.
- Obrigada, Kate. Muito obrigada mesmo.
E então ela me abraçou. Nesse momento a Srta. Fox entrou na enfermaria seguidas por Jessica e Samantha .
- Meninas! – Falou Justine ao vê-las.
- Tine! – As duas falaram em uníssono, enquanto corriam para abraçá-la.
- Eu vou deixar vocês sozinhas agora. Devem estar querendo conversar.
Eu fui até a mesa da Srta. Fox e pedi um passe para poder voltar para a sala de aula. Ela achou que eu ainda não deveria sair da enfermaria e que deveria descansar mais. Agente conversou um pouco e eu lhe garanti que eu já estava bem o suficiente para assistir aula. Depois de tanto insistir, ela acabou cedendo e me dando o passe. Quando eu já estava saindo da enfermaria, ouvi a Samantha me chamar.
- Sim? – Perguntei virando-me para vê-la.
- A Julie pediu para te avisar que ela pegou as suas coisas que estavam dentro do armário lá no vestiário.
- Ok. Vejo vocês depois, meninas – e sai da enfermaria.
Andei pelos corredores vazios do colégio, meio sem destino. Eu não queria voltar para a sala de aula, mas também não queria ficar lá na enfermaria, provavelmente as meninas iam ficar conversando sobre o que aconteceu e se eu ficasse lá ia acabar falando mais do que deveria e ia me denunciar. Como é que eu ia explicar para elas como eu sabia tanto sobre o assunto sem acabar dizendo que eu posso ver gente morta, dentre outras coisas?
Essa é a parte ruim de ver gente morta, você não pode dizer aos outros isso. Então quando as pessoas fazem coisas realmente estúpidas, como brincadeiras que envolvem fantasmas, você não pode puxar a orelha delas e dar uma bronca. Não, o máximo que você pode fazer é tentar consertar a bagunça, escondido de todo mundo.
Às vezes eu me pergunto como é que as pessoas ainda fazem esse tipo de brincadeira, eu digo, será que todos aqueles filmes de Hollywood não foram suficientes para mostrar que coisas desse tipo sempre acabam mal? Está certo que muitos desses filmes ajudaram a criar certos tipos de mitos a respeito do assunto, tipo, a Justine esta se preocupando a toa com aquele corte na mão dela, aquilo não significa absolutamente nada, foi só um corte. Eu mesma já me feri inúmeras vezes quando enfrentei fantasmas barra pesada, e se esse tipo de ferimento que se adquire em contato com o sobrenatural te fizesse ficar amaldiçoada, eu já estaria com uma maldição há muito tempo. Agora isso não significa que comunicações com fantasmas não vá fazer mal nenhum, muito pelo contrário, e a prova disso é aquela maldita líder de torcida fantasma que agora esta assombrando a Justine.
Resolvi que estava na hora de eu procurar a líder fantasma e tirar algumas satisfações. Desde quando eu entrei aqui no Bev, há um ano e meio atrás, eu nunca tive problemas com fantasmas. Quer dizer, tinham alguns deles vagando aqui pelo colégio, mas nada muito grave, só fantasmas com assuntos pendentes e uma boa dose de mediação foi suficiente para resolver o problema. Como eu disse, eu nunca tive problemas com fantasmas nessa escola e não vai ser agora que eu vou ter. Vou resolver esse problema nem que eu mesma tenha que escoltar a Srta-lider-de-torcida-fantasma-raivosa pessoalmente até a Terra das Sombras.
Depois de andar durante algum tempo, percebi que estava novamente no corredor que dava para a entrada do ginásio. Pensei em entrar lá usando a desculpa de que queria pegar alguma coisa que esqueci dentro do vestiário e com isso poder procurar a líder fantasma, mas parei no meio do caminho quando avistei Angela saindo de dentro do ginásio seguida pelo diretor Miller, enquanto discutiam. Angela é uma garota baixinha e um pouco gordinha, tinha os cabelos que uma hora pareciam ser loiros e outra hora ruivos, a depender da luz que batia neles, até a altura dos ombros. Ela é da minha turma de literatura e é fotógrafa e colunista do jornal da escola. Enquanto Angela e o diretor discutiam eu parei no bebedouro, fingindo beber água, a fim de ouvir a conversa deles.
- Srta Smith – escutei o diretor falar – já lhe disse que não vou responder a nenhuma pergunta e muito menos vou deixar tirar fotos do ginásio, e se a Srta não voltar para a sua sala nesse exato momento considere-se suspensa.
- Diretor Miller, sabia que o senhor esta ferindo seriamente a constituição desse país ao limitar a minha liberdade de imprensa? Isso não é uma coisa muito bonita.
- A Srta se esqueceu de que nesse colégio mando eu? Por isso volte já para a sua sala e eu não quero mais vê-la nesse ginásio. O ginásio a partir de agora está interditado, para evitar que pessoas curiosas como a Srta entrem aqui e acabem se machucando. Agora, vá já para a sua aula mocinha, não quero ter que falar isso outra vez.
Eu vi Angela se afastar do diretor com uma cara irritada enquanto ele voltava para o ginásio e fechava as suas portas. Quando Angela passou por mim, sai de perto do bebedouro e fui falar com ela.
- Angela! – Eu a chamei e ela virou-se para me ver.
- Sim? – Falou ela aproximando-se de mim.
- Oi! Eu vi você falando com o diretor Miller. É verdade que ele interditou o ginásio mesmo? Eu tinha esquecido umas coisas minhas lá no ginásio e eu queria tanto voltar lá para pegar – eu menti.
- Foi, ele interditou mesmo. Fechou todas as portas do ginásio, até mesmo aquela dos fundos que dá para o vestiário. Acho que suas coisas ficaram presas lá dentro. Elas eram muito importantes?
- Não, não era nada muito importante não, depois eu passo na secretaria e peço para alguém pegar para mim depois.
- Então eu vou indo, vou para a sala do jornal ver se consigo revelar essas fotos – ela me mostrou a sua câmera fotográfica que estava segurando. – Se o diretor Miller pensa que eu vou desistir da reportagem do ano, ele está muito enganado. Agente se vê por aí.
Vi Angela se afastar e subir as escadas para o primeiro andar, que era onde ficava a sala do jornal. Nessa hora o sinal tocou e o corredor foi invadido pelos alunos que saiam de suas salas em direção ao refeitório. Eu não fui para lá, não estava com fome. Resolvi usar o horário do almoço para rodar o colégio procurando pela líder fantasma, mas não consegui encontrá-la.
O resto do dia passou sem mais surpresas. Quando as aulas terminaram saí atrás de Julie para pegar as minhas coisas, até aquele momento eu ainda vestia o uniforme da torcida. Como hoje não teria ensaio, resolvi dar uma passada na casa do Jack, precisava espairecer um pouco.
Sai do colégio apressada e nem troquei de roupa, na casa do Jack eu poderia fazer isso, se eu corresse ainda daria tempo de pegar o ônibus. Eu sou uma das poucas pessoas do Bev que não tem um carro, sim, eu sei, isso é vergonhoso, mas já me acostumei. Vovó diz que se eu quiser um carro vou ter que trabalhar para isso, ela quer que eu aprenda o valor do dinheiro conseguido com meu próprio esforço. Por isso eu ando de ônibus e para falar a verdade eu até gosto, é bom sentir o gostinho do anonimato. Eu nunca sou abordada nos transportes públicos por um simples motivos, que pessoa em sã consciência esperaria encontrar alguém "famoso" em um ônibus? Ninguém nunca acha que eu sou realmente eu mesma, sou somente uma garota parecida com a Kate Harrison.
Eu desci do ônibus quando ele parou próximo a uma rua que era apelidada de "Rua dos Doutores", porque a maiorias dos médicos mais importantes de Beverly Hills moravam aqui, é nessa rua que fica a mansão dos Slater. A "Rua dos Doutores" era um pouco extensa e em ambos os passeios dela haviam palmeiras altas plantadas a um distancia de mais ou menos cinco metros uma das outras até o final da rua. Era um lugar tranqüilo e muito bom de morar.
Quando cheguei a casa do Jack toquei a campainha e esperei que Helga, a governanta dos Slater que segundo Jack trabalha com a família desde que seu irmão mais velho nasceu, abrisse a porta como ela sempre faz. Entretanto quem abriu a porta foi a última pessoa do mundo que eu esperava encontrar, não pude deixar de falar meio surpresa.
- Você?
Continua...
NA: Sei que quem deve estar lendo isso aqui nesse exato momento deve esta querendo me matar!! Afinal, cadê o PAUL?! Eu sei, até eu estou querendo me matar por isso. O problema é que esse capítulo ficou realmente muito maior do que eu tinha imaginado. O próximo capítulo vem em breve (pelo menos eu acho, hehehe), e eu prometo que vai ter muito Paul, Jack e o resto dos Slater.
Espero que tenham gostado desse capítulo, caso sim deixe uma review, caso não pode deixar também, criticas construtivas são sempre bem vindas :)
Um agradecimento SUPER especial pelas reviews a: Pirate Marrie e Júlia
Muito obrigada!! Fiquei HIPER feliz com elas XD
Então é isso, até o próximo capítulo!
Bjos!
Nina M.
