N/A: Mudança de planos. Vou viajar antes do que pensei e resolvi adiantar um pouco as coisas. XD Aqui estão o segundo e terceiro, chéries. Enjoy it e review it!
Avisos: Fanfic UA, Narcissa/Lily, num mundo sem magia e sem Voldemort. PoV (ponto de vista) da Narcissa, e eventualmente femmeslash. Não gosta, não leia.
Disclaimer: Nem Harry Potter nem nenhum outro personagem me pertence. Estou apenas dando algum agito à minha vida XD e asas a minha imaginação. Não me processem.
ooo
Eu vi seus cabelos cheios, da cor de avelãs, antes que ela me visse. Andava devagar para Draco poder me acompanhar, com seus lindos passos curtos, e Andromeda abriu um largo sorriso quando fitou a mim e a seu sobrinho. Ela era surpreendentemente boa.
Ele foi o primeiro a ser abraçado, e eu sorri diante daquela cena. Depois cumprimentei minha irmã, e nós entramos na casa enorme e bela que eu já havia me acostumado a chamar de minha conversando trivialidades, mais para não ficarmos no silêncio. Estava com muita saudade dela, de sua voz macia e suas unhas cor-de-rosa, apesar de não poder conviver com ela muito tempo.
Andromeda era doce. Provavelmente um pouco demais; e depois de muito tempo na sua companhia, eu começava a me sentir enjoada como se ingerisse açúcar em excesso. Eu a amava, e nada poderia mudar isso, mas ela era excessivamente amorosa... E quando a mirava, não podia deixar de sentir pena. Ela era bondosa e gentil, e isso transparecia em seu rosto e em seus gestos, fazendo-a uma pessoa muito amável.
Mas Andromeda jamais daria um quadro bonito.
"Como está seu casamento, Cissy?" Ela me perguntou suavemente quando nos acomodamos no sofá macio, e eu suspirei.
"Está bem. Ele está sempre bem, nunca melhor ou pior." Respondi bem humorada, mas com uma pontada de amargura na voz que rapidamente foi captada pela minha irmã. Ela balançou a cabeça, como se me condenasse silenciosamente - por ter me casado, por continuar insistindo no casamento, por não me divorciar ou talvez por tudo isso ao mesmo tempo.
O pensamento consolador que eu costumava nutrir era o de que Andromeda não sabia como as coisas funcionavam. Mas ele perdeu o efeito assim que eu percebi que nem eu sabia como as coisas haviam funcionado entre eu e Lucius. A imagem que me vinha era a de uma bola rolando uma escada: rápida demais para ser parada e leve demais para parar sozinha.
Pensei que eu o amava; pensei isso de fato durante nosso namoro. Enquanto desfilei um anel de diamantes. Quando caminhei até ele, com um buquê de flores brancas nas mãos e uma grinalda sobre a cabeça. Meu pensamento estampava as nossas fotos em Paris. Pensei e acreditei até perceber que aquilo não era amor, e sim paixão. Quando percebi, já era tarde demais para voltar atrás.
Eu já me sentia dona daquela mansão, já estava habituada a assinar Narcissa Malfoy, Draco já crescia no meu ventre. E isso tudo acontecera entre Kylie Montblanc e Fiona Parkinson.
"Não acha que você já insistiu demais nisso, Narcissa?" Andromeda me perguntou seriamente, e eu sorri, sem forças para lutar.
"Não há nada de ruim no meu casamento. Lucius é um bom pai e um bom marido. E eu vou começar uma nova pintura." Naturalmente, ela notou a mudança brusca de assunto. Mas apenas piscou e sorriu de volta, deixando o tema para trás, e eu respirei aliviada. Não conseguiria ganhar nenhuma discussão.
Lucius tampouco era o marido mais feliz do mundo, mas de fato, era o melhor marido que conseguia ser. Estabelecemos um acordo mudo e a paixão que nos consumia, ao nos abandonar, deu lugar a uma valiosa parceria; era necessário confiarmos um no outro, pois não tínhamos mais ninguém para fazer isso. Meu casamento era uma amizade travestida de amor.
A voz de Andromeda me provocava sono. Não sei se a associei às histórias que ela contava para mim, às canções de ninar ou às músicas que cantarolava na cozinha enquanto eu tomava meu café da manhã quase sonâmbula; sei apenas que sua voz funcionava como um tranqüilizante, que fazia minhas pálpebras pesarem irresistivelmente. Eu me rendi, por alguns momentos, com a cabeça recostada no sofá - e repentinamente soube como pintaria aquela ruiva.
Nada vermelho. Nenhum outro elemento do quadro poderia ser vermelho ou laranja; o destaque e o calor deveriam pertencer somente a ela. Os tons teriam que ser predominantemente frios para não desarmonizar com o tom de seus cabelos e roubar a atenção - derivados de azul, verde, amarelo e talvez matizes de cinza e roxo seriam como o palco perfeito para sua beleza. Apenas ela deveria aparecer, e ser o ponto mais brilhante da pintura.
O resto seria o fundo, inútil e apagado, assim como o mundo se tornava ao redor dela. Coadjuvantes. O divã marfim no qual ela estaria repousada, o homem cansado rindo, o colar de pérolas ao redor de seu pescoço, a xícara de café fumegante. Apenas degraus que a elevavam para o lugar onde pertencia.
Andromeda partiu quase furiosa com o meu devaneio. Não ouviu nenhuma das minhas alegações; dizendo que eu era insensível e rude, saiu da minha casa pisando duro. Não insisti muito em explicar, pois ela não guardava mágoas durante muito tempo, e logo relevaria minha indelicadeza. Ela era boa.
Facilmente perdoável, eu me dirigi até o meu atelier com dezenas de outras coisas para pensar.
Dezenas, centenas de móveis, tecidos e acessórios físicos e imaginários tomaram conta da minha mente. Eu podia imaginá-la em muitos lugares, vestindo muitas cores e em tantas poses que temi por um momento o futuro da minha obra. Eu estava insegura. Na arte, a insegurança é o primeiro passo para o fracasso.
Os dias que se seguiram foram lentos; à noite, lampejos de seus olhos verdes e sua pele clara arrancavam meu sono, fazendo-me revirar na cama e perambular pela mansão. Durante o dia, sua voz melodiosa me atormentava, pois eu sabia que jamais poderia reproduzi-la e estampá-la numa simples tela branca. No início do décimo quinto dia, Lucius plantou um beijo em minha testa e falou rindo:
"Quando você vai começar a pintar, Narcissa? Sua ansiedade está começando a me contaminar."
"Preciso encontrá-la." Repliquei, esfregando os olhos. Meu sono me visitava nas horas mais impróprias. "Só a vi uma vez."
"Então o que está esperando?" Ele disse, sentando-se com a xícara de chá na mão. "Volte ao lugar onde a viu. Encontre-a."
Naquele mesmo dia retornei ao Amarillo's, o café onde havia visto-a, uma hora antes do momento em que nosso primeiro encontro havia acontecido. Quinze minutos passados, um capuccino. Trinta minutos, uma nova lista de cores num novo guardanapo. Quarenta minutos, e eu parecia uma mulher esquecida pelo namorado olhando meu relógio a todo o momento. Aos quarenta e sete, ela entrou iluminando meu mundo mais uma vez.
Estava sem o acompanhante adulto e com o infantil. Ela me viu imediatamente e sorriu, enquanto meu coração disparava de excitação e ânimo; andou até a minha mesa e Harry rapidamente sentou-se numa cadeira com esforço e persistência.
"Está esperando alguém?" Ela me perguntou, e eu neguei. Mesmo que estivesse esperando a Rainha, cederia seu assento. Apontei para a outra cadeira.
"Não, pode sentar. Hoje ele e Draco não brigarão; ele está com a babá." Respondi, e ela puxou a cadeira e sentou suspirando. Afastou o cabelo para longe do rosto, prendendo-o com alguma impaciência, e eu reparei em uma pequena marca perto de seu olho esquerdo. Sorri acidentalmente.
"Sou Lily Potter." Disse, e estendeu a mão na minha direção; eu a segurei cumprimentando-a, e minha mão parecia congelada perto da temperatura agradável da dela. Minha musa enfim tinha um nome; e, doce ironia, o nome de uma flor.
"Narcissa Malfoy." Ela bateu os longos cílios para mim, soltando mais um suspiro cansado. Eu sequer conseguia piscar, analisando cada poro de sua pele, cada pinta em seu rosto.
"Crianças... Te levam do inferno ao paraíso em uma troca de fraldas." Ela gracejou e eu ri muito, surpresa com a piada e a realidade contida nela. Decidi que os cantos dos seus olhos e a curva próxima do nariz seriam púrpura pálido.
"Com certeza. Ao menos, a pior parte passou. Difícil é quando você ajoelha e reza por uma noite inteira de sono." Falei, dando continuidade ao assunto apenas para poder fitá-la com discrição; mas para minha surpresa, o que saía de seus lábios me interessou.
Estava exausta. Cuidava de Harry sozinha, pois seu marido passava a maior parte do tempo fora da cidade. Sua família estava ocupada demais para lhe ajudar, e sua vida havia sido uma sucessão de decisões apressadas e precipitadas: noivara aos dezoito anos, casara aos dezenove, tivera o filho aos vinte. Estava ali, esgotada e se sentindo acabada e aprisionada, aos vinte e dois. Cometera o erro de se casar com o namorado do colégio. E sentia muito por despejar tudo sobre mim na nossa primeira conversa.
Pintá-la deixou de ser um desejo e se tornou um dever. Eu tinha de fazê-lo; por mim e por ela. Tinha que lhe mostrar a luz que eu enxergava nela; o imenso potencial que ela guardava e não via em si mesma. Lily era o tipo de mulher que simplesmente merecia ser eternizada num quadro, numa música ou num poema. Eu a eternizaria da forma que sabia: com meus pincéis, tintas, misturas e sentimentos.
Pousei uma mão sobre seu braço e sorri, dizendo que compreendia tudo o que ela estava dizendo. Lily pediu desculpas novamente por estar me incomodando com tudo aquilo, e eu a fiz se calar.
"Lily, você foi sincera comigo, mas eu não estou sendo sincera com você." Disse, e ela abriu muito os olhos na minha direção, curiosa. "Estou aqui porque tinha encontrado você, e tive esperança que pudesse encontrá-la de novo."
Ela abriu a boca, ensaiando dizer qualquer coisa, mas eu continuei antes que ela pudesse verbalizar seus pensamentos. Suas cores me deixavam tonta.
"Eu quero pintar você." Ela piscou repetidamente na minha direção, e soltou um riso incrédulo. Deus, ela não se via quando se olhava no espelho?
"A mim? Deixe de brincadeira." Retrucou, e cruzou os braços, ligeiramente emburrada. Eu me recostei na cadeira e sorri.
"Sim, você. Sou pintora, Lily... Não que seja sua obrigação me conhecer, mas eu posso levar você para ver meus quadros, se quiser." Finalmente entendendo que eu falava sério, ela umedeceu os lábios antes de responder - e eu anotei mentalmente que ela devia fazer aquilo quando posasse e que o brilho seria rosa suave.
"Na verdade, eu não conheço suas obras..." Ruborizou levemente, e outro sorriso escapou para minha face. "Mas acho difícil que você queira me pintar. Não tenho nada de especial." Disse, e a modéstia na sua voz foi tão sincera que eu me inclinei para frente e segurei suas mãos num impulso incontrolável.
"Só porque você não vê não significa que não está aí." Disse, e ela piscou novamente, atenta. "A perfeição, Lily. Você não vê a sua perfeição? Não vê o brilho ao seu redor?... Um quadro seu ficaria magnífico. E eu sei, eu quero pintá-lo. Por favor, pose para mim."
O silêncio ficou entre nós alguns momentos. Lily, então, retrucou que tinha de pensar, que ninguém nunca havia proposto aquilo; puxou as mãos das minhas e agarrou Harry com a velocidade que só uma mãe consegue, se despedindo de mim quase já na saída. Sumiu porta afora sem sequer me fitar, e eu fechei os punhos sentindo minhas unhas contra a palma das minhas mãos.
Coloquei tudo a perder. Ela havia partido, levando mais uma vez a vivacidade para longe de mim. Por um momento, eu me perguntei quando teria uma noite de sono tranqüila; mas a resposta me assustou o bastante para eu me recusar a admiti-la. Meu desejo era correr atrás de Lily e fazê-la entender a minha intenção - fazê-la perceber que havia, sim, algo especial nela, e que esse algo era tão especial que continuaria a me roubar o sono até que eu pudesse capturá-lo num quadro.
Mas era tarde. Eu alisei vincos inexistentes no meu vestido num hábito antigo que tinha, quando ficava nervosa ou frustrada. O mundo perdera a cor e retomara sua película monocromática; a temperatura do lugar deixara de ser morna e parecera cair novamente. Minha vida soava como um ininterrupto e irreparável erro.
Ela havia partido, e levado tudo consigo.
