N/A: o capítulo que se segue ainda não possui spoilers de Deathly Hallows. A ordem dos capítulos dessa fanfiction foi publicada da maneira que eu achei que ficaria melhor, mas os fatos não seguem uma cadeia linear, de modo que os capítulos não apenas parecerão fora de ordem, como, em certos casos, estarão. 36 degrees foi o ápice do meu subjetivismo, então eu espero que vocês não apenas leiam, mas sintam o que eu fiz. Após o epílogo, eu publicarei um capítulo para Créditos, Curiosidades e Considerações finais. Boa leitura.
I
Preciosidade
"Porque não há nada no mundo – nada que eu não faça por você."
I... will be watching over you
(Eu... estarei cuidando de você)
I... am gonna help to see you through
(Eu... te ajudarei a perseverar)
1976, Inglaterra.
Regulus tinha vagas lembranças de sua infância. Não porque andava se esquecendo das coisas, mas cada vez mais encontrava motivos para não as lembrar. Ou talvez apenas faltassem razões para que o fizesse.
Nostálgico, observou as gotas de chuvas ricochetearem contra o vidro do Expresso de Hogwarts, que sacolejava ruidosamente sob a tempestade.
"O que você está esperando? É só chuva, medroso!"
As nuvens, que cuspiam violentamente sobre a vida terrena, amontoavam-se disformes no céu cinzento. De quando em quando, a trovoada se fazia ouvir, o grunhido feroz daquele que os espia de cima, por detrás da cortina nebulosa. Mas a conspiração não foi suficiente para detê-lo e, quase imperceptivelmente, seus lábios se curvaram, enquanto seus olhos se viam presos naquela manhã de verão, tantos anos atrás.
"Venha! Pegue a minha mão e me siga, vamos!"
Só restava o pó e a sombra do que quer que fora um dia. Triste? Feliz? Não saberia dizer. Mas enquanto o momento existisse, agarrar-se-ia a ele. Porque era tudo o que tinha, apenas aquilo ainda o fazia se sentir vivo.
"Qual o problema, Pequeno Rei?", mesmo após tanto tempo, ainda conseguia ouvir a voz infantil dentro de seus pensamentos e quase podia sentir os dedos dele ao redor de sua mão, escaldantes, "Você não quer vir? Não disse que queria isso mais do que tudo?"
Tudo o que lhe era mais precioso.
Sirius não soltava uma exclamação havia hora e James poderia considerar o feito impressionante, se ao menos aquela atitude do amigo não o preocupasse.
O olhar vago e a quietude apenas denunciavam os primeiros sintomas de todas as conseqüências que o rapaz ainda teria de enfrentar: abandonara a mansão dos Black para todo o sempre.
Sirius fora deserdado.
Vez ou outra, seus amigos lhe lançavam olhadelas suspeitas, como se esperassem que, de repente, ele fosse cair em prantos ou algo do gênero. Isso o irritava, mas ele supunha que andava mesmo irritado e adoraria gritar por aí sem motivo nenhum, só para poder extravasar.
A verdade era que Sirius não estava tão bem quanto pensou que ficaria. Enfim, livre, não? Nem tanto. Isso era apenas uma ilusão, ele sabia. Partira da mansão, mas se esqueceu que deixara para trás parte de si. Aprisionada.
E já era hora de ir buscá-la.
Ele se levantou e murmurou uma desculpa qualquer para sair do vagão. Remus Lupin e seus olhos inteligentes acompanharam o caminho do amigo até que saísse. O monitor, assim como Peter e James, sabia que Sirius estava incomodado, mas uma caminhada não lhe faria nada mal. Não se preocuparam.
Assim, o grifinório não teve problemas para encontrar aquilo que procurava. Seguiu pelos corredores apressado e, sem cerimônias, espiou para dentro de cada um dos vagões até vê-lo.
Abriu a porta e entrou sem esperar qualquer reação que o pudesse barrar.
Sirius sempre soube o quão diferentes eram, mesmo que parecidos. Os cabelos escuros e os olhos claros, a mesma covinha quando sorriam, as mesmas feições de traços firmes, mas leves, quando concentrados. Mas nunca iguais. Eles haviam nascido para se confrontarem.
Talvez por isso mesmo ele houvesse se traído.
"Al?", as palavras soaram inseguras, mas inocentes. Sirius rastejara-se sob a roseira e sumira, deixando um Regulus hesitante para fora do seu esconderijo secreto. "Al?", ele repetiu, assustado.
Sirius se sentou ao lado do caçula no vagão, evitando o seu olhar, mas não seria preciso. Regulus não o mirava, nem o faria. Impassível, tentava ignorar a presença do irmão, em vão. Seus olhos sempre respondiam a Sirius, chispando faíscas incandescentes que confirmavam o orgulho e a vergonha que sentia por dentro.
Regulus sempre lhe pertenceu.
"Estou aqui!", a resposta veio num murmúrio, "Pode vir!"
O menino se ajoelhou sobre a terra e rastejou por debaixo dos espinhos da roseira, protegendo o rosto com os braços. Ele não sabia aonde ir ou no que daria, mas seguiu a voz do primogênito cegamente. Sempre soube que jamais o deixaria de fazer.
"Regulus?", chamou Sirius. Não costumava fraquejar, sequer pensar antes de falar, mas quando se tratava de Regulus era sempre diferente. "Como você está?"
Ele perguntou interessado, mas conservara certa frieza, a maldita distância que se interpusera entre eles estampada em cada sílaba. Sirius sempre agira daquela maneira, desde menino: não era sua a culpa, não eram seus os atos. Ele jamais daria o braço a torcer, passando por cima daquele amargo sentimento de pudor e de erro, sem se livrar dele.
Regulus virou o rosto em sua direção, lentamente, ferido e inflamado por mais uma das palavras gélidas do irmão, e Sirius finalmente compreendera as proporções dos seus feitos.
Ainda que fosse a menor parte dela.
"Quando você começou a me chamar pelo nome?"
"Al!", o caçula exclamou ao se encontrar com o irmão sob a roseira. Quase podiam ficar de pé onde estavam. Sirius observou o rosto cor de cera de Regulus, sempre abatido, acerejar por causa do esforço, pincelando as bochechas de porcelana de vermelho. A adorável respiração descompassada dele o fez responder ao sorriso de expectativa do recém-chegado quase à altura – mas nunca igualmente. O sorriso de Regulus era o seu favorito no mundo inteiro. Incomparável.
"Veja o que eu tenho, Arc!", e ele retirou o objeto da manga, fazendo o outro rir gostosamente.
Sirius levantou uma das mãos no ar e tocou o rosto do irmão tão levemente que Regulus poderia suspeitar que os flocos de neve tivessem chegado mais cedo e roçado em sua pele.
Não.
Quando o primogênito o tocava, o sonserino perdia a noção do tempo e do espaço, concentrando-se somente nos seus dedos, nos seus lábios, e nunca era frio. Não importava a estação em que estivessem, as mãos de Sirius estavam sempre quentes quando o tocavam. E Regulus – ele o sabia, porque memorizara todos os segundos em que o grifinório o fizera.
O primogênito lhe segurou o rosto entre as mãos e examinou-o com atenção, as pontas dos dedos roçando o hematoma, o cenho franzido.
"Quem fez isso?"
"Você roubou papai!", e ele riu novamente, divertido. Sirius gostava da risada de Regulus, tão diferente da sua, que era rouca, mas alta e forte. O caçula era mais contido, reservado, e ele ria sempre para dentro, mesmo que com sinceridade. "Você roubou a varinha de papai!"
"Veja só! Veja!" Sirius sacudiu a varinha, concentrado, e alguns dos seus brinquedos – os quais ele abandonara ali permanentemente – soergueram-se no ar. Regulus observou o feito, maravilhado. Quem diria que Sirius aprenderia a fazer aquela mágica antes mesmo de estudar?
O primogênito se aproximou do irmão e em tão poucas ocasiões o fizera que o caçula desviou sua atenção dos objetos para ele e observou os poucos centímetros entre os dois se esvaírem. Só então percebeu como estar ali era perigoso. "Quer ver mais?"
Regulus não respondeu, nem o pretendia. E Sirius não precisava de suas palavras. Havia anos que aprendera a ler Regulus e, portanto, sabia que com o seu silêncio o irmão dizia muito mais.
Não havia dúvidas de que fora Orion quem ferira o caçula no rosto, mas a reação do sonserino o levava a muitas outras certezas. Se Regulus não quisera lhe confirmar era porque, de alguma forma, a culpa fora sua. E se a culpa fora sua, eles discutiram sobre a partida de Sirius.
E Regulus ficara ao seu lado. Um erro, talvez, mas ele ficara.
Sirius tocou a pele arroxeada do rosto do irmão mais uma vez, cuidadoso, e no seu novíssimo – e brevíssimo – papel de irmão mais velho, por distração, acabara se traindo.
E os seus olhos se perderam nos miosótis. Novamente. Como sempre o fariam enquanto os pudesse olhar.
Regulus não sabia o que Sirius queria dizer com aquelas simples palavras, entretanto não negou. Sempre fora uma espécie de sombra do primogênito – mas não agora. Sirius o olhava, só a ele e a mais ninguém. Estava ali e reconhecia o caçula. E, sob os seus olhos, tão aclamados e tão esperados, não era sombra, nem mentira ou ilusão. Era especial
"Quero..."
O fascínio provocado pelo irmão e que o perseguia havia anos fora novamente despertado e não poderia ignorar os profundos olhos anis em que imergia, mesmo que o quisesse, mesmo que pudesse vender a sua alma para não cair naquela antiga armadilha terrivelmente sedutora. Afogava-se.
Sirius agitou a varinha e seu sorriso inocente deu lugar ao interesse incomum que jamais demonstrara por Regulus. Quebrara a barreira da distância e não havia nada que o detivesse.
Regulus viu os brinquedos subirem nos ares e as suas sombras descreverem rodopios sobre as cabeças de ambos, mas ele não os olhou. Ele queria os olhos de Sirius como nunca os tivera. Mais e profundamente, porque eram para aqueles olhos que os seus sorriam. Apenas para ele.
Regulus observava o primogênito com resignação. Não esperava nada de Sirius além da distância e da obrigação: o irmão atingira seu limite, tocando-o, o que raramente acontecia.
Mas algo havia mudado.
Sirius sorria de volta para ele, silenciosamente.
Seus narizes se esbarraram delicadamente e Sirius encontrou certa dificuldade em acertar o caminho, mas quando seus lábios se encontraram... Fora como se sempre houvessem se pertencido.
Regulus fechou os olhos vagarosamente, como se lhe sussurrassem que deveria fazê-lo, e deixou-se ser dominado. Deixou porque era assim: uns nascem vencedores, outros vencidos. Mas ele não se sentia perdedor.
Ambos ganhavam.
Repentinamente, as íris azuis do primogênito se tornaram cristalinas, e Regulus tinha acesso a tudo o que, por detrás dos olhos tempestuosos dos Black, Sirius escondera.
Mas a resposta de Regulus era surpresa, porque não havia qualquer explicação para aquilo que se sucedera.
Os seus peitos lisos se tocaram e o caçula pôde ouvir, pela primeira vez, o coração de Sirius, que batia forte e descompassadamente, assim como o seu.
Tinha certeza de que aquilo era o máximo que teria do primogênito, o selo dos lábios, um beijo dos corpos, e se esforçou para gravar o seu sabor, como que para poder levá-lo por toda a vida.
Mas tão rápido quanto viera, se fora, e Sirius escapuliu do esconderijo assim que ouvira os passos de um Orion furioso que praguejava irritado à procura de sua varinha.
A porta bateu estrondosamente, despertando-o de seu torpor. Regulus fixou o lugar vazio ao seu lado, sem muito objetivo. Escapara-lhe novamente.
"Por que está me seguindo? Vá embora!"
O gosto de menta, tão recente, ainda ficaria um bom tempo em seus lábios, e o perfume se impregnara na sua carne, pele e cabelos.
Regulus se sufocava em Sirius, seu vício mais venenoso, e não se sentia como a serpente, mas como a presa – prestes a ser abocanhada.
"Você não sabe brincar?"
Ele levou uma das mãos à testa e sentiu-se quase febril. Era o efeito de Sirius sobre ele: tão feliz, tão tolo e tão doente. O primogênito o corroia como a bebida aos bêbados e o fumo aos fumantes: doce e amarga sinfonia.
Sirius, Regulus sabia, pensaria que ele estava bem, que estava ótimo, porque seus olhos sorriram como sempre sorriam.
O sonserino meneou a cabeça, desgostoso.
"A tirania é um hábito que dilata até virar doença! Você é doente, Regulus, e não cansa de ser rei!"
Sirius jamais se daria conta de que, não importasse como estivesse, os miosótis sempre sorririam para ele e só para ele. Regulus o fizera desde que nascera e o faria até o dia em que morresse.
Porque era assim que deveria ser.
As orbes anis se desviaram para a janela, desesperadas. Não havia o que fazer: seu destino estava traçado. Mas, com amargura, seus lábios mais uma vez se curvaram como costumavam fazer, leve e discretamente.
"Parou de chover."
N/A: vamos combinar de dar parabéns atrasado pra Morgana nas reviews? Quem comentar, por favor, sejamos felizes. Feliz aniversário atrasado, Morgana! Espero que o primeiro capítulo tenha sido próximo de algo que você goste. E logo virão os outros. Beijos!
