1.

Smallville, Kansas

Fazenda Kent

Lois estava deitada no chão do celeiro, inerte. O anel da Legião estava em seu dedo indicador direito. Shelby entrou no celeiro, se aproximou de Lois e a farejou. Encostou seu focinho gelado no rosto da moça, que franziu a testa, ainda inconsciente. O cachorro deu uma lambida na face da filha de Sam Lane, que deu um tapa no próprio rosto. Ela foi abrindo os olhos aos poucos. Olhou para o lado e viu o cão.

- Shelby?

O cachorro abanou o rabo, contente. Lois se ergueu e acariciou o pêlo do cachorro.

- Se você está aqui, então eu voltei mesmo no tempo. Na minha época, você nem existe mais.

Lois passou as mãos pelo rosto e olhou em redor. O celeiro havia sido demolido depois que Martha Kent havia vendido a Kent Farm. E Lex conseguira se apropriar das terras, fazendo questão também de demolir a casa principal. Como ela não percebera todo o ódio de Lex contra os Kent? Especialmente contra Clark?

Lois deu um suspiro puxado. Olhou para sua mão. O anel estava em seu dedo e ela o colocou no bolso. Tinha uma missão e precisava cumpri-la. Mas depois não tinha mais pra quem voltar. Bruce se fora. Todos haviam partido. Ela estava mais sozinha do que nunca.

Lois sentiu uma dor na perna. Havia esquecido que estava machucada mas o sangue parecia ter estancado.

- Droga. – ela resmungou e olhou para suas roupas sujas. – Preciso de um banho e roupas.

- Lois? – Clark entrou no celeiro e ficou boquiaberto ao vê-la. – LOIS! O que houve com você?! – ele a segurou pelos ombros. – Meu Deus! Parece que sofreu um acidente!

- Só um acidente temporal...

- Como assim?

- É dificil explicar, Clark, preciso de um tempo para me acostumar com isso... – sua cabeça estava doendo. Ela se sentou na escada.

Clark se aproximou preocupado. Ele sentou ao lado.

- Lois, aconteceu alguma coisa?

- Aconteceu muita coisa, Clark. – ela o olhou, ainda sem acreditar que Clark poderia ser um alienigena. E um herói que todos precisariam.

- Porque está me olhando desse jeito?

- Por nada. – ela se ergueu e respirou fundo. – Eu sabia que viria pra cá, mas... ainda é estranho.

- É, eu sei que você acha Smallville estranha... – ele deu um sorrisinho.

- Freakville. – ela lembrou. – Era como eu chamava.

- Ahn? Chamava? Como assim, Lois? Você fala como se fosse algo acontecido há anos atrás.

Lois o fitou.

- E foi. Pra mim, pelo menos. Não pra você. Meu Deus, é confuso! – ela colocou as mãos na cabeça, enquanto Clark a olhava realmente preocupado. – Acho que o anel me trouxe para a época que você e eu éramos parceiros no Planeta Diário. Nossa. Faz tanto tempo... Parecem séculos. – Clark, não precisa me olhar como se eu estivesse louca...

Clark se ergueu lentamente e ficou diante dela.

- Lois, eu sempre soube que você era meio maluquinha, mas nunca imaginaria que você usava drogas.

- Eu não uso drogas, Kent! – ela afirmou. – Nunca gostei dessas porcarias!

- Então você bebeu além da conta...

- Me poupe, Clark, eu aguento mais rodadas de bebidas do que você jamais suportaria. – se vangloriou. Depois o olhou com atenção. – Se bem que no seu caso, acho que você é mais resistente do que qualquer um possa imaginar...

- Lois, não estou entendendo o que você está falando... Tem certeza de que não bateu com a cabeça em algum lugar?

- Bruce é quem deveria estar aqui. – ela resmungou.

- Quem é Bruce?

- Um dia você irá conhecê-lo. – ela ficou séria.- Clark, eu vim aqui por um motivo muito sério e muito importante: você.

- Eu? Como assim? – Clark estava confuso.

- Aparentemente você é mais importante para o mundo do que qualquer um poderia supor. Você é um... como direi... um super cara! – ela exclamou e ele ficou sério. – O Superboy! – ela sorriu e depois colocou o dedo no queixo, pensativa. – Não, você precisa de um codinome melhor. Enfim... – ela abanou a mão. – De onde eu vim, você não age mais como o herói. Como o Blur. Bom, pelo menos eu chamava a sua outra... persona... assim. Clark, o meu mundo acabou. Tudo foi destruído. Nós precisamos de você. Não pode deixar de ser o herói.

Clark ficou calado e depois colocou as mãos nos ombros delicados de Lois.

- Lois, você precisa descansar. Acho que realmente bateu com a cabeça.

Clark não podia corroborar aquelas palavras de Lois. Ele só não conseguia compreender como ela sequer poderia supor que ele era um herói. Ou que poderia ser um. Pior, Clark ficava em pânico só de pensar que Lois achasse que ele tinha poderes. Lois ficou boquiaberta e depois indignada. Se afastou dele com um repelão.

- Eu não acredito, Clark Kent! Mesmo depois de eu ter dito tudo isso você fica se fazendo de bobo?! Qual é a sua, Clark?! Você gosta de fazer os outros de idiota?!

- Lois, se acalma!

- Me acalmo porcaria nenhuma! – ela gritou. – Eu perdi tudo, Clark! TUDO! Jimmy, Cat, Trouppe, Lombard e Perry morreram no Planeta! Tudo veio abaixo, eles nem tiveram chances! Papai morreu defendendo o país! Lucy morreu por causa de um dos drones de Brainiac! Chloe morreu dentro da sede da Liga! – Clark ouvia tudo de olhos arregalados. Lois chorava. – Lex... Ele me enganou... Ele me usou e mexeu com a minha cabeça! Ele é um louco! Martha também morreu em Washington quando tudo foi explodido! E o pessoal da Liga morreu para defender a todos nós! Eles foram heróis até o fim! Bruce morreu diante dos meus olhos! Tudo se foi! TUDO! – ela colocou as mãos na cabeça, sentindo muita dor. – E a minha fi ... – ela parou de falar. – Todos se foram. Todos. E Hal e Bruce me convenceram que você é importante! Que você poderia ter evitado tudo isso se não fosse brincar de casinha! Clark, tem que haver um jeito de consertar tudo isso! Eu quero minha vida de volta! Quero a minha fi...!

Lois desmaiou graças a uma forte pontada na cabeça e Clark a segurou nos braços. Ele estava absolutamente chocado com todo aquele relato.

- Ela disse tudo isso? – Martha perguntou enquanto colocava um pano úmido na testa de Lois. A repórter estava deitada na cama de Clark, ainda desacordada.

- Disse. – Clark estava de braços cruzados, sério. – Ela não pode ter inventado tudo isso, mãe. E muito menos imaginado. É muito sério. Embora eu não conheça todas as pessoas que ela citou, ela falou de Brainiac. Falou da Liga. E falou de Lex... Mas Lex está morto... Ou pelo menos eu pensava que estava...

- Seu pai nunca confiou em Lex. – lembrou Martha. – Pobre Lois! Foi vítima dele! Como ele pode ter mexido com a cabeça dela?

- Eu não sei. Mas Lex é capaz de tudo. Ele também fez muita coisa contra Lana ... – Clark disse, ressentido.

- Querido, você sabe que Lana ficou com Lex por vontade própria.

- Mas e se não foi, mãe? E se, de alguma forma, ele mexeu na cabeça dela também? – Clark suspirou. – Tenho que esperar Lois acordar para esclarecer isso. E quero saber o que acontece com Lana no futuro, ela não disse. – ele começou a andar pelo quarto. – Ninguém me tira da cabeça que Lex foi um dos reponsáveis por Lana ter me deixado...

- Você ainda tem o video de despedida dela? – Martha perguntou, preocupada.

- Não posso mentir dizendo que não. Às vezes eu olho, procurando alguma pista, algum indício do porque Lana ter desistido de nós.

- Clark, ela deixou isso bem claro. Ela te deixou porque acreditava que o mundo precisava mais de você do que ela.

- Nós poderíamos ter ficado juntos mesmo assim... eu não sei... – ele passou a mão pelo cabelo. – Ela poderia se acostumar com tudo isso que é a minha vida...

- Ela nunca se acostumou, Clark. – Martha disse, sábia.

Clark ficou calado. As coisas com Lana eram sempre complicadas. Ele ainda não conseguia se conformar por ter sido abandonado. Sabia que Lana havia sofrido nas garras de Brainiac, mas eles poderiam reverter tudo juntos. Mas Lana optara por desistir.

Martha olhou para a adormecida Lois.

- Melhor deixarmos ela descansar. Ela parece muito abatida. Eu já cuidei do ferimento e é só superficial. Ainda bem que vim passar o fim de semana aqui. Posso cuidar dela.

- Eu cuidaria bem de Lois. – Clark afirmou.

Martha tocou no rosto do filho e sorriu.

- Eu sei, querido. Agora vamos deixá-la recuperar suas forças.

Clark concordou e mãe e filho saíram do quarto.

- Ei, bonequinha... – Lois sorria para a pequena Lara deitada na cama de hospital. – Trouxe seu bichinho de pelúcia favorito. – ela lhe mostrou um urso panda e colocou ao lado da filha.

- Obrigado, mãe. – a menina disse com uma vozinha fraca. – Eu gosto do Pim.

- Agora vocês vão ficar juntinhos até você sair do hospital. – Lois fez carinho na testinha da menina.

- Quando eu vou embora, mãe?

- Breve. Em breve. – Lois disse, mesmo sem estar certa disso. – Vai ficar tudo bem. Eu prometo.

Lara deu um sorrisinho cansado e abraçou o ursinho panda de pelúcia.

- Não vai ficar tudo bem.

Lois olhou para trás ao ouvir a voz sinistra de Lex.

- Lex?

- Você errou, Lois. E essa menina está pagando os seus pecados.

- Lex, para com isso. – Lois se ergueu. – Vai embora daqui!

- Ela vai morrer, Lois e não há nada que você possa fazer para impedir.

- VAI EMBORA DAQUI! – ela berrou, furiosa.

Lara começou a chorar e a máquina ligada a menina disparou. Lois se desesperou.

- Lara! – Lois tentou abraçar a filha, mas não conseguia alcançá-la. – Lara!

- Mãe! – a menina gritava e chorava. Tudo ficou escuro.

- LARA! – Lois berrou, desesperada.

O rosto de Lex surgiu diante da reporter.

- É a sua punição por ter me traído!

- Lex, não, por favor! Eu faço o que você quiser! Qualquer coisa!

- Eu queria o seu amor!

- Eu amei você! Mas você usou! Me enganou , me manipulou, usou uma máquina para brincar com a minha mente como se a minha cabeça fosse um parque de diversões, seu desgraçado!

- Eu não podia perder você! – Lex a sacudiu pelos ombros. – Mas ainda assim você me traiu com o alien!

- Me solta!

- Adúltera! Lara está morrendo por culpa sua! Só sua!

Lois foi jogada com força no chão. Olhou para Lex.

- Foi só uma vez... Nem foi importante pra ele... Ele voltou pra Lana... Eu errei sim. Eu fui fraca sim, eu reconheço! Eu não sou perfeita! Eu tinha descoberto que você tinha mexido na minha cabeça... eu fugi... eu queria sumir... eu me sentia usada... então Kara me encontrou... E eu reencontrei Clark... Nós nos aproximamos mais do que em qualquer outra ocasião... Eu pensei que ele gostasse de mim... Ele falou tantas coisas... – ela suspirou. – Aí depois ele sumiu... E você me achou. Voltou a brincar com a minha cabeça... – ela o olhou acusadoramente.

- Você me obrigou a isso. Não podia deixar você fugir de mim. Você é minha. Mas você devia ter abortado!

- Nunca! Ela é minha filha!

- Ela é filha de um alien!

- CALA A BOCA, VAI EMBORA DAQUI! ME DEIXA EM PAZ!

- Ela morreu, Lois! Morreu! – ele começou a rir insanamente. – E a culpa é sua! Só sua! Seu pecado, seu erro, sua culpa!

- NÃO! – Lois gritava, agitada, ainda de olhos fechados, na cama. - Não!

- Lois! – Clark entrou correndo no quarto e tentou acordá-la. – Lois, acorda!

- Não! Não! Por favor!

- Lois!

Lois acordou assustada.

- Lex! – ela gritou e depois se deu conta que estava diante de Clark. Esfregou os olhos. – Foi um pesadelo...

- Estava sonhando com Lex?

Lois passou as mãos pelo rosto. Estava suando frio.

- Pesadelo. Não foi real. Lex não sabia de nada, ou pelo menos eu achava que ele não sabia. Lex só me contou após a destruição de Metropolis.

- Contou o que?

Lois desviou o olhar. Não iria contar. Aquilo fazia parte de um futuro que poderia não mais existir. E do que adiantaria falar algo? Não é como se Clark pudesse fazer algo a respeito disso. E Lois já estava acostumada a sarar suas próprias feridas. Lois saiu da cama ainda mancando.

- Lois, você ainda está se recuperando...

- Já recebi pancadas maiores, Clark e continuei de pé. Não é qualquer coisa que me derruba.

- Eu não entendo... Você e Lex... Quando você se envolveu com ele? Como isso pode ter acontecido?

Lois se aproximou da janela e olhou para a paisagem do lado de fora. Era um cenário acolhedor, caseiro, com pássaros cantando e uma vista exuberante dos campos. Completamente diferente do que ela vira da última vez que pisara na fazenda Kent na sua realidade.

- Lex voltou a Metropolis quando todos pensavam que ele havia morrido. Quer dizer, exceto Tess, que sempre dizia que Lex Luthor não morreria tão fácil. E aquela rata estava certa. – Lois bufou.

- Quem é Tess? – Clark perguntou, confuso.

- Irmã de Lex, filha bastarda de Lionel. – ela informou e Clark ficou boquiaberto. – Ela morreu antes de Brainiac destruir tudo. Desconfio que Lex tem participação nisso. Os dois travavam uma disputa pelo poder antes dela aparecer morta no topo da LexCorp. Mas a polícia nunca conseguiu achar o assassino e eu... – ela suspirou. – A minha cabeça estava sendo dominada por força externa.

- Você disse que Lex mexeu com a sua cabeça... – lembrou Clark.

- Sim. – ela confirmou. – Ele usou uma máquina em mim. Eu fiquei à mercê dele.

Clark deu um soco no colchão, revoltado.

- Lex não vale nada! É um covarde mesmo! Mas como ele conseguiu sair do ártico?

- Eu não sei. Ele disse que não se lembrava e eu não quis perguntar porque achava que o incomodava. – ela deu um sorriso sarcástico. – Como eu era burra...

- Não foi culpa sua. Ele te manipulou.

- Sim. Lex é capaz de tudo. – ela cruzou os braços. – Quando ele voltou, parecia mudado... De inicio eu não acreditei, mas... parecia que ele não se lembrava de nada da sua vida passada... Que ele queria consertar seus erros... Fez até boas ações... Mas claro que escondia algum propósito sombrio...

- Lex é como Lionel. Na verdade, pior. Lex infernizou a vida de Lana. Só nunca imaginei que ele faria o mesmo com você.

- Lana não é tão santa assim. – Lois afirmou e saiu de perto da janela.

- Lois, Lex também mentiu e usou Lana! – defendeu Clark.

- Ela ficou com ele porque quis! Ninguém colocou uma arma na cabeça dela!

- Lex pode ter usado com ela o mesmo recurso que fez com você!

- Não sei... Pode ser... – ela meneou a cabeça, indecisa. – Mas na época não parecia.

- Aposto que disseram a mesma coisa sobre você. – Clark a fitou.

Lois suspirou. Clark sempre amaria Lana e isso era um fato comprovado. Nada que falasse ou argumentasse mudaria isso na cabeça dele. Resolveu mudar o tópico da conversa.

- Fato é que Lex fez muita coisa errada. Mas pelo que Hal e Bruce me disseram, o pior foi você ter ido embora. Sem um herói, Metropolis ficou à mercê de Brainiac.

- Eu não sei quem são essas pessoas, mas eu não consigo acreditar que deixei Brainiac fazer o que quisesse sem reagir.

- Mas você fez. Você foi embora. Com Lana. Vocês se casaram. – ela contou e ele se ergueu, surpreso. Clark deu um sorriso. – Sim, você virou o sr. Lana Lang. – ela ironizou.

- Lana e eu...? Então ela volta.

- No casamento de Chloe e Jimmy. Vocês se acertam, se casam e vão embora de vez de Metropolis.

- Juntos.

- Isso. – ela confirmou. – Eu só não entendo porque você não pode continuar sendo o herói.

Clark ficou pensativo.

- Era dificil para Lana lidar com... tudo... que eu sou... – ele falou vagamente.

- Kal-El, o Viajante Intergaláctico. O Último Filho de Krypton. – Lois citou e Clark a olhou surpreso. – Eu claro que eu sei de tudo. Bruce não me mandaria para cá às cegas. E eu também lembro das minhas entrevistas com a Supergirl.

- Quem?

- Kara. Sua prima. Ela vai virar uma grande heroína.

Clark sorriu, orgulhoso.

- Kara realmente é uma pessoa incrível. Supergirl... que nome... quem a batizou assim?

- Quem mais senão eu? – Lois deu uma piscadela e Clark sorriu. – Ei! Você poderia ser o Superman! – Lois estalou os dedos. – Superman... Uau... Fica legal... Gostei.

- Superman? Eu? Lois, por favor...

- Clark, é sério. – Lois ficou de frente para ele. – Metropolis e o mundo foram devastados. Todas as pessoas que conhecíamos, gente inocente, uma civilização inteira chegou ao fim...

- Por minha causa. – ele se sentiu culpado e abaixou a cabeça.

- Não. – ela tocou no rosto dele e o fez levantar a cabeça. – Mas com sua ajuda, poderíamos ter mais chances. Clark, não é pelos seus poderes. É pelo o que você é.

Clark a fitou.

- E o que eu sou.

- Um herói. Um super herói. Você nasceu para salvar pessoas, Clark. E sinceramente, eu não consigo te imaginar desistindo de tudo. Mesmo por amor a alguém. Não se parece com você.

Clark ficou pensativo.