Capítulo I

Sempre fui um garotinho precoce. O primeiro da sala a aprender a ler, o mais inquieto e querido. Lembro-me da professora apertando minhas bochechas e dizendo que eu era uma graça. Lembro de ter levado flores para ela no dia de seu aniversário. Rosas brancas.

Adorava rosas. Desde sempre me via envolto nelas. Seu cheiro permeava a tudo relativo à minha vida.

Hoje sei que foi um choque o que aconteceu comigo e minha família. Foi muito divulgado nos jornais suecos naquela época devido à importância de minha família, mas estava longe demais de casa para saber disso.

E mesmo hoje não faço idéia de como me trouxeram para cá, ou o que foi de mim durante o caminho. Devo ter sido estuprado, disto tenho quase certeza porque sentia dores íntimas, mesmo que vagamente. Mar tudo o que lembro é do torpor. Como nada fazia sentido e a realidade parecia se dissolver em um mundo à parte... Efeito de alguma droga que me deram.

Lembro também do suor. Queria demais um banho e o suor me enjoava e exasperava quase tanto quanto os dedos atrevidos que sentia, esfregando panos úmidos em meu corpo. Mas mantinham-me constantemente drogado e nunca sabia ao certo se aquilo tudo era verdade ou não.

Na verdade, sequer tenho certeza da forma como fugi. Apenas o fiz.

E o mundo que encontrei era frio e pouco receptivo.

Devo ter passado... O quê? ...Mais ou menos um ano e meio vivendo-... Sobrevivendo em albergues. Fumava restos de cigarros dos outros e comia quando dava. Não sabia mais o que era higiene e todo banho real que tinha direito eram sob as vistas de pessoas estranhas ou então meu amado banho de chuva. Nem sei como não perdi meus dentes, talvez realmente comesse tão pouco quanto parecia ou meus dentes sejam realmente bons. Mas na verdade não tive nada além de algumas cáries superficiais, o que deve confirmar a segunda opção.

Mas com o passar do tempo as pessoas que me ajudavam, talvez com um instinto protetor, começavam a disputar meu espaço e os que não tentavam afanar minhas coisas queriam partilhar de minha intimidade antes mesmo que eu a conhecesse de verdade.

Preferi então dormir ao relento. Parecia-me melhor do que viver sob o risco de ser linchado ou abusado. Mas a rua não é, nem de longe, segura... Foi bobagem a minha pensar que lá estaria mais protegido...

Vi assaltos e tomei surras por nada, sem poder me defender. Vieram caras estranhos uma vez e tentaram me pegar por algum motivo. Talvez quisessem gozar dos mesmos favores que todos queriam, ou talvez quisessem me por pra trabalhar pra eles nos faróis, como vi que faziam com outros...

Sempre fugia então. E sempre queria chorar, mas não era sensato me dar a esse direito. Acho que fui levado a hospitais algumas vezes, mas também fugia de lá. Tinha algum horror naquelas paredes brancas que não conseguia suportar, mesmo que gostasse de ser alimentado e limpo regularmente. Havia algum pânico inexplicável daqueles lugares, que mais tarde descobri que vinha do fato de ter visto o corpinho de meu irmãozinho naquelas macas horrorosas quando morreu de insuficiência respiratória aos seus três anos. Mas nunca lembraria isso, não fossem os jornais que li tantos anos depois.

Lembro de ter passado quase um ano procurando esquina pra viver, mas estes lugares normalmente são marcados. Não se pode simplesmente chegar e se instalar ali sem antes ter a certeza de que alguém não tomou ainda aquele ponto como seu.

Foi assim que o conheci. Milo...

Sei que não devia citar nomes, mas assim a história parece mais familiar.

Eu não tinha lugar pra dormir e meu cobertor, já roto e imundo, fora largado em alguma esquina qualquer.

Mesmo nessa miséria, ainda conseguia ser bastante fresco, foi o que ele me disse, certa vez.

Ele era do outro lado da cidade e como parou lá, só me contou muitos anos depois. Mas ao me ver tremendo de frio enquanto ele se mantinha sentado a um tipo de entrada de garagem abandonada, confortavelmente encolhido em uma coberta aparentemente pouco usada, se preparando para comer o pão que tinha em mãos, deve ter sentido dó.

Chamou-me algumas vezes até que eu percebesse que era comigo e quando me aproximei, ele abriu o cobertor, me deixando entrar embaixo.

"Tu é novo no pedaço, né não?" – ele perguntou sem me olhar, tentando dividir o pão que tinha de maneira justa e entregando-me metade. – "Tó, mas num costuma não."

Devo ter feito uma cara realmente idiota, para ele rir como riu.

"Tá fazendo isso por quê?" – perguntei um tanto desconfiadamente, mas aceitando o pão.

"Porque tá com cara de coitado." – respondeu imediatamente, fazendo uma careta. – "E queria que tivessem me ajudado quando eu tava também."

Percebi então que não era só pão que ele tinha embaixo da coberta. Tinha uma caixa de fósforos e cigarros ali, uma garrafa de uísque barato já pela metade e algumas bandagens. E pensei então se aquilo tudo não era roubado.

Lembro de ter olhado pra cara dele, até que bem limpa pra um miserável. Ele riu.

"Ganhei" – respondeu sem que sequer tivesse perguntado. – "Dou pra um cara e ele arranja umas coisinhas em troca"

"Dá o quê?" – perguntei, já com metade de meu pão na boca, fazendo-o rir outra vez.

"O rabo." – ele disse ainda rindo, devia estar achando muita graça. – "Dói, mas vale pela grana."

Acho que fiquei olhando pra cara dele enquanto pensava na obviedade daquilo. Viver na rua, dando pra quem pagasse.

Era uma idéia positivamente nojenta, mas desesperadoramente tentadora numa situação daquelas.

"Tu num faz isso, né?" – ele inquiriu, provavelmente me achando estranho. – "Com essa cara que tu tem o que num falta é cliente." – e ao dizer isso passou a me apalpar de cima a baixo, o que me fez estremecer e me sobressaltar. – "Porra de corpo bom! Tem mesmo material do bom aí... E no meio das pernas também..." – e dito isso, deslizou os dedos por dentro da fronha disforme que usava como roupa, tocando a área citada descaradamente, causando pequenos choques no meu corpo.

Talvez eu tenha ficado com medo, mas os toques daquele menino, bem como aquela cara safada que ele fazia enquanto me tocava por baixo dos panos - bem no meio da rua -, estava me ensandecendo.

Até ali, ao entrar pela garagem abandonada com ele, não tinha idéia do que era aquilo. Acho que aquele momento marcou minha ida a "puberdade".

Tinha começado a chover do lado de fora dali, tempestade. E achamos interessante tomar banho na água da chuva mesmo, nos despindo de nossos trapos na calçada, esfregando o corpo um do doutro num tipo de brincadeira e exploração, descobrindo que não éramos tão sujos quanto pensávamos... Meu medo já esquecido entre os toques dele, afinal era bem melhor do que estar sozinho.

"... Quero te comer." – ele murmurou antes de morder os lábios, hesitante. – "Faço gostoso se deixa. Sô bom nisso."

"... Nunca dei." – respondi simplesmente, enquanto tocava seu abdome, firme demais para um molequinho que já parecia um hominho, sua intimidade tesa parcialmente dentro do meu campo de visão.

"Nem parece..." – ele respondeu prontamente, grudando seu corpo ao meu enquanto me empurrava para dentro da garagem outra vez. – "Moleque gostoso você. E nem sei teu nome."

"Nem tenho." – respondi num gemido quando suas mãos voltaram a passear por mim numa inquietude que mais tarde se mostrou típica dele. – "... Ou não lembro."

"Temos que te chamar de alguma coisa... 'Di', então. Esse vai sê teu nome." – ele riu, voltando a pressionar seu corpo no meu.

Ri com ele. "Di" nem era um nome de verdade, mas gostei de ter algo por que ser chamado, ainda mais quando ouvi naquela voz rouca de desejo. – "E o teu? Ou acha que dou pra estranho?"

"Milo." – murmurou orgulhoso, ainda sustentando aquele sorrisinho safado. – "O greguinho gostoso." – e piscou de uma forma decididamente marota. – "Gostei de você, Di... Faz muito tempo que não rio tanto."

Lembro de ter sentido uma ternura enorme por ele quando disse aquilo. E beijei sua boca rapidamente, apenas um roçar de lábios, mas era o primeiro beijo que dava em alguém.

Vi a expressão debochada que naturalmente permeava suas expressões sumir. Ele parecia verdadeiramente emocionado agora. – "Você vai embora depois...?" – ele perguntou como quem não quer nada, nos fazendo sentar sobre umas cobertas velhas jogadas no chão. Mas descobri depois que com ele, aquilo não existia. Milo sempre queria algo.

"Deveria." – comecei um tanto perdido. – "Mas... não tenho para onde ir."

"Fica comigo. Posso te cuidar, novato." – ele propôs, dando um ar casual à proposta. – "Te ensino a faze gostoso e aí pode ganha uma grana. Que tal?"

Encarei-o por um momento. Envolvi seu pescoço nos meus braços e pousei meus lábios me sua testa. Gesto que até hoje é o mais íntimo entre nós.

"Eu topo 'gregão'. Mas vai ter que me ensina tudo" – avisei, ao que ele sorriu, novamente com aquela expressão de deboche.

"Passo-a-passo. Com direito a repeteco em caso de dúvida..."

Posso imaginar a estranheza com a qual imagina essa cena, afinal éramos apenas dois moleques entre dez e onze anos, fazendo dessas sacanagens, mas a vida ensina a crescer no sentido que dá.

Disse antes que era um garotinho precoce e não estava brincando.

Eu fiquei lá com ele e Milo me ensinou tudo o que sabia. E eu aprendi logo os truques, sempre treinando com meu "professor". Mas os maus tratos que ele disse que eu sofreria e que ele tentou imitar, falhando seriamente entre risos e suspiros, eu aprendi na marra com homens muito mais velhos e com sexos muito maiores do que o de um garotinho.

Aprendi a ignorar tudo. A dor, o nojo, a raiva. Aprendi a me sujeitar e para não odiar o sexo, fazia com Milo sempre que não estávamos muito machucados fisicamente. Só moralmente.

Mas ele mostrou ter razão, comia muito mais regularmente e ele sempre dava um jeito de arrumar bebida e cigarros, aos quais consumíamos pouco - por não sabermos quando daria pra arrumar mais -, mas com freqüência.

Ficamos conhecidos nas esquinas próximas. Achavam que éramos irmãos por causa dos cabelos loiros e olhos azuis e quando não pagavam o dobro pra comer os dois de uma vez, faziam-no para nos ver nós dois transando em qualquer lugar que quisessem, sem plástico, já que a maioria só usava pra não ficar doente. Mas se morrêssemos disso, que fosse pelo prazer deles nos verem.

Mas teve um tempo em que chegamos a fugir das ruas conhecidas por reconhecerem ao Milo como o "ladrão de pão" e tentarem nos pegar por isso.

Tivemos de fazer tudo de novo. Arranjar lugar, arrumar cliente.

Tivemos a sorte de achar um prédio condenado, daqueles que eram pra ser uma casa bonita de gente chique, mas que é abandonada pela metade. As estruturas estavam podres. Soube que ele caiu há pouco tempo e não pude não pensar em como aquilo não caiu em cima de nós.

Mas, de qualquer forma, viver assim não é fácil, principalmente em uma fase difícil como a adolescência.

Lembro dele jurando que nunca mais olharia na minha cara quando sua voz começou a mudar. Engraçado pensar nisso, porque a minha voz não mudou significativamente...

E quanto ao corpo, espinhas e tudo o mais? Mas o pior mesmo é tudo crescer de repente, doendo e doendo e nem ao menos poder se dar ao luxo de descansar daquele trabalho infernal.

E eu ensaiava minha melhor cara de coitado, pedindo dinheiro na sarjeta enquanto Milo simplesmente levava carteiras e produtos das entradas das lojas, assim, descaradamente.

E de noite, fazíamos ponto até madrugada adentro, quando então voltávamos praquela estrutura podre e dormíamos juntos, fosse dormindo mesmo ou nos consolando um ao outro como sabíamos fazer.

Talvez sejamos irmão ao fim das contas. Milo é minha única família, o único que realmente amo e respeito e quero bem de maneira incondicional.

Até hoje sinto falta dele por perto o tempo todo. Não gosto de morar sozinho e sei que ele também não gosta, mas se morássemos juntos, seu protetor invariavelmente pensaria que resolvemos tornar oficial nossa 'relação', bem como um casal feliz, devido provavelmente a atividade sexual inevitável.

–... E por que continua a se encontrar intimamente com ele? – perguntou o repórter, um tanto desconfortável ao perceber-se parcial sobre o que ouvira.

– Sabemos como nos agradar... – disse em meio a um sorrisinho malicioso, ajeitando-se outra vez à cadeira. Percebeu-se ligeiramente excitado com aquelas lembranças e não pôde evitar um risinho baixo e debochado. – Conhecemos o corpo um do outro, é nosso segundo lar. A carência nos leva a isso e isso nos leva ao orgasmo... Ninguém sabe o que ter um corpo conhecido de anos tomando o seu e sentir exatamente o mesmo êxtase que sentiu pela primeira vez, com o adicional dos truques que só um parceiro de longa data pode saber. Mas eu sei. – suspirou satisfeito, mordendo suavemente os lábios ao pensar no que dizia. – Você realmente pararia se fosse um de nós?

– Mas ele ama outro, não? – perguntou o repórter, causando uma risada mais calorosa da parte do loiro.

– Oh sim... Está perdidamente apaixonado... – comentou como se achasse tudo aquilo extremamente meigo. – E só eu sei como ele desconta essa frustração. Deve ser lindo, não? Fazer o que fazemos, com amor. Mas eu não posso saber. E ao que parece ele também não.

Mas sempre gostei dos braços firmes dele. Principalmente depois da puberdade, quando o corpo bonito tomou proporções divinas.

A cintura ligeiramente afilada, os ombros de boa proporção, os músculos definidos... Ele sempre foi lindo. Um belo homem.

Já eu... Sempre fui assim, andrógino. Passo tanto por um homenzinho delicado quanto por uma bela garota desprovida de seios. Já fui muito confundido e acredito que é exatamente essa dubiedade que mantém minha carreira estável e bem-sucedida.

E sei que soa óbvio isso, apesar de não ser, mas de tudo a verdade é que gosto de homens.

Sim, gosto meso de homens. De sua força e pegada, da expressão malandra. Acho mulheres delicadas demais e a sensualidade e os seios redondos e bonitos não compensam a ausência do resto. Sou capaz de ser tão sensual quanto uma mulher e tão safado quanto um homem, estou acima disso e sempre enlouqueci meus clientes, bem como ao meu amigo, por isso.

Mas creio que de alguma forma, não tive a chance de apreciar o sexo oposto, mesmo que em bem da verdade eu nunca tenha gostado de me sujeitar às vontades dos outros, por mais humilhantes que fossem. Aquilo me mortificava e meu único consolo era conseguir entender o prazer que aquilo trazia quando estava com a única pessoa que queria estar.

Engraçado pensar que naquela época eu não sabia o que era orgulho próprio, já que hoje creio até mesmo pecar pelo excesso. Mas definitivamente não sabia o que era qualquer sentimento para consigo mesmo, sentia-me apenas um objeto, um pedaço de carne e apenas Milo conseguia me fazer sentir algo superior a isso. O que quer que fosse.

Precisávamos um do outro.

Ah, e o tipo de homens que procuravam nossos "serviços"... Jamais poderia, ou mesmo ousaria tentar, descrever a repulsa que sentia em brincar com aqueles seres... Mas nunca como fazia com Milo.

Odiava-os, bem como a seus toques.

Talvez tenha sido por tudo isso que não resisti a aceitar a proposta de um homem bonito de terno e sorriso limpo, que disse que me queria e que pagava bem.

Óbvio que era algo suspeito, um homem daqueles procurando serviços de um puto de rua como eu. Até mesmo Milo teria me impedido de ir, não estivesse ele com um cliente agora ou mesmo se não estivéssemos "de mal" um do outro por conta de alguma bobagem. Por isso fui sem dizer palavra, hipnotizado como estava por aquela presença.

Fui levado pra um motel barato, que na época pareceu-me um palácio. Me mandou para o chuveiro com aqueles kitzinhos de higiene com pasta de dentes, escova e sabonetinhos e disse para me limpar direitinho, porque depois ele iria "revistar".

Fiz o que ele mandou sem questionar, afinal ele estava sendo muito bom para mim.

E quando terminei de me lavar e limpar, me assustei ao ver no espelho que meus cabelos batiam quase nas coxas, descendo, agora limpos, em uma cascata dourada por minhas costas.

Fiquei bonito com os dentes escovados e o corpo limpo, muito bonito mesmo e o cara pareceu surpreso, sorrindo de lado quando me aproximei só de toalha.

Vi-o afrouxar a gravata e desabotoar os primeiros botões da camisa e quando me aproximei mais, ajudando-o a tirar os braços das mangas longas, ele me pegou de jeito, colocando-se rápido demais sobre mim.

Ele era apressado igual ao Milo e me invadia e afagava com vontade, mas depois da segunda vez, enquanto deslizava a língua por minhas costas, começou a morder e arranhar minha pele com força, machucando. Tentei agüentar, mas ele apenas intensificava mais e mais a força que empregava naquilo e quando não consegui suportar mais e pedi para ele parar, o cara surtou. Me bateu com força e me fodeu à força, sem que eu deixasse. Sangrei bastante e lembro te tentar, sem sucesso, segurar as lágrimas, mas ele só me batia mais e mandava eu calar a boca entre risos cruéis e por vezes histéricos, assustando a mim.

Ficou lá o que pareceu uma eternidade, me forçando e machucando e só quando não tinha mais certeza de sentir qualquer coisa ele parou, indo até o banheiro e voltando com uma tesoura.

Cortou meu cabelo todo, nem curto, nem longo. Só brincava de tesourar as mexas numa calma maníaca e quando julgou estar satisfeito o bastante com o estrago, jogou tudo na privada.

–x–