Capítulo 2

"Um estrangeiro no time", foi a primeira coisa que Murasakibara pensou quando pisou na quadra do ginásio do colégio Yousen pela primeira vez. Como de costume, encarar as pessoas era uma tarefa feita por cima e seus olhos violetas se abaixaram para fitar aquele que havia se colocado à sua frente e sorria como se não tivesse nenhuma preocupação na vida. O que ele faz aqui?

As apresentações que seguiram aquele momento nomeou o estrangeiro, que passou de um simples ninguém para Himuro Tatsuya, recém-chegado da América e aluno do segundo ano. Meu senpai, hm? A ideia não o agradou, mas o sentimento de não ser o único novato era reconfortante, pelo menos próximo dos demais jogadores.

A treinadora, Akari-san, foi responsável por passar os últimos detalhes sobre os treinos. Eles seriam realizados todos os dias, de segunda a sábado, depois das aulas, com exceção da época de testes. O rapaz de cabelos roxos e o tal Himuro Tatsuya receberam duros e pesados olhares que só fizeram sentidos quando o jogador mais baixo e de nome Fukui disse que os alunos não poderiam jogar se as notas fossem baixas.

O Pivô deixou a quadra sem nenhuma esperança ou expectativa.

Ele não fazia questão de fazer parte do time e só estava ali porque Akari-san o havia convidado a jogar, isso ainda quando fazia parte de Teikou. Se dependesse de sua força de vontade, ele gostaria de passar seus dias deitado em algum lugar fresco, jogando qualquer coisa em seu PSP e degustando diferentes doces todos os dias. A vida, claro, nunca seria do jeito que projetamos.

Convivência fez com que os estranhos senpais se tornassem somente... senpais. Com os treinos diários, Murasakibara teve tempo suficiente para conhecer seus colegas de time e, verdade fosse dita, quanto mais os conhecia menos gostava deles. O segundo mais alto, o chinês Liu, tinha uma personalidade quieta e falava de maneira esquisita; as brincadeiras de Fukui passavam dos limites e Okamura só sabia falar sobre seu desejo incessante de ter uma namorada, embora não fizesse absolutamente nada para que isso acontecesse.

Porém, nenhum deles irritava-o, pelo contrário. Depois de Teikou, ele achou que dificilmente iria se interessar por amigos. No final, todos seguirão caminhos diferentes, como aconteceu com Aka-chin, Mido-chin, Mine-chin, Kise-chin e Kuro-chin... A realidade, por outro lado, mostrou-se diferente do esperado e o rapaz de cabelos roxos não detestava seus senpais... bem, pelo menos não todos.

Himuro Tatsuya entrou para sua lista negra no segundo dia de treino.

O moreno tinha talento e era um bom jogador, mas somente dentro das quadras. Fora delas ele era o pior tipo de pessoa na opinião de Murasakibara: dissimulado e falso. Em certas coisas ele o fazia lembrar-se de Kise, com a diferença de que o louro era simplesmente idiota. Himuro, por sua vez, sabia exatamente o que fazia e seus olhares baixos e sorriso fácil pareciam uma máscara que escondia suas reais intenções.

A partir daquele dia o Pivô decidiu que não queria nenhum contato com aquele garoto. Ele não era a pessoa mais amigável e simpática do mundo, no entanto, esse era quem ele era. Sem máscaras, sem sorrisos falsos e sem belas e vazias palavras ditas somente para agradar. Se o estrangeiro pretendia agir daquela forma, então Murasakibara não estava interessado em sequer conhecê-lo melhor.

Por serem de anos diferentes, eles raramente se viam com exceção dos treinos. Contudo, o Lançador sempre aparecia quando ele menos esperava, aproximando-se com aquele falso ar tranquilo e oferecendo um falso sorriso e convidando-o com falsas palavras para alguma coisa que certamente também seria falsa! Ele começou a me chamar para almoçar, depois queria que voltássemos juntos por utilizarmos o mesmo trem, até chegar ao cúmulo de vir me atormentar enquanto eu cabulava aula no terraço. O Pivô dificilmente perdia a linha. Por não se importar com quase nada na vida, ele assistia aos dias passarem com o mesmo olhar desinteressado e expressão apática. Entretanto, quanto mais Himuro o pressionava, mais tentado ele sentia em destruí-lo.

Se a situação fora das quadras estava se tornando insustentável, o mesmo não poderia ser dito sobre a química que possuíam durante os treinos. As jogadas entre eles eram exatas e perfeitas. O moreno sabia o momento certo de passar a bola e o corpo de Murasakibara movia-se instintivamente para protegê-lo dos demais jogadores. Foi uma questão de tempo até que Akari-san os chamasse de "dupla invencível" e deixasse claro que tinha grandes expectativas com relação a eles. Ele sorriu e me olhou como se esperasse que eu concordasse. Eu apenas dei as costas.

O dia em que sua paciência chegou ao fim foi depois de um treino.

Antes de pisar em quadra ele havia presenciado o exato instante em que uma garota de sua classe se declarava para Himuro. O ex-jogador da Geração dos Milagres preferia chegar ao ginásio dando a volta pelo colégio para evitar encontrar qualquer conhecido. Eu mal havia virado e eles estavam lá, próximos à saída.

Ele não ouviu a conversa inteira, todavia, a rejeição chegou alta e clara. A garota ainda afirmou que não se importaria de ser a "outra", mas o moreno apenas sorriu e disse que no momento não havia ninguém em sua vida e que ele não tinha interesse em relacionamentos.

Aquela cena o irritou mais do que ele gostaria de admitir. Murasakibara não entendia porque vê-lo com aquela garota o deixara tão incomodado. Seu corpo deu meia-volta, optando pelo caminho da frente e seguindo com passos pesados. O coração batia apertado em seu peito e havia um estranho nó em sua garganta, que o impossibilitava de até mesmo terminar o pirulito de uva, que acabou sendo mordido e engolido sem muitas atenções.

O treino decorreu como sempre, os passes foram exatos, as jogadas certeiras e, não importava com quem treinassem, se os dois estivessem no mesmo time a vitória era certa.

Os jogadores se afastaram aos poucos quando o sinal tocou. Akari-san ausentou-se no meio do treino, pois tinha uma reunião com os demais professores. Okamura foi o responsável por dirigi-los nos minutos finais e, com exceção da mesma conversa fiada sobre "não ter namorada" e "como eu gostaria de uma garota baixa e bonitinha", o treino foi proveitoso.

O rapaz de cabelos roxos sentou-se no banco de madeira com o objetivo de descansar um pouco antes de seguir para o vestiário. Seu corpo estava quente e ele sentia que se não se cuidasse acabaria ficando gripado. Isso seria bom. Eu faltaria no colégio, não treinaria e passaria o dia deitado e comendo doces. A realidade era bem menos feliz, visto que um de seus irmãos tinha uma obsessiva mania por limpeza e certamente o forçaria a ajudar.

"Você trabalhou duro, Atsushi."

A voz veio da sua frente e os olhos violetas se ergueram. Cada fibra de seu corpo arrepiou-se ao ouvir aquele tom misturado ao sotaque adquirido na América.

"É..." Ele tentava ignorar a aproximação.

"Não quer conversar, hm?" Himuro sentou-se ao lado, abriu uma garrafa de água e começou a bebê-la devagar. "O que me diz de treinarmos juntos amanhã? O time não treinará o restante da semana e pensei que poderíamos ter uma sessão particular."

"Por quê?" O Pivô respondeu sem hesitar. Aquela pessoa vivia convidando-o para qualquer bobagem que achasse que poderia agradá-lo. "Por que eu perderia meu tempo treinando com você?"

"Você é um ótimo jogador, mas pode ser ainda melhor. Nós poderíamos treinar nossos passes e jogadas. Será divertido, prometo!"

"Divertido?" Os olhos violetas fitaram-no com asco. "O que você considera divertido eu chamo de total perda de tempo. Se você quiser treinar o problema é seu, mas não me incluía nesses planos idiotas."

O único olho visível arregalou-se momentaneamente e Murasakibara engoliu seco.

Ele havia gostado de destruir as esperanças do moreno, porém, outra parte arrependeu-se automaticamente da grosseria.

"Você não está ajudando, Murasakibara." A resposta veio após alguns segundos e seguida pelo sorriso falso e estático que o Lançador oferecia para todo mundo. "Eu estou tentando ser seu amigo."

Amigo? Eu não preciso de amigos e certamente não gostaria de ser amigo dele.

"Eu não quero ser seu amigo," Ele levantou-se cansado daqueles gracejos mecânicos. "Você não precisa falar comigo quando não estivermos jogando. Não faço questão de suas palavras vazias e sorrisos dissimulados; guarde-os para aqueles que têm interesse em recebê-los. Eu não dou a mínima para você."

Levantar-se do banco de madeira foi fácil; difícil foi caminhar. Os passos pareceram estrangeiros, como se suas pernas se movessem sozinhas. Seu coração batia rápido e alto e, quando a porta do vestiário foi fechada, Murasakibara levou a mão ao rosto, escondendo as bochechas coradas e sentindo-se a pior das pessoas.

Não era de seu feitio usar de tamanha falta de educação, no entanto, ele estava farto. Farto de uma falsa gentileza que era sempre seguida por palavras ensaiadas e sorrisos hipócritas. Eu não faço ideia de como ele realmente é, mas tenho certeza de que o verdadeiro Himuro está muito bem escondido. O rapaz de cabelos roxos rangeu os dentes, seguindo pelo vestiário com passos firmes. Se o moreno não achava que ele merecia conhecê-lo verdadeiramente, então não havia nada a ser feito.

x

A postura de Himuro não foi a mesma depois daquele dia.

Ele continuava a convidá-lo para passeios e treinos, oferecia doces e guloseimas, contudo, havia dessa vez uma real distância. Suas palavras tornaram-se menos insistentes e muitas vezes Murasakibara sentia como se as conversas acontecessem por mera formalidade.

A distância aumentou com o passar dos dias, até que o moreno parou de tentar se aproximar. Os dois não conversavam e, durante os treinos, seus corpos e habilidades eram os responsáveis pelo diálogo. O rapaz de cabelos roxos notou a mudança e nada fez para que ela fosse revertida. Seus dias pacíficos retornaram, com direito a sonecas na enfermaria e aulas cabuladas no terraço enquanto degustava caixas de bombons.

No final da terceira semana ele mal se lembrava da voz do colega de time. Quando não havia treino eles não se viam e os encontros aconteciam sempre que pegavam o mesmo trem. Por morarem na mesma direção, não era inédito que estivessem juntos na estação. Ele parou de pegar o primeiro trem, Murasakibara notou aquele detalhe após alguns dias. O Lançador permanecia sentado no banco da estação ao lado de outro garoto. Eles riam e sorriam, conversavam e trocavam olhares; ele fingia não vê-los até o dia em que se tornou impossível manter os olhos fechados...

Ele havia virado uma esquina antes do caminho habitual naquele fim de tarde. O céu negro anunciava uma pesada tempestade e seu guarda-chuva havia ficado no colégio. Murasakibara parou assim que dobrou a rua, sentindo um estranho e incômodo déjà vu. A cena atrás dos muros do colégio, a garota se confessando e sendo rejeitada... De repente aquele episódio retornou como um sonho ruim. A diferença, desta vez, foi que não havia garota e a confissão estava longe de ser recusada.

O beijo foi longo, como aqueles beijos de cinema.

O rapaz de cabelos roxos nunca havia visto dois rapazes se beijando, entretanto, naquele instante seu corpo simplesmente parou de funcionar. Os olhos violetas se arregalaram levemente, e por alguns segundos ele não fez nada além de observar, ao longe, Himuro e o estranho garoto presos um nos lábios do outro.

Ele é gay, soou várias vezes dentro de sua cabeça, ainda que não houvesse sido o pensamento mais frequente. O moreno era popular no colégio e até mesmo Fukui já havia dito que sua beleza era hipnótica a ponto de atrair pessoas de ambos os sexos. Eu não me importei com o fato de tê-lo visto beijando outro homem. Ele jamais esqueceria o estranho sentimento que parecia nascer no fundo de seu estômago e subia internamente até tomar a forma de uma bola em sua garganta. O que me incomodou foi pensar que ele fazia isso com outra pessoa. Que ele beijava alguém além de mim...

O Pivô deu as costas e caminhou até a primeira praça que encontrou, sentando-se com barulho em um banco e devorando dois sacos de batatas fritas enquanto tentava processar o que acabara de acontecer. Havia raiva em seu coração, mas também arrependimento e um pouco de inveja. Ele sentia-se traído, mesmo que soubesse que tal sentimento era totalmente infindável, uma vez que, desde o começo, as grosseiras foram propositais. Ele parou de me convidar para irmos embora juntos por causa do outro cara. A situação poderia ser diferente, todavia, era impossível não sentir-se deixado de lado.

A noção de tempo deixou de existir durante os minutos em que permaneceu sentado naquele banco de praça. As batatas fritas haviam acabado, porém, a motivação para levantar-se e voltar para casa não foi suficiente para colocá-lo de pé. Imaginar-se passando pelo mesmo local onde havia visto o Lançador aos beijos com o outro rapaz embrulhava seu estômago e ele sabia que sobremesa alguma seria capaz de adoçar sua vida.

Eventualmente, Murasakibara retornou para casa, entrando e ignorando totalmente os três irmãos, que travavam uma árdua batalha sobre as responsabilidades pelas tarefas domésticas. O mais velho ficara incumbido do jantar, no entanto, os outros dois não tinham interesse em cuidar da louça. A única figura feminina estava deitada no sofá, de ponta cabeça e assistindo a um programa de variedades. Ele ignorou as quatro boas-vindas que recebeu, subindo para seu quarto e jogando-se na cama.

Naquela noite, pela primeira vez em 16 anos, o rapaz de cabelos roxos não desceu para jantar.

Nada mudou entre eles depois daquela tarde.

Himuro continuava afastado e os encontros aconteciam somente durante os treinos. Murasakibara acostumou-se a vê-lo na companhia do estranho rapaz, e este foi o motivo que o fazia ficar por mais uma hora no colégio. Ele não tinha interesse em treinar basquete ou tornar-se melhor, contudo, até mesmo basquete soava melhor do que precisar encará-lo novamente nos braços de outra pessoa.

Alguma coisa havia despertado em seu peito e o Pivô tornou-se extremamente consciente da presença de seu colega de time. Ele nunca havia percebido, por exemplo, que o moreno tinha longos cílios que chegavam a formar uma adorável sombra embaixo de seus olhos; ou a maneira como falava algumas palavras com sotaque, influência dos anos passados na América. Os sorrisos superficiais e o falso interesse ainda incomodavam-no, entretanto, Murasakibara desejava ver além daquela máscara social. Conhecer o verdadeiro Himuro Tatsuya.

Ele nunca foi bom em criar oportunidades, por isso a ideia de uma reaproximação era praticamente nula. Relacionamentos nunca foram prioridade em sua vida e, enquanto Kise tinha uma namorada por semana durante Teikou, o rapaz de cabelos roxos passava seu tempo entre salgadinhos e doces, portanto, havia pouco — ou quase nenhum — espaço para garotas.

De qualquer maneira, foi em um fim de tarde chuvoso que ele viu a chance de passar algum tempo a sós com o Lançador. Ao contrário dos últimos dias, Himuro seguiu sozinho até a estação. Murasakibara vinha um pouco atrás, tentando esconder-se embaixo de seu gigantesco guarda-chuva, apesar de estar atento ao seu redor e esperando o tal rapaz estranho aparecer vindo de alguma esquina.

A estação estava cheia quando ele chegou e não houve tempo para segundos pensamentos.

O Pivô foi empurrado para dentro do vagão, suspirando aliviado por ser o mais alto e conseguir respirar o ar da parte superior. Os olhos violetas buscaram pelo moreno, encontrando-o no meio da multidão de rostos. Ele não tem onde segurar, Murasakibara olhou para o seu lado direito, notando que havia espaço para outra pessoa permanecer sem precisar ficar esmagada. A ideia de chamá-lo para ficar ali passou rapidamente por sua mente, quase na mesma velocidade com que ele percebeu que alguma coisa não estava certa.

A princípio ele achou que estivesse imaginando coisas. O rapaz de cabelos roxos ouvira relatos da irmã sobre pervertidos no trem, todavia, ela era muito mais forte que os quatro irmãos e, de todos na família, a última que causaria preocupação. Por outro lado, ali, bem diante de seus olhos, ele viu o exato momento em que um homem aproximou-se de Himuro, o suficiente para despertar reações nas pessoas que estavam ao redor.

O moreno tornou-se estático e assim que Murasakibara viu a expressão de mal-estar seu corpo moveu-se sozinho.

Não houve tempo para pensamentos, pedidos de licença ou desculpas. Sua gigantesca mão esticou-se e em sua mente só havia o mais sincero desejo de proteger aquela pessoa.

Himuro foi puxado como se fosse uma criança. O Pivô postou-se à sua frente, colocando uma mão de cada lado e dando as costas para os demais. Sua experiência em trens lhe ensinou que as pessoas tinham a tendência a se afastarem devido à sua altura. Nenhum pervertido irá se aproximar. Os olhos se mantiveram fixos do lado de fora, enxergando através do vidro da porta. Ele sentiu o olhar daquele à sua frente e, ainda que estivesse ansioso para fazer o mesmo, faltou-lhe coragem para retribuí-lo.

"Obrigado..."

A voz soou diferente, um sussurro que Murasakibara nunca ouvira. Momentaneamente seus olhos se abaixaram e viram as bochechas coradas. Seu coração bateu mais rápido e ele girou o pirulito em sua boca apenas para manter-se ocupado. Ele sempre foi assim adorável? Desde quando Muro-chin é tão honesto com suas reações?

A viagem durou cerca de 20 minutos e por três estações eles permaneceram naquela estranha posição. Ele viu sua estação passar, mas nada fez. Suas mãos só se desencostaram da porta quando chegou a vez do Lançador descer. Himuro deu um passo para fora e aquele foi o momento que o rapaz de cabelos roxos escolheu para encará-lo. Ele provavelmente irá embora e eu poderei vê-lo de longe...

O moreno, no entanto, virou-se quando a porta automática fechou-se. Os dois se encararam e o rapaz de cabelos roxos entreabriu os lábios. Eu quero me desculpar... Sua perna deu um passo à frente, embora seu corpo soubesse que não poderia atravessar a porta. O trem moveu-se devagar e a figura na estação tornou-se pouco a pouco apenas um ponto distante.

Ele apoiou a testa na porta e suspirou.

x

Murasakibara não sabia se fora efeito do ocorrido dentro do trem, contudo, Himuro voltou a se aproximar e os convites retornaram. A frequência, claro, era menor que as tentativas diárias de uma amizade forçada. Ele sempre trazia alguma guloseima em mãos, mesmo que tal artifício não fosse mais necessário, já que o rapaz de cabelos roxos fazia o possível para disfarçar a estranha felicidade que se instaurava em seu coração quando o via.

Ainda era cedo para reconhecer aqueles novos sentimentos, entretanto era evidente que alguma coisa havia mudado. Ouvi-lo tornou-se obrigatório, independente se fossem assuntos cotidianos ou banais. O Pivô descobriu que havia verdade nas conversas superficiais e martirizava-se internamente por não ter sido capaz de ter percebido que por trás daquela máscara havia alguém tão incrivelmente fascinante.

O estranho garoto nunca mais acompanhou o moreno até a estação. Murasakibara continuava indo ao longe, todavia, o Lançador seguia sozinho e sem sinal de que buscava nova companhia. Nós nunca tocamos no assunto do trem; nenhum de nós mencionou aquele fim de tarde chuvoso e eu acredito que tenha sido para melhor. Eu não saberia explicar porque o protegi do velho pervertido, pois não havia motivo para isso.

Os treinos continuaram a ocupar boa parte de seu tempo livre, para sua total tristeza pessoal. Porém, ao contrário das outras vezes, seguir ao ginásio todas as tardes havia se transformado em um caminho menos enfadonho. Os dois seguiam no mesmo horário e direção, juntos, mas ao mesmo tempo separados. Como sem sempre fizéssemos isso... O aquecimento durava cerca de uma hora e depois os jogadores eram divididos em dois grupos. Eles eram fortes como um time, no entanto, precisavam se tornar fortes individualmente. Jogando um contra o outro era possível analisar os pontos fracos e que poderiam ser melhorados.

Diferente dos outros dias, ambos não foram colocados no mesmo time. A bola foi lançada e ele precisou se esforçar para não perdê-la para Liu, o segundo jogador mais alto do time. O treino começou sem grandes novidades e não demorou a que os únicos sons do ginásio fossem os barulhos da bola ao tocar o chão e os tênis que derrapavam na quadra.

O Pivô notou que havia algo diferente com o colega do time adversário ao vê-lo quase errar uma cesta. Os olhos azuis encontraram-se aos dele em vários momentos, deixando-o incomodado com aquela súbita distração. Algo está errado, ele passou as mãos pelos cabelos, jogando a franja para trás. Naquela mínima fração de tempo o time adversário ganhou a posse de bola e pela formação dos jogadores o Lançador seria responsável por finalizar a jogada.

O passe, contudo, foi feito rápido demais, ou melhor, Himuro demorou a perceber que seria sua responsabilidade segurá-lo. Ele não está aqui! O rapaz de cabelos roxos moveu-se, correndo o máximo que suas pernas conseguiam. O braço esquerdo foi erguido a tempo de evitar que a bola atingisse-o, enquanto a mão direita o puxou pela cintura, protegendo-o completamente com seu próprio corpo.

O colega demorou alguns segundos para notar o que havia acontecido, entretanto, quando o fez, sua primeira atitude foi empurrá-lo. Murasakibara manteve-se imóvel, ignorando o empurrão na direção de seu peito e tentando entender porque havia feito aquilo novamente. Não era de sua natureza ser o príncipe no cavalo branco, que protegia as donzelas indefesas. Aquele era Kise ou até mesmo Aomine, apesar de este último jamais assumir tal coisa.

"Eu estou bem, obrigado." O moreno endireitou-se. "Obrigado por me proteger."

O Pivô soltou-o, mas não sem antes direcionar um último olhar.

O apito soou alto assim que ele se virou e Araki-san mandou Himuro ir para o banco, substituindo-o por outro jogador. Para Murasakibara aquele treino já não tinha mais serventia, todavia, sabia que não poderia simplesmente não jogar. Araki-san me bateria com a shinai e da última vez eu fiquei marcado por semanas. O treino durou somente mais meia hora e quando finalmente terminou ele suspirou aliviado. Estava acabado.

O moreno se prontificou a secar a quadra, guardar as bolas e fechar o ginásio. Murasakibara seguiu com os demais na direção do vestiário, porém não se juntou a eles para o banho. Seu corpo deslizou pelos armários e ele sentou-se, respondendo que se banharia depois. Eu estou cansado... Os olhos violetas fitaram a marca vermelha em seu antebraço onde a bola havia acertado. Se ele tivesse demorado um pouco mais Himuro teria levado uma bola certeira no rosto.

Os jogadores saíram no banho, trocaram-se, compartilharam brincadeiras idiotas e foram embora, isso sem o seu conhecimento. Sua atenção estava longe, e por algum tempo ele permaneceu imóvel, brincando com o pirulito em sua boca e pensando no que faria dali em diante. Havia tantas coisas que ele não entendia; sentimentos e emoções que nunca habitaram seu coração e que agora o faziam perder o sono e confundiam seu discernimento. É tudo culpa dele...

"Ainda aqui, Atsushi?"

A voz veio do lado direito e o fez erguer o rosto. É culpa sua... Os olhos violetas fitaram-no se aproximar e seu estômago deu voltas.

"Nee, até quando você pretende nos atrasar?"

O Lançador não respondeu de imediato, parando em seu armário e abrindo-o para pegar a toalha. O modo como seu lábio inferior tremeu não passou despercebido e Murasakibara não pôde evitar achar aquela atitude adorável.

"Desculpe por hoje. Isso não voltará a acontecer." Ele virou-se devagar, esboçando um sorriso tão falso que o fez quebrar o pirulito em uma única mordida. "Mas é estranho ouvir isso vindo logo de você, Atsushi. Por acaso o basquete finalmente conseguiu um espaço nesse seu coração tão duro? Talvez você ame basquete agora e esteja insatisfeito com meu baixo desempenho, visto que não consigo ser tão bom quanto um antigo jogador da Geração dos Milagres. Desculpe, mas eu não sou um dos gênios de Teikou."

"Eu gostaria de destruí-lo neste momento..." Seu sangue havia subido. Ele detestava ouvir sobre Teikou, gênios e basquete. Se havia três assuntos que eram capazes de acabar com seu humor eram aqueles. Ele sabe disso.

"Uma pena que você não possa fazer isso." Himuro deu um passo à frente e inclinou-se de leve. Havia desdém e petulância em seu único olho visível. "Frustrante, não? Saber que, embora me deteste, precisa lidar com o fato de estarmos no mesmo time e que, ainda que eu não seja tão bom quanto você, nós somos uma dupla e teremos de trabalhar j-u-n-t-o-s-!"

O rapaz de cabelos roxos precisou somente erguer a mão para agarrar o pálido pulso, puxando–o para baixo e fazendo-o cair sobre seu colo, com um joelho de cada lado. Eu gostaria de poder destruí-lo. Eu gostaria de poder machucá-lo de verdade, mas...

"Cale a boca. Apenas cale a boca, Muro-chin!"

O cabo do pirulito foi atirado para longe e a outra mão tocou a nuca de Himuro, trazendo-a para perto. Ele havia visto aquilo em filmes e sabia como funcionava, no entanto, Murasakibara nunca sentiu tanto nervosismo. Os lábios se encontraram e sua língua pediu passagem no mesmo instante. As mãos do moreno seguraram seu rosto e o corpo sentou-se melhor sobre seu colo quando as línguas se encontraram.

O beijo foi desajeitado, o esperado de alguém totalmente inexperiente. As únicas coisas que entravam em sua boca eram doces e salgadinhos e nenhum deles se igualaria ao sabor daqueles lábios.

"Mais..." O moreno murmurou quando a necessidade por ar tornou-se inevitável, "eu quero mais, Atsushi."

Seu coração bateu mais rápido e ele voltou a capturar a boca diante da sua com fome. Por dezesseis anos ele achou que vivera tudo o que a vida poderia oferecer. Nenhuma garota havia despertado sua atenção e tudo parecia chato, tedioso e complicado. Entretanto, ali, naquele vestiário e por alguns minutos, Murasakibara sentiu-se vivo pela primeira vez.

Continua...