Subimos dois lances de escada ornamentada, cada um com dez degraus pequenos, havia muitos quadros na parece, com fotos novas e antigas mostrando gerações de alunos e seus dons, por fim saímos de frente para o grande corredor do primeiro andar do prédio.

― Este é o andar do primeiro ano, mas como você chegou por último não há mais vagas neste andar, você ficará junto com o pessoal do segundo ano, que é onde Santana está, e logo depois tem o andar do terceiro ano, os veteranos da Academia ― informou Irmã Lizbeth se encaminhando para o outro lance de escadas.

Subimos mais dois lances iguais e chegamos ao segundo andar, sem parar Irmã Lizbeth foi se encaminhando para o fim do corredor. Passamos por diversas portas e em cada uma delas tinha uma plaquinha diferente, algumas com nomes outras com desenhos variados do tipo "Caia Fora" ou "Não se Aproxime".

Ao chegar quase ao final do corredor, faltando apenas duas portas Irmã Lizbeth parou em frente a uma porta que tinha um pôster grudado. A banda Green Day estampava o pôster, uma banda muito boa que eu também gostava.

― Este aqui é o quarto que dividirá com Santana, ela está em aula juntamente com todos os outros alunos, então você pode guardar suas coisas, tomar um banho e descansar um pouco, logo ela retornará para deixar os materiais no horário do almoço e você poderá conhecê-la ― Irmã Lizbeth me disse abrindo a porta do quarto para mim.

― Certo obrigada Irmã Lizbeth ― Agradeci a gentileza, mas antes de entrar ainda tinha uma dúvida ― E quando eu devo começar as aulas Irmã, eu devo me informar com os alunos do primeiro ano sobre minhas aulas?

― Não minha querida, sobre a sua cama já esta todo o seu programa de aulas, horários, disciplinas extras, uniformes e tudo o que vai precisar não se preocupe, se você estiver bem depois do almoço poderá ir as aulas - Respondeu ela sorridente ― Eu vou indo agora querida, espero que fique bem, caso precise de mim é só me procurar no prédio central, ok?

― Sim Senhora, Irmã Lizbeth, obrigada ― E assim eu entrei no quarto e ela logo depois fechou a porta para mim.

O quarto era grande, com duas camas, duas mesas de cabeceira, dois guarda-roupas embutidos e uma porta de madeira que provavelmente deveria ser o banheiro. A mobília do quarto era toda antiga, de madeira vermelha, ornamentado com tapetes mesclados e cortinas claras pesadas na janela.

O lado esquerdo do quarto era todo preenchido com pôsteres diversos, bandas, atores, cantores, filmes, de tudo um pouco, mas a maioria era sobre rock. Havia livros e muitos cd ́s sobre a mesinha e vários objetos de uso pessoal. Algumas roupas sobre a cama e sapatos largados pelo chão.

As aulas haviam começado naquele dia, mas minha companheira de quarto deveria ter feito um desfile de modas para escolher o que usar junto com o uniforme para assisti-las. Algo denotava rebeldia, mas havia indícios de sentimentos positivos no meio da bagunça, como por exemplo, o pijama cor de rosa que escapava debaixo do travesseiro, ou os ursinhos de pelúcia que eram usados para pendurar as bijuterias.

Sobre a cama do lado direito, que ainda estava arrumada havia materiais de todos os tipos, livros, cadernos, canetas, pastas. Dois conjuntos de uniformes com o símbolo da escola e uniformes, que provavelmente era para praticar esportes estavam perfeitamente dobrados a um canto da cama.

O uniforme para aulas era composto por duas camisas bege, uma de manga longa e uma de manga curta com o símbolo da Academia sobre o lado esquerdo do peito que é uma estrela dourada sobreposta pelas letra em azul escuro. Uma saia de pregas e uma calça social, ambas azuis escuras, um casaquinho de botões também azul escuro e duas gravatas xadrez de bege com azul escuro.

Já os de esportes eram um moletom e um conjunto com camiseta e shorts cinza, ambos com o símbolo da Academia, além de dois maios azuis, um jaleco branco, um par de luvas e dois óculos de proteção que provavelmente era para aulas de laboratório. Quatro pares de meias da cor azul escuro, até o joelho, um par de sapatos estilo boneca e um tênis esportivos ambos pretos.

Fiquei admirada com o tanto de coisas, e fui examinar-las para ver se as roupas e sapatos eram meu número. Estavam todos certos, imaginei que Mãe Syra tivesse passado a informação a Irmã Lizbeth.

Abri o guarda-roupa, que se encontrava vazio, a não ser por três toalhas de banho que estavam dobradas em uma das prateleiras, e comecei a guardar as coisas. Pendurei os uniformes, todos, porque afinal eu não tinha roupas o suficiente para encher aquele enorme guarda-roupa. Coloquei os sapatos em baixo, os materiais nas gavetas e quando tudo que estava sob a cama foi guardado abri minha mala sobre ela e avaliei minhas coisas para começar a guardar.

Eu tinha apenas três pares de sapatos, fora o tênis azul que eu usava naquele momento, um chinelo de dedo, uma sandália marrom sem salto e uma sapatilha preta para dias de missa ou festa no Orfanato, coloquei todos junto com os outros dois que acabara de ganhar.

Minhas roupas se resumiam a duas calças jeans, três blusinhas de sair, duas camisetas para o dia a dia, duas blusas de frio e algumas roupas íntimas, fora a calça e camiseta que eu estava usando, é claro. Pendurei tudo e mesmo assim sobraram cabides.

Então me deparei com o que realmente enchia minha mala, meus livros, diversos livros, coleções e coleções que eu havia conseguido através de muito esforço.

Alguns comprei em sebos, outros encomendei pela internet com a ajuda de Mia, a secretária de Mãe Syra no Orfanato, mas todos com o dinheiro que ganhara fazendo pequenos serviços que eram vendidos na comunidade próxima, como pintura em guardanapos, bordados, cachecóis entre outras coisas. Coloquei a maioria nas prateleiras dentro do guarda-roupa, deixei sobre a mesinha apenas os dois que estava lendo no momento. Tendo por fim esvaziado a mala coloquei-a no compartimento de cima do guarda-roupa.

Seguindo o conselho da Irmã Lizbeth, peguei uma toalha, minha bolsinha de objetos pessoais e fui tomar banho. O banheiro também me surpreendeu, não era tão grande, mas com certeza era maior do que eu imaginava, e tinha um Box de vidro fosco que separava o chuveiro do lavatório e possuía um grande gabinete repleto de produtos para higiene, dava para perceber que a escola não poupava nada.

Tomei um banho quente e gostoso, demorei mais do que o normal e deixei a água relaxar meu corpo. Quando sai uma grande nuvem de vapor preenchia o banheiro, sequei o espelho, fiz minha higiene bucal, penteei meus cabelos, que eram longos e lisos naturalmente, nunca pintara meus cabelos e eles possuíam uma cor castanha com as pontas claras que molhados chegavam ao preto.

Observei meu reflexo no espelho, uma coisa da qual eu não tinha costume já que no orfanato havia somente um espelho e eu não o considerava tão importante para olhar para ele todo dia, mas agora ele estava a minha frente, então encarei meus olhos, que eram a parte do meu corpo que eu mais gostava.

Meus olhos são castanhos, redondos e sombreados por cílios grandes, mas é um castanho diferente, é um castanho num tom quente que me lembrava a cor de whisky, as pessoas diziam que ao olhar meus olhos eles tinha uma profundidade e uma maturidade dificilmente encontrada em alguém tão jovem, sempre imaginei se herdei meus olhos da minha mãe ou do meu pai.

Meu rosto é meio quadrado, tenho queixo meio pronunciado com maças do rosto bem marcadas um nariz bem proeminete e lábios intermediários, tipo não tenho lábios finos, mas também não sou uma Jolie, é claro.

Cansei de olhar para os meus defeitos e resolvi ir para o quarto me trocar, mas ao sair do banheiro percebi que eu não estava mais sozinha no quarto, minha colega de quarto estava deitada em sua cama, com as pernas cruzadas e fones de ouvido.

― Ora, finalmente, achei que você não fosse sair mais ― disse ela olhando em minha direção, ela era muito bonita, pude perceber que ela tinha alguma descendência latina por causa de sua características, pele em um tom oliva, longos cabelos negros e olhos em tom de café , ela estava com o a saia e a blusa do uniforme, mas por cima ele ela usava um casaquinho preto próprio e não usava as meias e o sapato da escola, usava uma meia calça xadrez preta e uma bota de cano médio também preto.

― Você deve ser minha novata bolsista companheira de quarto.

― Sim, sou eu, prazer em conhecê-la Santana, a Sra. Lizbeth falou muito bem de você ― percebi que ao se referir a mim ela fez de forma debochada, mas parecia ser para disfarçar certo interesse em mim.

― Eu imagino que sim, Irmã Lizbeth não diria a você que sou o diabo em pessoa, não é ― falou naturalmente ainda me observando discretamente.

Eu ri e fui em direção ao meu armário para começar a me trocar. Coloquei as roupas de baixo e separei o uniforme igual o dela e comecei a colocar.

― Realmente, ela não me diria isso, mas não acredito que você seja o diabo em pessoa, acho que você tem uma grande dose de rebeldia misturada com paixão. Eu sei que está Academia tem todo tipo de pessoas e seus dons, e imagino que seja necessário se impor para não ser devorado, acredito que é isso que você faz. ― Ela ficou me observando com olhos arregalados, na certa achando que eu sou louca.

― Chica, ou você é meio maluca ou você é a pessoa mais direta que eu já conheci ― disse ela e começou a rir. ― Bem, você esta certa em partes, aqui você tem que se impor para não ser devorado, e você será devorada em breve, mas eu sou ruim de verdade, sou má, e não me desminta, tenho minha reputação para manter.

Eu ri mais uma vez enquanto abotoava minha camisa, percebi que ela estava mais animada ao ir me conhecendo. ― Eu não estou a fim de ser devorada, vou ficar na minha e me manter longe de problemas, preciso desta vaga para conseguir uma bolsa para algum conservatório bom.

― Ah minha querida, aqui ninguém quer ser devorado, mas eu já fiquei sabendo que a sua especialidade é o piano, e só para ficar ciente, nossa pianista famosa é do Congressista Wilde, Kitty Wilde, veterana, e ela sim é uma loca perra mala, pode ser bem pior do que eu e não vai querer perder o posto dela para você.

Ela parecia estar considerando o que fazer para me ajudar, pois sentou na cama e ficou com uma cara pensativa me analisando.

― Eu não me importo se ela seja filha do presidente, eu vou lutar para conseguir uma bolsa de estudos, ela provavelmente tem uma garantida já ou o papai dela pagará para ela, eu não tenho quem pague por mim, então ela não tem porque brigar comigo. ― Respondi sinceramente, afinal a garota já estava para sair da Academia, não precisaria se preocupar comigo, que ainda estava no primeiro ano.

― Oh é claro que ela tem, porque se você for boa como Irmã Lizbeth anunciou provavelmente vai concorrer contra ela e poderá até ganhar o concurso de fim de ano, o que tiraria a glória da Kitty, já que ela ganha desde o primeiro ano. ― Santana na verdade parecia meio feliz com a novidade, eu começava a perceber que ela não gostava da garota. ― A não ser que você esteja pensando em deixá-la ganhar.

― Ora, mas é claro não, ela ganhará se tiver mérito ― afinal se eu ganhasse seria mais um ponto positivo no meu currículo ― mas você acha que ela vai fazer alguma coisa contra mim?

― Bem... nada de mais, tipo, humilhações públicas, sabotagens, corrupção do seu namoro, essas coisas, normal para ela ― nesse ponto ela pareceu se referir a algo vivenciado.

― Ela fez isso com você?

― Mais ou menos isso, a prima dela também estuda aqui, Megan Wilde, e ela canta, então no concurso passado elas me sabotaram algumas vezes, desmarcando ensaios, colocando coisas na minha bebida para eu perder a voz, e em um baile da escola, bem antes do concurso, ela beijou minha ficante da época – Notei que ao falar de seu ficante ela falou "minha" em vez de "meu", não que pra isso me incomodasse até porque Mãe Syra nós ensinou a amar e aceitar o próximo independente de suas escolhas.

Eu pude perceber também que havia uma magoa guardada, mas não queria que ela revivesse a história para ficar nervosa.

― Eu sinto muito por você Santana, mas e ai, quem ganhou o concurso afinal?

― Mas é claro que fui eu não é, imagine se depois de tudo o que elas me fizeram se eu a deixaria ganhar, dei a volta por cima e coloquei-a no chinelo ― riu-se ela saindo da lembrança ruim. ― agora quanto a você, eu não sei o que ela fará, mas sei que fará.

― Analisando as coisas que me disse, ela não poderá ficar com meu namorado, porque eu não tenho namorado e não vou ter, quanto a me sabotar, se fizer isso sabotará ela mesma, já que também precisa usar o piano da Academia, e sobre humilhações, primeiro terá que descobrir pontos fracos, e depois saber como usá-los, e não vai conseguir.

― Mas um ponto fraco seu já foi divulgado pela Professora Panin de Álgebra, durante a aula do primeiro ano ela deixou escapar que a nova aluna que estava chegando vinha de um orfanato, e todos na escola já estão sabendo disso ― ela disse isso de uma forma calma, como para não me magoar.

― Isso não é um ponto fraco Santana, se ela achar que me chamar de rejeitada ou órfã vai me humilhar estará redondamente enganada – eu sabia que isso poderia me atingir, mas eu havia formado minha personalidade a partir do que tinha recebido de Mãe Syra e Papa Tony, e não iria abaixar a guarda.

― Ok, se você diz então isso não poderá ajudar à perra venenosa ― deu de ombros e desligou os fones ― eu não vou ficar procurando seus pontos fracos para expor, mas você precisa ficar perto de mim, se não alguém vai querer pegar você como mula.

― Como assim mula? ― virei para ela enquanto penteava meus cabelos, já totalmente vestida com o uniforme.

― Os novatos sempre sofrem penitencias aqui, carregam os materiais, buscam comida, fazem tarefas, trabalhos, essas coisas ― disse ela se levantando e pegando o batom para retocar a maquiagem.

― Rá rá rá que eu vou fazer isso para esses riquinhos mimados, sem ofensas, mas eu não estou aqui para perder meu tempo fazendo tarefa dos outros enquanto esses garotos vão ficar curtindo seu tempo livre ― fiquei indignada com o que ela disse ― você também faz isso?

― Eu preciso manter as aparências não é o que você disse de mim, então sim, eu faço também, mas na verdade eu estou ajudando eles, livrando eles dos mini magnatas manipuladores daqui ― ela pareceu se defender da minha acusação.

Guardei minha escova, terminei de arrumar meu cabelo e voltei a olhar para ela.

Santana estava de pé me esperando para ir almoçar, notei que ela era pouca coisa mais alta que eu e mais magra.

― Você só pode estar brincando que eu vou ter que fazer isso, não pode ser ― realmente fiquei nervosa com isso, eu era uma pessoa calma até certo ponto, minhas atividades no orfanato me fizeram praticar o relaxamento emocional, mas ainda sim, quando eu ficava nervosa eu realmente me estressava.

― Temo que não minha novata querida particular, mas eu prometo não te forçar demais ― disse ela sorrindo, ela parecia que realmente tinha gostado de mim.

Gemi de frustração, pensando em quanto tempo eu perderia com nosso teatro. Mas se ela estava disposta a fazer isso para me ajudar demonstrava que ela seria uma boa amiga.

― Ok, eu que eu vou ter que fazer? – perguntei irritada.

― Calma Hobbit, eu vou te explicar tudo, quando eu mandar você fazer alguma coisa, tipo, pegar meus livros ou comida essas coisas você pega, finge que me respeita pelo menos e que tem medo de mim ― disse ela sorrindo e passando o braço sobre os meus ombros. Seguimos em direção a porta, ela rindo e me falando como era seu prato de almoço preferido e eu imaginando como seria difícil me controlar para manter nosso teatro. Ao sair do quarto ela encarnou o personagem de garota durona, e começou a me mostrar como me trataria diante dos outros, pelo menos por um tempo.

Mas algumas portas a diante em nosso corredor duas garotas saíram discutindo e xingando alguém que vinha logo atrás. Esse alguém era um garota, um pouco alta de cabelos loiros, que estava totalmente nua, carregando dois travesseiro para ocultar suas partes intimas a frente o que deixava a retaguarda toda a mostra para nós duas. AI MEU DEUS !