Hermione passou as duas horas seguintes se dividindo entre os outros pacientes, os problemas que apareciam a todo momento e "ela". A cada minuto de folga, ou a cada vez que precisava passar pelo corredor principal, parava por alguns minutos ao lado da mulher. Esperava pelo momento em que veria novamente seus olhos. Estava ficando cada vez mais ansiosa e também apreensiva.
Apenas quando já estava anoitecendo que foram lhe chamar. Ela tentava andar calmamente, mas se pegava dando passos rápidos e até uma breve corrida quando ninguém estava em seu caminho. Chegou ao quarto com o coração aos pulos. A cortina em volta da cama da paciente estava fechada, mas ela pode ver a silhueta de uma enfermeira e uma voz fraca, vindo de lá.
Controlou os pensamentos e sentimentos, se concentrando o máximo possível no lado profissional. Não podia se deixar levar por emoções. Não era esse seu trabalho. Respirou firme e então puxou a cortina.
A boca da paciente se abriu e seus olhos pareceram ficar maiores. Hermione jurou que pode ver um leve sorriso no canto de seus lábios. Tentando se manter controlada, puxou a lanterna clínica do bolso e avaliou os olhos da paciente. Havia manchas amareladas nas bordas, devido a uma possível má alimentação, mas nada que fosse urgente. Nos minutos seguintes, ouviu seu coração, fez perguntas, anotações, trocou o curativo para avaliação e verificou os pontos dos outros cortes. Naquele momento e apenas naquele momento, esqueceu que ela não era uma paciente comum. Tratou-a como qualquer outra pessoa. Só voltou à realidade quando seus olhos se encontraram novamente. E foi como se uma chama tivesse se acendido no peito de Hermione e trazido todo aquele turbilhão de sentimentos de volta.
- Parkinson...
- Eu preferia não estar sendo tratada por alguém como você – disse Pansy Parkinson, os olhos fechados, o rosto contorcido em dor, ou raiva. Era difícil distinguir quando se tratava dela.
- Não imaginava que voltaria a ver você um dia – respondeu a médica com um suspiro, relevando as palavras ácidas da outra.
- Tem certeza que você sabe o que está fazendo? Não pode ser outro médico? Deve haver vários por aqui.
- Não foi uma escolha. Eu certamente não escolheria isso se pudesse.
Hermione colocou a prancheta de volta no pé da cama.
- De qualquer maneira, já terminei. Volto depois quando você estiver dormindo – ela virou-se para a cortina, segurando o tecido com força – será melhor do que isso.
- Então, você se casou com o Weasbley?
Hermione virou-se novamente, a mão ainda agarrada à cortina, controlando a irritação.
- Não creio que isso seja relevante para você.
- Como você se sente sabendo que leva uma vida de merda por sua própria culpa?
Pansy esperou um instante, mas não obteve nenhuma reação por parte da médica.
O celular de Hermione tocou e ela aproveitou para sair do quarto antes de ter que ouvir mais coisas que Pansy certamente teria a dizer. Desligou ao invés de atender. Não tinha condições emocionais para lidar com qualquer coisa naquele momento. A pergunta final da outra estava ecoando em sua mente, numa frequência cada vez mais forte. Ela sabia que não importava o quanto estava mal, Pansy jamais perderia a oportunidade de fazê-la se sentir pior. Era quase um dom. Um dom destrutivo e impiedoso.
