-:- CAPÍTULO 02 – A Visita de Naraku -:-

"Ao dispersar da névoa, começava a revelar-se um lugar pouco desvendado... Escuridão e rastros de morte por toda parte."

Uns dias depois, de volta aos domínios da estranha gruta, a mulher estava sentada em um tipo de trono, fixado na parede oposta a do youkai flautista e posicionado próximo as raízes da árvore; parecia ter sido esculpido entre diversos precipitados minerais e rochas. A moça estava de olhos fechados, pernas esticadas e sua mão direita a apoiar a cabeça enquanto a outra segurava o cetro com solidez. Estava dormitando. Daisuke, como sempre, tocava sua flauta. De repente, uma grossa voz, a voz de um homem, atrapalhou o relaxante sonar do instrumento:

– O-Ren.

A mulher abriu seus olhos bem na direção do intruso. Naraku estava próximo ao caminho até a gruta, enquanto O-Ren o observava com uma expressão apática. Eis então que ela ergueu seu corpo e se aproximou lentamente do meio-youkai, ficando a alguns metros dele.

Hum, tu vieste mais rápido do que imaginei! – disse com um sorriso.

– Como sabe que eu viria? – indagou um tanto desconfiado.

– Sou alguém dotado de poderes místicos! Consigo ver certas coisas – respondeu, enquanto caminhava em direção aos fundos do cômodo, batendo o chão com o cetro.

– Então eu imagino que saiba pelo que vim – disse Naraku, fazendo a moça parar.

O-Ren voltou-se para ele e os dois ficaram apenas se encarando. De repente, o meio-youkai distraiu-se e pôs-se a olhar o flautista. Voltou a encarar a mulher quando ela começou a falar:

– Muito bem! Tu vieste aqui na tentativa de salvar tua doce amada, que está a beira da morte e – pausou –, que curioso! Por tua culpa! – completou, agora o encarando com seriedade.

Naraku sentiu-se afrontado, porém não pode revidar, ela estava falando a mais pura verdade. Percebendo que tinha o irritado, O-Ren quis provocá-lo mais um pouco:

– Não achas um tanto incongruente cometer o mesmo erro duas vezes e bem mais tarde, quando tudo parece estar perdido, resolver mudar de ideia?

– Escute aqui – começou o meio-youkai, saltando para perto da moça e segurando seu braço livre com firmeza –, isto é um problema meu! Quero saber se pode ajudar-me ou não!

A moça assustou-se com o movimento, porém logo sorriu novamente, enquanto Naraku prestou mais atenção nela. Por um instante, parou para pensar no quanto aquela mulher era linda e atraente. Eis então que voltou a si, soltou O-Ren e afastou-se um pouco, ainda com uma expressão de raivoso.

– Ei, acalma-te! – disse a feiticeira, apoiando o cetro no ombro e acariciando seu braço.

– Escute, o tempo está se esgotando! Não sei até quando ela suportará naquela situação! Temo que depois seja impossível fazer alguma coisa – pediu melancólico.

– Sossega! – disse O-Ren, segurando seu cetro novamente. – Bom, se tu vieste até aqui, é porque já conheces a minha história. – Pausou. – Então, tu deves saber que trabalho de diferentes maneiras para cada caso. – Pausou novamente, enquanto Naraku concordava movendo a cabeça. – No entanto, uma coisa é básica: eu preciso do sangue da vítima! – conclui, deixando o meio-youkai desesperado.

– Como?! Então... Então não tem jeito de salvá-la?!

– Teoricamente não. Mas...

– "Mas" o quê?

– É mesmo verdade que a reencarnação da tua mulher anda por este mundo, não é? – disse a youkai, deixando-o surpreso.

– Sim! É sim, a Kagome! – exclamou eufórico.

– Muito bem! Traga-me essa garota! Seu sangue deve servir.

– Como assim, "deve"? – indagou preocupado.

– Bom, eu nunca tentei fazer isso. Mas também nunca tinha visto um caso de duas encarnações de um espírito coexistirem! – completou a moça.

– Mas, a Kagome e a Kikyou não são a mesma pessoa, apesar de terem a mesma alma. Como pode funcionar?

– Bom, a alma carrega as experiências de suas vidas passadas e as refletem em seus novos "abrigos"! – respondeu O-Ren. – Por exemplo, se em tua vida uma pessoa consumiu bebida alcoólica excessivamente, na próxima encarnação ela pode nascer com um problema de fígado, ou qualquer outro mal ligado a isso, mesmo se tivesse morrido por um fator totalmente distinto – completou.

– Ah, acho que entendi. É como uma punição? – perguntou ele.

– Não, eu diria aprendizado. Temos que ter cuidado ao trilhar nossos caminhos, pois, certas coisas que fizermos poderão se arrastar por encarnações, até que o espírito compreenda que aquilo é nocivo para sua ascensão – respondeu-lhe. – Isso explica também o porquê de algumas pessoas terem uma vida afortunada e outras uma trágica sorte – completou a moça.

Mediante àquelas palavras, Naraku parou um pouco para refletir sobre sua própria vida. Foi como se um filme se passasse desde sua existência como Onigumo até então. Voltou a si quando O-Ren declarou:

– Então... Traga-me as duas. A Kagome e a... Kikyou, certo?

– Espere, tem uma coisa que talvez você não saiba. É que eu... – Pausou. – Quando matei a Kikyou pela segunda vez, apliquei uma quantidade altíssima de miasma em seu corpo. A menina, a Kagome, conseguiu purificá-la, usando a terra de sua sepultura. No entanto, o veneno voltou a corroer seu corpo. – O-Ren o olhava com uma expressão de impassibilidade, enquanto o meio-youkai quase gaguejava para lhe explicar aquilo, era muito difícil para ele pensar no que fez. – E não importa quantas vezes se tente purificá-lo, o veneno sempre volta! – concluiu.

– Bom, isso ocorre porque o miasma está entranhado na argila que compõe o corpo de Kikyou. Ficar o purificando toda vez que o tóxico reaparece é como... É como tentar apagar um incêndio atirando água nas labaredas. Temos que atingir a fonte!

– E qual seria essa fonte? – perguntou desesperado.

– Neste caso só há um jeito de saber. – Pausou. – Preciso separar os componentes do corpo da sacerdotisa.

– Separar? – indagou confuso.

– Sim! Preciso separar a terra e o barro das cinzas de Kikyou. Com isso poderei ver a origem do veneno. Ou melhor, preciso refazer seu corpo porque o veneno está entranhado no mineral. Para fazer isso, devo separá-lo das cinzas, descartá-lo e arrumar outra quantidade para repetir o processo de formação do corpo – disse O-Ren.

– Como pode ter certeza de que as cinzas não estão contaminadas?

– Mas elas estão! – disparou. – No entanto, tenho certeza que a fonte não se encontra nelas, afinal, o principal material responsável pela composição do corpo de sua mulher é a mistura de terra e argila. As cinzas deram identidade para a peça formada por eles – explicou. – Escuta, tu sabes onde localiza-se a sepultura de Kikyou? – perguntou.

– Sim!

– Muito bem, traga-me a terra de lá! É necessária para substituir a original e também para realizar o procedimento de restauração das cinzas, para recuperá-las de quaisquer danos que a ação do veneno tenha causado. E também para tirar quaisquer dúvidas em relação a sua pureza.

– Mas... Mas como você vai separar as cinzas da terra contaminada? – indagou o meio-youkai, alarmado.

O-Ren ficou nervosa com aquela pergunta. Não gostava de pensar que não tinha muita convicção do que estava fazendo. Mas foi bem objetiva:

– Bom! Eu não sei direito, mas a princípio, acho que terei de pulverizar o corpo de tua amada.

– Pulverizar?! – disparou pasmo.

– Sim, pulverizar! – declarou a feiticeira. – Depois disso, tenho que separar as cinzas da terra. Daí purificá-las, usando o material da sepultura de Kikyou e um ramo da árvore. Vou fazer um preparado com eles e, enquanto ferve, o vapor vai purificando as cinzas, que estarão sobre um paninho acima da mistura. Aí, arrumarei argila e juntarei a terra nova com as cinzas purificadas, colocarei em um invólucro e o incinerarei para o corpo se formar... Ufa! Só de pensar já fico exausta! – disse, arriando os ombros e a cabeça.

Naraku a olhava em pânico. Temia que aquilo tudo desse tragicamente errado. Porém, não tinha como escapar. Não tinha outra opção. Sua querida Kikyou poderia morrer de qualquer maneira. Vendo seu estado, O-Ren tentou acalmá-lo:

– Não te preocupes! Sei o que estou fazendo.

O meio-youkai a olhou com pesar e moveu sua cabeça lentamente em sinal positivo. Ela então resolveu esclarecer-lhe sobre o resto do processo:

– Bom, depois de tudo isso que lhe expliquei, vou preparar uma solução usando uma informação do corpo da moça, um fiapo de cabelo, uma unha, qualquer coisa, para "chamar" a alma. Colocarei a substância em um destes relicários – disse, apontando para os jarros sobre as prateleiras nas paredes –, farei o canto de invocação e aprisionarei a alma dentro do receptáculo, a selando. Depois, farei outra substância: essa será para a regeneração do corpo, ou seja, transformar o corpo de barro em um de carne e osso, exatamente igual ao que era. E o ingrediente principal é o sangue, que, no caso, é da garota de nome Kagome. Prepararei o fluido em uma caldeira, posicionada sobre aquele encaixe de pedra com correntes atreladas – disse, apontando para o conjunto, localizado à esquerda das raízes da árvore. – Farei um fogaréu ali, para prepará-lo. Quando o fluido começar a engrossar, adicionarei o sangue e colocarei a Kikyou lá dentro. Aí, Daisuke – moveu a cabeça na direção do youkai – me ajudará, suspendendo a caldeira até o teto. Depois, giro aquela roda, para fazer a caldeira correr por este trilho – disse, apontando para cada elemento. – Daí é só despejar o conteúdo entre as raízes da árvore. Concluída esta etapa, iniciarei o período de orações para invocar os poderes da árvore. E ela restaurará qualquer ponto que ainda reste para prejudicar a existência do ser em questão. – Pausou. – Farei um canto oratório por três dias seguidos, enquanto Daisuke tocará aquela flauta de um jeito bem diferente do de agora. E, por fim, é só esperar o dia em que ela poderá deixar o seu "casulo"! – concluiu.

– E quando seria isso?

– O tempo médio é de três meses. No entanto, considerando que no caso de Kikyou será necessário restaurar todos os tecidos, vasos, órgãos... Creio que demorará em torno de nove meses.

– Nove meses?! Mas isso é muito tempo – reclamou o meio-youkai.

– Quanto a isso, não tenho como alterar – ponderou. – Mas acredito que para um caso tão grave como o da tua mulher, a árvore trabalhará em máxima potência – disse, olhando para as raízes. – E talvez ela desperte antes deste prazo.

– Ou depois – resmungou.

– Acho que não! – O-Ren voltou a olhar para Naraku. – Nove meses devem ser o suficiente – concluiu.

– Quando saberemos o momento em que ela estará pronta para deixar o... "Casulo"?

– Ela abrirá seus olhos!

Os dois ficaram um tempo apenas se encarando, até que Naraku lembrou-se de mais um inconveniente:

– Você disse que precisa do sangue da Kagome, não é?

Uhum! – respondeu, balançando a cabeça.

– Isso significa que ela irá morrer, então?

– Por causa do sangue? Não, pois uma pequena quantidade já satisfaz o processo. No entanto...

– "No entanto..."?

– No entanto, a alma de Kikyou está nessa garota, não é? E, para devolvê-la à Kikyou, a Kagome precisa morrer! – respondeu.

– Mas a Kikyou nunca irá concordar com isso! Ela não gosta nem um pouco dessa garota, mas... Mas sei que não seria capaz de fazer uma coisa dessas – replicou.

– Bom, isso não é problema meu! Entende-te com ela! – rebateu O-Ren.

Naraku ficou preocupadíssimo com aquela situação. Ele sabia que a sacerdotisa não concordaria em tirar a vida da colegial para volver. E o pior, não só por achar aquilo incorreto, mas porque ela sabia que se algo acontecesse a Kagome por sua culpa, InuYasha ficaria arrasado e jamais a perdoaria. Ah, o medo de magoar seu amado. Aquilo deixava Naraku louco da vida. Abaixou a cabeça, apertou as mãos e os dentes e começou a pensar em destruir todos eles mais uma vez. Mas o despertar da sanidade tirou aqueles pensamentos horríveis de sua mente. Ainda mais com O-Ren insistindo em chamá-lo:

–... Naraku! Naraku!

– Não sou surdo – retrucou com aspereza.

– Então por que me ignoraste? – reclamou a feiticeira.

– Não me lembro de ter lhe dito meu nome.

– Já fizeste uma pergunta similar, queres ouvir a mesma resposta?

– Bom, voltando ao assunto, o que você quer para recuperar a Kikyou? Creio que não faz uma coisa dessas por nada – provocou.

– Olha só! Parece que não sou só eu quem tem poderes místicos aqui! – brincou a moça.

– Não precisa ser nenhum bruxo para descobrir o óbvio – retrucou.

– Bom – começou a moça, se aproximando de Naraku –, eu sei que tu és o atual detentor da poderosa Joia de Quatro Almas.

Naquele momento, o meio-youkai ficou mais pálido do que de costume: Oh, não! Ela quer a Joia!, pensava. E a confirmação veio em disparada:

– Eu quero a Joia! – anunciou O-Ren.

Naraku se viu encurralado. Não podia dá-la para aquela mulher, no entanto, não tinha escolha. Começou a pensar que depois poderia tentar reavê-la pelas costas da bruxa, mas antes que concluísse seu pensamento, ela o deixou sem saída de vez:

– E nem penses em tentar trair-me! Se o fizeres, tiro a vida de tua amada assim! – disse, estalando os dedos.

E agora? O que fazer? Antes que pudesse amadurecer a ideia, respondeu de pronto:

– Tudo bem! Eu lhe dou a Joia. Mas tem de me garantir que ela ficará bem!

– Quanto a isso, podes ficar tranquilo! Eu sei o que faço – retrucou. – Mas...

– "Mas, mas..." "Mas" o quê?! Qual problema desta vez? – indagou irritado.

– Há mais uma coisa que quero...!

– Ah, não acredito! – disse ainda mais irritado.

O-Ren então chegou bem perto dele, o olhou de cima a baixo e sorriu maliciosamente, enquanto deslizava sua mão direita para perto do sexo do meio-youkai.

– O que está fazendo?! – perguntou surpreso.

– Quero passar uma noite contigo! – disse a moça, calidamente.

– Escute, O-Ren – retrucou, enquanto segurava a mãos da moça, retirando-a de lá –, você é uma bela mulher, e me atrai, se fosse em qualquer outra ocasião eu não pensaria duas vezes antes de aceitar, aliás, nem pensaria. No entanto, eu não quero tocar em mulher alguma que não seja a Kikyou.

– Tudo bem – replicou, soltando sua mão – Então não há acordo!

Maldita!, pensou Naraku. Além de me exigir a Joia ainda quer uma coisa dessas?! E, quando ele já achava que não poderia piorar:

– E quero isso na noite em que a Kikyou despertar.

– O quê?! – contestou pasmo – Eu não irei conseguir! Isso seria impossível para mim – completou.

– Ah, irá sim! – rebateu O-Ren. – Porque se tu não conseguires – pausou –, ela morre!

Aquilo o deixou em pânico. Ter que deitar-se com outra justo quando finalmente poderia abraçar sua amada, desta vez sentindo o calor de seu corpo, a textura de sua pele, o pulsar de sua existência. No entanto, mais uma vez, não teve escolha. Aceitou:

– Tudo bem.

– Ótimo!

– Espere, você disse noite? – indagou confuso.

– Sim, noite! Esqueci-me de lhe falar isso...! – disse, fechando os olhos e coçando o rosto com um dedo. – Sempre é à noite. Uns demoram menos, outros mais que o tempo estipulado, assim como tu reclamaste, mas, sempre despertam à noite. E no primeiro dia de lua nova a partir de quando estiverem prontos – concluiu.

– O recomeço da lua é também o recomeço daquela vida, não é?

– Olha só, tu és mesmo muito astuto! Se quiseres, podes ficar de prontidão aqui após o sexto mês. Tenho certeza que, antes disso, ela não acorda! – Pausou. – Ah, e sempre na véspera da lua nova! – recordou a moça.

O meio-youkai então assentiu com a cabeça e começou a dirigir-se para a saída da gruta. Enquanto flutuava para cima, dentro de sua barreira, deu uma última olhada em O-Ren, Daisuke, as raízes e todo aquele estranho lugar. Ao sair, se afastou um pouco, olhando aquela árvore com atenção. Era exatamente como a lenda dizia: imensa, vivaz, formosa; seus longuíssimos ramos pendentes, que chegavam a pincelar o topo da gruta, pareciam feitos de esmeraldas, o único ser que demonstrava ter vida ali. Eis que Naraku finalmente impulsionou seu corpo, começando a viajar de volta para sua região.

-:- CONTINUA...

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NOTA: Estou com alguns problemas para continuar a fic. Talvez eu não consiga postar daqui a duas semanas. Bom, se for o caso, com certeza eu postarei o 3º capítulo dia 08 de abril. Até a próxima!