Minna Sora no Shita

Namida Nagasanai Donna ni Tsurakutemo

(Não importa o quanto doa, nunca chore)

By Misako Ishida

- Bom, Hidaka. Você vai ficar deitado de barriga para baixo naquela cama lá dentro da sala. Sua mãe vai ficar aqui fora e vai estar olhando você por essa janela. Tudo bem? – explicou a médica. O menino assentiu com a cabeça. – Quando entrarmos, eu vou aplicar uma injeção em você e logo você vai estar dormindo. Não se preocupe que você não vai sentir nada e quando acordar já vai estar no quarto.

- Você vai mesmo colocar uma agulha enorme nas minhas costas? – perguntou o menino curioso.

A médica riu suavemente. – Sim. Essa agulha vai tirar um pedacinho bem pequenino de dentro de você para podermos fazer um exame.

- Legal! Eu posso ver a agulha antes de dormir?

- Se é o que você quer, eu te mostro.

- Viu mãe? Eu vou poder ver a agulha gigante! Isso é muito maneiro. – argumentou sorridente.

Sora sorriu e bagunçou o cabelo dele. – Vou estar bem aqui o tempo todo.

- Hai. – ele assentiu com a cabeça e foi com a médica para a sala.

Do lado de fora, a ruiva viu quando ele foi para a maca. A sua expressão de surpresa ao ver os instrumentos e como ele falava, devia estar fazendo inúmeras perguntas, que a médica parecia estar respondendo de bom grado.

Viu quando ele tomou a anestesia, deitou-se e logo adormeceu. E com o olhar fixo observou cada passo daquele procedimento. Viu aquele objeto perfurar seu filho e sentiu um desconforto enorme em si mesma. Como se estivessem fazendo aquilo nela.

Seu filho era tão corajoso e tão curioso que estava achando o máximo ser furado pela agulha gigantesca. Que ironia. Pois ela própria estava apavorada. O futuro do pequeno Hidaka dependia daquele exame. Era uma sobrecarga enorme. Talvez grande demais para suportar sozinha.

Mais uma vez em sua vida pensou em como seria bom se Yamato estivesse com ela.

O procedimento não demorou e quando viu já estava de volta ao quarto com o filho, esperando que ele acordasse. Apesar dele estar um pouco fraco, podia ver como ele estava radiante por aquele dia.

Aparentemente, aquele exame faria com que ele fosse o menino mais valente de seus amigos. – Quando eu contar, eles nem vão acreditar! Aquela agulha era mesmo gigantesca, mãe. Você viu?

- Vi sim, meu amor.

- E como foi quando eu estava dormindo?

- Foi bem incrível. – disse a ruiva de forma cúmplice.

- Uau... Eu podia ter lembrado de falar para você gravar. – disse pensativo. – Será que podemos fazer de novo? – perguntou esperançoso.

Diante da inocência do menino, a ruiva apenas riu. – Desculpa, meu amor. Mas não podemos fazer de novo.

- Droga. – resmungou fazendo um bico.

- Você precisa descansar. Eu vou buscar seus irmãos na casa do tio Takeru e ele vai passar a noite aqui com você. Tudo bem?

- Claro, mãe.

- Te amo muito. – disse beijando a testa do garoto.

- Eu também te amo, mãe. – ele respondeu baixinho. Se acomodou na cama e Sora arrumou a coberta ao redor dele. Sua agitação lentamente foi se dispersando e seus olhinhos foram cedendo ao sono.

A ruiva pegou a bolsa na cadeira e foi em direção à porta. – Mãe?

- Sim, meu amor.

- Não esquece de pedir para o tio Takeru trazer um livro legal. – murmurou.

- Pode deixar. Não vou esquecer.

Ficou mais um tempo ali parada, observando o menino, até ter certeza de que ele havia dormido. Saiu do quarto silenciosamente e sentiu uma necessidade quase incontrolável de sair correndo dali.

Passou pelos corredores brancos e limpos do hospital em direção à saída ao mesmo tempo em que as lágrimas abriam caminho para fora de seus olhos. Sentia que sua vida estava igual ao seu coração, se despedaçando a cada instante.

XxXxX

A porta se abriu quase na mesma hora em que tocava a campainha.

- Konbanwa, oneesan. – cumprimentou Takeru sorridente. – Já estava saindo para ir ao hospital.

A ruiva sorriu e entrou quando seu cunhado lhe deu passagem. – Espero que não esteja esquecendo o livro legal que o Hidaka pediu porque caso contrário ele vai te colocar do lado de fora do quarto.

O rapaz coçou a cabeça com um sorriso amarelo. – Ainda bem que você me avisou, pois estava quase esquecendo.

Os dois se dirigiram para dentro da residência. O apartamento em que Takeru morava era pequeno, porém confortável. Tinha um ar aconchegante e um calor que permeava todas aquelas paredes.

Hikari estava sentada no sofá, com as pernas esticadas e as mãos acariciando a enorme barriga. Eles estavam casados há pouco mais de três anos e estavam esperando seu primeiro filho. A moça fez menção de se levantar, mas Sora a impediu com um sinal.

- Por favor, você parece confortável assim.

- Obrigada. Realmente, essa é uma das poucas posições que eu consigo ficar confortável. Parece que a cada dia que passa, pior fica.

- É assim mesmo. – concordou colocando a bolsa sobre o sofá. – Vai melhorar depois que nascer. – acrescentou.

A castanha suspirou. – Temos mais um mês pela frente ainda. Não vejo a hora dele nascer! – ela completou ansiosa.

- Peguei o livro! Sora, as crianças estão dormindo no quarto. Se quiser deixá-los aqui, não tem problema nenhum. Tchau para as duas e se precisar de alguma coisa me liga, Hikari. – terminou apressado.

As mulheres ouviram quando ele fechou a porta da frente e começaram a rir. Takeru não mudara quase nada. Continuava elétrico como sempre.

- Se você quiser pode ficar aqui e descansar. Não precisa acordar as crianças e ir para sua casa. – sugeriu a grávida.

Sora jogou-se no outro sofá e se acomodou de um jeito que também lhe fosse confortável.

- Parece uma boa ideia. Se você não se importar. O dia hoje foi longo demais. –soltou.

Hikari sorriu tristemente. Sora aparentava as noites mal dormidas, suas olheiras estavam profundas e seu rosto parecia mais magro. Com certeza devia ser o efeito das poucas refeições, além de desreguladas,que estava fazendo.

- Como foi o exame?

- Correu tudo bem. O Hidaka estava super empolgado porque ia ser furado com uma agulha gigantesca. Você precisava ver a cara de felicidade dele quando a médica a mostrou para ele.

Hikari riu. – Meninos.

- É. – concordou a ruiva, passando a mão pelo cabelo.

- E quando saem os resultados?

- Disseram que em poucos dias.

E elas ficaram em silêncio. A mais nova não sabia o que falar naquele momento.

- Tem comida na geladeira. Só esquentar. Você parece estar cansada, oneesan.

Sora olhou fixamente para o chão, alheia a tudo ao seu redor. – Sim. Estou cansada... Muito cansada na verdade.

- Por que você não toma um banho enquanto eu esquento a comida?- sugeriu.

Ela balançou a cabeça. – Não se preocupe. Não estou com fome. Apenas preciso ver as crianças e tentar dormir um pouco... – ela abaixou a cabeça novamente. – Não tenho conseguido dormir ultimamente. Toda vez que fecho os olhos eu vejo o Hidaka cheio de manchas roxas, com a pele pálida e o nariz sangrando. Eu passo a noite acordada vendo se está tudo bem com ele, se ele está respirando, se não está sentindo dor ou se não está com febre.

- Eu poderia dizer que imagino o que você deve estar sentindo, mas eu não posso sequer chegar perto disso, oneesan. Só sei que deve ser muito difícil.

- É assustador na verdade. Ainda mais assustador porque estou sozinha.

Hikari viu seu cunhado entrando no cômodo e ficar parado à porta, encostado no batente. Ela ia falar algo, mas ele fez um sinal de silêncio e indicou Sora com a cabeça. A ruiva estava de costas para ele e não notou sua presença. A castanha apenas acenou com a cabeça e seguiu o pedido de Yamato.

- Sabe quais foram as primeiras palavras dos meus filhos? – perguntou a ruiva para a cunhada. Ela negou suavemente com a cabeça, lhe prestando atenção. – A primeira palavra do Hidaka foi 'misako'. A primeira palavra da Misako foi 'hidaka'. E a primeira palavra do Shinjiro foi 'shinji'.

- Sério?

- Sim. Eu sempre vi por ai pais se orgulhando que as primeiras palavras de seus filhos foram 'mamãe' ou 'papai'... E dos meus filhos foram o nome de seus irmãos ou o próprio nome. Sabe por quê?

- Não.

- Porque eles sempre estavam juntos e nós... Eu e Yamato... Nunca estávamos com eles. Quando o Hidaka e a Misako começaram a andar eu estava em Paris e Yamato nos EUA. Quando o Shinji começou a engatinhar eu estava dentro de uma sala desenhando a coleção de estreia da minha marca e Yamato estava indo para o espaço pela primeira vez. – contou a ruiva.

Hikari percebeu que ela iria dizer mais coisas, que estava apenas pensando em como dizê-las. Viu de relance que Yamato escutava cada palavra de cabeça baixa.

- Tem horas em que me pergunto se foi certo termos filhos tão cedo. Não... Não era o momento certo. E ainda agora, principalmente hoje, eu me questiono se ainda seria o momento certo... Por mais que eu pense, minha conclusão é de que parece ser a hora errada.

- Talvez não exista um momento certo ou errado. – disse a castanha.

- Talvez... A única coisa que sei é que estou sozinha. E meus filhos também. Eu sei que as crianças adoram ficar aqui e que vocês adoram as crianças, mas os últimos dias eles têm ficado em todos os lugares, exceto, na casa deles, com os pais deles... Eu não fazia ideia, só que agora eu sei que jamais em toda minha vida em precisei tanto do Yamato como agora. Precisava dele comigo e com as crianças. Eu preciso dele. E as crianças ainda mais.

A ruiva começou a chorar silenciosamente.

- Então por que você não fala isso para ele? Por que não pede para ele voltar?

Sora mordeu o lábio inferior. – Se você sentir alguma coisa diferente nesse exato momento e eu ligar para o Takeru para avisar, vou precisar pedir que ele venha para cá?

Hikari abaixou a cabeça. – Não. – murmurou.

- Está aí a resposta para a sua pergunta. Não deveria ser necessário eu pedir... Eu o apoiei em todas as decisões e sonhos dele, assim como ele me apoiou em todas as minhas decisões e sonhos. Porém... Nossos filhos são uma realidade. E dependem de nós dois para tudo. Nós. Os dois. Não apenas a mãe. Não apenas o pai... Yamato nunca viu nenhuma das crianças doentes. Todas as vezes que ele está aqui aproveita apenas de bons momentos com eles. Mas quando algo acontece, apenas eu estou aqui. Como agora... Hidaka está no hospital e os médicos não sabem o que ele tem. Misako e Shinji estão na sua casa e até ontem estavam na minha mãe. Eles não entendem porque isso está acontecendo e sentem a falta do irmão. Eu estou me desdobrando para dar atenção e cuidar dos três, mas eu sou uma só... Enquanto isso, o pai deles, o meu marido, está em outro continente se preparando para ir para fora do planeta... Por acaso é egoísmo querer que o pai dos meus filhos me ajude a cuidar deles?

- Acho que não. – disse Hikari suavemente.

Sora sentou-se ereta no sofá, ainda de costas para a porta. – Eu só queria que... Nossa família viesse em primeiro lugar. – desabafou em meio às lágrimas.

Suspirou profundamente e sentiu aquele perfume. Fechou os olhos e ergueu a cabeça. Lentamente se levantou e ficou parada no mesmo lugar. Limpou seu rosto com as mãos e suspirou novamente.

Virou-se apenas para constatar sua certeza. E ali estava Yamato com uma mala ao seu lado. – Vim direto do aeroporto para pegar as crianças e ia te ligar quando estivesse em casa. Cheguei quando Takeru estava saindo. – explicou ele com expressão neutra e voz vazia.

Sora assentiu. – Vamos para casa. Você também deve estar cansado.

- É... Eu também estou cansado. – respondeu o homem com a voz abafada.

CONTINUA...