Legendas (não coloquei no primeiro capítulo porque não me pareceu necessário, mas agora é um pouco):

:::: - O telemóvel da Celty

' ' - Pensamento

"" - Fala normal

Nota: Neste capítulo a Celty anda a tentar tirar o posto à Erika com o aval do Shinra (xD).


Capítulo II – A definição de ódio

Na manhã seguinte Izaya acordou tarde.

Passara a noite em claro, imerso em pensamentos idiotas e suposições imbecis, e só conseguiu realmente dormir quando o Sol já se erguia no horizonte.

"Já vou, já vou…", resmungou preguiçosamente, levantando-se da cama e saindo do quarto ao ouvir alguém tocar à campainha.

Foi até à porta e viu, pela recém-instalada câmara de vigilância, que era Celty.

Destrancou a porta da rua e abriu a porta de sua casa, indo depois recostar-se no sofá a preguiçar.

"Celty-san…a que devo esta honra tão matutina?", disse o moreno sorrindo a olhar para a mulher decapitada.

::O Shinra quer que vás lá a casa.::, escreveu ela no telemóvel.

"E ele ainda não ouviu falar dos telefones? São um grande sucesso! Aquele Graham Bell sabia o que estava a fazer! Aquilo funciona mesmo!"

::Muito engraçado. Mas eu queria vir aqui falar contigo pessoalmente.::

"Oh!", fez Izaya, endireitando-se no sofá, "E posso saber qual é o assunto?", perguntou interessado.

::Não é algo que possa ser falado. Queria ver-te.::

"Ah Celty-san, acho que o Shinra não vai gostar de saber disso.", riu-se Izaya, voltando a deitar-se no sofá.

::Não é nada disso!::

::Precisava de ver a tua expressão::

"Oh a sério? Não deve ter mudado grande coisa, apesar de o Shizu-chan tentar tão arduamente. Posso saber para que é que isso interessa?", perguntou Izaya sorrindo e olhando do telemóvel para o capacete de Celty. Começava a não gostar do rumo que a conversa estava a tomar.

::Vi o Shizuo esta manhã.::

Izaya engoliu em seco involuntariamente.

"E o que é que eu tenho a ver com isso? Ele trazia uma t-shirt a dizer 'Odeio o Izaya e quero tratar-lhe da saúde' ou coisa assim?", perguntou sarcástico.

::Idiota::

"Obrigado, eu faço por isso.", riu-se o moreno.

::Aconteceu alguma coisa entre vocês ontem à noite?::

Izaya ficou levemente chocado, mas não faltou a si mesmo.

"Oh sim! Fizemos sexo selvagem durante horas a fio! Mal consigo andar! Ele é um bruto!", exclamou Izaya, com o seu sorriso característico.

::Eu não sou a Erika. Isso não me entusiasma.::

"Então porque é que não vais directa ao assunto?", perguntou Izaya, finalmente irritado, sentando-se. Já não sorria. Olhava agora para Celty com um ar sério e calculista.

::Estava à espera que parasses com as idiotices.::

"Já parei. Responde. O que é que eu tenho a ver com o facto de tu teres visto o Shizuo?"

::Ele parecia incomodado com alguma coisa.::

"Sim, e então? O que é que eu tenho a ver se ele acordou com os pés de fora? Aquilo do sexo era mentira, sabes? Eu não sei onde é que ele dormiu…!", disse ele com um sorriso ligeiramente ameaçador, não parecia divertido, pelo que Celty continuou.

::Eu perguntei-lhe se ele te tinha visto hoje.::

Izaya engoliu em seco novamente. Não gostava nada quando Celty usava as suas capacidades sobrenaturais contra ele.

"Sim, e daí?"

O seu tom de voz era ao mesmo tempo curioso e ansioso.

E Celty reparou.

::Pensei que não te interessava.::

"E não interessa!", apressou-se ele a responder, "mas já que te deste ao trabalho de me vir acordar, porque não ouvir o que tens a dizer…!"

::Bem, se é assim…ele pareceu bastante incomodado quando eu falei em ti.::

"E ele também ficou extremamente zangado? Espantoso! Conta-me mais coisas sobre o quanto o Shizuo gosta de mim e adora passar serões comigo!", disse Izaya com o ar mais sarcástico deste mundo.

::Ele tem razão. Tu és mesmo irritante. Não é possível falar contigo sem começares com essas coisas!::

Izaya gargalhou com vontade.

::Para tua informação, quando eu lhe perguntei por ti ele perguntou-me se te tinha acontecido alguma coisa.::

"E deve ter ficado aborrecidíssimo quando lhe disseste que não sabias. Ele não quer que lhe roubem a honra de me apagar do mapa!", riu-se Izaya, olhando para o tecto.

Ele ria-se, mas os seus olhos não. Mais uma vez, a sua gargalhada assemelhava-se a um lamento.

::Ele parecia preocupado. Por isso é que eu te perguntei se tinha acontecido alguma coisa entre vocês ontem à noite.::

Celty sabia o que Izaya estava a sentir. Era uma das vantagens de ser uma Dulahan.

"Ahahaha! O Shizu-chan? Preocupado comigo? Que dia é hoje? 1 de Abril?", perguntou o moreno, rindo-se às gargalhadas virando-se para o lado agarrado à barriga.

::É bom demais para ser verdade?::

Izaya parou imediatamente de rir mal leu o que ela tinha escrito, sentando-se imediatamente.

O seu coração começou a bater descompassadamente e sentiu as mãos começarem a tremer.

Sentiu-se exposto e detestou a sensação.

"O que é que isso te interessa…?", perguntou ele com o ar frio e calculista de antes, mas era traído pelo seu corpo. As suas mãos continuavam a tremer, apesar de estar a agarrar o sofá com força. Ser humano revelava-se uma vez mais algo incómodo e inevitável.

::Eu sabia que não eras tão inumano como aparentavas. Só precisava de confirmar.::

"E então? Queres que eu te escreva um poema ou que te dedique um louvor por isso?", disse Izaya furioso, a tremer e sentindo-se humilhado. Para ele aquele tipo de coisa dava a ideia de que ele era fraco.

::Não vou falar a ninguém desta conversa.::

"Que bom!", atirou-lhe ele furioso.

Mesmo que mais ninguém soubesse, era mau o suficiente ela saber.

Ninguém devia saber daquelas coisas humilhantes!

Sim! Ele sabia perfeitamente o que sentia, fora isso que o enlouquecera!

::O Shizuo não sabe o que sente. É demasiado nervoso para isso.::

"Sorte a dele ser tão estúpido!", exclamou Izaya enraivecido, levantando-se do sofá, indo sentar-se atrás da sua secretária, onde estava o seu peculiar tabuleiro de xadrez e virando-se de costas para Celty. Contemplou por momentos o céu carregado de nuvens que se via lá fora, antes de ouvir as teclas do telemóvel de Celty a serem pressionadas.

::Vocês têm mais em comum do que tu possas imaginar.::

"Estás a tentar dizer-me que ele não me odeia como está sempre a dizer? Poupa-me…!", disse Izaya aborrecido, procurando parecer menos abalado do que estava.

::Tu também dizes que o odeias, não dizes?::

"E odeio!", exclamou Izaya furioso.

Era verdade! Ele odiava-o mesmo! Por ele não ser como os outros humanos, por nunca reagir como ele previa, mas, o principal motivo para o seu ódio era o facto de Shizuo ter declarado o seu ódio por ele assim que lhe pusera os olhos em cima.

Isso matara-o um pouco por dentro, já que logo que o vira pela primeira vez na escola sentiu que ele era especial, diferente, e saber-se odiado por alguém assim fora um duro golpe.

::Acredito que sim. Mas não confundas as coisas.::

Izaya anuiu aborrecido.

E Celty ia já para se ir embora, quando se lembrou.

::E não te esqueças de falar com o Shinra.::

E depois dessa frase saiu do apartamento.

Izaya suspirou alto e virou-se para a secretária ficando a olhar para aquele tabuleiro por um momento.

O Rei.

Pegou na peça e virou-se novamente para janela, girando na cadeira.

'Que peça seria eu…?', pensou rodando o Rei entre os dedos com um sorriso amargo nos lábios.

'Eu não seria uma peça, eu seria o jogador…', pensou com um sorriso irónico. Mas depressa o seu sorriso morreu, 'um péssimo jogador…!'

Um jogador que se afeiçoa às peças.

"Mas não é uma peça qualquer, é o Rei", disse em voz baixa, soltando uma gargalhada levemente demente, "E quando o rei é derrotado…"

Pousou a peça novamente no tabuleiro e levantou-se, indo tomar um duche para tentar acalmar as suas estúpidas emoções e os seus tristes pensamentos.

Depois de tomar duche e vestir-se, saiu de casa, dirigindo-se calmamente para casa de Shinra.

Precisava de arejar as ideias, e um passeio vinha mesmo a calhar.

Estava um dia ventoso e era uma questão de tempo até começar a chover, mas Izaya não queria saber.

Até queria apanhar uma valente molha, como bom masoquista que era.

Riu-se ao pensar no facto de ser masoquista mas não gostar de sentir dor, no entanto, o seu riso depressa morreu ao pensar no motivo do seu masoquismo.

Ficou ainda com menos vontade rir ao ver o motivo surgir diante dos seus olhos.

Mas o seu sorriso perverso não faltou. Fingir era algo que fazia com mestria.

"Shizu-chan! Que bom ver-te! Vieste fazer-me uma visita?", perguntou divertido.


Próximo capítulo - Gratidão?

É possível um monstro ser um herói?