Play the cards with spades to start

Bem na sua frente, o inimigo. Ela não sabia como agir, o que fazer ou se ele a reconheceria. Tentaria fingir que não o conhecia. Pegou sua bebida e sentou-se no bar, em uma posição que a permitisse vê-lo sem ser vista. Ela não sabia o que se passava na cabeça dele, por isso não podia deixar que ele percebesse que ela estava olhando, mas também não podia perdê-lo de vista nem por um segundo sequer. Ela imaginava que ele podia ser esquivo e traiçoeiro como um gato.

Então, só o que lhe restava era esperar pacientemente até seu marido chegar. Aí ela lhe encontraria sorrateiramente antes que aquele marginalzinho os visse e denunciaria a presença indesejada no local. E então, depois da prisão efetuada ela poderia comemorar com decência seu aniversário de casamento. E tinha certeza que depois de conseguir uma prisão como estas seu marido ficaria muito satisfeito.

O marido demorava porque, como sempre estava preso no trabalho. Ele sempre se esforçava muito em prender criminosos e lutar pela justiça, justamente por ter sofrido a maior de todas quando ele era criança. Os pais dele morreram em um assalto à casa da família e ele fora criado por parentes que não o desejavam. Seu senso de justiça, ou talvez de vingança, o fizeram seguir os rumos da lei. Ele era um delegado naquela cidade enorme e violenta. E cada prisão que efetuava, cada crime solucionado, dava a ele a impressão de que era o assassino dos pais que ele estava pegando.

Os dois se conheceram quando ele a salvara de um ato de violência, e desde então começaram a ter o mais perfeito dos relacionamentos. Casaram-se e foram felizes para sempre. Até agora.

O homem loiro jogava sem demonstrar muito interesse. Ele não via que ela estava lhe analisando, meticulosamente. Ela tinha um interesse científico pelas mentes criminosas, e era impressionante como ele não demonstrava nenhuma das coisas ruins que diziam sobre ele. Ela analisava suas feições: Eram doces demais para um homem que cometia atos não muito legítimos e ela se perguntava o que o havia levado para um caminho tortuoso; ele tinha a aparência e os gestos refinados demais para ter se tornado um criminoso, mesmo que não fosse um assassino, ele vivia às margens da sociedade, e seus atos eram tão nobres e calculados para alguém que vive de enganar os outros; ele parecia despreocupado demais com o jogo de cartas que jogava, para um homem que ganhava a vida assaltando cassinos e sabe-se lá se também vivia trapaceando. Talvez fosse uma estratégia ter aquela aparência, aquele disfarce de homem belo e com classe suficiente para passar por rico. Talvez a aceitabilidade de suas feições é que tenham lhe chamado para este lado ruim: para aquele rosto bonito e charmoso, tudo era mais fácil.

O cassino estava cheio, mesmo não sendo um dos grandes. A comemoração do terceiro aniversário de casamento seria ali porque ela adorava jogar. Seu marido condenava o hábito e não gostava que ela jogasse por dinheiro, mas como era uma data especial, resolveu ceder a esposa e deixá-la jogar um pouco, como nos tempos em que ela vivia com sua numerosa família. Era um lugar amplo e iluminado estrategicamente de acordo com as intenções de cada área. A pista de dança era fracamente iluminada e as luzes que piscavam e dançavam nela eram um pouco psicodélicas. O lugar onde estavam as máquinas caça-níquel eram iluminados de maneira a parecer que cada corredor daqueles conduzia diretamente ao céu. Em compensação, o lugar onde os jogos de cartas aconteciam tinham uma iluminação sóbria, por incrível que pareça. Mas os copos não paravam de ser enchidos continuamente para que os clientes perdessem mais e com mais facilidade, mas aquele homem não bebia muito. Só provara de seu copo uma única vez desde que estivera sendo observado e agora, mesmo com o copo cheio, chamara a garçonete.

Com seu uniforme tendenciosamente ousado, prontamente lhe atendeu. Ele cochichou alguma coisa para ela, que desapareceu no bar e um segundo depois estava oferecendo um drinque de morango com um guarda-sol à mulher ruiva que estava sentada no bar observando-o. Quando a garçonete lhe disse que o jogador loiro e desinteressado é que estava lhe pagando a bebida, ela olhou nervosa pra ele. Ele a encarava e levantou as sobrancelhas para ela, convidativo.

É claro que ela não iria até lá. Mas ele jogou as cartas na mesa e foi até ela, que checou o relógio com ansiedade. Seu marido demoraria muito mais a chegar? Ela só conhecia o rosto, mas não sabia se esse homem podia ser perigoso.

-A mulher do delegado... – disse ele, sentando-se ao lado dela no bar.

Ela engoliu seco, imóvel.

-Sou sim – respondeu ela, tirando coragem sabe Deus de onde. Aquele homem era perigoso, ela não devia falar com ele. –O... O que deseja?

Ele riu, descontraído.

-"O que deseja"? Está trabalhando aqui também?

O rosto cheio de sardas da ruiva enrubesceu.

-Não... é só que...

-Você está com medo de mim – completou ele.

-N... Não! – mentiu.

-Então porque está gaguejando? – ele a encarou esperando que ela se explicasse.

-Eu não te devo satisfação! – Afirmou ela, tentando parecer o mais indiferente ao medo que sentia quanto era possível.

-Certo, isso não interessa mesmo – O tom da voz dele ficou sério de repente. –Seu namoradinho devia saber que é um crime deixar uma mulher tão bonita esperando.

-Eu... – Ela não sabia como responderia. – Ele não é meu namorado, é meu marido!

Ele a olhava nos olhos. Ela não sabia ler aqueles olhos acinzentados, nem o que o rosto pálido e fino dele expressava. Talvez fosse o nervosismo.

-Você está esperando o Sr. Perfeito? –perguntou ele como se esta se tratasse de uma conversa casual.

-Quem?

-O seu querido marido policial...

Ela devia responder? No plano que ela tinha na cabeça, não havia esta pergunta, nem esta situação. Ele não a veria, ela denunciaria sua presença, ele seria preso e fim, ela comemoraria com o marido.

-É nosso aniversário de casamento. – Ela afirmou, como se isso fosse prova da certeza que ele viria.

-Depois eu sou o criminoso... – Ele tomou de seu copo de whisky.

-Essa piada de crime de novo? – Ela indagou, porque além de a piada ser de mau gosto, a demora estava chegando a um estágio em que tinha que ganhar tempo com uma conversa qualquer. – Eu vim sozinha porque não preciso de um homem pra ir a lugar algum.

-Admiro sua independência, mas tenho que dizer que eu acho muito mais imoral deixar alguém como você esperando, principalmente no dia do aniversário de casamento, do que o que eu faço. – retrucou.

-Você é um ladrão de cassinos, eu não vejo nada de respeitável em roubar pessoas que trabalham honestamente pra ganhar seu próprio dinheiro. – acusou-o ela.

-Você quer falar de honestidade num cassino? Eles enganam as pessoas que acham que vão ganhar dinheiro ou se divertir aqui! A partir de um certo ponto, ninguém mais consegue ganhar. – falou ele, tranquilamente.

Ela olhou de novo o relógio. Porque tanta demora? Ele percebeu a ansiedade crescente dela, mas antes que ele começasse de novo a conversar ela precisava falar qualquer coisa.

-Então você acha mais justo roubar de alguém que você não acha tão honesto? É essa a sua desculpa pra andar fora da lei?

Ele riu e terminou o conteúdo do seu copo.

-Eu não disse isso. Só não acho que eles sejam honestos para você defendê-los usando esta justificativa.

A tranqüilidade dele a irritava. Ela arrancou o pequeno guarda-sol de seu copo e bebeu dele até o fim. Só depois parou pra pensar que talvez ele conhecesse a garçonete e o copo poderia conter alguma droga.

-Não se preocupe – tranqüilizou-a depois de notar a expressão no rosto dela. – Não tem nada aí. Eu não vou fazer mal a você.

-Vo... Você vai fazer o que comigo?

Ela ameaçou levantar, mas ele tocou sua mão, fazendo-a ficar. A pele dele estava quente, ao contrário dos olhos.

-Eu jamais faria alguma coisa ruim com você.

-Já é ruim esta conversa, então, tecnicamente isto é uma mentira, o que não impede que você esteja mentindo de novo. – Disse ela depressa.

-Certo, eu vou fazer umas coisas ruins com você, mas não tão ruins quanto você imagina.

A ruiva encarou-o, séria. A demora do marido a incomodava mais do que a irritava. Ela precisava dele para salvá-la mais uma vez. Ela era bastante capaz de se defender sozinha, mas provavelmente não de dar um fim nesta situação.

Ele agarrou o pulso dela e a fez se levantar, com mais delicadeza do que ela pensou que ele usaria.

-Preciso saber seu nome. – Ele perguntou, puxando-a para perto da pista de dança onde algumas pessoas dançavam.

-Meu nome? – Falou entre dentes – Você não vai saber meu nome.

-Depois não fale que foi falta de cavalheirismo, porque eu perguntei o seu nome.

Ela não entendia até onde esta conversa iria chegar e então parou de andar. Ele continuou puxando-a, inutilmente, por entre as pessoas que dançavam. Estava disposta a atacá-lo ali mesmo e fugir, mas antes que ela conseguisse pensar em um golpe, ele puxou-a com ainda mais força pelo pulso e pressionou-a contra a parede. Ninguém ao redor pareceu se importar. Era um cassino de uma grande cidade, coisas como aquelas aconteciam. Ela precisaria gritar, mas a música estava alta demais no lugar onde estavam e ela não chamaria muita atenção, afinal estavam em um canto não muito movimentado do ambiente. Ela ia gritar, de verdade, quando ele puxou um dos lados o paletó que usava e revelou a ela um revolver à cintura. Ele levou o dedo à própria boca e com olhar ameaçador fez um gesto indicando que ela se calasse. Ela se assustou em saber que ele estava armado. Ela sabia que ele podia ser perigoso, mas ver o revolver a deixava mais tensa e volúvel. Seguiu por onde ele a guiava, olhando uma última vez para trás, procurando por salvação. Nenhum sinal de seu herói e salvador.

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