Estava deitado em uma superfície macia, aconchegante. Podia escutar vozes, que ele imediatamente reconheceu como sendo reproduzidas por um aparelho de televisão, e, dessa forma, só pôde concluir ter sido transportado de volta ao seu quarto. Nenhum outro lugar teria sido menos apropriado – para tê-lo, em uma posição tão sugestiva, sobre o seu corpo.
"Eu não te deixaria, Shinobu " Ele entoou, lânguido, vendo o rapaz suspirar, abaixo de si. "Nem que me pedisse. "
O moreno se arrepiou, com a mais parca constatação do que estava por vir; o youkai se aproximava, mais e mais. E embora o coração rufasse em seu peito, a mansuetude em sua compleição traía esse singelo entusiasmo. Sentia-se anestesiado, entorpecido.
Todavia, algo não estava certo dentro de si; e essa sensação, somada ao barulho insuportável que começava a se avolumar em sua cabeça, colocavam-no em estado de alerta. Era como se uma estranha chama tivesse se acendido, em seu íntimo, ameaçando consumi-lo por inteiro. E uma vez que tivesse se queimado, seria impossível voltar atrás.
"Já chega, Itsuki " Ele disse, de súbito; interrompendo o youkai antes que fosse tarde demais. Itsuki se deteve, há centímetros de realizar o seu intento. As pontas de seus cabelos turquesa roçavam as bochechas do detetive, que precisou fechar os olhos, temendo não ser forte o bastante para se libertar do feitiço que os seus dourados lançavam. "Vá embora agora. "
Mediante uma ordem tão convicta, o youkai recuou, mas só para que tivesse um ângulo mais favorável à perscrutação. Ele queria ter uma visão completa do semblante de Shinobu, para assim ponderar sobre o verdadeiro significado daquele comportamento.
Seres humanos eram sempre tão difíceis de se entender, tão imprevisíveis em suas ações e tão complexos em seus pensamentos. E, não de uma forma mais compreensível, Shinobu era diferente de todos.
"Shinobu? " Veio a voz feminina, abafada pela porta, sobressaltando ambos.
Sensui ergueu as pálpebras no mesmo instante, ouvindo, com o coração aos pulos, o som da maçaneta sendo girada. Ele quase afogou com o ar, premeditando o flagra.
Droga. Ele pensava, vendo, estático, Itsuki se apertar contra o seu corpo, escondendo-se como podia atrás do espaldar. Com os rostos próximos demais, ele corava furiosamente, enquanto o youkai abria um sorriso cínico, divertindo-se com a situação.
"Filho? " A voz se fez mais nítida, e o moreno cerrou outra vez os olhos, com força, como se assim pudesse fugir para qualquer outra dimensão. Uma em que ele não precisasse lidar com a vergonha de ter que explicar para a sua genitora o que um homem estranho fazia praticamente deitado sobre ele em seu sofá.
E, droga, ele não precisava! Itsuki podia literalmente fugir para qualquer outra dimensão! Ele era um Yaminade! O que ele ainda estava fazendo ali? Shinobu se sentiu profundamente aborrecido. O youkai estava deliberadamente colocando-o naquela situação constrangedora.
"Itsuki, eu juro que se não sumir daqui agora... " Sensui começou, em uma altura que só o youkai pudesse ouvir. No entanto, antes que tivesse a chance de terminar, como que por um passe de mágica, o peso em seu corpo já havia desaparecido.
"O que está resmungando, Shinobu? " A mulher surgiu finalmente em seu campo de visão, atrás do sofá.
"E-eu? " O garoto devolveu, meio abobalhado, e ela arqueou os supercílios, levemente desconfiada.
"Eu espero que você não tenha ficado a tarde inteira aqui nesse quarto assistindo essas bobagens " Disse, em tom de censura, ao pôr os olhos na TV ligada.
"Não— " Shinobu se apressou em responder, erguendo o tronco para se sentar, enquanto resgatava na memória suas atividades precedentes à inusitada visita. "— eu já terminei as lições, estudei um pouco e—" De repente sentiu-se estúpido, sem ter realmente muito o que revelar. Talvez ele tivesse mesmo passado quase a tarde toda na ociosidade, apenas admirando a criatura que ele deveria ter, supostamente, executado no dia anterior. "— tirei o lixo... "
"Que isso não se torne um hábito, ou esse quarto volta a ser como era " Ela suspirou, fazendo uma pausa, antes de continuar: " Eu vou tomar um banho e preparar o jantar... "
O moreno apenas acenou com a cabeça, vendo-a se retirar.
Depois de alguns instantes, ele se manifestou:
"Qual é o problema com você? "
Itsuki se incorporou de uma sombra na parede, próxima à janela, introduzindo-se no quarto por meio de um portal camuflado.
"Problema? " O Yaminade ecoou, fazendo-se de desentendido.
O detetive suspirou.
"Olha, Itsuki " Ele começou, beliscando a ponte do nariz. "Eu te poupei, mas ainda tenho que reporta-lo ao mundo espiritual; eu não posso tomar uma decisão assim sozinho, ainda que você me pareça bastante inofensivo... "
"Por mim tudo bem " O outro concordou, e Sensui o acompanhou pasmo com os olhos, enquanto ele tomava um lugar ao seu lado no sofá.
"Está falando sério? "
"O que esperava que eu fizesse? " Itsuki replicou, divertido. "Desaparecesse? "
"Talvez? "
"E por que eu faria isso? " O de cabelos verdes tornou a indagar – dessa vez em módulo baixo, quase sussurrado; fitando-o.
Porque você é um monstro? Sensui não se atreveu a dizer em voz alta, mas não se surpreenderia se Itsuki fosse telepata, de repente. Afinal, aquele era o seu primeiro contato com um Yaminade, ele não conhecia todas as suas habilidades. Não que ele já tivesse conversado com outros demônios.
"Pensando bem, isso não faria mesmo nenhum sentido, agora " Ele desviou o olhar e se remexeu de onde estava, parecendo incomodado. "O que me leva a refletir... "
O youkai cruzou as pernas compridas com todo o seu charme e elegância, acomodando-se melhor enquanto aguardava pacientemente o que o outro tinha a dizer.
"Por que? " Shinobu deixou escapar, com a mesma inocência que ele havia demonstrado, na véspera. "Por que você se deixou acertar pelo meu golpe? Ou melhor... Toda aquela perseguição foi sem sentido. Qual é o significado de tudo isso, afinal? "
"Eu tenho te observado há algum tempo, Shinobu. "
Sensui voltou a olha-lo com essa revelação, acometido por um sentimento similar ao de quando ele havia sido abraçado pela escuridão. Tudo o que ele conseguia fazer era admirar o youkai e se deixar fascinar pela sua beleza. Talvez Yaminades pudessem hipnotizar, também.
"Você está certo " Itsuki concordou, e então riu. "Nada disso faz o menor sentido. "
O detetive sobrenatural franziu o cenho, confuso.
"É que— " Ele brincou com uma mecha de cabelo, em um gesto de timidez dissimulado. "Eu gosto de você, Shinobu. "
Eu gosto de você, Shinobu. A sentença ecoou em sua cabeça como em um laço temporal infinito, continuando a assombrá-lo mesmo quando Itsuki já não estava mais ali. Ele havia lançado o fogo e deixado o pobre garoto para arder sozinho, no inferno de suas divagações. Shinobu emudeceu completamente pelo resto do dia, ficando calado durante a última refeição e, se sua mãe não estava tão cansada do serviço para notar, também não se manifestou. No entanto, à despeito desse voto de silêncio externo, sua mente havia se tornado um terrível alvoroço.
Eu gosto de você, Shinobu. O que o Yaminade queria dizer com aquilo? Ou o que ele supostamente deveria ter entendido por aquelas palavras? Ele nunca havia ouvido algo parecido de qualquer outra pessoa. Pessoa? Itsuki nem era uma pessoa! Mas o mais importante, ninguém nunca havia estado tão perto de si para tanto, Shinobu estava sempre sozinho e por algum motivo, nenhum de seus colegas de classe tentavam se aproximar. Talvez o considerassem estranho? Esquisito? Ele não fazia ideia e nunca havia se incomodado tanto a ponto de divagar sobre o assunto, já que estava quase sempre ocupado demais caçando e exterminando demônios.
Eles mal haviam se conhecido...
Eu tenho te observado há algum tempo, Shinobu. Há quanto tempo, exatamente? Ele se perguntava. E ficava desconcertado de imaginar que havia sido espreitado. Quem sabe se Itsuki não estava agora mesmo o observando ou se todas as vezes em que ele desaparecia, na verdade, continuava a espiá-lo de outra dimensão? Era bizarro, mas ao mesmo tempo, de algum jeito torto, reconfortante. Ele não estava mais sozinho.
N/A: Eu sei que eu disse que seriam apenas dois capítulos, mas as ideias foram surgindo e a vontade de continuar escrevendo foi maior. Eu estava com saudade de trabalhar com esses dois, aí eu ouvi " Gods and Monsters" (Lana del Rey) na versão maravilhosa da Jessica Lange, e, gente, eu juro que nunca tinha percebido antes, mas essa música é tão a cara do Sensui! Aí eu precisei terminar esse capítulo, já cheia de ideias pro próximo. Outra música que está me inspirando bastante é Sea of Sin, do Depeche Mode.
Mil desculpas pela imensa demora, eu realmente não achei que fosse atrasar tanto pra publicar, mas apesar de eu ter a coisa toda já fixa na cabeça, eu acabei perdendo um pouco do clima porque na mesma época várias outras coisas estavam bagunçando as minhas ideias. Vocês provavelmente perceberam que eu deixei a coisa da imparcialidade de lado e parti pra uma explicação mais romântica, é. Há tão poucas fics desses meus amores por aí que eu decidi me realizar aqui, como shipper. Eu espero que isso não decepcione vocês. De qualquer forma, eu não acho que isso esteja fugindo do universo original, já que fica bastante explícito na série o relacionamento dos dois.
Deixo aqui um agradecimento especial à Amanda Catarina, por todo o carinho, a amizade e a motivação! Cat-chan, você é um dos principais motivos de eu insistir na escrita~ Espero não desaponta-la com o rumo que eu estou dando pra essa fic!
Beijinhos no coração e até o próximo, minna!
