A história se chama A Noiva Raptada e pertence a Barbara Cartland bem como os personagens utilizados pertencem a Naoko Takeuchi

De repente, um pano grosso foi atirado sobre a cabeça de Usagi. Mal podendo respirar, percebeu que estava sendo raptada. Só podia ser por ordem do Rei dos Demônios, o fantástico homem que viera do Extremo Oriente... Sentiu que braços fortes a carregavam por uma escada tosca e íngreme. Gritos de marinheiros, velas sendo enfunadas, barulho e cheiro de mar...Passos se aproximaram e o pano que cobria seu rosto foi retirado. Usagi abriu os olhos e viu à sua frente um homem muito diferente do que esperava!

CAPÍTULO II

Olhando em torno da sala de jantar, Usagi compreendeu por que Minako achava Londres muito mais interessante do que o campo.

Havia vinte convidados para o jantar, e, quando chegaram, ela achou que seria impossível encontrar em outro lugar tantas mulheres bonitas juntas, ou homens tão distintos e elegantes.

Mas não havia dúvida de que Minako sobrepujava a todos eles.

Lady Esmeralda, num vestido brilhante e com um decote que, na opinião de Usagi, era provocante, parecia estar no palco, ao invés de numa sala de jantar.

Ficou sabendo que lorde Furuhata traria um cavalheiro para fazer par com ela.

Quando ele chegou e se sentou a seu lado à mesa, verificou que todos tinham seus pares, dos quais pareciam estar muito enamorados.

Não havia dúvida de que lorde Motoki era um homem muito bonito, e era óbvio que estava loucamente apaixonado por Minako.

Usagi, conhecendo a irmã tão bem, notou que, quando ele falava com Minako, esta parecia mais animada, mais feliz e mais bonita ainda.

"Ela está apaixonada", pensou.

Achou que tudo seria mais fácil se Minako pudesse se casar até o fim do verão. Assim, não precisaria voltar para o campo no inverno, o que odiaria fazer.

Usagi quase deu um pulo quando o sr. Umino Gurio, que havia sido convidado para ser seu par, disse:

— Não posso acreditar que numa mesma família existam duas jovens tão encantadoras. Se houvesse uma dúzia como vocês, teríamos uma revolução.

Usagi riu.

— Não se preocupe. Minako e eu não temos mais irmãs nem irmãos.

Umino Gurio desviou o olhar em direção a Minako, que estava à cabeceira da mesa, flertando escandalosamente com lorde Furuhata.

— Sua irmã tem sido uma sensação — disse ele.

— Fico contente em saber que ela está se divertindo em Londres.

— No entanto, isso é uma tragédia para Motoki.

Usagi não sabia quem era Motoki, e o sr. Gurio explicou que era o primeiro nome de lorde Furuhata, e que muitas pessoas o chamavam de "To".

— Onde está a tragédia? — perguntou Usagi.

Mas, nesse momento, a senhora que estava sentada do outro lado chamou o sr. Gurio, e ela achou que ele não tinha ouvido a sua pergunta.

Deu uma outra olhada para lorde Furuhata e decidiu que de forma nenhuma ele parecia ter uma expressão trágica.

Ficou imaginando, um tanto apreensiva, que talvez ele não tivesse dinheiro, o que certamente impediria Minako de desposá-lo.

A festa foi ficando barulhenta, e as risadas aumentaram no final do jantar.

Depois, as senhoras foram para a sala de visitas e ficaram tagarelando entre si. Usagi sentiu-se isolada, pois não conhecia nenhuma das pessoas sobre as quais falavam, e ninguém parecia interessado em incluí-la na conversa.

Quando os cavalheiros se juntaram às damas, o duque de Kou, que felizmente havia chegado a tempo para o jantar, foi logo para o lado de lady Esmeralda, embora tivesse conversado com ela durante todo o jantar.

— Boa idéia! — disse ele com voz pastosa.

Olhou como eles se dirigiam para as cadeiras da parte lateral do comodo, Usagi notou que o andar dele estava um pouco incerto.

Depois que estavam acomodados, ela perguntou:

— Poderia ter a bondade de dizer-me quem são as pessoas que estão aqui esta noite? Faz anos que não venho a Londres, e para mim são todos desconhecidos, com exceção de minha irmã.

— A senhorita não será uma estranha por muito tempo. Sua irmã é a garota mais bonita que já vi, mas a senhorita a iguala em encanto, e é um prazer para mim ser o primeiro dos milhares de homens que lhe dirão isso.

Seu discurso fora bonito, mas infelizmente prejudicado pelo fato de ele ter tropeçado em algumas palavras.

— Obrigada. Agora diga-me, quem é a dama de azul que acaba de passar por nós?

Ele mencionou um nome que ela nunca tinha ouvido antes.

— Mas — continuou — está em desgraça atualmente, por ter desobedecido à proibição do marido, deixando-o e aos filhos no campo e vindo para Londres.

Usagi respirou fundo, mas não disse nada.

Tudo o que ouviu depois só reforçou sua intenção de ter uma conversa muito séria com Minako na manhã seguinte.

Como estava cansada da viagem e, como dissera o médico, exausta por ter cuidado do pai, começou a sentir dificuldade de manter os olhos abertos.

Sabia que não ficaria bem chamar a atenção sobre si mesma, assim, simplesmente esperou que Umino Gurio estivesse envolvido numa conversa com outro cavalheiro e esgueirou-se do salão.

Ao sair, viu que novos convidados chegavam ao hall, e imaginou que a festa duraria até as primeiras horas da manhã.

Sabia, no entanto, que ninguém sentiria a sua falta, e se não fosse se deitar imediatamente, cairia de pura fadiga.

No quarto havia uma criada idosa esperando por ela para ajudá-la a despir-se. Usagi lhe disse, com um sorriso:

— Estou cansada, e acho que a senhora deve estar cansada também.

— Estou, senhorita — respondeu a criada. — Temos tido muito trabalho nas últimas semanas. Festas, com convidados para jantar, quase todas as noites.

Usagi não comentou nada, mas quando ficou só, ao invés de dormir, começou a se preocupar com Minako.

Como podia estar vivendo de maneira tão extravagante, sem que nem ela e o pai soubessem?

Esse estado de coisas durava havia apenas dois meses, mas mesmo nesse tempo tão curto, ela devia ter gasto uma enorme soma — ou então lady Esmeralda. E isso não podia continuar.

Se Minako estava tão apaixonada por lorde Furuhata como ele por ela, isso resolveria todos os problemas.

Entretanto, como se um mosquitinho assobiasse no seu ouvido, ela lembrou-se de que o sr. Gurio se referira a uma tragédia, mas ela não entendera o que ele quisera dizer com aquilo.

O que seria?

Talvez seu pai tivesse falecido havia pouco, o que significava que ele não poderia se casar antes de um ano, embora isso não constituísse uma barreira intransponível.

Esse pensamento diminuiu um pouco sua preocupação, e ela estava sorrindo quando pegou no sono.

Na manhã seguinte, acordou mais tarde do que de costume, e tocou a sineta para chamar a criada, que exclamou, ao chegar:

— Acordou cedo, senhorita!

— Cedo? Que horas são?

— Não são ainda dez horas. Usagi sentou-se na cama.

— Bem, eu venho do campo, e para mim é muito tarde. Ninguém acordou ainda?

A criada puxou as cortinas e riu. — A senhora nunca me chama antes do meio-dia, e a srta. Minako quase sempre dorme até a hora do almoço.

Obviamente não haveria oportunidade de conversar com a irmã ainda essa manhã, e quando a criada voltou com seu café da manhã, informou-lhe que Minako tinha lhe avisado, na noite anterior, que almoçaria fora.

Mio olhou para ela com uma expressão de tal intimidade que Usagi se sentiu constrangida.

Estava certa de que uma mulher que tinha um caso de amor com um homem casado não era companhia adequada para Minako.

Ficou imaginando uma maneira diplomática de sugerir à irmã que seria melhor para ela voltar para a casa de lady Luna, ou então procurar outra pessoa para dama de companhia.

Tinha certeza, mesmo sem saber nada a respeito de lady Esmeralda, de que ela devia ter má reputação.

Olhando em volta, compreendeu que as outras mulheres da sala, embora muito belas, eram todas muito mais velhas do que Minako, além de lhe darem a impressão de serem todas casadas.

Era um ambiente totalmente impróprio para sua irmã, que deveria estar convivendo com moças de sua idade.

Temia que as anfitriãs mais respeitáveis não a convidassem mais.

Sabia muito pouco a respeito da vida em sociedade, mas seu bom senso lhe dizia que era de absoluta importância que Minako não adquirisse reputação de leviana.

"Lady Esmeralda é leviana", concluiu ela. Embora não soubesse nada sobre as outras, imaginava que o mesmo podia se aplicar a elas.

Os cavalheiros eram diferentes. Em sua maioria, eram portadores de títulos de nobreza e sobrenomes importantes.

Como muitos eram criadores de cavalos de corrida, já tinha ouvido o pai falar sobre eles. Por outro lado, estava certa de que quase todos eram casados, embora não tivessem trazido as esposas para o jantar.

Logo depois que os cavalheiros se juntaram às damas, começou uma música no salão contíguo, que chamavam de biblioteca, embora houvesse lá muito poucos livros.

Eles haviam sido retirados para dar espaço à mobília de sua avó e a vários quadros que sua mãe achava desinteressantes; pois a maioria deles representava os ancestrais dos Tsukino.

Quando entrou no salão, percebeu que tinha sido modificado. Os quadros dos Tsukino tinham desaparecido, e as paredes estavam agora cobertas de veludo veneziano e grinaldas de flores.

Estava realmente muito bonito. Do teto pendia um grande candelabro que Usagi nunca vira antes. No canto oposto ao da entrada, havia um nicho onde uma pequena orquestra tocava uma valsa.

Usagi sabia que a valsa tinha sido introduzida na Inglaterra pela princesa de Lieven, e a primeira vez em que a vira ser dançada, muito mal por sinal, fora num baile de caça, no último inverno.

Agora, à luz de velas, encontrava uma graça e uma elegância inesperada ao observar os cavalheiros rodopiarem com as damas pelo salão.

Logo que a dança começou, chegaram outros convidados, todos eles cumprimentando Minako com uma exuberância que Usagi considerou exagerada.

Os cavalheiros dirigiram-se imediatamente para outro canto da sala, onde havia uma mesa com todos os tipos de bebidas, incluindo garrafas de champanhe em baldes de gelo.

Era tudo tão diferente do que Usagi esperava encontrar em sua própria casa, que ela só podia ficar olhando, admirada, até que o sr. Gurio chegou perto dela.

— Dança comigo, adorável senhorita? — perguntou ele. Ele falou com a voz um pouco arrastada, demonstrando que tinha bebido um pouco demais.

Usagi notara que, durante o jantar, além de uma comida excelente, com vários pratos que ela nunca provara, havia muita bebida, muito mais do que seu pai costumava servir.

Havia também mais criados para encher os copos, além dos dois que Minako havia dito que contratara para ajudar na copa.

"Quem estará pagando por tudo isto?", pensou consigo mesma.

Se era lady Esmeralda, como Minako insinuara, não estava certo permitir que ela fosse a anfitriã na casa de seu pai, sem a permissão dele.

De repente, deu-se conta de que o sr. Gurio estava esperando por uma resposta, e disse:

— Não sei dançar valsa, mas talvez possamos sentar e observar os outros.

Usagi estava de pé e vestida, esperando no andar térreo, quando Minako surgiu, com ótima aparência, nem de longe parecendo cansada pelos excessos, da noite anterior.

— Bom dia, querida! Você deixou a festa muito cedo. Ficou mais divertida mais tarde, quando os convidados começaram a desempenhar papéis cômicos, mas talvez isso a tivesse escandalizado.

— Diverti-me bastante, mas estava muito cansada, e pensei que teria sido muito constrangedor se eu caísse no sono.

Minako riu.

— E nós, que pensamos que você tinha bebido demais!

— Achei que um ou dois dos cavalheiros estavam um pouco "gambás" — murmurou Usagi.

Tinha usado de propósito uma gíria que aprendera com o pai, para que não parecesse uma crítica muito severa. Minako riu de novo,

— Isso não é novidade. O conde, que eu considero um homem muito maçante. teve que ser carregado para baixo por dois dos criados.

Usagi não fez comentários. E a irmã, como se soubesse o que ela estava pensando, disse rapidamente:

— Se continuarmos aqui conversando, vamos nos atrasar.

— Onde vamos almoçar?

— Motoki nos levará para Ranelagh, depois assistiremos a um jogo de pólo.

Assim que ela terminou de falar, um criado abriu a porta e disse:

— Sua Senhoria está aqui e pediu que se apressem. Minako não pôde deixar de notar a ansiedade de Minako ao correr para a porta da frente, com um brilho intenso no olhar.

Lorde Furuhata estava esperando por elas numa carruagem muito elegante, de rodas altas. Era uma sorte que ambas fossem tão esbeltas, pois o veículo era feito só para duas pessoas.

Usagi ficou lisonjeada ao ver que a irmã fazia questão de incluí-la em todos os seus programas.

Enquanto se dirigiam a Ranelagh, pôde perceber melhor como Minako estava apaixonada por lorde Furuhata, e ele por ela.

Além do que diziam e do modo como olhavam um para o outro, havia momentos em que não havia necessidade de palavras, porque um sabia o que o outro estava pensando.

O grupo era mais ou menos o mesmo da noite anterior. Alguns dos homens jogaram pólo depois.

Lorde Furuhata e Minako sentaram-se bem juntos, sussurrando um para o outro, parecendo esquecidos de que muitas pessoas os observavam.

Usagi percebeu que eles recebiam muitos olhares críticos, e embora estivesse contente em ver a irmã tão feliz, era óbvio que havia pessoas que pensavam de modo diferente.

Quando eles voltaram a Londres, a apreensão de Usagi cresceu, pois percebeu que havia alguma coisa errada.

Ao chegarem em casa, Minako perguntou a lorde Furuhata:

— Virá jantar conosco esta noite?

— Espero que sim, minha querida, mas não sei se meu tio vai querer falar comigo.

— Ele não disse nada ainda? — perguntou Minako, um pouco hesitante.

— Ainda não.

Um criado ajudou Usagi a descer da carruagem, e quando ela olhou para trás, viu lorde Furuhata beijar a mão da irmã.

Subiram as escadas juntas. Para alívio de Usagi, não havia sinal de lady Esmeralda.

— Quero falar com você, Minako.

— Já esperava por isso — respondeu a irmã. — É melhor irmos para o meu quarto. Tenho que descansar um pouco, antes de me vestir para o jantar.

Usagi a seguiu para o quarto grande, cuja aparência mudara completamente. Antes era austero e masculino, pois era o quarto do pai.

Agora estava bem feminino, com grandes vasos de flores por toda parte, uma colcha de renda na cama, com forro de cetim azul-turquesa, e uma profusão de almofadas, para dar um ar mais alegre ao revestimento escuro do sofá e das poltronas.

— Por que escolheu este quarto?

— Esmeralda queria o de mamãe, pois é muito mais bonito, e o duque gosta que suas mulheres sejam bem femininas.

Usagi sentiu-se enrijecer, mas preferiu não dizer nada. Minako, não percebendo que tinha chocado a irmã, continuou:

— Já encomendei cortinas novas para este quarto, de veludo cor de pêssego, que vão transformá-lo, especialmente com o novo carpete que vi em Bond Street na semana passada.

— Minako, quem está pagando por tudo isto? — perguntou Usagi.

— Não deve fazer perguntas.

— Querida, eu tenho que perguntar. Você sabe muito bem que papai não pagará as enormes despesas que deve estar fazendo, dando essas festas grandiosas e redecorando a casa, como o salão de dança da noite passada.

— Deixe comigo, Usagi, e não me aborreça com ninharias.

Usagi sentou-se numa das poltronas cheias de lindas almofadas de cetim.

— Nunca tivemos segredos uma para com a outra — disse ela após alguns segundos.

— Isso é verdade — concordou Minako.

Ela virou-se do espelho onde estivera se mirando e disse num tom de voz diferente:

— Oh, Usagi, estou tão desesperadamente infeliz!

— Infeliz? Por quê, querida? Pensei que você estivesse apaixonada.

— E estou. Amo Motoki loucamente, ele também me ama.

— Bem, então, o que está errado? Estava pensando a noite passada que poderia se casar no fim do verão, quando o jardim estará maravilhoso; mas talvez prefira se casar em Londres.

— Não me importa onde eu me case, desde que seja com Motoki.

Minako tirou o chapéu e sentou-se na banqueta em frente à lareira, cobrindo o rosto com as mãos.

— Oh, Usagi, o que devo fazer?

Usagi deixou a poltrona e sentou-se na banqueta ao lado da irmã. Passou os braços em torno dela como se ela fosse uma criança e apertou-a contra si.

— Conte-me tudo, querida. Estou confusa porque não estou entendendo nada.

— Pensei que alguém tivesse lhe contado — disse Minako em voz áspera.

— Contado o quê?

— Que Motoki está noivo.

— Noivo?

— Sim, seu noivado foi anunciado dois meses antes de nos conhecermos.

— Mas, nesse caso... — começou Usagi.

— Sim, eu sei, eu sei! — exclamou Minako. — Estamos nos comportando insensatamente, e todos estão escandalizados. Mas nós nos amamos, e eu o amo como mamãe amou papai. E desde o instante em que ele me viu, disse-me que não podia mais pensar em outra pessoa. Usagi apertou mais a irmã contra si.

— O que pode ele fazer?

— É o que ele fica me perguntando.

Usagi sabia que, para um homem, um noivado oficial era uma obrigação tão séria quanto um casamento.

Uma mulher podia romper um noivado, mas nunca um homem. Se o fizesse, estaria quebrando um código de honra preservado em todos os clubes e regimentos decentes.

— Sua mãe o forçou a esse compromisso — disse Minako —, porque é uma esnobe e pensa que nenhuma moça do mundo é suficientemente boa para o filho.

— De quem ele está noivo?

— Da filha do duque de Dorset. E Motoki, embora não estivesse apaixonado, pensava, até me encontrar, que eles se dariam bem juntos.

Minako suspirou e disse:

— Oh, por que o encontrei tarde demais?!

— Ele não estava em Londres? — indagou Usagi.

— Não, estava caçando com o grupo do duque. Eles moram no mesmo condado, e ele conhece Elizabeth desde que eram crianças.

Minako ficou pensativa por alguns instantes, e depois falou:

— Acho que os Dorset não considerariam Motoki digno de sua única filha, se ele não fosse tão rico e não tivesse esperança de herdar do tio.

— Ouvi você mencionar o tio quando desci da carruagem.

— Motoki tem medo dele, e eu também estou apavorada, pois, agora que veio para Londres, o tio pode proibi-lo de me ver.

— Você acha que ele sabe que vocês se amam?

Ela achava que, se eles realmente pensavam em manter seu amor em segredo, estavam se comportando de modo muito indiscreto, mas preferiu não falar sobre isso.

Minako respondeu:

— Acho que a mãe de Motoki vai lhe contar. Na verdade, desconfio que ela mandou chamar o irmão, Mamoru Chiba, porque Motoki não dá atenção às coisas que ela diz contra mim.

— Quem é Mamoru Chiba? — perguntou Usagi, intrigada com o estranho nome.

— Motoki diz que ele é um personagem fantástico, que parece ter saído de um conto de fadas — o Rei dos Demônios ou o Bicho Papão —, e todos tremem quando ele aparece.

Usagi não pôde evitar uma risada.

— Juro que não é nada engraçado, no que diz respeito a mim e a Motoki. A mãe de Motoki chora e diz que o filho estragará sua vida se o duque de Dorset descobrir que ele está sendo infiel à filha, e seu tio, tenho certeza, vai ter uma atitude muito pior.

— Que podemos fazer?

— Não sei. Talvez estejamos nos apavorando desnecessariamente. A verdade é que o sr. Chiba fez uma enorme fortuna no Oriente, onde é tratado como se fosse um rei ou algo semelhante, e Motoki tem certeza de que ele está voltando para criar-lhe problemas.

— Ele parece horrível — concordou Usagi —, mas, por outro lado, é dever de lorde Furuhata comportar-se de maneira honrada.

— Sei de tudo isso — disse Minako —, mas eu o amo, e morrerei se não puder desposá-lo.

— Não deve falar assim.

— Motoki diz que se matará se tiver que se casar com outra mulher, e eu acredito nele.

— Bem, eu não acredito! Lorde Furuhata não deveria dizer essas coisas para você — disse Usagi de maneira firme. — Acho que é errado da parte dele, uma vez que está noivo de outra, fazer você amá-lo.

— Não é uma questão de ele me fazer amá-lo — disse Minako com voz embargada. — Soube desde o momento em que entrou na sala que ele era o homem de meus sonhos, e esta é a razão por que recusei todas as propostas de casamento dos homens que diziam estar apaixonados por mim.

Ela parecia muito infeliz, e Usagi tentava desesperadamente encontrar uma solução.

— Querida, você vai ter que ser forte e romper com ele. Minako pulou da banqueta onde estava sentada.

— Não farei isso! Ninguém me obrigará a fazê-lo! E se, como eu temo, o tio dele proibir que nos vejamos, fugiremos juntos.

— Não, Minako! — A voz de Usagi ecoou no quarto. — Não deve fazer algo tão afrontoso. Pense no escândalo que vai causar! E depois, ninguém no mundo social do qual tanto gosta vai tornar a falar com você.

— Eles falarão comigo se eu for lady Furuhata e muito rica — disse Minako —, principalmente se formos morar no exterior por um período de um ano, mais ou menos.

— Você não deve nem mesmo pensar em algo tão vergonhoso.

— Mamãe fugiu com papai.

— Eu sei, mas ela não estava oficialmente noiva do príncipe. Na verdade, mamãe sempre dizia que era muito provável que seus parentes reais não permitissem que ele se casasse com uma plebéia. De qualquer forma, foi um escândalo.

— Se papai fosse um par do reino, um conde ou um marquês, eles teriam sido perdoados muito antes do que foram.

Usagi achou que provavelmente era verdade. E, de fato, quando ela nascera ninguém mais dizia que seu pai e sua mãe tinham fugido para casar.

Mas sabia que seria bem diferente se lorde Furuhata rompesse o noivado com alguém tão importante quanto a filha do duque de Dorset.

— Minha querida, não tenho palavras para expressar como sinto pena de você — disse Usagi. — Mas, por favor, seja sensata e faça o que é certo. Desista de lorde Furuhata, antes que seja tarde, e volte para o campo comigo, ao menos por um mês ou dois.

Pensava que, se eles se afastassem, as coisas poderiam melhorar.

Quando deixou Minako, após ter-lhe implorado por quase uma hora que pensasse em sua sugestão, a irmã prometera que o faria.

Ao sair do quarto, olhou para trás e viu Minako deitada na cama tão bela e tão infeliz, que sentiu uma dor no coração.

— Sinto muito — disse ela suavemente.

— Oh, querida — respondeu Minako —, eu o amo tão desesperadamente!

Isso se tornou mais evidente ainda aquela noite, durante o jantar.

Lady Esmeralda estava fora com amigos, e os únicos convidados eram lorde Furuhata e Umino Gurio.

Usagi não ficou muito contente em vê-lo novamente, mas ele se desculpou tão humildemente do seu comportamento na noite anterior que ela ficou emocionada com sua sinceridade.

— Minha única desculpa — disse ele — é que tive de acordar ao amanhecer para assistir a um duelo.

— Um duelo! — exclamou Usagi.

— Tive que dar apoio a um amigo — replicou ele. Ele estava lutando pela honra de uma bela dama.

Ela sabia que seria indiscreto pedir mais detalhes, e Umino Gurio disse:

— Na verdade, ela era bonita, mas não tão bonita quanto a senhorita. Se alguma vez precisar de alguém para defendê-la, pode contar comigo.

— Espero que nunca haja um duelo por minha causa.

— Eu não teria tanta certeza disso — disse ele. — De fato, estou preparado para lutar até a morte se um homem tentar tirá-la de mim.

Usagi o fitou, espantada, e viu que ele olhava para ela de um modo inequívoco. Sentiu o rubor invadir seu rosto.

— A senhorita é tão linda! Estou certo de que já percebeu que estou irremediavelmente apaixonado.

— Não percebi... nada disso — respondeu Usagi —, e acho que não é verdade.

— É verdade — insistiu ele. — Mas não vou importuná-la repetindo isso, até que esteja preparada para me ouvir.

Usagi ficou encabulada. Mas no fim da noite já o estava achando muito mais agradável do que antes.

Lorde Furuhata e Minako os ignoraram completamente. Ficaram o tempo todo falando em voz baixa, tão absorvidos um no outro que Usagi concluiu, com desespero, que nada do que dissesse ou fizesse faria alguma diferença.

Não podia deixar de pensar que eles estavam se comportando de forma muito irresponsável, e que a culpa era de lorde Furuhata.

Ele era jovem, mas havia sido educado como um cavalheiro. E seu pai sempre lhe dissera que o código de honra de um cavalheiro era rígido e inviolável, a menos que ele estivesse preparado para ser qualificado como um homem vulgar e um marginal.

Por outro lado, podia entender que a beleza de Minako cegasse um homem a todas as suas responsabilidades. E como eles estavam loucamente apaixonados um pelo outro, a situação ficava ainda mais difícil.

"Talvez eu possa falar com ele", pensou consigo, e deu-se conta de que Umino Gurio observava a expressão de seus olhos.

— Infelizmente — disse ele em voz baixa —, a senhorita não pode fazer nada a respeito disso.

Eles estavam sentados no outro canto da sala de visitas, e ninguém podia ouvi-los.

— Temos que tentar. Por favor, ajude-me! Minha irmã não pode se envolver dessa maneira.

Lançou a Umino Gurio um olhar que pedia socorro e continuou:

— Sabe exatamente o que vai acontecer. Lorde Furuhata será forçado a se casar com a moça com a qual está comprometido e será perdoado por tudo o que fez, enquanto Minako ficará com toda a culpa e terá que suportar a indignação proveniente do seu comportamento.

Deu um gemido e prosseguiu:

— Ela não será mais convidada para as melhores festas, além de ser marginalizada pelas senhoras mais idosas. Ficará magoada, e não terá ninguém para cuidar dela e protegê-la.

— Sei exatamente do que está falando — respondeu Umino Gurio. — Já falei com Motoki, mas ele não me deu atenção.

— Deve tentar de novo. Por favor, tente mais uma vez!

— Farei isso pela senhorita. Farei qualquer coisa para livrá-la dessa preocupação, embora francamente acredite que Motoki não vai me ouvir, assim como duvido muito que Minako a escute.

— Temos que fazê-los voltar à razão. E quanto mais tempo eles continuarem com esse comportamento, pior será.

— Concordo com a senhorita nesse ponto. Acho também que a qualquer momento alguém vai intervir, e Motoki terá que ouvi-lo.

— Está falando do tio dele?

— É claro! Espero que Minako tenha lhe contado.

— O senhor o conhece?

Umino Gurio sacudiu a cabeça.

— Ele acaba de voltar à Inglaterra, mas todos os que estiveram no Extremo Oriente o conhecem, e dizem que ele é o homem mais poderoso daquela parte do mundo.

— Só de saber disso, já fico assustada — disse Usagi. Umino Gurio deu um sorriso.

— Não permitirei que ele a prejudique, mas não posso garantir que ele não atire toda a sua raiva sobre a sua irmã.

— Não creio que ele realmente possa fazer algo para prejudicá-la — disse Usagi em tom de desafio. — Afinal de contas, ele não pode colocá-la na prisão porque o sobrinho está apaixonado por ela, e mesmo sendo o Rei dos Demônios, como Minako diz, duvido que venha a feri-la fisicamente.

— Suponho que não — concordou Umino Gurio —, mas não posso deixar de me lembrar dos venenos que eles têm no Oriente. Quando alguém traz problemas, eles têm métodos para fazer a pessoa desaparecer sem que ninguém mais tenha notícia dela.

— Agora o senhor está me assustando! — exclamou Usagi. — Não esqueça que estamos na Inglaterra, e que esse tipo de coisa não acontece aqui.

— Vamos esperar que não aconteça. Talvez o nosso argumento para convencer Motoki seja dizer-lhe que seu tio poderá prejudicar Minako.

— Boa idéia! — exclamou Usagi. — Estou certa de que ele nos dará razão. Ele tem que nos dar razão!

Umino Gurio estendeu-lhe a mão.

— Vamos fazer algo a esse respeito juntos, não é?

— Eu lhe ficarei extremamente grata por sua ajuda.

— Coloco minha vida a seu serviço.

Quando ela colocou a mão na dele, ele a beijou galantemente.