Carro fechado, grade da fachada parcialmente aberta. Um sorriso já conhecido e uma fungada em minha mão.

– Chegou cedo chefinho... – o cão que sacode as cadeiras de tão feliz, vem direto para mim.

– Visita monitorada da VS... Tem que tá tudo certo...

– Sem problemas, o Charon ajeitou as geladeiras lá embaixo e teu filho passou aqui pra deixar um corpo e aproveitou o embalo da papelada.

– Pelo menos alguma coisa esse pulha faz...

– Eu que arrumo a papelada! – eu exclamo já prevendo o pior. Quando meu irmão do meio mexe na papelada do obituário, algo some, extravia ou se perde no ar, como se um vento mitológico soprasse e fizesse todo meu trabalho ir por água a baixo e o dele parecer que um maremoto passou por ali. Corro o mais rápido que posso e quando o cão empolgado está para atravessar os degraus para o necrotério, eu o paro. – Não. Senta. Guarda. – ele obedece do jeito dele, dando voltas em si mesmo e sentando de frente para a porta que eu fecho.

– Puxa vida, graças a Deus você chegou! – eu levo um susto que faz meus nervos acordarem de vez às 5 da manhã.

– Mas que droga! O que você está fazendo aqui?! Não deveria estar...

– É, é eu sei... Muito trabalho, blábláblá, não agüento mais aquele lugar, tá me sufocando! Eu só vejo água e água e água o tempo todo! Sabe quantas vezes eu tenho que ir ao banheiro pra me aliviar? E quando a porcaria da embalagem vaza? Sou eu que fico encharcado o dia todo, cheirando que nem peixe morto...

– Papai bem que avisou... Se não fosse tão idiota e aventureiro, estaria na Contabilidade...

– Ah f***-se isso... Ajuda cá...

– O que tem aí...?

– Esse camarada aí, ligaram pra cá. Disseram que foi falha renal...

– Nossa... isso aí era... era...

– O fígado dele.

– Nossa! – ele se vira botando a mão no nariz.

– Nossa mesmo... A ficha tá aí...

– É uma ficha enorme... Vou ligar pro mano...

– Tá ocupado, já liguei antes de vocês chegarem...

– Mas que raios ele fala tanto no telefone?! São 5 da manhã!

– Você sabe... Ele é pegador... Vai que tá ocupado... Você me entende...

– Não, não entendo... – dou uma boa olhada no corpo que está na maca principal. Como aquele fígado ficou tão...? - Como ele ficou desse jeito...?

– Eu sei lá... Só sei te dizer que a mulher dele era feia pra ca*****... Deve ter sido isso... Eu morreria também se tivesse que viver com aquela medusa...

– Você nem conhece a família e já tá assim?

– Você que não ficou ouvindo a megera no meu ouvido poxa! – e apontando para o corpo. – Tem jeito?

– Vou ver com o papai...

– Fala com ele não... Você sabe o quanto ele começa os sermões quando a gente não sabe fazer o serviço...

– Não é que a gente não sabe... É um caso complicado...

– Tudo para você é complicado... Sério, larga essa po*** aqui e vai ser estudante...

– Vou falar com papai...

– E eu vou ligar pro pegador...

Meu irmão mais novo nunca atende ao telefone quando estamos em enrascada. Aliás, ele nunca atende ao telefone quando as ligações vêm daqui da funerária. Ele pouco faz para ajudar a gente, além de trazer corpos para cá. Pelo menos isso ele ajuda. Meu pai não entendeu bem o que se passava na sala de preparação e o cachorro do vigia fez o favor de fazer xixi bem na entrada, quem saiu pisando e levando tudo para recepção foi o imbecil do meu irmão do meio. Até que enfim alguém demarcou o território aqui.

– Eles estarão aqui às 7h30 em ponto. Você sabe como são esses caras... – anuncia meu pai temeroso da inspeção desse ano. Ano passado fomos multados por excesso de clientela. Podemos ser culpados se um bando de pessoas decidiu morrer tudo na mesma semana e todas serem transferidas pra cá?!

– O paspalho não atende...

– Aquele bastardo nunca atende! – o grito de meu pai nos assusta. Ele fica muito temperamental com uma facilidade enorme. – Se fosse coisa dele, ele viria em um segundo, aquele... aquele...

– Oh chefinho, vou puxar o barco...

– De jeito nenhum! Vai ficar aqui e ajudar nessa bagunça aqui. Rapaz, dá um jeito no corpo lá. E você seu malandrão com olhar de peixe morto, trata de ajudar teu irmão, ele fica com esse trabalhão todo aqui e você lá em sombra e água fresca!

– Poxa pai, aquele emprego é uma m****! Aquele povo não me valoriza!

– E alguém valoriza alguém aqui, seu paspalho? – ele bufa como se o mundo fosse escapar dos pulmões dele. – Vou ter que dar um jeito nisso... Vou lá no teu irmão e trazer ele pra cá pra dar um jeito...

– Mas eu consigo ajeitar o cara... Só me dá um tempo...

– Mas que porcariada que esse cachorro de m**** fez aqui?! – o cão se encolhe perto da porta do necrotério. Eu tenho pena dele.

– Deixa ele, pai... Ele é pequeno ainda, tem que acostumar...

– Trata de limpar essa frente e botar muito desinfetante com cheiro forte, sim? – o vigia noturno obedece sem pestanejar. Eu ouço a barriga dele roncando. – E bota esse cachorro lá atrás no canil... Levanta daí, peixe morto!

– Tá, pai tou indo poxa! – e dando uma piscadela pra mim, meu irmão do meio sai com o cachorro ganindo para ficar. Coitadinho. Ele é o único que posso confiar em não arruinar meu trabalho. – Depois ajeito lá com você...

– Traz pão. – eu empurro um dinheiro pro bolso dele. – E alguma coisa pra colocar dentro.

– Pode ser presunto?

– Qualquer coisa, o Char está morto de fome ali...

– Falou... – e quase chegando na porta dos fundos. – Tem o telefone da mulher dele!

– Quem?

– A mulher do paspalho. Tá aí na agendinha. Liga pra ela e vê se consegue falar com ele antes que papai chegue lá... – eu vou direto para a mesinha de escritório enfurnada entre os diversos modelos de caixões que temos a disposição. Ali está! Pego o telefone e disco sem pensar, sempre gostei da minha cunhada. Sempre foi gente boa, trazia coisa boa pra gente comer aos domingos, convidava para os aniversários dos meus sobrinhos, mantinha a família, sabe? Não era que nem esse paspalho do nosso irmão que preferia ficar reinando acima das nuvens achando que era o deus supremo e sequer dava a mínima para os irmãos... São 5 da manhã, mas ela atende e é tão bom ouvir a voz dela!

– Oi... Desculpa a hora...

– Não, quê isso...

– O meu irmão tá aí?

– Não voltou da Delegacia... Tentou o celular?

– Já, e ele nada. Tá ocupado.

– Deve estar negociando com alguém... Ele disse que tinha umas audiências ontem... Júri instável, testemunhas sumidas... Quer ajuda em alguma coisa?

– Não, não... Valeu, mas só precisava falar com ele sobre um negócio aqui...

– Ah...

– Desculpa mesmo por ligar... Não queria te acordar...

– Tudo bem, querido... Estava de vigia. A pequena aqui estava reclamando de cólica...

– Nessa idade já era hora...

– Ela não para de estudar, sabe? Tou preocupada... Tudo para ela é livros de Direito e bibliotecas da vida...

– Ela não é novinha demais pra já estar pensando nisso?

– Vai entender? Essa aqui saiu da cabeça do seu pai, só pode... De tanto comer livros, ela vai ficar vesga...

– Hehehe, olha, desculpa de novo e...

– Quer vir almoçar aqui mais tarde? A galerinha aqui estará reunida...

– Pode apostar que irei! Valeu!

– Agora me deixa dormir, sim?

– Sim, senhora...

Realmente como esse cara foi ficar desse jeito? Não faz nem meia hora que desliguei o telefone e que meu irmão do meio voltou. Ainda não consigo entender como vamos colocar esse camarada no lugar. Não tem nem como colocar qualquer coisa nele. Ele tá durinho, durinho!

– Ainda nada?

– Quando você o trouxe...

– Tava assim... Tipo, depois de um tempo fica mole não?

– Deveria.

– A gente vai esperar ele amolecer e depois fazer a coisa toda?

– Não vai dar tempo e a geladeira tá lotada. Mas que maldita hora você foi aparecer hein camarada?

– Não bate nele assim!

– Tá morto cara, relaxa...

– Você deveria respeitar os mortos, saca?

– E você comprou pão?

– Putz! Esqueci!

– Você é um mané mesmo hein?

– Esqueci, tou indo lá buscar oras!

– Então vai logo!

– Cala essa boca cachorro maldito!

– Não trata ele assim, Char, o bichinho não tem culpa!

– Ele fica latindo o tempo todo p****! Parece que tem três cabeças de tão escandaloso que é!

– Tá frio lá fora, você quer o quê?

– Vai logo na padaria, seu peixe morto!

– Tou indo!

Meio pão comido, presunto de terceira, mas dá pra tapar o buraco no estômago. O café é ralo e eu opto por água filtrada do que encarar uma dor estomacal. O nervosismo da visita monitorada já tá me deixando enjoado com antecedência.

– O povo da VS ligou... Já tá chegando...

– Sério?! Não brinca comigo!

– Tou te dizendo... Vai vir médico legal também...

– Que ótimo...

– Isso é ruim?

– Se vem Médico legal é porque vão fazer aquela vistoria... Deixa eu ver essa geladeira aqui...

– Tá tudo em ordem, eu ajeitei ontem...

– Só que esse serviço é meu, não seu! – primeira gaveta, tudo certo, segunda, beleza, terceira e quarta sem problemas...

– Posso colocar o resto do presunto aqui dentro?

– CLARO QUE NÃO! Tá maluco? Se eles acharem isso aqui, a gente fecha!

– Seria uma boa... Papai precisa de descanso. Tá desperdiçando o tempo dele aqui sacas? Precisa de ar e sei lá... Namorar... O velhote precisa de companhia sabe? Não que você não seja companhia boa pra ele, mas é que homem precisa sair pra fazer coisa de homem sabe?

– Não, não sei...

– Tipo, ir ao jogos dos Lakers! Curtir um basquete e sair com os amigos, beber umas...

– A saúde do papai é muito frágil pra fazer isso...

– Ou pelo menos trocar aquele maldito carro! Aquela velharia vai matar ele algum dia...

– Acho que você consegue fazer isso primeiro...

– Mas quem foi o idiota que ligou pra minha casa?

– Bom dia pra você também maninho...

– Eu já disse milhares de vezes pra não ligar pra minha casa quando eu não puder atender!

– Era situação de emergência...

– Culpa ele ali. Ele que teve a idéia...

– Seu imbecil, você que me deu o telefone da...

– Chega! Mostra logo isso e me deixa ir embora pra minha casa...

– Tá aqui...

– Nossa...

– É...

– Nossa, mas como...?

– Ele veio assim. Foi ontem à noite, madrugada. Ligaram, relataram, anotei, fui buscar. Tava assim.

– Enfarto...? Whoa! Enfarto no fígado? Como esse pulha ficou desse jeito?

– Sei lá...

– Tá aí na ficha...

– Cadê a ficha?

– Tava aqui há um minuto atrás!

– Mas eu não mexi em nada, não vem não!

– Vocês querem calar a boca? Eu tou tentando pensar!

– Okay.

– Sim...

– Enfarto no miocárdio... Fulminante. Deve ter sido algo traumatizante... Já abriu?

– Não, não tem como a gente...

– Passa o avental aí e fecha a porta... Dou um jeito nisso...

– Falou e disse mermãozão!