OBS: Não se trata de uma continuação no sentido literal da palavra. Descreveria simplesmente como um bônus.

ATENÇÃO: Classificação "M" para este capítulo, devido á determinadas situações explicitadas. Então, cuidado se não deseja ler este tipo de conteúdo.


O Dia Dele


"Você está me empurrando e me arrastando aos seus pés

Mas eu não sei o que quero

Você tem, algum tipo de mágica

Hipnótica, hipnótica

Você está me deixando sem ar

Diga "odeie isso, diga "odeie isso"

Você não é aquele em que eu acredito

Bem, Deus é minha testemunha..."

I caught myself - Paramore


É hoje. Me arrumo nervosamente em frente ao espelho redondo de meu banheiro. Ele possuía um estilo clássico, o que fazia trazer um ar quase teatral para os meus pensamentos. Mas esta era a minha rotina masoquista e que eu tanto ansiava.

Severus era um tornado, que vinha devastando tudo, e no fim, se via apenas a destruição. O meu vazio, as minhas máculas, as minhas dores. Mas estranho que eu o queria, ansiava por seus beijos grotescos e suas mãos ásperas me alisando.

Metodicamente, eu analiso as feições de meu rosto. A pele ainda jovem, sem sinais, a barba feita, lábios carmim, olhos verdes e meus já famosos cabelos escuros e desordenados. Não creio que possa ser considerado como a perfeição, longe disso, porém, insistem em me chamar de belo.

Mas eu me sinto feio.

Feio pelos meus hábitos, pela minha rotina embriagante. Não a minha bebida e muito menos o meu cigarro. Mas sim a minha lealdade desconcertante por aquele que apenas me via como uma sessão de prazer. E por mais que me doesse perceber que eu jamais seria visto como algo diferente de um brinquedo erótico, eu me consumia em sentimentos por Severus.

Eu o queria. Eu o desejava. Pior de tudo, eu o amava.

Doía me deixar ser usado e abusado de tantas formas diferentes. Mas esta era a única forma de tê-lo ao meu lado. Me matava imaginar que eu não passava de uma anotação em sua agenda, com hora marcada, e que depois, não passava de uma página virada e rabiscada.

Mas desde o princípio foi assim, e eu aceitei. Aceitei me segurando na vaga e insana esperança de que eu, um tolo romântico, pudesse transformar Severus em algo um pouco menos indigesto, um pouco mais doce, um pouco menos ele. Mas, aparentemente, Severus se sente bem da sua maneira. Ele é reservado, realista, seco.

Ignorância minha agarrar uma tábua de salvação, matando os demais, em um mar repleto de animais carnívoros, assassinos. Ignorância demais imaginar que eu não me machucaria rolando de um penhasco minado de espinhos. Ignorância extrema pensar que meu Severus pudesse ser doce.

Meu?

Agora sou obrigado a rir defronte ao espelho. O reflexo me mostra um riso amargurado, enquanto as lágrimas lutam desesperadamente à se libertarem e saírem em suas viagens solitárias em um mundo completamente diferente do que até então habitavam.

Bem da verdade, Severus não me dá seis dias de dores e divagações, ele me entope com os sete. Quantos nomes e horários marcados haverão em sua agenda? Quantas bocas ele deve beijar? Quantos corpos ele descaradamente deve possuir? E para os demais é também somente 'Adeus'?

Quantos. Quantas.

Não. Ele não é um prostituto. Ele é um libidinoso sem escrúpulos.

Dói imaginar que neste exato momento ele poderia estar dando 'Adeus" para outra pessoa enquanto vem em meu encontro. Me decepa as entranhas a possibilidade de não ser o único. Me enoja a sua deslealdade.

Mas agora já é tarde para tentar remendar feridas que por muito já estão quase cicatrizadas. Eu idiotamente aceitei me dar sem ganhar nada em troca. Sem palavras, sem carinhos, sem gentilezas, sem desculpas, sem obrigados, sem questionamentos ou respostas, sem nada. E é por isso que sei que sou um nada. E por mais que eu tente sentir asco, raiva dele, nada adianta. Nada me faz não abrir a porta de minha casa para ele e me submeter à uma ou várias copulações banais.

E quando algo mais afetivo vem daquele corpo, é como se o meu mundo pudesse se evanescer. Como se meus anseios perdidos no ar houvessem tido algum êxito. Como se o meu doce tivesse adentrado e superado ao menos uma milésima porcentagem daquele azedume habitual.

Mas eu o amo. Creio que de todos, este seja o meu pior vício. Um vício negativo, que me priva à uma vivência saudável e me obstina a tentação de pecar infinitas vezes seguidas. Porque eu já não consigo sair com outras pessoas e me relacionar intimamente sem pensar nele. E por mais que minha vida seja pacata, ele supera qualquer anseio meu. Prefiro me esconder em minha casa, com meus cigarros fortes e minha bebida espumante do que ter que olhar para outros olhos que não aqueles abismos sem fim.

E por mais grotesca que sua voz possa soar aos meus ouvidos, é por ela que anseio casa vez que meu telefone toca, é ela que desejo ouvir por detrás das batidas de minha porta. É ele quem espero encontrar ou me chocar em uma rua qualquer.

Ele é uma página negra, um texto apenas com o título. Um segredo a desvendar. Ele é apenas Severus Snape, apenas isso, nada mais para mim. Um nome cravado em um corpo vestido de negro. Sempre escuro, impecável, maléfico.

A minha cama já está perfeitamente arrumada.

Até colocaria algumas rosas em meu quarto, para trazer um ar mais romântico, mas sei que ele não se agradaria muito com a idéia. Severus não é romântico, ele é direto, como um tiro certeiro no círculo do meio do alvo. Não gosta de deslizes, não gosta de caminhos distintos dos quais já foram traçados, detesta desviar o percurso original.

O meu cigarro queima lentamente no suporte do cinzeiro e a garrafa de champanhe já está graciosamente posta em um refinado balde de gelo. Mas isso não era pra ele, era pra mim. O lugar onde me afogaria e desgraçaria minha vida e o meu martírio estipulado por um único homem.

Como magia negra, ele havia me cravado uma coleira apertada em cada parte de meu corpo. Eu era o injustiçado bezerro que semanalmente iria para o abate, ser sangrado apenas para satisfazer os desejos psicóticos de um impenetrável ser.

O bezerro que seguia feliz seu dono esperando ganhar favas que fossem. Estúpido cordeiro que se deixava levar por desejos e sentimentos vagos e imprecisos demais, para serem utilizados como apoio. No fim, se descobria que o bezerro era um lunático sonhador, que pintava histórias coloridas com neon em sua fragilizada mente.

E o bezerro arruma a cama para seu assassino o matar.

Eu me arrumo e me preocupo com minha aparência para ser usado. Bizarra situação que a vida nos coloca. Bizarros momentos que o vício nos impõe.

Mil vezes bizarra vida desgraçada.

Após alguns cigarros consumidos e um par de dedos trêmulos, finalmente o estridente barulho da campainha se faz ouvir. Não preciso nem ao menos pensar para saber que é ele. Canalha pontual.

Largo o cigarro e tomo um gole da champanhe, já aberta, direto no gargalo da garrafa. Forço não correr ao banheiro mais próximo e revisar meu reflexo, mas a força do hábito me vence e eu rapidamente me esgueiro e me auto avalio. Bom o suficiente para qualquer um.

Abro a porta e deixo um sorriso se formar em meus lábios. Ele não diz nada, passa reto, como se desviasse de uma estátua incômoda no meio do caminho. Mas mais incômodo é poder ler em seus olhos hipnóticos a provável rejeição por qualquer tipo de sentimento que eu sempre estive disposto em lhe dar. Ele vem apenas para abusar, nada mais.

Vai direto ao meu quarto enquanto se despe. Não pede licença, sabe que é bem vindo. Ele me olha, com seu peito desnuda e esboça uma expressão como se quisesse me dizer "Tá esperando o que?". Ah, mas se ele me perguntasse...teria tanta coisa para lhe dizer que não saberia nem por onde começar.

Mas o fato é que ele nunca pergunta, e aquela sensação estranha já passa a se alastrar por meu corpo. Não o tesão, algo vazio, que traz vontade de chorar por tudo e ao mesmo tempo por nada. Mas eu não choro na frente dele, ele não pode saber que sou fraco, ele já é forte o suficiente por nós.

Retiro minhas roupas e me deito na cama, cheirando á álcool, tabaco e a canela, proveniente de meu perfume. Ele se desnuda completamente e se engatinha sobre meu corpo. Raramente me olha nos olhos, ele não quer ligações além das corporais. Não quer envolvimento que não seja o físico.

Beija meus lábios de maneira firme, que com dificuldade eu acompanho. Me morde os ombros e segue aos meus mamilos. Ele me cheira, gosta da minha fragrância doentia. É perceptível o quanto ele se excita com meus gemidos, porém, não sei com qual deles: meus gemidos de dor ou meus gemidos de prazer. Ele me possui sem muitas preparações, e eu tenho vontade de gritar e de falar uma leva de infortúnios em seus ouvidos.

Mas esqueço de todo o meu ódio quando olho para o seu rosto contorcido de deleite. Mordo meus lábios e me insinuo descaradamente quanto ouço os barulhos que tenta em vão conter em sua garganta. Eu o instigo a me possuir de todas as maneiras apenas para saciá-lo e cansá-lo de prazer. Ele é meu vício, e os vícios, devem ser cultivados antes que eles pensem em nos abandonar.

Meu corpo dói e sinto as vibrações do prazer latente se espalhando por cada terminação nervosa. Rezo interiormente para que desta vez eu possa me desmanchar no ápice do vórtice de sensações provenientes deste ato carnal.

A cama range de acordo com a violência dos movimentos empregados. Eu o aperto dentro de mim de forma dolorida, repetidas vezes,enquanto o abraço com força e ele segura meu quadril, afundando seus dedos delgados em minha pele clara. Agora já não vejo, apenas sinto e finjo que minhas emoções são compartilhadas. Eu não suporto por muito tempo e uma onda avassaladora de calor e dor ultrapassa meus sentidos me levando ao ápice da satisfação. Sinto quando o mesmo ocorre com Severus e ele se desmancha dentro de mim.

Um sorriso puramente idiota toma conta de meu ser. Por minutos ele fez parte de mim, tão vividamente que pude senti-lo. Por minutos desgastantes e delirantes, nossos corpos se tornaram unidos e únicos e companheiros em busca de uma mesma jornada. Por sádicos minutos, nós compartilhamos o que de mais íntimo pode existir. Oras, um verdadeiro milagre da natureza a tal da cópula. Ainda não compreendia como isso podia ser considerado pecado. Pecado era o momento da separação e do frio instantâneo que se espalhava por minha cútis e arrepiava os pêlos de meu corpo.

Por alguns minutos inteiros eu realmente poderia acreditar que Severus era doce, e não azedo. Ele me deu algo em troca, não?

Minha genialidade bestificada me fazia virar para o lado esperando uma simples troca de olhares que fosse. Mas a única coisa que via era suas costas. Ele sempre aguardava alguns minutos, apenas para se recompor,. E eu tinha medo de estender minha mão e tocá-lo. Tinha medo de nunca mais retornar.

Ele se vestiu, tomou um longo gole de minha champanhe e disse sem me olhar: "--Adeus, Potter."

A chave estava na porta, e ele sabia o caminho de olhos fechados. E este era o meu momento. Em que eu atirava meus lençóis com raiva de cima da cama, numa vã tentativa de desimpregnar o perfume que ele havia me deixado como único consolo. Os pisoteava com ódio, mas já esperando o próximo encontro.

Agora o cigarro forte já estava preso em meus lábios, entre uma tragada e outra, e a taça da minha bebida borbulhante firme em minhas mãos e criando pequenas ondulações em seu interior devido aos meus soluços.

Meu diafragma está espasmando. Interessante relação que sempre que ele se vai, o soluço me ocorre.

A sensação de desconforto percorre meu corpo, a medida que as sacudidas se fazem presentes. Fecho a boca com força pra evitar os barulhos constrangedores. Isso faz com que uma pequena dor, mas incomodativa, se arraste para o meu peito.

É estranho. Apenas quando ele dá as costas, isso ocorre.

Dizem que o soluço ataca aos ladrões de açúcares. Os raptadores de doce. Mas ele já me desce rasgando. Ele é completamente acre, um azedume que contrasta com minhas teimosas e independentes lágrimas salgadas. E meu pensamento se perde bem como a fumaça que aos poucos se dissipa no ar e a bebida que se perde em minha garganta.

Como todos os outros "Adeuses", eu ainda possuía esperança de um singelo "Olá", com a certeza de que ele sempre iria retornar. Enquanto isso, sádicos e bem vindos vícios continuariam a me acompanhar pelos longos e vazios dias que me perseguiam, enquanto eu apenas desejava um único dia da semana. O dia dele.


N/A: Meus humildes e sinceros agradecimentos aos comentários de Bella Snape BR (concordo plenamente com tudo o que tu escrevestes :) e Mara (não é uma 'continuação' devidamente dita, mas espero que te agrade!). Bjx à todos que leram. (((((o.o)))))

E antes que digam: sei! Harry tá muuuito estranho, e Severus um tanto quanto malvado!!!!