Capítulo 2 – A jornada
Eu continuei vivendo minha vida, simples como ela era, não me aborrecendo ou perdendo tempo em tentar descobrir o motivo de eu ser evitado. Ainda agora eu digo: talvez fosse melhor assim. Mesmo assim, havia algo que ainda me preocupava, que me fazia pensar. Minhas marcas. Toda vez que isso era trazido ao assunto, tanto meus irmãos como meus pais hesitavam em me dizer. Estava chegando a hora de eu descobrir.
Anos depois do episódio com Ront; ao qual felizmente não tive mais contato, eu já era um Dragão mais desenvolvido. Meu tamanho dobrara; minhas asas cresceram e minhas marcas permaneceram. Eu era o que pode-se dizer um adolescente, ou algo mais. Eu continuava limitado aos campos e florestas do meu vale, apesar de um desejo de descobrir mais sobre o que havia lá fora. Eu era confiante de que sobreviveria; treinara com meu pai e irmãos, e havia o mais natural instinto de sobrevivência. Porém, não tinha a permissão para sair. Era somente o que faltava.
Com o que fui crescendo, fui ficando cada vez mais curioso sobre as minhas marcas nos olhos. Eu mesmo as estudava; parava ao lago e as observava, sem compreender o que significavam e para que serviam, apenas limitado a encará-las como um simples acessório á minha aparência. Mas ainda não era muito suficiente. Eu mesmo me dizia para não perder tempo fazendo isso, mas parecia inevitável. Porém, isso tudo era mantido em segredo dos meus pais; eu sentia que eles não queriam que eu soubesse. Não sabia por quê, mas eu sentia isso.
Meu pai sempre contou histórias, tanto de suas aventuras no mundo lá fora como outras que eram passadas por gerações, e uma em particular sempre me chamou a atenção. Um Dragão que vivera mais de 50 milênios e que possuía saber e inteligência acima de tudo que já fora visto. O Dragão Sábio. Suas histórias eram motivantes, começaram a me dar um objetivo. Muitos diziam que ele possuía o poder de responder qualquer pergunta que lhe fosse feita, o que me atraiu a atenção. Mas também, muitos outros diziam que era praticamente inviável e impossível chegar até onde ele ainda vive, passando pelos desafios de seus tão pouco conhecidos guardiões. Foi nessa época que eu comecei a descobrir o que deveria fazer.
Durante uma rigorosa temporada de chuvas no vale, todos da família permaneciam dentro de nossa caverna, abrigados e confortáveis, convivendo e conversando, passando um tempo que certamente toda família deve. Foi aí que tive o impulso de perguntar a meu pai, perguntá-lo sobre o Dragão Sábio.
Enquanto uma tempestade ocorria do lado de fora, chamei a atenção do meu pai e o levei a uma das extremidades de nossa caverna.
— Pai, eu quero conversar com o senhor.
— Pois não, filho — Ele disse, com seu clássico sorriso tranqüilo.
Eu tentava achar as palavras certas.
— Eu... Eu quero procurar o Dragão Sábio. — Disse, erguendo meus olhos até o rosto do meu pai. Ele apenas riu e repondeu:
— Ora, Jason, todos nós queremos! — E ria. — Tem sempre algo que nós desejamos saber.
— Pai. Eu quero mesmo procurar o Dragão Sábio.
O sorriso lentamente se esvaiu do rosto de meu pai.
— ... Jason... Meu, meu filho, você...
— Eu estou realmente decidido, pai, só não podia fazer sem dizer ao senhor. — Eu acrescentei, sério. Eu tentei não olhar para os olhos azuis do meu pai, eles começavam a demonstrar preocupação.
— ... Eu compreendo. — Levantei meu rosto, surpreso — Não, eu estou falando sério. Você tem o direito.
— Não vai perguntar o que quero fazer? — Perguntei por fim, sem saber que parecia um pouco rude e desconfiado.
— Eu sei o que você quer. Só receio que eu não seja mesmo a pessoa a contar a você.
— Mas então por quê...
— Eu não posso. — Ele interrompeu, falando em um tom sério e decidido, porém também magoado. — Não posso mesmo. Não saberia como... E afinal, o que posso fazer, se meu filho quer sair por aí e se aventurar, não posso impedi-lo. E além disso — ele completou, antes de eu poder responder — , eu acho que você é capaz de descobrir e desvendar o mundo lá fora.
Eu novamente procurava as palavras certas, impressionado com a facilidade de com qual meu pai cedeu. — Mas, pai... Você deixaria mesmo eu sair?
— Meu pai me deixou, então eu deixo você. Você tem direito de ser livre. — Ele agora voltou a sorrir — Mas, você terá somente que me fazer uma promessa agora, meu filho.
— E qual seria?
— Espere mais alguns anos. Não, verdade, eu não digo muitos. Só... o suficiente. Posso ter dado a permissão, mas não sou ingênuo ou irresponsável, você ainda é muito jovem. Ah, é sim — disse ele ao ouvir meu protesto. — Você vai prometer esperar mais alguns anos, até estar pronto, e quando essa hora chegar, não vou te impedir. — Ele então acrescentou, voltando ao tom sério que eu sempre associava a um pedido ou a um problema — Eu só quero que você passe um pouco mais de tempo conosco, Jason. Não quero te ver indo embora ainda.
— Eu não vou embora. Embora por si dizer...
— Eu sei. Mas você vai manter sua promessa?
Eu refleti um pouco antes de responder. Não por pensar em mentir, mas sim em considerar realmente o que estava sendo pedido.
— Sim. — Concluí — Eu vou esperar mais um pouco, pelo menos eu sei que você entendeu.
— Claro, meu filho, claro. — E em um instante, o Dragão calmo e sempre alegre que meu pai era voltou. — Então! Vá até sua mãe, ela precisa de você. Acho que um dos seus irmãos misturou as ervas medicinais dela, e eu sei que você sabe de qual dos dois eu estou falando. — Ele sorriu. — Vá lá ajuda-lá.
Anos depois, na campina onde a grama verde clara reluzia o suave sol da manhã, havia um grupo de Dragões parados em frente á uma caverna. Meu pai, o Dragão branco, estava parado ao lado de minha mãe. Junto deles estavam meus dois irmãos e eu. Parecia que havia acabado de amanhecer.
— Está um lindo dia mesmo, não? — Disse minha mãe, Jane. — Parece que a sorte sorriu para você, Jason.
Minha mãe sorria; mas eu podia sentir que lá dentro, ela escondia estar muito triste. Eu me contentei em assentir para ela.
— Jason — Começou meu primeiro irmão mais velho Alex; que agora era menor do que eu, devido ao tamanho que eu adquiri ao passar de mais alguns anos. — Você voltará logo?
Alex, por mais que fosse o irmão do meio, agia como se fosse o mais novo. Bem mais novo. Ele é tranqüilo, amigável, e um pouco ingênuo; o que faz muitos pensarem que é o mais novo de nós três.
— Eu não sei, Alex. Não posso ter certeza. — Eu estava sentado a olhar para o céu e as nuvens. Completei quando vi a expressão de decepção estampada no rosto dele — Eu pretendo descobrir logo o que quero, aí volto para casa.
Alex pareceu mais feliz; no entanto meu pai, Randor, parecia estar com a mente em outro lugar.
— Pai? — Perguntei, calmo, e levantei meu rosto quando ele piscou depressa e olhou para mim, um pouco preocupado. — Tem alguma coisa errada?
Ele apenas balançou o rosto, forçando um sorriso. — Parece que eu interrompi um pensamento importante. — Eu perguntei, sustentando o olhar dele.
— Não, está tudo bem, filho. — Ele respirou fundo. — Eu só queria que esse dia não tivesse chegado tão rápido.
— Por quê, você acha que eu vou me perder na nossa floresta a 10 metros daqui, tropeçar e cair em um buraco e sofrer um ferimento fatal? — Perguntei, cético.
— Ora, claro que não! Eu só... Ora, esqueça. — Ele balançou o rosto, rindo. — Eu acredito que você olha por onde anda.
— Eu vou voltar. — Eu afirmei, agora sério. — Não se preocupe.
Meu pai sorriu. Minha mãe, ao lado dele, sorriu também afetuosamente para nós dois.
— Eu sei disso. Mais uma vez, acredito em você. — Ele disse, confiante e calmo.
Dessa vez, meu irmão mais velho Gray se aproximou, fixando seus olhos negros, mas amigáveis em mim. — Assim que você voltar, terá que nos contar tudo o que aconteceu.
— Certo. — Concordei com o rosto. Agora os outros Dragões saíam de suas cavernas e pareciam curiosos com o grupo que estava parado ali, tão cedo de manhã.
Alex então se encolheu, deprimido, perto de Gray. Estava encolhido nos ombros, olhando as próprias patas. Perguntei:
— O que foi agora? — Eu disse em um tom bravo, sarcasticamente.
Ele pareceu que ia encolher mais, como se já não fosse menor que eu. Então disse: — Você não vai esquecer da gente, vai...?
Eu tentei fingir que ainda estava bravo.
— Se eu bater a cabeça por aí e esquecer de você, eu aviso.
Ele riu. Voltou a se esticar e abanou a cauda vermelha atrás do corpo. Eu me virei para a minha mãe, que olhava carinhosamente para eu e meus dois irmãos.
— Jason, você irá prestar atenção no caminho para não se perder e tentar não se meter em confusões? — Perguntou ela.
— Vou — Concordei.
— Ótimo. — Ela pareceu aliviada — eu quero você inteiro aqui quando voltar. — E ela acarinhou-me com seu focinho.
Eu agradeci e voltei-me para o resto da minha família. Meu pai se levantou, se aproximou de mim e nós tocamos nossas testas brevemente, em um sinal de despedida. Ele sorriu e os olhos azuis dele apontaram para meu irmão Alex, pequeno e vermelho, parado ao lado de Gray. Repeti o gesto que fiz com meu pai com eles também, e me virei para ficar de costas para eles.
Eu olhei o vale onde morava; as montanhas se encontravam ao longe, altas e majestosas, assim como as árvores da floresta enorme abaixo das montanhas. O vulcão ancestral também era facilmente encontrado, destacado acima da floresta á frente do vale. Dezenas de cavernas estavam espalhadas por todo o vale, que era uma campina aberta cercada pela floresta. Fang Valley era meu lar, um lar que eu agora deixaria por um período de tempo, em ordem de descobrir algo sobre mim mesmo que eu desconhecia.
Me virei mais uma vez para minha família; que estava toda agrupada em frente á nossa velha caverna, cinza escura e alta, que tantas vezes nos abrigou contra o frio e a chuva, climas comuns em Fang Valley. Parecia mesmo que a sorte me sorria dando aquele clima agradável e aberto para minha nova e primeira jornada.
Dei uma última olhada em meus irmãos e meus pais, que sorriam alegremente para mim, e então, com um aceno de meu rosto, me virei e comecei a caminhar em direção ao horizonte.
Eu sentia a suave grama sobre minhas patas e o ar um pouco gelado no rosto; encontrava-me na floresta nos limites de Fang Valley. Até ali desconhecida, a floresta me parecia tranqüila e calma, silenciosa em exceção aos galhos e ás folhas que se mexiam com o soprar do vento.
Depois de caminhar e descansar em determinadas pausas, o fim do primeiro dia chegou. A noite começou a descer sobre as árvores e a escuridão caiu em questão de minutos. Encontrei um lugar bom para descansar e me deitei, de lado, colocando o rosto no chão e a cauda por frente do rosto. Não era como dormir na caverna, mas era aceitável.
O vento soprando era o único som da noite. Pelas copas das árvores eu via as estrelas; pequenas e brilhantes, reluzindo ao longe. Tranqüilo e cansado, fechei meus olhos e me pus a dormir.
Fui despertado pelo ar morno da manhã, e pelos raios de sol que atravessavam as copas e as folhas das árvores, ao lugar em que eu estava deitando, a me saudar com seu calor. Abri os olhos lentamente e vi o brilho fraco de minhas marcas na grama em lado do meu focinho. Deviam ter brilhado mais á noite.
Lentamente, me coloquei de pé e estiquei minhas asas, dormentes pela noite fria, e as abri em um movimento. A clareira em que dormi permitia que eu abrisse minhas asas rasgadas o suficiente para esticá-las e acostumá-las de novo. Estiquei então todo meu corpo, relaxando os músculos logo depois. Meus olhos já se acostumavam á claridade do novo dia. Tinha que seguir em frente.
Recolhi minhas asas com outro movimento um pouco mais lento e caminhei em frente, procurando um lago onde eu pudesse me hidratar e molhar a garganta. Segui em frente, e dali á alguns passos, encontrei um pequeno lago, sua água cristalina reluzindo ao sol. Me aproximei e abaixei meu rosto o suficiente para alcançar e beber a morna água do lago.
Depois de refrescar a garganta com a água do lago, levantei meu rosto e olhei o céu. O tempo parecia novamente bom, mas com algumas nuvens a mais no céu azul. Parecia que também seria um dia igualmente tranqüilo.
Na floresta de Fang Valley não moravam muitos Dragões. Aparentemente a maioria dali preferia a campina, devido ao silêncio da floresta. Mas era realmente mais agradável viajar calma e silenciosamente. Porém era curioso, o silêncio.
Depois de algumas horas, quando o sol estava bem ao alto, cheguei á fronteira de Fang Valley. A floresta terminava ali, bem ali, no fim de uma trilha. A trilha havia começado no meio da floresta fechada e me levou até o fim dela, onde se encontrava um campo ainda maior do que o do vale. Á céu aberto, a grama se movimentava ao vento, que soprava agora ruidosamente. Concluí que a única coisa a fazer era seguir em frente.
Me encontrava agora em um lugar desconhecido, uma floresta diferente de tudo que eu já havia visto. As árvores eram gigantescas, suas copas tão alto que eu mal podia vê-las; havia espaço o suficiente para voar por entre as árvores e trilhas de terra seguiam pelo chão, levando a lugares que eu ainda não vira. Entrei nesta floresta estranha, caminhando na trilha silenciosamente, enquanto olhava para os lados e estudava a paisagem.
Desta vez, barulhos naturais enchiam a floresta; ouvia-se as folhas se mexerem ao vento e caírem até o chão, a grama a farfalhar sobre os passos de possíveis Dragões da floresta e meus próprios passos na terra. Contudo, estava sendo uma travessia tranqüila; Eu caminhei e segui a trilha em frente, ás vezes desviando pelos lados, fazendo a volta entre as árvores incrivelmente altas.
Mas, houve uma hora em que senti algo. Senti uma vibração acima de mim, como um movimento veloz e preciso; virei meu rosto para cima rapidamente, mas nada vi além das folhas e o sol a brilhar por entre elas. Desconfiava estar sendo observado. Voltei o rosto para a trilha, mas apurava os sentidos para notar qualquer mudança repentina, me preparando para o que viesse.
Foi então; um movimento veloz como o próprio vento, passou dando um rasante acima de mim, seguido de uma explosão de folhas que se desprendiam dos arbustos no chão, devido á velocidade em que a tal coisa passou. Tive uma reação rápida e virei meu rosto e pescoço para trás, a direção onde o movimento havia seguido.
Em um galho suficientemente grosso, estava pousado um Dragão; parecido com uma ave grande, com um focinho longo e pontudo e asas junto aos braços, ele me encarava, esperando. Era alaranjado, possuía diversos espinhos nas costas e tinha também uma cicatriz perpassando o olho esquerdo. Curvou-se um pouco para frente e continuou como estava.
— Quem é você? — Perguntei, ao me virar depressa e me posicionar; ainda não confiava no estranho que me seguira.
— Tenho uma pergunta melhor. O que você está procurando? — Disse ele em resposta, ainda na mesma posição.
— Não lhe devo satisfações.
— Tudo bem... Mas é mais educado se apresentar. — Respondeu o Dragão laranja, voltando o corpo um pouco para trás. — Meu nome é Aeri.
Eu continuava um pouco abaixado, desconfiado das intenções daquele Dragão desconhecido. E ainda me surpreendia o fato de ter aparecido ali como um passe de mágica.
— ... — Pensei um pouco antes de dizer algo. — Meu nome é Jason.
— Ora, bem-vindo então á floresta dos Ares, Jason. — Falou ele, abrindo uma asa ao lado para me mostrar as árvores.
Não respondi.
— Eu vejo que você não veio até aqui para passear. — Disse o Dragão. — Mais uma vez, o que você está procurando?
— O que você teria a ver com isso? — Indaguei, firmemente.
— Desconfiado, não é? Pois bem. — Ele fechou as asas perto do corpo. — Acho que então não posso te ajudar. Espero que aproveite a estadia.
Ele se virou no galho, mas não saía do lugar. Eu estava agora com o corpo relaxado, mas permanecia desconfiado. O que ele sabia?
— O Dragão Sábio. — Eu disse, por fim. — Estou procurando o Dragão Sábio. Mas me pergunto... — Ergui o rosto, cerrando os olhos, ao ver ele voltar o corpo para frente — ... O que você saberia disso?
— Pergunta interessante — Falou o Dragão, calmamente. — Percebi que você estava passando direto pela floresta, procurando algo. Mas não acha que é jovem, ainda?
— Responda a minha pergunta — disparei.
— Acontece que eu sou um dos Guardiões do Dragão Sábio; e tão bem como o desta floresta. Conheço aqueles que desejam ter essa jornada. — Respondeu ele, ainda no galho onde estava.
Então, ele era um dos Guardiões das histórias?
— Você é... Um dos Guardiões? — questionei, desconfiado.
Ele assentiu.
— Se você é um dos Guardiões, — comecei. — como você poderá me ajudar?
— Bom, eu não sei se você pretende andar o mundo inteiro atrás do Dragão Sábio, mas eu poderia ajudar você a seguir um caminho. — Ele respondeu. — Um atalho.
Eu o encarava, suspeitando de sua oferta. — E eu presumo que você não vá me ajudar de bom grado, certo?
— Garoto esperto. — Sorriu Aeri. — Infelizmente eu não posso.
— Infelizmente...?
— Eu conheço seu pai. Uma boa pessoa.
— O quê? — Perguntei, surpreso; mas Aeri já havia voado do galho onde estava e já tinha dado outro rasante em mim. Mas uma vez, as folhas voaram com o vento que ele produziu. Voltei-me para trás.
— Vamos rapaz, você sabe o que tem que fazer. — Ele riu; estava no chão desta vez, parado em duas patas, com as asas abertas; parecendo um grande morcego laranja.
Concluí que não adiantaria mais fazer perguntas, então me preparei para o que sabia que viria depois. Os desafios que contavam as histórias eram de fato batalhas, lutas para derrotar os Guardiões. Agora eu entendi que seria necessário derrotá-lo para descobrir para onde seguir. Para falar a verdade, eu realmente não sabia para onde iria se saísse dessa floresta; estava despreparado, sem conhecer os caminhos. Mas para isso também existe a primeira vez.
Abaixei meu corpo rapidamente e abri minhas asas; esperando o primeiro ataque. Meu pai, em nossos treinamentos me dizia: "Haverá vezes em que você deverá esperar seu oponente atacar primeiro, para conhecer o modo como ele luta e preparar um contra-ataque.".
Eu esperava ver se ele iria atacar de novo do mesmo modo em que apareceu, em movimentos rápidos e evasivos, ou se ele teria um modo diferente de atacar. Aeri então abriu ainda mais as compridas asas e saltou; no próximo segundo bateu as asas fortemente, levantando terra e folhas do chão. Cobri meu rosto com minha asa á tempo, mas logo as tirei da minha frente para ver o próximo movimento de Aeri.
Recuei com um pulo, um segundo antes do Guardião acertar o chão com as patas traseiras, que possuíam longas garras. Ele tornou a levantar vôo, mas antes de sair do meu alcance, disparei contra ele um jato de chamas.
Ele recuou para trás, para se desviar do meu ataque, mas quando eu fui mudar o trajeto do jato de fogo, ele hesitou; fez um movimento brusco e se atirou em frente ás chamas, vermelhas e luminosas, que clareavam o chão.
Ele recebeu as chamas, com as asas cobrindo o corpo, mas logo depois eu parei de atacá-lo; percebia que ele estava tentando proteger a floresta, impedí-la de ser incendiada. Eu recuei uns passos e esperei o que ele faria a seguir.
Aeri, batendo as asas para recuperar a estabilidade no ar, sorriu para mim e subiu mais ao alto. Pousou um outro galho; precisei erguer todo meu rosto para cima para alcançá-lo com o olhar.
— Obrigado, rapaz. — falou ele. — Mas ainda não acabou.
Ele abriu as asas longas novamente; e velozmente avançou com o focinho apontado para o chão. Eu me agachei e tensionei os músculos das minhas quatro pernas. Quando ele viesse, eu pularia e o atacaria por trás. Mas Aeri foi mais esperto; ao chegar perto do chão, soprou o chão com a força de suas asas e uma nuvem de terra e folhas se ergueu do chão, cegando-me por uns minutos.
Abri minhas próprias asas e as agitei, espalhando a nuvem de poeira e terra para poder enxergar melhor. Estava esperando um ataque de Aeri, mas de onde viria? Então, de súbito, o Dragão laranja apareceu por cima de mim e me arremessou para o lado, com as pernas e garras fortes.
Rolei no chão, mas logo me recuperei pondo-me de pé novamente, para ver Aeri subir velozmente mais uma vez. Ele, chegando ás copas das árvores, deu uma guinada e se virou, pronto para mais um rasante. Eu então me voltei um pouco para trás e pulei no galho em que ele estivera antes, esperando ele chegar, para emboscá-lo.
Assim que Aeri notou o que eu tentava fazer, desacelerou-se no ar e fez um movimento para o lado, contornando uma árvore do outro lado da que eu estava. Mas mesmo assim, no momento em que ele chegou á uma altura considerável e parou no ar, eu pulei em sua direção, com as garras á frente.
Aeri desviou; porém, em segundos nos qual eu descia por onde o guardião estava, eu coloquei minhas patas á frente do corpo, as encostei em uma árvore na minha frente e, virando o corpo, tomei impulso ao contrário e pulei novamente nele, pegando-o despreparado.
Nós dois caímos; pressionei minhas garras contra os ombros do meu oponente e o forcei até o chão, onde ele bateu com um estrondo; folhas voaram do chão.
Momentos depois do impacto, retrocedi rapidamente e saí de cima de Aeri. Curvei meu corpo para frente e o observei enquanto ele tentava levantar. O guardião tremeu e cambaleou; havia caído em cima de uma das asas, que estava amassada e ferida. Aeri pôs-se de pé com um esforço e me encarou fortemente. Não havia desistido ainda.
Com uma asa machucada, alguém como Aeri — que presumo que seja um Dragão do Ar — não tinha mais tantas condições de atacar. Entretanto, o corajoso Guardião não desistira. Havia se colocado de pé e dobrara a asa ferida, para que ela não atrapalhasse no combate.
Eu avancei; colocando as presas para fora, o ataquei, ignorando o fato de que ele estava ferido. Era uma batalha, não uma brincadeira. Aeri revidou com a pata que não estava ferida junto com a asa, me arranhando enquanto nos engalfinhamos no chão. Nós dois nos levantamos e avançamos um contra o outro novamente; quando o Guardião me atacou, virei meu corpo e ele acertou o braço em meus espinhos. Guinchou de dor ao cair novamente no chão, a asa pendendo ao lado. O levantei e o agarrei com minhas garras; então o atirei para longe, fazendo-o rolar e bater em uma pedra, perto de uma árvore acinzentada. Assim que ele fazia um esforço para se por de pé novamente, parei perto dele e pressionei minha pata esquerda abaixo do pescoço dele; abri minhas asas provocando mais folhas a se levantar e uma sombra sobre o Guardião ferido, no chão.
Eu estava arfando levemente, a batalha estava sendo complicada. Mas, assim que Aeri, o Dragão laranja virou o rosto para mim, enquanto estava no chão, um sorriso brotou no rosto longo do Guardião.
— Isso foi incrível. — Falou ele, eu notando que ele também arfava. — Você me derrotou.
Eu, surpreso e cansado, tirei a pata do peito do Dragão caído. Acabara de ganhar contra um dos Guardiões do Dragão Sábio.
— Fazia muitos anos que eu não perdia! — Aeri se colocou de pé de novo, com um pouco de dificuldade. — Você luta muito bem, garoto.
— Treinei com meu pai — Falei. — Aliás, você diz que o conhece. Como?
— Bom, — O Guardião disse, entre osciladas em que ele respirava fundo. — O conheci ainda muito pequeno. Éramos bem amigos.
— "Éramos"?
— Eu não vejo seu pai há muito tempo; o conheci pouco depois que me tornei Guardião. — Aeri disse. — Ele me procurou, por algumas vezes, mas depois que tinha sua família, não nos vimos mais.
— Mas é consideravelmente perto de Fang Valley em que você mora. — Argumentei.
— Você quer mais visitas, então, Jason? — Disse ele, brincando.
— Não — disse.
— De qualquer modo, você me venceu. Eu tenho o dever de te dizer onde o próximo Guardião está.
Eu me sentei na grama escura, lentamente, enquanto fechava minhas asas. Agora saberia o próximo passo de minha jornada.
— Diga. — Eu falei, descansando a respiração.
— Seu próximo passo é achar o Deserto, seguindo á noroeste daqui. — Ele apontou com a asa ainda boa. — Lá estará o próximo Guardião a te aguardar.
— Como ele saberá...?
— Ah, ele vai saber. Espirituoso, ele. Saberá assim como eu. — Sorriu Aeri. O Guardião se sentou e encostou em uma árvore, colocando a asa ferida em frente ao corpo.
— Desculpe por isso. — Disse, me sentindo um pouco culpado ao olhar a asa amassada de Aeri.
— O quê, isso? Nah, eu saro logo. — Ele deu de ombros, calmo. — Você tem potencial. É quase tão bom quanto seu pai.
— Já lutou com ele? — Eu questionei, curioso. Pensava agora, por que meu pai nunca havia dito que conhecia um dos Guardiões?
— Claro. Ele é um oponente forte. Pudera... — Ele riu.
Eu não tinha entendido muito bem a última parte, mas Aeri já falava mais uma vez:
— Boa sorte na sua jornada, Jason. Você é um rapaz interessante, deveria conhecer o Dragão Sábio. — Aeri sorriu mais uma vez, e não pude deixar de pensar que ele olhara para as minhas marcas nesse momento.
— Obrigado. — Respondi, satisfeito, embora curioso. Me levantei e alonguei minhas asas; ainda me sentia um pouco cansado.
— Nos veremos de novo — garantiu o Guardião, enquanto ele encostava de novo na árvore e ficava a repousar a asa machucada.
Fiz um sinal com meu rosto, e então me virei, voltando agora a seguir a trilha que se alongava pela floresta escura e fechada.
O sol escaldante agora esquentava minhas escamas enquanto eu caminhava vagarosamente em uma trilha, na base de um deserto; já fazia dias que havia saído de casa e pouco menos dias ainda que saíra da Floresta dos Ares. Andara naquele maldito deserto horas a fio e nada de Guardião. Será que Aeri era uma farsa e por isso meu pai não contara nada sobre ele?
Estava a desistir de caminhar quando vi uma árvore comprida ao longe; era suficientemente grossa para eu me deitar em sua sombra.
— Ah, bom. Desde que não seja uma miragem. — Reclamei para mim mesmo.
Marchei lentamente até a árvore, — que felizmente não era uma miragem — e me deitei na areia fria que estava sobre a sombra escura e bege. Enrolei a cauda longe do corpo e abri as asas sobre o chão; estava muito calor. Quanto tempo eu descansaria ali não importava, eu estava abatido e com muita sede. Não fraquejaria e desistiria, mas também não seria estúpido de continuar sem descanso e acabar morrendo no deserto.
A Floresta dos Ares mal podia ser vista agora, e um sentimento incômodo se apossava de mim enquanto eu descansava. Será que Aeri me mandara ali para morrer, ou seria aquilo só mais um desafio do Dragão Sábio e seus Guardiões?
Sobressaltei-me quando algo de repente fez a areia tremer abaixo de mim; me levantei e procurei a origem do tremor mais atentamente. O terremoto de fato vinha do subsolo, mas o que estaria causando aquilo? Eu olhei para o chão dos lados, mas nada parecia se manifestar. "Talvez fosse um tremor natural", disse a mim mesmo.
O terremoto parou. Fiquei a contemplar os quilômetros de areia, ainda procurando a origem daquilo. Seria mesmo um fenômeno natural ou...
Como já havia descansado o suficiente, resolvi voltar a andar na mesma direção em que antes estava, a ponto de sair do deserto. Como vinha de um lugar onde chovia ocasionalmente, aquele clima era terrível para mim. Além de não ter chance alguma de eu arranjar vantagem naquele tipo de lugar. Eu, roxo como sou, era como fogo em uma floresta.
Mais horas se passaram enquanto eu andava sem destino naquele deserto que não tinha fim. Será que havia andado em círculos? Saíra da rota? Um dia sairia dali? O Sol já não mais tão quente estava a se por quando, por fatiga, decidi mais uma vez me deitar para descansar; nessa vez á sombra de uma rocha marrom, semi-enterrada na areia.
Fui fechando os olhos lentamente no que o cansaço se apoderava de meu corpo. Tudo o que queria era que chovesse; assim me recuperaria e continuaria meu trajeto. Mas e o tão dito Guardião? Existiria ou eu estaria apenas perdendo tempo naquele lugar?
Abri meus olhos quando senti o calor mais uma vez a acertar minhas escamas; a sombra da rocha tinha saído do lugar em que estava ao pôr-do-sol e agora metade do meu corpo estava a esquentar de novo. Porém, descansado, eu me ergui do chão e me espreguicei; a jornada tinha que continuar. Eu não iria ficar naquele maldito deserto para sempre.
Retornei a minha caminhada pela a areia quente, dando passos apressados, devido á temperatura do solo e somado a minha pressa de sair dali. Apressando-me com a boca semi-aberta; carecido do calor que já apossava meu corpo, segui em linha reta por mais longos minutos.
Foi em um momento então, que o tremor do dia anterior se repetiu. Eu parei de súbito, sentindo o chão tremer sobre minhas garras. Olhei em volta novamente, mas nada diferente estava em volta. Estava quase a relaxar os ombros quando algo repentinamente agarrou os meus braços, por baixo da terra. Sem nem ter tempo de me espantar, a coisa me arrastou violentamente para dentro da areia.
Minutos de escuridão passaram enquanto eu era arrastado dentro da terra por algo desconhecido. Lutando para me desvencilhar, eu me agitava, mas somente sentia meus espinhos e minhas asas a raspar na areia enquanto eu descia cada vez mais.
No outro momento então, fui solto. Caí de lado em areia fria, e com dificuldade por causa do escuro, me levantei, preparado e despreparado ao mesmo tempo. Por silenciosos minutos nada vi além dos centímetros de luz que emanavam das minhas marcas.
Outro tremor; dessa vez ao meu lado. Me virei instintivamente, mas o som vinha agora de outro lado. Notei então que eu estava em uma espécie de câmara, um túnel. Um som de rompimento e areia deslizando, e então, luz. Vi uma chama pequena no "chão" de areia, e acima dela, um corpo esguio de um Dragão bege com listras marrons e negras, parado atrás da chama.
Instintivamente me abaixei e tensionei os músculos dos braços, preparado para interceptar e atacar o agressor desconhecido. O Dragão longo e magro deu dois passos em direção á chama e vi olhos acinzentados reluzirem ao brilho do fogo.
— Ora ora, parece que acertei mesmo. — Falou ele, em um tom de surpresa. — Você é o Dragão jovem de que Aeri falou.
Parei de repente. Então Aeri dissera a verdade, pensei.
— Como sabe? — Perguntei, voltando a abaixar meu corpo.
— Os Guardiões tem um modo legal de transmitir mensagens. Só não pense que eu vou logo revelando tudo para você. — Respondeu o Dragão bege.
Os Guardiões... Então ele era mesmo mais um Guardião. E aquela hora... Em que Aeri fechou os olhos e se inclinou... Estaria passando uma mensagem para o Dragão do deserto?
— Você é o segundo Guardião.
— Teoricamente, desde que nem todos os desafiantes da lenda vem de Fang Valley. — Falou ele.
Então era mesmo verdade. Não haveria mesmo como ele saber daquilo sem que Aeri tivesse dito. A desconfiança sobre o Guardião da Floresta se esvaiu, mas recaiu sobre o novo desafio que se encontrava parado a minha frente.
— Pouco importa — Disse eu, sem sair da posição de batalha. — Como saio daqui?
— Você é mesmo apressado e meio rude, como o Aeri também reportou. — Falou, divertido, o novo Guardião. — Calma aí, garoto, logo vai ter suas respostas. SE, me derrotar, é claro.
— Eu só não pretendo morrer em um buraco, ainda menos viver nele. — Disparei, abaixado, encarando os olhos cinzas do Dragão terrestre.
— Isso me ofendeu! — Disse ele, erguendo o pescoço. Mas não parecia ofendido, parecia divertido. — Bom, se é o que você quer... — Ele então esticou o corpo esguio para frente, apontando o focinho longo para mim. Forcei minhas garras na areia e me preparei para a nova batalha. Só não tinha certeza de como lutaria em um lugar tão pequeno.
— A propósito, meu nome é Kehrut. Mas não se preocupe, eu já sei o seu — Falou o Guardião, em um tom de provocar. Eu rosnei ao que ele riu, depois de falar; mas, no próximo segundo ele estava metade dentro da terra, só para desaparecer sobre a areia e o tremor voltar a sacudir o chão e agora o teto.
Olhei para os lados quando a voz alegre e provocada ecoou nos túneis de areia.
"Você está nos meus túneis, garoto! O Deserto Subterrâneo é onde eu moro, e eu acho que você não está muito acostumado com esse tipo de lugar!"
Rosnei e me virei, procurando de onde vinha a voz. Parecia sair das paredes; ele estava perfurando a areia com seu focinho longo, possivelmente garras e corpo comprido. Tinha que encontrar de onde vinha e o interceptar.
"É difícil, não é? O objetivo do meu desafio é ver se você sobrevive e reage em desvantagem. Legal, não?" A voz do Dragão do deserto ecoou novamente.
— Legal para você — Pensei. — Mas não se incomode, eu vou te achar.
Olhei para os lados, sentindo os tremores e vendo as luzes da minha marca nas paredes; então, saindo pro trás de mim, o Guardião me atacou com suas garras longas e afiadas e me fez cair. Virei meu rosto depressa e abri minhas mandíbulas, com o objetivo de morder o braço do inimigo, mas ele já havia desaparecido mais uma vez dentro da areia.
Inquieto, olhei para os lados pra tentar interceptar o Guardião. Súbita e instintivamente eu ataquei uma parede com minhas garras dianteiras; a parede de areia se desmanchou e o Guardião rolou, surpreso até o chão. Percebi que era só atacar pouco antes de onde o tremor vem.
Antes que eu pudesse atacar novamente, o Dragão bege voltou a se colocar dentro da areia; Pressionei com força o buraco onde ele entrou e olhei em volta, procurando por onde ele sairia em seguida.
"Essa foi quase, mais um pouco e você consegue!" Incentivou em vão a voz dentro dos túneis subterrâneos.
— Covarde. — Ciciei, enquanto me abaixava e olhava atentamente para os lados.
Foi quando uma cauda longa me acertou direto no rosto, vindo de baixo. Rosnei quando a dor chicoteou o lugar que havia sido acertado.
Agitei meu rosto, cerrando e expondo minhas presas. — Parece que você não sabe só se esconder. — Falei, para as paredes que tremiam.
"Pois é, eu teria que saber alguma coisa para ser um Guardião. Cuidado onde pisa!" Gritou a voz nos túneis escuros, quando mais uma vez a ponta de uma cauda bege saiu do chão e chicoteou meu rosto. Retrocedi, mas foi um erro. Por uma fração de segundo vi os olhos cinzas do Guardião na minha frente, e o corpo dele a rodar e me acertar com violência.
Caí para trás; um súbito terror tomou conta de mim segundos antes de eu perceber que estava na beirada de um buraco gigantesco, longo e escuro. No que fui jogado, escorreguei pela beira de areia e me segurei, por pouco, no extremo do buraco. Abaixo de mim só se encontrava um profundo e escuro nada. Fiz um esforço para voltar ao túnel superior; a areia se desmanchava sobre a pressão de minhas garras.
"Eu avisei". A voz soou novamente.
Com um esforço, me pus de pé novamente, no túnel iluminado pela chama. Meu coração batia forte e rapidamente, ainda agitado e surpreso pelo buraco colossal em que quase caí. Pulei para longe da beirada, procurando o som do Guardião a se locomover pelas paredes de areia. Olhei para os lados, e tentei seguir pelo túnel do outro lado, chegando a uma parede alta, e aparentemente mais sólida. A areia bege e marrom brilhou com as minhas marcas ao que me aproximei.
Outro ataque; o Guardião saíra mais uma vez da areia e me jogara com as quatro patas de garras longas até o extremo do novo túnel. Quando acertei a parede, a dor que acertou as minhas costas foi muito maior do que a de antes. Cambaleando para frente, virei o rosto e localizei o que me causara a dor extra. Uma pedra, enterrada na areia. Mal podia-se ver a superfície áspera e escura da rocha quando não se olhava com atenção; e nos minutos que o Dragão da areia não atacava eu pensei em um plano.
Kehrut se aproximava novamente; sentia a pressão na areia. Me coloquei junto á parede, de lado, expondo o flanco direito; esperava que o Guardião caísse na armadilha. Mas, assim que eu senti ele se aproximar, o Dragão bege e marrom desviou o trajeto e passou de uma parede á minha direita para o chão, a ponto de me atacar por baixo. Mas eu pensei rápido.
Com as presas á mostra, o Guardião saltou da areia pelo chão; me desencostei da parede e saltei no momento certo. Passei raspando no teto de areia do túnel por cima do inimigo, e assim que toquei o chão novamente com minhas patas fortes, virei em um movimento astuto e o acertei com força, usando as asas, por trás; o Guardião foi lançado á frente e se chocou intensamente contra a pedra enterrada.
O oponente tombou á parede do túnel, abatido. Parei onde estava após acertá-lo e esperei o que ele faria a seguir; se a luta tinha acabado ou não.
O Guardião se pôs de pé com dificuldade, mas disse rindo:
— Isso doeu! Você foi bem esperto... E ágil.
Abri minhas asas desafiadoramente, ainda preparado para um contra-ataque.
— Ei, calma aí! — O Dragão bege gemeu, virando-se para mim. — Você já ganhou! Ou você ainda quer bater em mim? — Perguntou.
Desconfiado, virei o rosto levemente para o lado, o encarando.
— Isso foi suficiente para me convencer. Bom trabalho! — Falou o Guardião alegremente.
— Mal lutamos — Disse eu. — Você só ficava na areia, se escondendo e me emboscando.
— Mas é claro. Eu não disse que o objetivo do meu desafio é você lidar com desvantagem? Você não perdeu a calma e usou a cabeça; é isso que é necessário para passar no meu teste. — Concluiu Kehrut, sorrindo. Fez uma careta de dor e acrescentou: — E também, infelizmente eu não sou assim tão resistente.
— Hum — Disse, baixo. Logo depois, me sentei ao ver o Guardião fazer o mesmo. Seu focinho estava meio sujo e ele o esfregava com a pata de garras cinzas e longas.
— Você quase amassou minha cara naquela pedra! Eu quase nem reparei que você ia pular por trás de mim. A propósito, — parou ele, ao que eu bufei de leve, indiferente. — desculpe.
Me virei, confuso. — Pelo quê, exatamente?
— Eu tinha que te provocar. Tinha que saber seu potencial. Desculpe se alguma hora o ofendi. — Disse ele, sincero.
Virei o rosto, e encarei uma parede de areia. A chama refulgia e brilhava ás minhas costas.
— Não se incomode. — Respondi, sem olhá-lo.
O Guardião elevou o rosto e sorrindo, disse:
— Bom! Tenho que te dizer o próximo passo! — Kehrut falou, entusiasmado. — Faz tanto tempo que eu não preciso dizer isso que acho que até esqueci... Ah, espera aí! É isso — Lembrou ele, enquanto eu rolava os olhos para o alto, ainda desviando o olhar dele. — Você precisa ir até a próxima floresta, a alguns quilômetros daqui. — Meu ânimo afundou ao ouvir "alguns quilômetros" — E só seguir reto; como todos fazem, e ao chegar lá, procure uma caverna. O próximo Guardião está lá. — Terminou ele, calmo.
Olhei para ele novamente e disse: — Obrigado.
Me levantei e olhei para o teto; Nada havia além de areia escura. Olhei Kehrut, que ainda esfregava o focinho.
— Que foi? — Depois de alguns minutos silenciosos (e miseravelmente desperdiçados), Kehrut se deu conta. — Ah, é!
O Guardião se levantou e com um salto, abriu uma abertura no teto to túnel.
— Está na diagonal. Vai poder subir de volta a superfície. — Ele disse, saindo da abertura e voltando ao chão, um pouco constrangido.
Não disse nada e saltei na abertura. Havia uma longa rampa seguindo para cima, onde ao longe vi curvas levando á superfície. Depois de um tempo que comecei a escalar, ouvi Kehrut dizer:
— Tchau, Jason! Boa sorte!
Segui ininterruptamente a rampa de areia, subindo cada vez mais. Cada vez mais, a luz lá de fora me convidava a deixar o abafado dos túneis. Depois de algum tempo e de algum esforço, cheguei á superfície; o dia ia se encerrando. Por trás de mim, o sol se punha. Passara o dia inteiro no subterrâneo?
Assim que saí da abertura no chão, um tremor no chão me vez virar e olhar para o buraco no chão. A areia tremia, e em segundos, cobriu a abertura e o buraco se fechou. O tremor logo então cessou. Voltei minha atenção ao céu alaranjado, e, cansado e um pouco abatido, segui a caminhar lentamente na areia, procurando mais uma vez um lugar para descansar e repor as energias.
O ar refrescante agora soprava no meu rosto erguido, enquanto a nova floresta já podia ser vista ao longe e o vento fresco chegava ás minhas escamas. O sol estava a pino, mas eu já não sentia mais calor. Haviam passado mais dias desde a batalha com o segundo Guardião; e eu segui as direções dadas por ele até a floresta no extremo do Deserto Subterrâneo.
A grama suave e escura ondulou com o vento no momento em que coloquei minhas patas nela. Era um alívio entrar em um ambiente confortável para mim, depois do deserto. Porém, me concentrei em conhecer a nova floresta em que estava naquele momento. Por mais que fosse parecida com a da minha terra natal, as folhas e galhos pareciam mais fortes e rígidos, e eram de uma cor mais escura. As copas eram fechadas e pouca luz passava pelas folhas que farfalhavam tranqüilas com o soprar suave do vento.
A noite não tardou a chegar naquele dia, enquanto eu andava pela grama escura e suave; logo precisei me ajeitar em uma clareira com um pequeno morro de terra a me esconder nas árvores. Haviam Dragões desconhecidos naquele lugar, mas cheguei a conclusão de que eles não me incomodariam. Pareciam pacíficos, mas eu me mantinha sem contato com qualquer um, de qualquer modo. Adormeci logo, enquanto o vento soprava meu rosto e ondulava mais a grama.
No dia seguinte, eu caminhava por entre a nova floresta, seguindo caminhos nas árvores grossas e acinzentadas. Logo os Dragões que habitavam o lugar já tinham se acostumado comigo e não olhavam curiosos e preocupados para o desconhecido que andava em seu lar.
Quando eu estava bebendo a água de um lago pequeno, perto de um morro na floresta, um lampejo cinza me chamou a atenção; por um momento, pensei em Gray, mas o que quer que fosse era menor que ele e seguiu lentamente para o que vi ser uma caverna de rochas escuras e de aparência áspera. Levantei meu rosto, vagarosamente, acompanhando com o olhar o desconhecido a adentrar o arco de rochas.
Assim que ele sumiu de vista, ergui meu rosto e pescoço, e, olhando para os dois lados, me preparei para seguir a suspeita figura. Outros Dragões da floresta me olharam curiosos enquanto eu me aproximava da entrada da caverna de aparência áspera e escura. Desviei discretamente de árvores em meu caminho e olhei para os lados, me certificando de que não havia mais nada suspeito em volta. Apenas os outros Dragões me espiavam, de longe. Ignorando os olhares, voltei minha atenção ao interior nada convidativo da caverna, e entrei.
Dentro da caverna era úmido, frio e silencioso. Parecia estranho para uma caverna de floresta. Eu só ouvia os sons das minhas patas no chão e enxergava pouco mais do que minhas marcas iluminavam. Mesmo assim, segui em frente, procurando algo ou alguém. Não tinha muita certeza do por que de estar fazendo aquilo, mas eu só sentia que era o que devia ser feito. Uma lembrança desagradável do meu passado em relação á tempestade passou por minha mente. Estava mais uma vez agindo por pura intuição, e da última vez não fui muito bem sucedido. De qualquer modo, continuei o caminho dentro da caverna úmida.
Foi quando um som estrondoso e repentino encheu meus ouvidos; pulei para frente subitamente e virei meu corpo e rosto, alerta e sobressaltado. Um desmoronamento de rochas estava ocorrendo atrás de mim, dezenas de pedras de diversos tamanhos caíam de uma rachadura grande no teto e bloqueavam a passagem de onde vim.
Ainda um pouco alarmado por causa do som repentino, relaxei meu corpo quando uma última pedra rolou até o chão, fazendo um pequeno som no chão áspero.
— Isso vai ser um problema depois — Pensei para mim mesmo.
Virei meu rosto para o resto da caverna, ainda escura e silenciosa. O único caminho agora era em frente. Voltei meu corpo na mesma direção em que olhava e continuei meu caminho, ainda incerto do que estava procurando. Ao andar mais poucos passos, ouvi sons vindo do fundo da caverna. Ergui o pescoço, alerta, e esperei; os sons que ficavam mais altos eram de patas fortes sobre o chão. Depois de alguns passos, pude ver o que e quem se aproximava.
Um Dragão baixo, mas forte, estava parado na minha frente. Tinha chifres grossos e marrom-acinzentados; suas escamas cinzas escuras tinham uma aparência resistente e haviam espinhos curtos e fortes nas costas, até a ponta da cauda, onde estava um triângulo mal afiado na ponta. Os olhos vinho escuros do Dragão estavam fixos em mim; ele parecia irritado.
— Quem é que você pensa que é? — Vociferou ele, com sua voz grave e ressonante. Eu mexi as asas no corpo, também irritado com o tom de voz dele, mas ele prosseguiu antes que eu dissesse qualquer coisa: — Entrando assim na minha caverna! Você está comprando briga! — E ele abaixou o corpo, rosnando.
Antes que eu respondesse, ele avançou sobre mim, me golpeando com as patas fortes. O impacto me forçou para trás, e, virando meu corpo, abri minhas asas o quanto espaço pequeno permitia e rosnei de volta ao agressor que não me dera a chance de falar.
Não sabia exatamente o motivo que me fizera entrar naquele lugar, e muito menos por que estava ali, a lutar com um Dragão rabugento que estava preso comigo em uma caverna. Antes de pensar mais nada, contra-ataquei o inimigo com minhas garras e ficamos a lutar um com o outro, em arranhadas e patadas. Cheguei perto demais do teto desmoronado e o Dragão inimigo usou isso a favor dele, me empurrou vigorosamente com o ombro e o corpo e me pressionou violentamente contra as rochas amontoadas. Enquanto grunhi de dor, encarei o meu oponente e abri violentamente minha asa esquerda em seu rosto, fazendo-o cair para trás.
Recuperei-me e me coloquei de pé, pronto para pular de novo no atacante.
— E qual é o objetivo do seu desafio? — As palavras saíram da minha boca antes que eu pensasse.
O Dragão cinza escuro se pôs de pé e me olhou, surpreso e confuso.
— Como é que é? Do que você está... Espere aí... Você é o Jason? — Falou ele, erguendo a cabeça mais alto que os ombros.
Fiz o mesmo que ele; ergui o rosto e parei, confuso.
— É você o moleque jovem que disseram que procurava o Dragão Sábio? — Antes que eu dissesse alguma coisa, ele completou, bufando. — Oras, pensava que era só um Dragão curioso e idiota tentando invadir minha caverna!
— Quem invadiria este lugar?... — Pensei. Mas olhei com o rosto virado para o Dragão na minha frente e perguntei: — Você é um Guardião...?
— Sou — Admitiu o Dragão cinza escuro. — O que foi o barulho de antes? — Questionou ele.
— O teto ruiu. — Respondi. — Não fui eu. — Disse, encarando-o com o focinho apontando para baixo ao ver a expressão irritada do Guardião.
— Ótimo. — Bufou ele. — Tudo que eu precisava. Mas você é mesmo o rapaz que derrotou Aeri e Kehrut?
— Sim. — Afirmei, sério.
— Hum — Rosnou ele, baixo. Encolhera os ombros e me olhava fixamente. — Isso quer dizer que temos que terminar o que começamos, hein? — Disse o Guardião cinza, confiante.
— Presumo que sim. — Eu então respondi, desafiadoramente. Abaixei de leve meu corpo e ergui minha cauda. A batalha iria continuar, e agora, eu tinha um motivo ainda melhor para atacá-lo.
O Guardião se ergueu nas duas patas traseiras e agitou perigosamente as patas dianteiras. Recuei, mas avancei logo depois, prendendo com meus dentes um dos braços do oponente. O Dragão grunhiu de dor e me acertou no ombro com suas patas poderosas. Cambaleei para o lado, rosnando e encarando o agressor. Assim que ele avançou novamente, rodei para o lado e o ataquei com minhas garras em seu flanco esquerdo desprotegido. Porém, eu estava certo anteriormente; as escamas dele não só pareciam resistentes, eram resistentes. Arranhei-o, mas o golpe não adiantou. Ele se virou e bateu em mim com a cauda curta e forte.
Depois do golpe, me coloquei de frente ao Guardião. Ele virava-se e me rodeava, mostrando os dentes em um rosnado grave. Eu estava com o rosto abaixado, mas o encarava ferozmente. Virei para o lado contrário do que ele andava, e ataquei a cauda dele, mordendo-a com força. Mais um grunhido de dor e uma patada. Rolei no chão, mas me coloquei novamente em pé logo depois. Estava tentando achar o lugar mais favorável para atacar.
O Dragão forte e cinza pulou em mim e atacou meus ombros, mordendo e arranhando ferozmente; mas quando eu estava para cair no chão, coloquei toda minha força nas patas e pulei, me virando e jogando o inimigo com força no chão. Imobilizado, o Guardião rosnou quando me levantei e levantei minhas garras para atacá-lo. Desprotegido, desferi um golpe abaixo do pescoço do Dragão. Um arranhado surgiu nas escamas.
— O ponto fraco — Notei. Naquele lugar, as escamas eram menores e menos resistentes. Procurei atacar naquele lugar de novo, mas o Guardião logo se levantou e me empurrou com o rosto e os chifres.
Nos colocando em posição, nos encaramos e rosnamos, fixando olhares ferozes nos olhos uns dos outros. O Guardião pôs-se em duas patas de novo e isso foi um erro; aproveitei a brecha e fechei minhas mandíbulas fortemente no pescoço do inimigo. Ele caiu para trás e, fazendo isso, mudei a posição do ataque e pressionei meus dentes afiados contra a parte menos resistente do pescoço do Dragão cinza; ele grunhiu fortemente de dor e se imobilizou, mas tentava me desvencilhar com as patas dianteiras. Apoiei uma das minhas patas em um dos braços dele e o imobilizei no chão, segurando com força.
O Dragão cinza se chacoalhou, mas grunhiu:
— Já chega! Me solte! — E me empurrou com a pata livre. Pulei para trás e o encarei. — Já descobriu meu ponto fraco! Quer me matar?
Continuei em posição, esperando.
— Já disse chega! — rosnou ele. — Você é talentoso, mas não é piedoso! — Falou o Guardião, esfregando o arranhado no pescoço com as costas da pata. — Eu já parei.
— Acabou? — Perguntei, sério. Depois dos sons da luta, a caverna parecia novamente anormalmente quieta. Devia ser devido á distância até a saída.
— Você é surdo? Sim, acabou! — Rosnou o Guardião. — Afinal, eu não me apresentei. — Falou ele, irritado. — Meu nome é Clay. Você luta bem como me descreveram. Mas não pega leve também. É um garoto forte. — Concluiu.
Relaxei meus músculos e fechei minhas asas, cansado. Tinha saído dessa batalha com mais arranhados do que a última; várias partes do meu corpo ardiam onde tinha sido atacado. — Vai me dizer onde fica o próximo passo?
— Mas que moleque mal-educado! — Reclamou o Dragão cinza escuro. — Pois é, agora terei que fazer isso. É parte do meu trabalho.
Continuei aguardando em silêncio, ignorando as reclamações de Clay.
— Vá para oeste. — Falou, finalmente, o Guardião da caverna. Siga nesta floresta até o morro; a trilha vai terminar no oceano. Haverá uma torre como uma montanha em alguma parte do mar. Lá está seu próximo passo. — Absorvi as informações cautelosamente e assenti. — Acha que consegue? — Desafiou ele.
— Sei que consigo — Rebati.
— Humph, metido. — Rosnou o Guardião, dando de ombros. — Bom, então é melhor ir logo.
Me virei para sair, mas em seguida recordei:
— O desmoronamento.
— Ah, sim... É verdade... — Concordou ele, aborrecido. Então suspirou audivelmente e andou na minha direção. — Vamos lá, me ajude a tirar os escombros do caminho aí você poderá passar. — E eu o ouvi reclamar baixo "Só me dá trabalho".
Assenti, indiferente. Então chegamos onde as pedras tinham bloqueado o caminho. Clay bufou impaciente e começou a tirar as pedras uma de cima das outras com as patas. O ajudei e retirei também algumas pedras. Dentro de alguns minutos, já havia espaço para passar.
— Pronto, você pode ir. — Falou o Guardião, empurrando uma última pedra do caminho agora aberto. — Eu me viro com isto aqui depois, só vá. E preste atenção onde anda.
Agradeci pela ajuda com um aceno do rosto e me dirigi á saída da caverna. A luz do lado de fora invadia a entrada na minha frente, e meus olhos arderam ao ver o brilho intenso do sol sobre um buraco de folhas nas copas das árvores. Porém, foi um alívio sentir o vento em meu rosto, depois de sair da caverna fechada.
Um vento gelado soprava quando me aproximei de um espaço a céu aberto, depois de mais um dia de caminhada na floresta onde encontrei o terceiro Guardião. Segundo ele, meu próximo passo era achar uma torre no meio do mar. Me perguntava a necessidade disso, pois parecia improvável alguém viver no meio do nada.
Descansado, eu caminhei pela grama, morna e aquecida pelo sol suave da manhã. Depois de alguns minutos de caminhada, vi uma abertura entre as árvores e ouvi o som de ondas ao longe; baixas e uniformes. Calmo, passei por entre as árvores e deparei com o lugar em que Clay havia dito. A floresta terminava ali. Como um precipício, uma beirada se encontrava depois da grama escura; na frente, um gigantesco e claro horizonte, onde nada além do céu, das nuvens e do mar podia ser visto. Me aproximei da beira cautelosamente e observei o horizonte. Olhei para baixo, e lá estava o mar; as ondas açoitando a parede de pedra clareada. A água azul escura brilhava com o sol, e ondulava, trazendo uma onda refrescante de ar.
No que eu estava ali, parado, observando o mar e o horizonte, pensei em minha família.
Ergui meu rosto, e absorto em pensamentos, contemplei o céu. Estaria minha família em casa, agora? O que estariam fazendo? Estariam todos juntos, na campina, esperando o integrante mais novo voltar? Afinal, meses já haviam se passado. No mínimo um mês. O que teria acontecido? Algo teria mudado ou eu voltaria — com ou sem resposta — sem que nada diferente tivesse acontecido?
Fiquei ali a pensar na minha família durante minutos longos, antes de recuperar a razão; de que estava em uma jornada para descobrir algo sobre mim mesmo, para aprender sobre as marcas que estavam em volta dos meus olhos. Porém, a sensação de conforto de estar em casa se esvaiu tão rápido quanto veio, e eu, novamente observando o horizonte, recobrei a vontade e o dever de seguir em frente. A torre no meio do oceano esperava que eu a encontrasse, fosse pelo motivo que fosse.
Dei meia volta e andei um pouco longe da beirada. Me virando novamente para o horizonte, ganhei velocidade e, com o vento fresco a soprar no meu corpo, cheguei a beira, saltei e abri minhas asas. As movimentei com força, suspendendo meu corpo no ar enquanto voava; sendo suavemente impulsionado e carregado pelo vento.
A brisa soprava nas minhas asas enquanto eu seguia acima do oceano azul e profundo, procurando no horizonte o próximo passo da minha jornada para encontrar o Dragão Sábio e descobrir finalmente o que minhas marcas nos olhos significam. Por longos minutos nada vi além do horizonte e o céu, enquanto batia minhas fortes asas, impulsionando-me para cima e para frente.
Por mais que eu voasse sem descanso, eu não me sentia cansado, mas estava aborrecido e apreensivo; Onde estaria a tal torre de que o Guardião da Caverna Clay me dissera? Bati minhas asas vigorosamente no que os sopros do vento se tornavam mais intensos, na direção contrária da que voava. O sol, no topo do céu bem acima de mim, brilhava fortemente.
Quando dei uma guinada para o lado, depois de um sopro consideravelmente forte de vento, notei algo á frente. Ao longe, o topo de uma alta torre de terra se estendia do meio do mar. Meu objetivo. Bati minhas asas com vigor e me impulsionei para frente, depois então descendo com as asas semi-fechadas, carregado por uma rajada de vento em meu favor.
Cada vez mais a torre se tornava nítida, e poucas vezes precisei bater mais as asas para ganhar altitude. No que estava suficientemente perto da torre, abandonei a corrente de ar em que seguia e tomei impulso para cima; enquanto a torre ainda não estava ao alcance, subi, batendo minhas asas. Quando cheguei perto, planei lentamente até o chão gramado da estranha torre aparentemente abandonada no meio do mar.
Minhas garras alcançaram o chão mas não fechei as asas. Havia na ilha alta nada mais do que poucos metros de espaço e grama; não havia praticamente nada nem ninguém. Olhei para os lados. Estaria na torre errada? Achei difícil. Caminhei lentamente até a outra beirada da torre, e o vento era forte e gelado no topo da torre; mal se ouviam as ondas a acertar a base de terra.
Fiquei irritado comigo mesmo; talvez aquele não fosse o lugar certo na realidade. Talvez fosse só um pedaço de terra alto no meio do mar, e não a tão dita torre. Caminhei, aborrecido, em círculos, antes de pensar no que faria. Não ficaria ali esperando algo acontecer; resmunguei para mim mesmo e me virei para o horizonte. Estendi minhas asas e me preparei novamente para saltar. Iria sair daquele lugar inútil.
Tomei velocidade e pulei; as brisas novamente sopraram em minhas asas e eu me afastei da falsa torre.
Irritado, segui em frente; quando então senti uma dor aguda e repentina se espalhando por todo meu corpo em questão de segundos. Retrocedi, atônito, e a dor parou, instantaneamente como veio. Uma luz branca e fraca pareceu se iluminar na minha frente como uma parede pouco visível, e então desapareceu. Eu batia asas fortemente, ainda estarrecido com a dor repentina. Parado no mesmo lugar, me suspendendo com as asas a bater, encarei com mais atenção onde a luz havia brilhado. Estiquei a pata da frente cautelosamente. Outro lampejo branco e dor; retirei minha pata da parede invisível que senti e senti pouco a pouco a dor sumir mais uma vez.
Cerrando os dentes enquanto a dor passava, compreendi. Havia uma barreira á frente. Talvez a torre anterior não fosse falsa como eu pensei. Voltei os olhos para a ilha alta destacada logo atrás de mim; não havia nada diferente.
Bati minhas asas e me virei, voltando para a torre. Pousei, mais uma vez, no espaço vazio e silencioso. A barreira não era mais visível. Só o horizonte e o sol eram vistos á frente. Pensei, quieto, no que faria agora. Como passaria a barreira sem me ferir mais? Olhei para minha pata que parecia ligeiramente queimada. Fiz uma careta de insatisfação e voltei a olhar o mar.
De repente, uma cúpula branca e transparente se formou em volta da ilha; em segundos, a torre estava cercada pela parede impenetrável. Espantado, olhei para os lados — não havia mais saída — e pensei: Como sairia dali?
Do topo da cúpula de luz, um fio amarelo tremeluzente e brilhante se formou e desceu até a grama; recuei, pulando, e encarei despreparado a luz que devagar se tornava em um contorno de um Dragão, pequeno e longo. Depois de um minuto, a luz amarela se esvaiu e em seu lugar estava parado um Dragão azul-elétrico, com diversas listras amarelas em formatos diferentes por todo o corpo. Surpreso, ergui meu rosto para trás o olhei, abismado, para o que acabara de acontecer.
— Você caiu na minha armadilha, Jason — Falou o Dragão menor que eu. — Eu sou o Guardião da Torre Elétrica. Tentou passar pela barreira duas vezes, hein? Você é determinado.
Outro Guardião. Estava explicado.
— Torre Elétrica? — Perguntei, já não mais surpreso pelo fenômeno de aparição do novo Guardião. — Entendo... Você formou aquela barreira.
— Sim. Meu trabalho é não deixar ninguém prosseguir sem passar pelo meu teste. — Respondeu o Guardião da Torre. — Meu nome é Elek.
Encarei com firmeza o novo oponente parado na minha frente. Só pensava como iria lutar em um espaço mais uma vez tão pequeno. Notei que o Guardião não possuía asas, e formulei planos para derrubá-lo enquanto ele falava:
— Eu acho que sua determinação acaba aqui. Faz muito tempo que não perco. — Disse o Dragão azul, movimentando os ombros, ansioso. Sorriu, mas eu mantive minha expressão séria enquanto o Guardião se preparava para a luta, colocando o rosto ligeiramente entre os ombros fortes. — Vamos lá! Deixe-me ver eu mesmo se você é o que os outros dizem.
Rosnei, mostrando minhas presas afiadas. Elek pareceu ainda mais animado e saltou algumas vezes no mesmo lugar, e também para os lados. Eu abri minhas asas e, rosnando, ataquei o Guardião.
O empurrei com força usando meu corpo, e em seguida agitei minhas asas enormes nos meus lados. Evitava os pequenos golpes das patas do Dragão listrado, que parecia para mim que ainda não contra-atacava diretamente. O Guardião abaixou o corpo e ergueu a cauda, ferozmente, enquanto rosnava. Então vi, devagar, linhas brilhantes de relâmpagos pequenos ondeando em volta do corpo dele; O chão tremeu levemente enquanto as luzes reluziam perigosamente em volta do Guardião. Me afastei, prudentemente, e esperei ver o que Elek faria, com o rosto abaixado e asas abertas.
O Dragão azul saltou e golpeou o chão com força com as patas; A torre pareceu tremer e eu pulei, evitando o impacto. Quando o Guardião avançou sobre mim no ar, o rebati violentamente com um golpe de minha asa; o pequeno Dragão foi arremessado para trás em direção á barreira.
Olhei abismado quando o Guardião desapareceu com um facho de luz dentro da barreira. Teria atravessado? Ou...
Subitamente, um lampejo azul e amarelo reapareceu justamente onde sumiu; mal tive tempo para reagir quando senti dolorosamente as presas finas do Guardião se fechando sobre meu braço. A dor foi seguida por algo ainda pior.
Meu corpo recebeu uma descarga elétrica violenta e agonizante; gritei ao fechar os olhos enquanto recebia a dor ardente e intensa. Meu corpo todo sofreu com a onda que se espalhou nele. Com muito esforço, me desvencilhei da mordida agonizante, me virando com violência, deixando marcas de dentes e sangue no braço ferido.
Tonto e ferido, ainda alarmado com a dor, balancei meu rosto para recuperar a atenção e vi o Guardião na minha frente a avançar em minha direção mais uma vez.
O interceptei com uma patada vigorosa; o Dragão listrado cambaleou e grunhiu, virado para o outro lado. Com um esforço, me coloquei nas patas traseiras e o joguei com força para frente, aterrissando então novamente com as patas dianteiras na terra. O Guardião rolou e escorregou na beirada; segurou-se com as patas com força e se içou de volta ao chão. Rosnou para mim ao me rodear, procurando onde atacar.
Eu pensava no que fazer; se tomasse mais um ataque daquele anterior não saberia com certeza qual seria o dano. Enquanto o Dragão me rodeava, fiz o mesmo para o lado contrário, mesmo incerto de como contra-atacaria. Elek pulou para frente e se virou velozmente, colocando as patas e garras dianteiras na frente do corpo. O bloqueei com minhas asas, cobrindo meu corpo e o rebati, as abrindo com um estrépito.
O Guardião da Torre se abaixou mais uma vez e concentrava a eletricidade como fizeram antes; mais raios e luzes dançavam e brilhavam em volta do corpo dele enquanto eu o encarava, com as presas á mostra. O Dragão elétrico arqueou as costas e saltou em minha direção, mas com as patas brilhando miradas no chão. Mais uma vez, evitei o impacto do golpe, que, dessa vez, foi seguido de relâmpagos no chão — que eu sabia que tinham a mesma potência e energia do que ele me acertara no braço, que ainda sangrava.
Precisava contra-atacar logo; mas não pensava em um modo mais eficiente do que arranhá-lo como já fizera antes e estava a fazer. O máximo que podia era jogá-lo da torre e nem isso adiantara. Absorto em uma estratégia, vacilei por um segundo e mais uma dolorosa vez as presas do inimigo se fecharam no meu braço.
A mesma dor aguda e intensa voltou; minha cabeça girava de dor e os pensamentos se perderam. Eu rugia de dor enquanto o Guardião segurava meu braço com as patas para eu não me soltar. Sentia a corrente elétrica mais uma vez perpassando meu corpo e, dessa vez, pude ver as linhas de raios saindo das presas do agressor a entrarem em meu corpo.
Por um milagre, o Guardião hesitou e recuou, agitando o focinho com os olhos fechados, grunhindo de dor. Percebi que, em um movimento, joguei terra nos olhos do inimigo. Zonzo, atordoado e com dor nos dois braços, cambaleei e com dificuldade fiquei em pé. Estava com a visão dupla e embaçada; tudo o que via era o Dragão listrado esfregar com força os olhos que ainda sofriam pela terra que tinha sido atirada.
Com os pensamentos desorganizados, só cambaleei mais uma vez quando vi os olhos verdes oliva do Guardião focarem em mim novamente e ele saltar uma outra vez em minha direção. Com um pouco de força, concentração e velocidade que me sobrara, rodei velozmente e o acertei o Dragão no rosto com minha cauda. Elek rolou mais uma vez e girou nas patas para me encarar. Um pequeno fio de sangue saía da mandíbula inferior do Dragão azul que cerrava os dentes para mim, agressivamente.
Eu ainda estava atordoado e fazia esforço para me manter de pé; sobre uns surtos em que só enxerguei borrões embaçados, vi o Guardião a acumular energia para mais um golpe elétrico.
Ele saltou; nem vi quando fiz o mesmo — quando percebi, estava no ar, com a visão do meu oponente a socar o chão e tomar impulso em minha direção, com as mandíbulas abertas e as presas expostas. Em uma fração de segundo que recuperei meus sentidos, senti minhas pupilas se dilatarem e, rugindo agressivamente, me manobrei no ar e choquei meu corpo com o Guardião, que caiu e, pelo que vi, agora recebia a violenta descarga elétrica concentrada no chão pelo golpe dele mesmo.
Com muita força bati minhas asas e me manti no ar, enquanto o rugido de dor do Dragão azul encheu o ar entre a cúpula de energia. Com os braços pareciam que colados no chão, o Guardião recebia agora do próprio veneno. Foi quando, lentamente fui perdendo meus sentidos e caí no chão, exausto e zonzo, e tudo ficou escuro.
Abri meus olhos com força e, em um pulo feroz, me pus de pé. Senti minhas patas e braços tremerem com o esforço e quase caí de lado. Desembaçei minha visão e notei o Guardião deitado na minha frente, com as patas dianteiras estendidas para frente e a cabeça repousando entre elas; mas os olhos oliva me miravam, porém não mais com agressividade. Um rosnado rouco e fraco brotou na minha garganta quando o vi e tentei me reposicionar.
— O que aconteceu? — Perguntei, hostilmente.
— Nós dois desmaiamos — Falou o Guardião; reparei que ele também tinha a voz fraca, mas mesmo assim sorria. — Mas faz só alguns minutos. Acordei pouco antes de você.
Uma sensação gelada passou como uma brisa de gelo por mim. Eu perdera?
Vi marcas de queimaduras no corpo o Dragão Azul. Fraco e decepcionado, perguntei:
— O que exatamente aconteceu...?
— Eu fui pego no meu próprio ataque. Mas você estava fatigado, desmaiou junto comigo. Não consegui escapar, fiquei preso no chão. — Olhei mais uma vez nas queimaduras nas escamas azuis do Dragão listrado. Ele agüentou tudo aquilo? — Ainda sinto um pouco de dor. Você?
Não faria sentido mentir; meu corpo inteiro doía.
— Estou exausto.
— Isso acontece. — Elek disse, rouco. — Escute, eu tirei a... Aonde você vai?
O Guardião perguntou quando, mancando, fui para a beirada da torre, olhando para o caminho de volta.
— Eu vou voltar. Eu perdi. — Disse, amargurado. Aquilo doía como um peso dentro de mim. Depois de tudo...
— Quem disse? — Falou ele, divertido. Olhei, incrédulo. — Você foi incrível, nunca me lembrei de ter ficado tão fatigado depois de uma batalha; mesmo que tivesse perdido. Você foi espetacular, tem muitas habilidades. — Eu ergui meu rosto, com a boca aberta, atônito. — Como eu ia dizendo antes de você, uhm, "ir embora" — Riu Elek. — Eu desfiz a barreira. Mas vou entender se você quiser descansar. Eu mesmo estou um trapo. — Brincou o Guardião.
— Eu não... Eu... — Gaguejei, quase para mim mesmo. — Eu estou... — Ia dizer "bem", mas naquele momento, minha pata cedeu e eu caí sobre meu braço, fazendo uma careta de dor.
— Eu imaginei. Não se preocupe, a dor não vai durar para sempre. — Sorriu o Dragão Elétrico. — Eu acho.
Me arrumei e tirei meu braço de baixo do meu corpo e, devagar, aproximei meu rosto e comecei a limpar meus ferimentos. Passaram-se alguns minutos.
— Como você faz aquilo? — Perguntei, enfim.
— O quê?
— A barreira.
— Ah, eu controlo a eletricidade, você sabe. Absorvo a energia para desativá-la, e para ativar, concentro meu poder em uma parede defensiva. — Elek explicou. — É fácil para Dragões Elétricos. Mas exige treinamento. Ás vezes a energia acumulada pode se sobrecarregar você. Exige bastante atenção.
— Hm — Eu somente disse. Era fascinante a capacidade dos Dragões do elemento Raio.
Elek sorriu. Continuava com o rosto repousando nos braços; as feridas queimadas ainda estavam destacadas em suas escamas azuis. Talvez fosse isso mesmo que acontecesse com um Dragão Elétrico que não controlasse sua energia. Sempre soube que meu elemento era o fogo; apesar de que os Dragões tem, na verdade, um elemento primário e um elemento secundário. O elemento primário é o que geralmente determina sua verdadeira capacidade e aptidão; o elemento secundário era mais um elemento que podia ser usado mas não era como o primário, que podia se ter muito mais habilidades. Algo que me preocupava também era que eu não era bem capaz de produzir outra coisa além de fogo. Qual seria meu poder secundário? Se eu tivesse um. Nunca soube, até então, que houvesse Dragões de um único elemento. Mas eu não considerava aquilo como um defeito em mim. Eu só vivia com aquilo.
O Guardião levantou o rosto das patas então, e se colocou de pé, com dificuldade. Olhei para ele enquanto descansava com o rosto na grama, de lado, com os braços estendidos por baixo, virados para outro lado.
— Está melhor? — Ele perguntou. — Você deveria ir. Se você seguir em frente daqui, vai encontrar uma ilha; a Ilha Ancestral. — Eu fitei Elek, levantando o rosto. — É onde você deve ir agora. Digo isso porque seriam horas de vôo e não seria muito bom você ir tarde e passar a noite em claro voando.
Levantei, os músculos ainda tremendo um pouco desconfortáveis. — Entendo.
— Suas asas estão boas?
— Posso me virar. Agüento o suficiente. — Respondi, me arrumando de pé.
— Então está certo. Faça uma boa viagem! — O Guardião disse, dando um passo para trás para me dar espaço.
Agradecendo com um aceno do rosto, me virei para o horizonte mais uma vez e abri minhas asas. Estavam em melhores condições do que meus braços e seria de fato melhor voar do que andar, neste momento. Ainda bem que ali era praticamente só mar. Estendi com vigor minhas asas até o máximo e relaxei os músculos logo depois. Me aprontei para pegar impulso e, jogando terra com as patas traseiras, levantei vôo mais uma vez.
Bati minhas asas me mantendo no ar, e, uma vez, olhei por sobre os ombros o Guardião ficando para trás cada vez mais, na torre abandonada no meio do oceano. Concentrei-me no meu novo objetivo e bati minhas asas com força, com os braços dormentes dobrados por baixo do corpo.
Ilha Ancestral... Pensei. Seria lá que o próximo Guardião estaria? Você descobrirá.
O sol estava nascendo quando vi algo se estender sobre o horizonte em minha frente, sobre o céu ainda um pouco escuro. Batendo minhas asas eu me aproximei e tomei altitude; vi ao longe e por baixo a sombra de uma ilha enorme, se destacando no meio do mar azul. No fim, encontrara um pedaço de terra menor na noite anterior para descansar; afinal acabei voando parte da noite, até achar o tal lugar. Mas agora estava descansado e disposto, os músculos dos meus braços quase não doíam mais.
O céu estava claro quando alcancei a ilha ancestral. Planei á distância e deixei a rajada de vento suave me carregar lentamente até a margem de uma praia, que se estendia por toda a volta da ilha. Minhas patas tocaram a areia suave e úmida e eu fechei minhas asas. Olhei em volta; a praia era extensa e á frente uma densa floresta de árvores altas e finas podia ser vista. Haviam diversos arbustos no chão e as folhas ás vezes voavam com o vento até a areia. Caminhei até o meio do largo campo de areia, e o sutil som das ondas soava atrás de mim.
Olhei para os lados, decidindo que lado iria. Daria a volta na ilha ou procuraria dentro da floresta? Por cima, o lugar era gigantesco; se procurasse pelo meio talvez só chegasse do outro lado. Mas seguir pelos próprios lados também não parecia uma boa solução. Olhando entre a floresta e a praia, me decidia qual caminho tomar. Mas um som alto e ecoante surgiu do meu lado direito, seguindo pela praia. O som se repetiu e eu percebi que se tratava de um rugido fino e estridente, como um grito. A sensação era gélida, como se o som entrasse pelas suas escamas e deixasse seu corpo frio e sem reação. Mas eu não me deixei levar e corri até de onde o som vinha, empurrando areia para trás com minhas garras longas.
Virei bruscamente para a esquerda em uma curva na praia; na minha frente estava mais uma área da praia, com algumas árvores mais perto do mar desta vez e alguns arbusto de folhas escuras. Não havia mais nada por ali; porém um arbusto em particular tremia e se chacoalhava. Olhando em volta com mais atenção, não encontrei mais nada, então, voltando meu foco ao arbusto chacoalhante, me aproximei.
Com uma pata, afastei as folhas de cima do arbusto e, debaixo dele — ou no meio dele — estava um pequeno Dragão azul celeste, que tremia muito e cobriu os olhos com as pequenas patas de garras curtas quando tirei as folhas da sua frente.
— Não! Não me machuque! — Gritou o Dragão, apavorado. — Estava tremendo da cabeça aos pés e enrolara a cauda na frente do corpo, bem escondido dentro do arbusto.
Olhei para aquele pequeno Dragão assustado e falei, calmo e sério:
— Não vou te machucar.
O Dragão tremeu mais uma vez, mas então tirou uma pata da frente dos olhos, ainda assustado. Pareceu um pouco aliviado em me ver, mas ainda assim estava abaixado e tremia.
— N-não vai? — balbuciar ele.
— Não — Eu disse, ainda sério.
— Ele está aí? O-O... O Dragão... — gaguejou o pequeno Dragão azul, mas ele não havia terminado a frase. Tremeu mais uma vez e cobriu o olho exposto. — Ele vai me achar! Me ajude! — Suplicou ele com os olhos tampados.
— Quem vai... — Eu comecei, mas minha resposta apareceu por trás de mim em uma brisa gelada; um vento frio soprou atrás de mim e eu senti uma sensação muito desagradável de descontrole. No chão uma sombra se formou por trás de mim, disforme. Cerrando os olhos e me mantendo forte, virei de súbito e vi o que aparecera.
Um Dragão bizarramente assombroso pairava atrás de mim; batia as asas enormes e grotescas, longas e perigosas, fazendo nuvens de areia se levantar. Seu corpo era um branco amarelado envelhecido, tinha chifres e espinhos dourados perigosamente afiados, e no torso, pontas ameaçadoras saíam pelos lados como costelas expostas. Os olhos do mais brilhante vermelho brilhavam em seu rosto e, para meu espanto, na ponta da cauda que se estendia direito por baixo do torso sem pernas, estava um ferrão ameaçador e aparentemente venenoso. Seu corpo era maior do que o meu e, batendo as esqueléticas asas, a espantosamente intimidante criatura soltou da suas mandíbulas com dentes acinzentados o rugido de gelar o sangue; gélido, pavoroso e horripilante, o som penetrou nos meus ouvidos — um rugido fino, alto como um som agudo e duplo, que no meio do próprio som se destacava um grito revoltante.
Entendi o medo do pequeno Dragão escondido; o grito agudo penetrou no meu corpo como navalhas de gelo. Com força para me manter parado, encarei o Dragão com coragem quando o som arrepiante cessou. Uma voz tão fria quanto o grito soou no ar.
— Quem é você?
Recuei quando percebi que a voz gelada e aguda não veio das mandíbulas agressivas do Dragão, mas sim do nada. Batendo as asas, a criatura ainda pairava acima do chão, mas sua boca não se mexia quando ele falou novamente.
— Você não é daqui também. O que procura?
Eu reuni minhas forças e sustentei o olhar do desconhecido. O Dragão escondido no chão tremia mais do que nunca e, eu percebi que a presença do Dragão esquelético afetava ainda mais ele do que eu próprio. Reuni ainda mais força para responder á criatura.
— Não importa. O que você acha que está fazendo? — Tentei manter a voz firme quando falei. O Dragão empinou o rosto e arreganhou os dentes, mas em fazer som.
— Faço o que quiser! Você não é daqui e acha que pode chegar e fazer perguntas assim? — A coisa bateu as asas ameaçadoramente — Eu sou Skull, o Guardião da ilha Ancestral, e não vou tolerar essa atitude, estranho! — O Dragão mostrou as presas novamente.
— Es... Espere aí. — Eu falei. Havia ouvido direito? — Você é um Guardião? Um dos Guardiões do Dragão Sábio? — Eu perguntei, de repente.
A criatura fechou as mandíbulas e arregalou os olhos, ainda batendo as asas se mantendo no ar. Logo em seguida, em seu rosto brotou um sorriso maligno e cheio de esgar.
— Interessante... Agora entendo... — A coisa falou mentalmente, ainda sorrindo maliciosamente. — Sou sim. Expulso invasores da ilha, como você próprio. Eu espero que você não seja o jovem Dragão procurando o Dragão Sábio... — O Guardião da ilha riu friamente; Mais uma onda gelada passou por mim.
— Acontece que eu sou. — Eu disse, firmemente, encarando o Dragão ameaçador. Senti o pequeno Dragão atrás de mim recuar com terror quando o Guardião tomou um pouco de altitude e abriu as asas ao máximo, com o focinho para cima.
— Que pena... — Sibilou o Dragão caveira. — Chegou tão longe... Mas receio que tudo acaba aqui... Não só sua jornada, moleque... — E as presas afiadas do inimigo brilharam quando ele silvou para mim, ameaçadoramente, arreganhando os maxilares e colocando o rosto mais abaixo entre os ombros.
Aquela coisa ia atacar. Um tremor mexeu meu corpo bem a tempo; saltei e agarrei o pequeno Dragão no arbusto pelo cangote com meus dentes segundos antes de uma pressão invisível passar onde eu estava. Soltei o Dragão apavorado á frente e me virei rapidamente para ver o que acontecera. Três marcas espantosamente grandes de um corte apareciam na areia. O Dragão esquelético estava acima de mim a sibilar, furioso.
Berrei para o Dragão azul se afastar, mas não era necessário; horrorizado, ele se arrastou no chão para longe, ainda afetado pela aura fria a maligna no Guardião.
Virando meu rosto, localizei mais um vez o inimigo e abri minhas mandíbulas, sentindo as chamas brotarem na minha garganta segundos antes de brilharem no céu a minha frente como um facho vermelho e brilhante. O Guardião riu-se com malícia ao se desviar e rosnou alto para mim.
Redirecionando meu golpe, mirei na criatura no ar. Com um bater de asas, meu fogo se esvaiu e um me senti como se tivesse caído em um mar de água congelante. Agitei meu rosto para me recompor mas fui arrebatado pelo Guardião que avançou sobre mim. Lançado longe, rolei e me recuperei, rapidamente. A criatura se perdera de vista.
Desesperado, busquei vê-lo em volta, mas só percebi quando mais uma vez fui arremessado, desta vez por trás. Ouvi a risada maligna do Guardião por trás de mim a subir no ar, quando caí. Me pondo de pé mais uma vez, o achei e rosnei agressivamente. Quando ele se aproximou se inclinando para o chão, saltei por cima dele e plantei minhas garras em suas costas; virando meu corpo, prendi minhas presas no pescoço esquelético e espinhoso do Guardião.
O grito de dor da criatura foi tão alto e agudo quanto o seu rugido. Tentando se desvencilhar de mim, a coisa rodopiou no ar, mas eu me segurei firmemente, fechando as asas perto do corpo e apertando as presas e as garras com mais força. Em um golpe desesperado, o Guardião se jogou na água de lado.
Me pressionando com as costas cobertas de espinhos, o Dragão me afogava. Espantado e apavorado, me agitei, engolindo água. Empurrei o corpo dele para fora da água com minhas quatro patas e saí da água, alarmado e sem fôlego. Agitei a água do meu corpo, respirando fundo, enquanto o Guardião rolava na areia e, colocando-se apoiado nas garras das asas, empinou ameaçadoramente a cauda e a ponta venenosa do ferrão apareceu acima do corpo do Dragão que sibilava e rosnava furiosamente.
Abri minhas asas para retirar a água delas, mas minhas patas ainda estavam afundadas, como eu tinha acabado de me levantar. Com água na altura dos pulsos, abaixei meu corpo e rosnei para meu oponente que cuspia e grunhia. O Guardião da ilha saltou e voltou a voar, mas desta vez colocou a cauda na frente por baixo do corpo; o ferrão brilhava perigosamente quando ele colocou a cauda em posição.
No momento certo, pulei mais uma vez por cima do ataque do inimigo e acertei minha asa no rosto do Dragão. Recuando para trás, ele se contorceu e abriu os olhos, fuzilando-me com seus olhos vermelhos. Abriu a boca e silvou furiosamente para mim, me arremessando longe com sua cauda; por pouco o ferrão não me acertara.
Me movimentando rápido para os lados, evitando golpes do perigoso ferrão na cauda do Dragão esqueleto, achei uma brecha em que o inimigo posicionava a ponta da cauda no alto e soprei fogo bem no rosto dele. As chamas dançaram no ar na minha frente em linha reta antes de acertarem em cheio os olhos do Guardião.
Urrando de fúria, o Dragão retrocedeu tropeçando, agitando o rosto e o focinho para os lados. Aproveitei bem essa chance para me aproximar com um pulo e, virando meu corpo com força, acertei minha cauda bem no rosto do Guardião que rugia de dor. O impacto foi alto e o rosto do oponente foi virado com violência para o lado que acertei.
Para meu pavor, quando o rosto esquelético do Guardião lentamente se voltou para mim, o maxilar inferior estava deslocado; pendia tortamente abaixo dos dentes superiores maiores. Para aumentar ainda mais meu assombro, o Dragão caveira girou o rosto com fúria e com um som nauseante, o maxilar se colocou no lugar. Ele rosnou hostilmente quando a boca se abriu mais uma vez, ambos os maxilares no lugar.
Recuei e ouvi o som das presas do Guardião se fecharem com um estrépito no ar onde eu estava; no próximo segundo, um sopro de areia e o Dragão esquelético flutuava mais uma vez no ar. As garras afiadas e escuras se fecharam em meus ombros quando vacilei ao tropeçar em uma pedra atrás de mim. O Guardião da ilha rosnou assombrosamente alto seu grito ensurdecedor e pavoroso, bem no meu rosto. Mais uma vez senti o frio invadir meu corpo, como se minha alma lentamente saísse dele. Com vigor, juntei forças e chutei o inimigo com minhas patas traseiras e o arremessei longe. Logo depois, enquanto ele ainda caía, pulei em cima dele e me joguei acertando-o com meus espinhos, ele caiu com um estrondo alto na areia.
O Dragão pequeno e azul celeste não estava mais á vista; o único som na vasta praia eram os rugidos e os sons de garras se batendo. O Guardião então levantara vôo novamente e jogava areia em mim. Me cobrindo com as asas, aguardei seu próximo movimento. Estava começando a sentir um mal estar — como se o frio da presença maligna daquele Guardião tivesse penetrado em mim. Com o rosto abaixado e asas abertas acima do corpo, observei com atenção o que o meu inimigo faria a seguir.
Então, meus olhos se arregalaram de surpresa quando uma pequena esfera vermelha e negra surgiu brilhando entre as mandíbulas do monstruoso Guardião. Cada vez mais que abria os maxilares a esfera aumentava de tamanho e brilhava perigosamente. Sensatamente percebi que aquilo não podia ser bom. Quando as mandíbulas do Dragão caveira estavam abertas ao máximo e a esfera brilhava a sua luz negra e sangrenta, o meu inimigo levou a ponta do focinho ao alto — a esfera brilhando no meio dos dentes — e então, com violência, voltou a apontar em minha direção e da esfera saiu um raio tão vermelho quanto seus olhos. Abri minhas asas o máximo que pude e, por pouco, evitei aquele golpe desconhecido.
Rolei na areia antes de me colocar em posição; mas novamente o Guardião preparava seu raio desconhecido com uma energia maléfica. Ao perceber que ele atacaria, me precipitei e saltei para o lado; mas o Guardião foi mais esperto e só disparou seu golpe depois que eu me movi. No ar, senti uma sensação horrível; como se uma mão invisível tivesse passado do meu lado e levado parte do meu corpo. Caí e rolei, e depressa, olhei para trás para perceber qual fora o dano.
Horrorizado, vi que minha perna esquerda tinha sido reduzida a ossos.
Com muito esforço, coloquei-me de pé, ainda assombrado com o poder daquela criatura. No rosto da coisa brotou um sorriso maligno e sua risada fria e estridente ecoou no ar.
— M... Minha perna... — Pensei com horror, ao espiar mais uma vez sobre o ombro minha perna que agora possuía nada além dos ossos; era como se algo tivesse arrancado toda a carne dali, e somente os ossos claros tivessem sobrado.
Com dificuldade, fiquei em pé e encarei com fúria o Guardião que ria-se no alto, satisfeito pelo que provocara. Mas eu não havia desistido ainda. Ainda naquele estado, estava disposto a lutar até fim; por mais que percebera que aquele Guardião parecia de fato querer extinguir minha vida.
Cambaleando, abri minhas asas e rosnei em direção ao meu oponente, que pairava vitorioso acima de mim. Ele percebeu que eu não havia terminado ainda e, com as asas coladas ao corpo, desceu como uma navalha em minha direção. Dessa vez, não hesitei; fiquei parado até o último segundo e recebi com força e de frente o golpe e o choque do ataque do Guardião. Com minha perna imobilizada, ficara muito mais difícil atacá-lo quando rolamos e nos engalfinhamos com as garras e patadas, pela praia de areia clara.
Por ser maior, o Guardião levava vantagem; mas eu pensava comigo mesmo que eu chegara longe demais para desistir. Não tinha certeza ainda de quantos Guardiões faltavam, — nunca havia sido especificado esse fato, nas histórias — mas mesmo assim, estava longe demais de casa para voltar de mãos vazias. Lutei com bravura com o Guardião na areia, até que ele me arremessou longe com as garras das asas.
Paramos um em frente do outro mais uma vez e nos encaramos, agressivamente. Eu me colocava de pé com dificuldade, com a perna inutilizada; mas quando encarei com ferocidade o Dragão caveira notei diversos arranhões e feridas espalhadas pelas escamas claras do magro guerreiro. Ele estava apoiado nas garras, a asa fechada formando um gancho para trás do lado do corpo, a cauda e o ferrão brilhando ameaçadoramente por cima do corpo.
Juntando o máximo me força que pude, pressionei minhas garras ainda fortes na areia e avancei corajosamente no Dragão inimigo. Quando cheguei perto, enterrei com vigor minhas garras nos ombros e nas costas do Guardião; ele urrou de dor e, aproveitando a chance em que a cauda atrás dele se agitava freneticamente, abocanhei-a com ferocidade. Com o máximo de força que pude juntar, puxei a cauda do inimigo para um lado e o girei, impressionado com o peso daquele Dragão esquelético. Quando foi o fim do primeiro círculo, soltei minhas presas das escamas do Guardião e ele voou longe, acertando um rochedo na praia.
As pedras se desprenderam do rochedo e desabaram em cima do Guardião ferido e ele foi coberto por uma porção de pedregulhos claros que despencaram da parede de pedras. O silêncio se fez.
Tombei para o lado quando minha perna inutilizada cedeu e não sustentou meu peso. Me arrastei no chão para frente, para me colocar de pé. Com empenho, eu estava de pé mais uma vez, e encarava o amontoado de pedras na beira da praia; algumas ainda caíam e produziam pequenas ondas e sons baixos na água. Abri a boca surpreso e alarmado quando vi as pedras no topo tremerem e começarem a cair.
Debaixo das rochas, apareceu o Dragão acinzentado; ferido, arranhado e ofegante. Mas me encarava com um fogo no olhar, como se agora mais do que nunca desejasse me destroçar. Quando eu caí mais uma vez de lado, por causa da minha perna, toda a minha vontade de levantar pareceu afundar no mar. Cansado e abatido, forcei minhas asas no chão, tentando me levantar. Como eu ganharia naquele estado? Mas meu orgulho me levantou, por mais que eu não tivesse forças para nem desviar nem atacá-lo com fogo.
Se arrastando e arfando furiosamente, o Guardião sibilou para mim, os olhos vermelhos faiscando. Mas então, ele soltou um grito de dor longo e agudo, e tombou de lado, na água. Vi que sua asa estava virada para um ângulo estranho. Ele tentou mais uma vez se colocar de pé e, apoiando-se com a cauda, se levantou e fez um movimento grotesco; mordeu a base da asa quebrada e com um estalo, colocou-a no lugar.
— Pronto — Eu pensei, cansado. — Só o que faltava.
O Guardião rosnou com as mandíbulas abertas e empinou a cauda mais uma vez acima do corpo, pronto para me dar o bote final. Com minhas últimas reservas de forças, eu rugi cerrando os olhos para ele. Mas algo incrível aconteceu antes do ataque.
O Dragão caveira vacilou, abrindo as asas dos lados do corpo para se preparar para o golpe; mas antes disso, eu, juntando forças em minha perna ainda boa, tomei o máximo de impulso que pude e avancei com as asas coladas ao corpo como um míssil no inimigo e fechei meus dentes no ombro dele. Com o impacto, ele caiu mais uma vez no monte de rochas onde tinha saído e a parede rochosa estremeceu; só que dessa vez, o Guardião estava caído entre as pedras, derrotado.
Eu tinha soltado as presas do agressor antes do impacto. Por sorte, as rochas só rolaram na minha direção e eu saí ileso. Porém, estava muito cansado e caí na água morna da praia. Não sentia minha perna imobilizada.
Depois de alguns minutos, o Guardião da ilha abriu os olhos vermelhos e, grunhindo, se colocou de pé. Eu só o olhei, com o rosto repousando na areia, metade coberto pela água. Ele se aproximou de mim, arrastando as asas do lado do corpo e abriu a boca de dentes cinzas. Senti uma onda quente voltar ao meu corpo e por cima do ombro, vi minha perna reconstituída.
Colocando-me de pé, observei minha perna que estava boa como sempre com os olhos arregalados. O efeito do golpe fora revertido.
— Aí está — Rosnou o Guardião, aborrecido. — Está satisfeito? Me causou mais dor de cabeça do que muitos invasores da ilha. Pode-se dizer que passou no teste.
Eu o olhei, não mais sentindo cansaço. Marcas de nossa batalha ainda estavam espalhadas por aquela parte da ilha. Fiz um gesto com o meu rosto, agradecendo e esperei ver o que ele diria a seguir.
— Eu batalhei sério, mas você foi bem. Não hesito em dizer que resistiu muito mais do que a maioria. — Skull arreganhou os dentes num sorriso macabro. — Muitos não duraram tanto quanto você... Corações mais fracos são mais afetados por mim.
De dentro de alguns arbustos, o rosto apavorado do pequeno Dragão azul celeste apareceu, hesitante. Skull bufou, fazendo-o retroceder o rosto para entre as folhas.
— Por que você estava o atacando? — Eu perguntei.
— Eu não estava — Grunhiu o Guardião da ilha em resposta. — Meu dever é impedir invasores de penetrar na ilha, mas aquele infeliz não conseguiu nem dizer seu nome e de onde veio. A alma é fraca demais...
Olhei para o pequeno e assustado Dragão nos arbustos. — Você pode vir aqui? — Perguntei, mas ele gemeu e se encolheu. — Ele não vai mais atacá-lo.
Com muito receio, o Dragão azul se arrastou até perto de mim e o vi começar a tremer gradualmente cada vez que chegava mais perto.
— Qual o seu nome? — Perguntei mais uma vez.
— W... W-Will... — ele balbuciou.
— Will — repeti. — De onde vem?
— D-da floresta do leste... Me perdi no mar, e como não posso voar, fui trazido até aqui pela maré.
— Pela maré! — Rosnou o Guardião, sobressaltando Will. — Espera que eu acredite nisso? Muitos outros querem entrar nesta ilha e desfrutar de seus bens, não só como o próprio Dragão Sábio mora aqui e muitos ambiciosos procuram por ele!
— Espere — eu o interrompi. — O Dragão Sábio está aqui? Você é o...
— Não. — O Guardião falou, com as mandíbulas fechadas. — O último Guardião está no centro da ilha, no Vulcão. Aliás, é onde você deveria ir agora.
Will estava encolhido na areia entre nós dois. Nos olhava com preocupação. Mas então, eu chegara ao último Guardião. Será que eu finalmente conseguiria respostas sobre mim ou seria apenas um fracasso; chegar tão longe para desistir? De qualquer modo, era um feito ter chegado tão longe. Faziam meses desde que saíra de casa e, mais perto do que nunca das respostas, meu coração acelerara. Se pudesse apenas haver um jeito de conversar com meus pais; contar onde estava e quando já fizera...
— Eu vou. — Eu disse, por fim. — Mas deixe Will em paz. — O Dragão azul me encarou estupefato. — Ele obviamente não está aqui por que quer. Ele sairá assim que tiver um meio.
Will se apressou em concordar, ainda surpreso. O Guardião me encarou, hostilmente, mas sua voz estava normal quando ele disse:
— Ótimo. Desde que seja logo. Agora se apresse e encontre o Vulcão. Vai ter alguém lhe esperando lá. Só espero que você consiga; se fosse para perder, deveria ter sido para mim — ele sorriu e seus dentes poderosos brilharam. Eu agradeci, sério.
— Tome mais cuidado da próxima vez — Eu disse antes de ir para o meio da ilha a Will. Ele sorriu e agradeceu, alegre. Mas logo que parti vi ele se afastar rapidamente do Guardião esquelético.
Depois de adentrar a floresta exótica da ilha, caminhei por volta de minutos no silêncio das árvores até encontrar a base de um majestoso vulcão. Não parecia tão grande como o Vulcão que podia ser visto do meu vale, mas mesmo assim era impressionantemente grande. Olhei para cima com uma brisa suave balançando as folhas claras das árvores altas e cobertas de flores. O topo, apesar de longe, podia ser visto.
E era ali que estaria o último dos Guardiões; a parte final da minha jornada, onde eu ganharia respostas por perguntas mantidas no silêncio por toda minha vida... Estaria finalmente na hora de descobrir a verdade sobre mim mesmo. E só o Dragão Sábio tinha as respostas.
Coloquei minhas patas na base de terra do Vulcão e comecei a escalar a parede de cor avermelhada. Não era tão íngreme, mas as rochas se soltando dificultavam a subida, e eu não me sentia disposto a voar, devido a machucados em minha asa da luta com o Guardião anterior. Com força e determinação, senti o ar esquentando em volta de mim cada vez que chegava mais perto do perigoso Vulcão.
Cravei minhas garras na pedra quando alcancei o topo; forcei os ombros e me icei para o topo do Vulcão, onde havia um espaço aberto de terra nas bordas, e um buraco enorme no meio, onde de longe, a lava dentro brilhava perigosamente. De pé na beirada, olhei em volta. O calor era intenso e nuvens escuras começavam a se formar em volta da ilha. Não havia ninguém ali.
Procurei em volta do topo do Vulcão por alguém, mas ninguém estava lá, e o céu começava a escurecer com o chegar da tarde e as nuvens carregadas acima. Mas um estrondo alto como um explosão me surpreendeu e eu olhei espantado quando um jato de lava jorrou para fora do Vulcão, subindo cada vez mais enquanto pingos flamejantes caíram em volta de mim.
Quando a lava parou de subir houve outro estrondo e, do meio do jato fumegante, abrindo as poderosas asas azul marinho, surgiu a sombra de um Dragão grande e de aparência agressiva. A lava respingou perigosamente quando desceu de volta a abertura do Vulcão. O Dragão agora podia ser visto com mais nitidez; suas escamas eram de uma cor vinho avermelhada, ele possuía asas longas e fortes azul marinho e listras amarelas percorriam das suas costas até o fim da cauda, onde um afiado triângulo negro balançava enquanto ele se mantinha no ar, batendo as asas. No focinho, olhos castanhos amarelados e chifres escuros; assim com uma longa cicatriz que cortava o rosto, de um lado ao outro. O desconhecido me encarava pairando acima do buraco de lava.
O Dragão desceu e suas garras cinza escuro encostaram no chão de pedra e sua voz grave e forte soou:
— O que você quer?
Eu me mantive sério e respondi: — Eu procuro o Dragão Sábio. — Ele se retesou ao ouvir isso; — Você é o último Guardião...?
— Claro que sou! — Ele bufou, com raiva, e um pouco de fumaça escapou de suas narinas. — Meu nome é Vulcan, e eu sou o Guardião do Vulcão. Então, você é o rapaz presunçoso que recentemente procura o Dragão Sábio, hein? Vou providenciar sua expulsão desta ilha agora mesmo. — Vulcan rosnou no fundo da garganta, sorrindo.
— Talvez fosse melhor deixar as palavras de lado. — Eu disse.
— Atrevido... — O Guardião rosnou mais uma vez, mostrando as presas claras. Eu, em posição, abri minhas asas, provocando uma brisa suave segundos antes do calor arrebatador da lava percorrer meu corpo mais uma vez. Mas eu estava concentrado. O último Guardião... Finalmente.
Chamas vermelho-escuro brotaram do nada em minha frente e eu desviei bem a tempo; quando rolei de lado, vi as mandíbulas do Guardião escancaradas e o fogo saindo de sua garganta. Ele redirecionou o fogo para me acertar, mas eu me virei o acertei-o com minha cauda; ele rugiu e o fogo desapareceu no ar. Logo depois, avancei em direção a ele e mirei uma patada no seu ombro. Por pouco acertei, mas o Dragão vermelho foi mais rápido e, virando seu corpo, acertou desta vez meu rosto com o espinho da ponta da cauda, fazendo um corte em baixo do meu olho esquerdo. Senti um fio de sangue quente escorrer no meu rosto quando eu cerrei meus olhos para ele, irritado.
O Guardião sorriu triunfante; mas a batalha só estava começando. Rosnando, avancei sobre ele mais uma vez, arranhando-o, e ele revidou fazendo a mesma coisa. Fiquei em pé nas patas traseiras e o ataquei; mas logo ele me imitou e nós ficamos a arranhar os ombros um do outro, abanando as caudas e as asas ferozmente atrás do corpo. Vulcan mordeu minha pata direita sem hesitar; senti a dor passar por meu braço e, para revidar, investi com meu rosto e choquei minha testa na dele. O Guardião do Vulcão uivou de dor e cambaleou para trás, e eu, aproveitando a chance, raspei minha cauda no chão por baixo dele e o derrubei. Ele caiu de costas, depois de soltar minha pata de seus dentes grossos, e eu senti a ferida arder.
Antes que eu o atacasse de novo, o inimigo levantou a cauda rígida e me acertou, me desequilibrando. Eu cambaleei para o lado e senti as presas do Guardião se fecharem no meu ombro. Depois, eu caí e as garras do Dragão vermelho me pressionavam contra o chão. Lutando contra a pressão, forcei minhas asas a se abrir contra o oponente e ele foi jogado para trás. Rosnando, ele abaixou o rosto e andou para o lado; eu me levantei bem a tempo de evitar outro golpe do espinho da cauda dele.
Mais uma vez travamos uma batalha de garras quando investimos um contra o outro; o Guardião era maior que eu e me provocava feridas mais profundas. Mas mesmo assim, eu lutava bravamente contra aquele guerreiro de escamas vermelhas, que era meu último obstáculo para encontrar o Dragão Sábio.
O céu estava mais escuro agora, e pequenas gotas de chuva começaram a cair em volta do arco do vulcão. Nos desvencilhando novamente, eu e o Guardião rugimos ao mesmo tempo em que um trovão no meio das nuvens soou. Mas eu não iria desistir.
Mordendo a parte superior do braço do Dragão vermelho, o empurrei em direção á abertura no chão. Parece que eu queria matá-lo, mas espere para ver. Ele lutava para se soltar, mas quando cheguei suficientemente perto do buraco, ataquei o Guardião com meus chifres e ele foi arremessado para a frente, e para dentro do Vulcão.
Um pouco assustado, corri até a beirada para ver somente a ponta negra do espinho da cauda do Guardião afundar na lava mortal. Um arrepio gelado passou por minha espinha; eu o tinha matado...? Mas logo me sobressaltei quando, — assim como ele apareceu a primeira vez — no meio de um jorro de lava, o Guardião apareceu mais uma vez, no ar.
— A lava não me fere, tolo! Eu sou parte dela. Dragões do elemento fogo são dos mais resistentes, depois dos terrestres. — Ele rosnou, ao pousar mais uma vez no chão, com fios de lava que normalmente derreteriam Dragões até os ossos escorrendo do lado do corpo. Eu retesei meus músculos, me preparando para atacá-lo, mas de repente perdi a visão.
Brasas fumegantes foram atiradas em meus olhos, que arderam e queimaram; eu rugi de dor e abaixando o rosto o agitei, tentando tiras as cinzas que atrapalhavam minha visão. Ouvi o Guardião rir e a próxima coisa que senti foi ser derrubado violentamente de lado pelo Dragão do Vulcão. Com os olhos semi-cerrados, eu só via um borrão vermelho que identifiquei ser meu oponente, e, astutamente, esperei até ele se aproximar para fazer como fiz com Ront em minha batalha anos atrás — abri minha asa violentamente contra o queixo do Guardião vermelho.
Ouvi o grunhido de dor quando ele recuou. Enxergando um pouco melhor, mirei minhas garras no focinho dele e acertei, fazendo-o virar o rosto para o outro lado. Grunhindo e cuspindo, o Guardião abriu os olhos amarelados e me fitou hostilmente, os dentes á mostra. Atacá-lo com fogo não seria inteligente; possivelmente Dragões do mesmo elemento não sofressem com golpes a que também possuíam. Me restava continuar a luta mano-a-mano.
O Guardião começou a inspirar ruidosamente, levantando e empinando o focinho para o alto, mas os olhos amarelados ainda me fuzilando agressivamente e eu vi as chamas começarem a brilhar dentro da garganta do inimigo antes de ele realizar o golpe. Mas não foi fogo que saiu de dentro da boca do Dragão vermelho — foi lava.
Lava escaldante e mortal brotou da garganta do Guardião e, como um jato, foi lançada em minha direção. Surpreso, consegui me desviar, para ver a lava chegar ao chão agora umidecido pela garoa que caía. A lava fumegou e vapor saiu dela, quando mais gotas de chuva começavam a cair em volta de nós e na ilha. Eu recuperara minha visão; e o Guardião se preparava para mais um golpe ardente. Preparado, me abaixei de leve e aguardei o momento certo. Quando ele atacou novamente, as feridas em suas escamas avermelhadas reluziram e o jato de lava apareceu mais uma vez entre seus dentes. Mas eu estava prevenido e me desviei a tempo; coloquei as quatro patas juntas e tomei impulso, avançando sobre o inimigo e o derrubando com força.
O agressivo Guardião se colocou em pé mais uma vez, enquanto a garoa escurecia o chão de pedra sobre nossas patas. Rosnando, ambos andamos em círculos lentamente, cada um em uma direção, nos encarando hostilmente. O Guardião rosnava alto, e arreganhava as presas; eu, caminhava lentamente e simplesmente cerrava os olhos para meu oponente. Um trovão distante ecoou dentro das nuvens.
Avançamos mais uma vez contra o outro, atacando e arranhando com as garras ferozmente, enquanto as gotas pequenas de chuva caíam sobre nossas escamas. A batalha seguia feroz, com as garras se chocando e os rugidos ecoando. Quando nos afastamos novamente, vi o Guardião preparando seu golpe de lava mais uma vez e, rapidamente, pensei em algo para rebater o ataque. Assim que o Dragão do Vulcão começou a reunir seu poder e eu enxerguei o brilho da lava na sua garganta, eu corri, e então me joguei no chão e deslizei até chegar perto do Dragão inimigo; assim que estava perto e a lava podia ser vista nas mandíbulas de Vulcan, deslizando, chutei com violência e com impulso embaixo do focinho do Guardião. O impacto fechou intensamente as mandíbulas do Dragão que ainda preparava seu golpe.
Ele grunhiu de agonia; filetes de lava escorreram pelo canto de sua boca enquanto ele rugia e abaixava o rosto, vapor e fumaça saindo de suas mandíbulas abertas, enquanto a lava queimava o interior da garganta e boca do Dragão vermelho.
— Você pode ser resistente por fora, mas parece que não é tanto por dentro. — Eu disse, me pondo de pé e recuando.
Eu esperei enquanto o agressivo Dragão vermelho ainda rugia de dor e uma fumaça branca queimava dentro de sua boca e saía, evaporando no ar. Depois de agonizar com a lava fumegante, o Guardião tombou para o lado, caindo em cima de uma asa e a outra aberta em direção ao céu. Ele arfou enquanto a lava não se esvaía. Eu estava esperando, ainda em posição, quando Vulcan falou, a voz cansada porém enfurecida:
— Maldito... Eu... Estou queimando... — E eu até cheguei a pensar que ele corria perigo. — Droga... Terei de ir até o mar para me recuperar... Seu moleque... — E ele se colocou de pé, devagar. — Nunca pensei que alguém repararia que além de demorar para eu concentrar a energia necessária para meu golpe... Assim como eu não resisto a meu próprio poder por dentro... Garoto impertinente...
Eu dei um passo á frente, olhando desconfiado e preocupado para o Guardião que ainda arfava e soltava fumaça pela boca.
— Você está...
— Estou bem! — Rugiu ele. — Não se preocupe! Ora... — e arfou, soltando uma grande fumaça branca da boca. — Não pensei que seria hoje o dia em que eu daria passagem á alguém... Ainda mais um moleque como você... Mas de qualquer modo...
— O que tenho que fazer agora? — Perguntei, pondo de lado o pensamento de que tinha provocado um ataque fatal.
— Entrar no vulcão.
— ...
— Estou falando sério.
Eu o olhei, descrente.
— Olhe garoto, não fique me encarando desse jeito! — Rosnou aborrecido o Dragão vermelho. — Eu abrirei uma passagem na lava para você. O Dragão Sábio mora dentro do Vulcão. Espero sinceramente que ele não tenha a resposta do que você procura. — E ele olhou agressivamente para as marcas verdes nos meus olhos. — Se é que alguém já teve.
— O que quer dizer com isso? ... Esqueça. — Eu fechei os olhos, agora sério. — Só me mostre o caminho.
Vulcan bufou, soltando mais fumaça e cambaleou até a beirada do Vulcão, de onde tinha saído. Abrindo as asas azuis, respirou fundo e soprou na lava, onde um vento invisível começou a girar e pressionar a lava dentro do buraco como um redemoinho. Depois de segundos, havia lava nas paredes da abertura mas uma passagem aberta pelo meio. Eu olhava a passagem, impressionado, em silêncio.
— É só voar, ou melhor, planar até achar uma abertura na parede. — Resmungou o Guardião do vulcão. — Ele estará lá.
Eu fiz um aceno com meu rosto; não agradeceria abertamente aquele Guardião rabugento. E afinal, estava com mais coisas na cabeça aquele momento. O Dragão Sábio aguardava por mim dentro do Vulcão da ilha.
Fim do 1° Capítulo
