DRACO MALFOY 101

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Hermione culpava a sua avidez pelo saber pela lista chamada Coisa Que Eu Sei Sobre Draco Malfoy que o seu cérebro parecia ter cuspido nela, sem que a própria tivesse absolutamente nada a ver com o processo de criação. Existia uma diferença enorme entre essa lista e a anterior que ela tinha a respeito dele, chamada Porque Draco Malfoy É a Escória Da Humanidade. A lista original, aquela que Hermione deliberadamente criara, englobava aspectos gerais sobre Malfoy, que concerniam muito mais suas ações do que aspectos concretos sobre ele.

Por exemplo, na primeira lista, estavam fatos como "Ter Um Pai Sociopata", - a primeira letra de cada palavra deveria ser obrigatoriamente catalogada em maiúscula, por se tratar de um estudo oficial e legítimo sobre a personalidade de Malfoy - "Comprar Sua Entrada Para O Time De Quadribol Da Slytherin" e "Ser Um Bastardo Preconceituoso". Na segunda lista, no entanto, estavam fatos concretos, extirpados de qualquer juízo de valor, como "Ser Loiro E Ter Olhos Verdes", "Espirrar Sem Que Pareça O Presságio Do Apocalipse" e "Saber Tirar O Pó De Fadas Mordentes E Conservar Seus Dedos No Processo".

É claro que o peso moral da lista sobre como Malfoy era um bastardo que deveria ser posto numa jaula era muito maior do que o da lista sobre pequenos aspectos sobre ele. Na verdade, até aquele momento, seis anos depois de o ter conhecido, ela nunca vira necessidade de criar duas listas para ele, mas havia algo de humano em tirar o pó de fadas mordentes como quem põe sal e pimenta na salada ou em espirrar, algo que não ia de encontro a sua suposta sociopatia genética ou com o quão repulsiva era a sua personalidade.

Era como se existissem dois Malfoy: aquele que tinha inclinações humanas e que provavelmente dormia, sentia fome e frio e aquela outra pessoa que Hermione gostava de se certificar que estivesse num raio de, no mínimo, dois quilômetros de distância da sua pessoa.

Não era como se ela estivesse tentando descobrir a humanidade em Malfoy ou qualquer coisa absurda assim - mesmo porque, vale frisar, a criação da segunda lista não tinha contado com a aprovação de Hermione, se tratando apenas de algo cuspido pronto pelo seu cérebro hiperativo -. Após analisar extensamente a questão, ela se deu conta que o objetivo da segunda lista seria provar que não importava o ângulo em que se considerasse a pessoa que Draco Malfoy era, a conclusão sempre levaria a presumir que ele era um ser humano repulsivo, o que ia de acordo a primeira lista criada por Hermione.

Olhar o propósito das listas por aquela perspectiva fora a única coisa capaz de a fazer adormecer na noite anterior.

O que a levava à normalidade que tentava inspirar ao encarar Malfoy do outro lado do Salão, sentado à mesa da Slytherin entre Parkinson e Zabini. Estou apenas fazendo um estudo de campo, ela diria a quem lhe perguntasse, é um estudo sociológico sobre quem é Draco Malfoy, aquele menino desagradável da Slytherin. As pessoas lhe perguntariam por que ela estava se dando ao trabalho, é claro, as pessoas nunca estavam satisfeita com meias respostas, ao que Hermione responderia, não se preocupe, estou apenas fazendo isso para provar que não importa o ângulo de observação, ele ainda é completamente intragável e podemos todos o odiar e paz. De nada.

"Eu obviamente estou ocupada, Neville, levanta a bunda do banco e pegue você mesmo o seu chá", foi a frase eloquente e nem um pouco ofensiva que Hermione optou por usar em vez de a sua explicação sobre como Malfoy era seu novo objeto de estudo antropológico.

Ela supus que, de uma forma ou de outra, Neville teria arregalado os olhos para ela, então no fim das contas, dera na mesma.

Hermione ficava especialmente irritadiça quando estava no período de ovolução do seu ciclo menstrual, cerca de duas semanas antes de se debulhar em lágrimas, questionando os sete ventos do porquê aquela maldição fora colocada sobre a raça feminina.

Neville deveria saber daquilo. Ele convivia com ela há sete anos. Ela suspeitava que Harry e Ron tinham um caderno em que anotavam as fases do seu ciclo. Eles ficavam inexplicavelmente quietos durante a semana em que Hermione estava irritada.

Ela bufou quando Harry pediu à Ginny que lhe passasse o bule de chá. Era uma maldita de uma epidemia. Chá. Que piada. Chá. Era por isso que estereótipos eram criados. Lá estavam eles, centenas de londrinos se amontoando em volta do bule de chá como se o líquido amarelado tivesse a resposta para as perguntas do universo. Chá era para perdedores. E Hermione nem iria começar a digredir sobre gente que colocava açúcar no chá.

Ela estava disposta a apostar que aquele tipo de gente era o motivo porque democracia era um conceito alien no mundo bruxo.

Gente de verdade tomava café. Café sim tinha a quantidade de cafeína que se precisa para acordar alguém de manhã. Café tinha um cheiro forte e cor que não lembrava um balde com água em que alguém tinha esquecido um monte de meias sujas dentro. Café não precisava de leite ou açúcar para se mascarar o seu sabor porque café era tomado por gente de verdade, café-

Malfoy abraçava possessivamente o bule de café do outro lado do Salão, recusando-se veementemente a passá-lo para Parkinson, que o encarava com descrença.

A xícara de café que Hermione estava prestes a levar aos lábios ficou parada no meio do caminho, enquanto ela assistia a cena e voltava ao seu estudo antropológico.

Sempre a boa aluna, Hermione.

"- bule.", Malfoy dizia, o tom da sua voz era baixo, mas firme.

"Não é seu bule, Draco! É o bule da mesa! Agora me passa logo o café!", Parkinson estava visivelmente alterada. Hermione se questionou brevemente se aquela teoria que afirmava que mulheres que conviviam juntas partilhavam os mesmo dias do ciclo menstrual se aplicava a ela e Parkinson.

"É meu bule. Sempre foi meu bule. Só eu bebo café aqui.", Malfoy dizia, confirmando as expectativas de Hermione de que todos os slytherins eram pessoas imbecis.

"Mas eu quero café agora!", Hermione torcia ensandecidamente para que Parkinson rompesse em lágrimas, provando que ela estava num estágio adiantado do seu ciclo e que, portanto, ela e Hermione não partilhavam absolutamente nada.

"Você fez a sua escolha anos atrás, Pansy. Não tem como voltar agora.", ele ainda soava como se estivesse discutindo o mais sério dos assuntos, mas aquele brilho nos olhos de Malfoy queria dizer também que ele acabara de colocar para si mesmo a meta de levar a pessoa com quem estava discutindo à loucura.

Não que Hermione simpatize com Malfoy, veja bem. Mas estatisticamente falando, duas pessoas, por mais opostas que fossem, estavam fadadas a ter pelo menos uma coisa em comum. Naquele caso em específico, era o desejo de levar Parkinson às lágrimas. E o café. E ambos espirravam. E sabiam como tirar o pó das fadas mordentes.

Que seja.

"Não é como se você fosse tomar o bule inteiro, Draco!"

"Eu vou sim.", ele afirmou, convicto. Um sorrisinho brotando nos seus lábios.

"Você não va-"

"Ele vai sim, Pansy.", interferiu Zabini, que se sentava do outro lado de Malfoy, "Narcissa me pediu para fazer ele tomar menos café quando eu estive lá no verão, mas eu reconheço uma causa perdida quando vejo uma."

Parkinson olhava de Zabini para Malfoy, o primeiro balançava a cabeça, uma expressão condolente no rosto, Malfoy, por sua vez, seguia abraçando o bule, um sorriso no rosto como se uma úlcera eminente fosse motivo para se orgulhar.

Hermione, pessoalmente, achava que havia coisas bem piores para se orgulhar. E que aguentar a dor de uma úlcera denotava destreza de caráter.

Malfoy olhou através do Salão, diretamente para o rosto de Hermione. Ela se perguntou brevemente se aquele seria o momento em que voltariam à não declarada guerra de olhares que haviam começado no dia anterior na aula de Poções. Ela se pergunto também se ela podia piscar agora, antes que a competição oficialmente começasse.

Já tinha começado? Óbvio que sim. Malfoy jamais lhe daria tempo para se preparar para um evento de tamanha grandeza, ele jam-

Hermione destinou seu pior olhar da morte na direção de Lavender Brown, que se sentava de frente para ela, um pouco a sua direita, quando a menina fez menção de alcançar seu bule de café. Seu. Bule. De. Café. Lavender recolheu o braço novamente, os olhos arregalados de medo, pedindo a Ron para lhe passar o pote de geléia, que estava ao lado do bule de café.

Merda. Ela perdera a competição com Malfoy novamente por um alarme falso.

Não que ela tenha perdido da última vez. Ou dessa. Poções explodiam e pessoas tentavam roubar os pertences de Hermione, não era sua culpa. Ela diria aquilo a Malfoy na primeira oportunidade.

Ela olhou na direção dele, bufando, crente que veria aquela expressão presunçosa no rosto dele, mas não. Ele levantava uma das sobrancelhas, aquele sorriso que fazia apenas um dos lados dos seus lábios subirem. Malfoy fez um movimento com o seu bule de café como se estivesse brindando. Ele colocou o bule na sua frente novamente e voltou a conversar com Zabini, deixando Hermione a levar a sua xícara até então suspensa no ar aos lábios, provando um pouco do líquido dos deuses.

Draco Malfoy Era Fã de Café Puro e Amargo, assim como... bem, ela própria.


Notas da Autora: Eu fiquei muito feliz com a resposta de vocês aos primeiro capítulo!

Obrigada a Felcia Malfoy, Lady Malfoy, Yasmim Malfoy, Nanda Magnail (3), Angy (Meu Deus! Quanto tempo! Espero que esteja tudo ótimo para você!), Fran, JuuhCid, Francesa e Hiwatari Satiko!

Espero que tenham gostado e continuem acompanhando, quaisquer duvidas sobre atualizações, serão postadas no meu perfil!

Revisem!