RECORDE 01

- RELEMBRAR -

Ele estava num corredor feito de mármore, o que lhe passava uma atmosfera terrivelmente fria. Flores ornamentais e sem vida, feitas de pedra, decoravam o lugar aqui e ali, e Yami imaginava o quanto aquilo parecia ser uma sepultura. Tudo o que ele carregava consigo era uma carta.

Yami: Essa carta é a porta para a verdade, huh...?

Murmurando, Yami observava a carta, parado completamente sozinho no meio do corredor vazio. Havia a figura de algum tipo de castelo retratada na carta.

Os passos de Yami ecoavam conforme ele voltava a caminhar pelo chão feito de mármore. Não havia qualquer outro som no ambiente. Mas então, Yami calou seus pés, observando a porta que se encontrava alguns passos adiante.

Tem algo esperando por mim atrás

dessa porta, não é mesmo?

Yami quietamente subiu as escadas que levavam à porta.

Essa verdade pode ser dolorosa,

huh? Se for, acho que essa dor

é o castigo pelas coisas que eu fiz.

A carta começou a brilhar e reluzir dentre uma pequena luz. E então, a porta lentamente se abriu para Yami.

{ . . . }

O que havia do outro lado da porta era familiar. Objetos artísticos em forma de rosas, aqui e ali, decoravam o local. Olhar para eles fazia Yami se lembrar de eventos desagradáveis.

Esta é a Fortaleza das Trevas. O castelo

aonde Malévola vivia. E também a enorme

fortaleza aonde eu passei meu tempo,

impregnado pela escuridão. Quando foi que

eu cheguei aqui? Enquanto ainda estava

dormindo? O último lugar do qual eu me

lembro antes de perder a consciência

certamente é deste castelo. Minha última

memória é a de estar bloqueando o avanço

do Luminos, tentando proteger a Hikari.

Depois disso, eu caminhei sozinho pela

escuridão. Então, eu me encontrei com o Rei

em algum momento pelo caminho — mas

já estou sozinho novamente. Se a verdade

está nesse mundo, então talvez eu possa

encontrá-la aqui, dentro deste castelo.

?: O que você vê não é real. Este o mundo das suas memórias.

Yami olhou para cima ao som da repentina voz, que ecoou por toda parte. Era a voz do mesmo homem que havia dado a carta para Yami, pouco antes.

Yami: Minhas memórias?!

Voz: As coisas das quais você se lembra sobre o tempo em que passou no castelo da Malévola se tornaram uma carta, e essa carta criou este mundo. Você já viu tudo aqui antes, não é verdade?

Era exatamente como o homem dizia.

Esse lugar é igual ao que há dentro das

minhas memórias — exatamente

como era antes. Foi para cá que eu

arrastei a Hikari, tomado pelas palavras

da Malévola, e passei o tempo ao seu

lado, enquanto ela dormia. Os dias que eu

passei junto com a Hikari... Hikari, como

uma marionete silenciosa... ainda

assim, eu me sentia um pouco feliz.

Eu pude ter a Hikari toda para mim. Mas...

Yami virou o rosto e gritou para o espaço vazio.

Yami: É... mas e agora? Eu vou aprender alguma coisa? Encontrar alguém, talvez?

O homem que não se podia ver começou a falar, lentamente.

Voz: Você deve se encontrar com pessoas das suas memórias. É o que acontece... geralmente.

E então, ele se silenciou.

Yami: O que isso significa?

O homem não mais respondia as perguntas de Yami.

Yami: Ei! Estou te fazendo uma pergunta!

E enquanto gritava, Yami notou uma coisa — naquele momento, uma negra camada de trevas começou a se erguer ao seu redor.

Yami: — O quê?!

Essas coisas que estão surgindo

aqui são aqueles monstros que

uma vez eu havia controlado — é

uma onda de Sem-Corações.

Os Sem-Corações vieram para cima de Yami todos de uma vez.

Yami: — Ngh!

Sem nem sequer parar para pensar, Yami rapidamente se pôs em posição de combate e, dentre uma forte luz negra, surgiu em sua mão uma espada que parecia moldada em asas de demônios — a Devoradora de Almas.

Yami: Acho que isso quer dizer que terei que lutar usando você.

Yami posicionou a Devoradora de Almas e golpeou os Sem-Corações ao seu redor. Todos foram destruídos sem sequer terem chance de se mover.

E eu pensando que havia me

separado da escuridão...

A espada parecia familiar em sua mão, como se a espada em forma de asas de demônios sempre houvesse pertencido a ele. Isso deixou um horrível sabor na boca de Yami, e ele logo correu para o meio da onda de Sem-Corações, brandindo a Devoradora de Almas. Vários Sem-Corações caíram pela lâmina da Devoradora de Almas, e seus corpos desapareceram.

Yami subiu correndo por uma escada que havia adiante. Os Sem-Corações surgiam dos degraus e dos pisos superiores, arremessando-se contra ele.

Yami: ...o que é isso — Mas que diabos?!

Essa é a primeira vez que luto com os

Sem-Corações desse jeito. Eu costumava

controlá-los, de preferência, como se

eles fossem meus camaradas. Mas agora

eles são inimigos — se isso é verdade, então

Malévola... Gancho... agora eles também

são inimigos, certamente. Qualquer

um que faz uso do poder da escuridão

é meu inimigo. Aqueles que estão do

meu lado são — o Sora, a Hikari... e o Rei.

Todos os camaradas do Sora. Porém, eu

não sei se eles pensam em mim como

alguém que eles iriam querer ao seu lado.

Yami: Saiam da minha frente, malditos!

Yami acabou com os Sem-Corações com a Devoradora de Almas, e correu até uma sala que ele tinha certeza que havia ao topo daquelas escadas.

Se eu me lembro corretamente,

então aqui deve ser —

Voz: Deve ser bom voltar ao seu velho quarto — pense só em todas as memórias...

A voz do homem ressonou pelo quarto, e Yami se virou para todo lado.

Yami: Você de novo.

Uma voz repugnante para combinar com

essas memórias repugnantes...

Yami franziu as sobrancelhas, olhando com desdém para o espaço vazio. E então, respondeu numa baixa voz.

Yami: Desculpa, mas eu estou muito bem sem essas memórias. Foi a Malévola que me deu esse quarto.

Isso mesmo... foi a Malévola que me

presenteou com este quarto, para meu uso

exclusivo. Fora o tempo em que eu passei

a bordo do navio do Gancho quando fui buscar

a Hikari, eu estava sempre neste castelo.

E, de todo esse tempo, eu passei a maior

parte neste quarto. Treinando minha habilidade

com a espada — lendo livros — e se fosse

para eu dizer o que mais eu fiz... eu só ficava

parado, irritado, pensando sobre diversas coisas.

Com raiva de diversas coisas. Eu sentia como

se fosse minha culpa a Hikari ter ficado daquele

jeito — mas então, eu pensava comigo mesmo

se não havia sido um grande erro partir para

o mundo exterior, e eu gentilmente tocava

no rosto adormecido da Hikari.

Voz: Ela o fez. E você morou aqui, tentado pela escuridão que ela oferecia. Você se desfez da sua casa, dos seus amigos — de tudo. Mas pelo menos até que te deram um bom quarto.

Yami: Cala a boca!

E com raiva, Yami deixou o quarto, correndo.

{ . . . }

Correndo pelo saguão, Yami acabou com mais Sem-Corações, e subiu por mais escadas. Ao topo, ele abriu uma pequena porta, dentre um alto rangido. Do outro lado havia uma enorme paisagem — a obscura alvorada da Fortaleza das Trevas. Não se era possível ver o mar ou a terra; apenas o céu que se estendia.

No passado, Yami havia recebido permissão para caminhar livremente pelo castelo, e passara algum tempo ali, no topo daquela torre. Era um lugar secreto, onde ninguém, nem mesmo Malévola, ia.

Yami: — Esse lugar também é exatamente como eu me lembro...

Murmurando numa pequena voz, Yami se sentou.

Eu me desfiz de tudo... sim, quando eu

abandonei as ilhas, eu me desfiz de tudo.

Naquele tempo, sentado aqui, eu não parava

de dizer isso para mim mesmo. Porque naquele

dia — naquela noite de tempestade — eu

perdi para o meu insaciável desejo de poder

alcançar o mundo exterior, e eu me submeti aos

encantos da escuridão. Se eu pudesse ao

menos ver outro mundo — se eu pudesse

fugir daquele cenário monótono, estaria tudo

bem. Eu não me importava como. E assim, eu

me desfiz das ilhas — do Sora, e da Hikari.

Yami: Eu sou tão idiota.

Mas, eu não fui capaz de me desfazer deles.

Não — a verdade é que, mesmo quando eu

me desfiz deles, o Sora e a Hikari não fizeram

o mesmo. Eles não desistiram. É por isso

que eu queria salvar a Hikari. O sorriso

inocente do Sora era frustrante, e eu queria

salvar a Hikari antes que ele o fizesse, e

não me importava o que fosse necessário.

O vento balançou os cabelos de Yami.

Será que eu realmente vou me encontrar

com alguém das minhas memórias

nesse castelo...? Eu quero encontrar — o

Sora. Mais do que a Hikari, mais do que

qualquer coisa, eu quero ver o Sora.

Eu quero vê-lo — e me desculpar com ele.

Yami se ergueu e pôs sua mão na porta.

Eu não posso fugir. Eu quero

encontrar o Sora de cabeça erguida.

E então, Yami entrou novamente no castelo.

{ . . . }

Eu continuo avançando cada vez

mais, mas tudo o que encontro são os

Sem-Corações. Não importa o quão

longe eu vá, não consigo encontrar o

Sora. Não apenas o Sora — não há nem

sinal de qualquer presença humana

neste castelo. Só o que consigo sentir

é a presença — de um homem.

Yami olhou para cima, buscando pela voz que o vinha guiando.

Yami: Voz! Eu sei que você está me assistindo — então me explica isso! Aonde estão as pessoas das minhas memórias?

Voz: — Você quer vê-los?

Yami parou de andar.

Yami: ...mas é claro que eu quero.

É claro que eu quero vê-los.

Eu quero ver o Sora — e a Hikari.

Voz: Mas foi você quem se desfez deles.

Sim, certa vez. Mas...

Voz: Você sonhava com o mundo exterior, e passou pela Porta das Trevas. Para trás, você deixou a sua família, seus amigos, seu lar — tudo — apenas para buscar pela escuridão.

Yami: Mas eu também me desfiz dela!

Sim. Eu me desfiz da escuridão.

Eu não vou mais deixar ela

me confundir. É por isso que —

Voz: E o que você ganhou com isso? Primeiro o seu lar, depois as trevas. O seu coração só sabe se desfazer das coisas. Ele é vazio — como esta sala. Como as suas memórias. É por isso que você não encontra ninguém. O seu coração é como essa fortaleza — tudo o que lhe resta é a escuridão que já reside nele.

As palavras do homem repercutiram na cabeça de Yami como um encanto.

Yami: Você tá errado! Eu rejeitei a escuridão!

Eu me desfiz da escuridão, eu a

rejeitei. Naquela vez — o Rei me disse.

Eu me livrei das garras do Luminos.

Voz: Ha, ha, ha... É mesmo, huh —? Se é assim, então siga adiante. A pessoa que você deseja encontrar está esperando.

Yami ergueu o olhar, e havia uma grande porta ao fim de onde podia ver.

É o grande salão aonde Malévola

sempre costumava ficar —

Yami correu até a porta.

{ . . . }

Era uma enorme catedral, toda decorada com vitrais infames. E lá estava ela. Parada, como se aguardasse alguma coisa.

?: Eu sabia que você retornaria, Yami.

Yami: — Malévola! Você está viva?!

Yami empunhou a Devoradora de Almas, encarando-a.

Malévola: Ora, ora. Mas que forma de me receber — eu que sempre te tratei como meu próprio filho.

Malévola começou a andar em sua direção, erguendo ambos os braços.

Malévola: Mas não se preocupe. Talvez você não tenha prestado atenção, mas eu sou apenas um filamento das suas memórias.

Yami: Não se aproxime de mim — de todas as pessoas que eu poderia encontrar, tinha que ser você.

Malévola: Mas é claro! Eu sou quem te ama, mais do que qualquer um. Aqui, deixe-me ver o seu rosto —

Yami empurrou as mãos de Malévola e deu um salto para trás.

Yami: Pare com essa bobagem!

Malévola começou a gargalhar, como se fosse algo tão engraçado que ela não podia se conter.

Malévola: He, he, he...

Yami: Qual é a graça?!

Malévola: O seu coração está impregnado pela escuridão. Tudo o que você pode ver são aqueles que existem dentre essa mesma escuridão. Assim como eu. Não faz perfeito sentido para você?

Yami: ...mas —

O meu coração está impregnado

pela escuridão, então eu não

posso encontrar ninguém fora...

pessoas como a Malévola —?

Malévola: Seja grato por ter alguém para lhe fazer companhia. O seu coração está vazio. Se não fosse pela escuridão que ele contém, você estaria completamente só.

Yami: Isso seria muito bom nesse momento.

Mesmo? Isso é mesmo verdade?

Yami ficava remoendo isso em sua mente.

Quem ficou do meu lado quando eu estava

deprimido? Quando eu vi o Sora de palhaçada

com o Donald e o Pateta, os subordinados

do Rei, na Cidade da Travessia, quem foi que

veio me acomodar com tanta doçura?

Malévola: Ora, meu rapaz. Certa vez, você veio até mim expressando a sua fome pela escuridão. Você me quer aqui — quem além de mim poderia te conceder a escuridão pela qual você tanto anseia?

Enquanto Malévola docemente sussurrava para ele, Yami mordeu o lábio.

Yami: Houve uma época em que eu queria você por perto. Eu permiti que o meu coração se rendesse para a escuridão. Mas isso nunca se repetirá. Você e essa sua escuridão não têm nada para oferecer.

Yami respirou profundamente, e então olhou Malévola no fundo dos olhos.

Yami: Tudo o que eu fiz foi me perder — me esvaziar! Mas pra mim já chega disso tudo. Se eu tiver que continuar vendo seres como você, seres das trevas... eu vou acabar com vocês, um por um.

De repente, Yami saltou contra Malévola, a Devoradora de Almas erguida em sua mão. Mas Malévola bloqueou a investida com seu cajado.

Malévola: Então você não pode se esquecer de destruir a si próprio no final. Pois, como eu, você também é um ser das trevas.

Yami: Por mim tudo bem. Eu me voltei para a escuridão porque o meu coração era fraco — e eu odeio essa fraqueza!

Yami deu um salto para tomar distância de Malévola, e então correu até ela novamente.

Yami: É como se eu fosse meu próprio inimigo — e ver pessoas como você, que abraçam a escuridão desse jeito, só deixa tudo pior!

Parando diante de Malévola, ele ergueu a Devoradora de Almas, a ponta de sua lâmina tocando o queixo dela.

Malévola: Então você odeia a escuridão o suficiente para lutar contra ela.

Yami: Já chega de falar, Malévola.

Yami respirava pesadamente.

De agora em diante, não há mais o que

dizer. De agora em diante, eu não

deixarei mais que a escuridão me tente.

Malévola: Oh, você deve sentir uma agonia tão grande. Eu consigo ver, lá no fundo do seu coração.

Yami: Cale-se!

Yami desferiu outro golpe contra ela, mas Malévola rapidamente se lançou para o lado, desviando.

Malévola: Então deixe-me acabar com a sua dor, Yami — de uma vez por todas... com o magnífico poder da escuridão!

Uma aura negra começou a emanar do corpo de Malévola — e então, ela se tornou um gigantesco Dragão, e cuspiu fogo.

Yami: —Tch!

Yami deu um grande salto para trás, saindo do caminho das chamas.

Como eu vou lutar

com ela? E de onde?

Foi quando —

— Yami!

Tem uma voz vinda de

algum lugar. Essa voz é —

Yami: Sua Majestade?!

— Não há tempo agora! Vamos, você não pode parar! Vá, depressa!

E quando a voz do Rei disse isso, o teto começou a desmoronar.

Yami: Sua Majestade! Cadê você?!

— Vamos logo — rápido!

Diante de Yami, uma grande pilha de tijolos que haviam caído do teto formou algumas pequenas elevações.

Yami: Entendido!

Yami subiu nas elevações e empunhou a Devoradora de Almas. Toda vez que o Dragão pisava no chão, algumas das elevações desmoronavam, mas ainda continuavam havendo muitas outras inteiras. E Yami as utilizou para aproximar-se cada vez mais.

Yami: Eu — não vou permitir que a escuridão se aposse de mim! Nunca mais!

E então, Yami saltou — e com um único golpe, cortou a cabeça do Dragão.

Malévola: Gwaaaaaaaah!

Num grande urro, o Dragão caiu ao chão — e se tornou Malévola novamente.

Yami: — Malévola...

Yami se aproximou de Malévola, erguendo a Devoradora de Almas na altura de sua cabeça. Ele estava pronto para desferir um golpe final contra ela.

Malévola: Yami... você nunca poderá escapar... da escuridão...

Yami: Cale-se! Não diga mais nada!

No momento que Yami ia golpeá-la com a Devoradora de Almas, a imagem de Malévola se desfez dentre uma fraca luz. Yami ficou apenas observando.

Será... que a Malévola realmente se

importava comigo? A Malévola era a única

nesse castelo que realmente vinha até

mim como uma amiga. Por um momento,

nessa época, eu cheguei a acreditar que

ela me entendia. A Malévola era adepta

ao poder da escuridão, e acabou se

arruinando por conta disso. Essa foi a

Malévola que me usou. Eu dependi dos

poderes negros que ela usava. Mas...

Yami: — Sua Majestade...

A voz que eu ouvi antes era a voz do Rei.

O Rei, dentre todos os outros, deve

poder me dar as resposta. Sim, só o Rei.

Yami notou que havia uma porta do outro lado da parede desmoronada.

Eu tenho que seguir em frente.

E então — poderei descobrir a verdade.

Yami correu até a porta.

{ . . . }

De alguma forma, o ar na obscura sala estava úmido. Não só a sala estava impregnada com um ar desagradável, como também parecia que estava envolta por uma sensação horripilante. Um homem de cabelos azuis estava quieto bem ao centro da sala. Os cabelos sobre seu rosto eram bastante longos, cobrindo grande parte do seu campo de visão. Ele franzia suas sobrancelhas, como esperasse por alguma coisa atentamente.

Um homem de cabelos castanhos e com um belo físico surgiu, andando na direção do homem de cabelos azuis.

?: — Eu não recebo nem mesmo um olá, Aelexus?

Aelexus: O que houve, Ixenzo? Por favor, explique-me.

Insistente, o homem de cabelos castanhos — Aelexus — chamava pelo outro de cabelos azuis — Ixenzo. Foi quando outro homem surgiu no meio da sala. Era um homem de longos cabelos loiros, dono de uma aparência terrivelmente doentia. Ixenzo nem sequer olhou para ele.

Ixenzo: É um prazer revê-lo, também, Xeven. Mas que deplorável. A Organização costumava ser a corda que nos unia.

Xeven: Como ousa?! Você é apenas o número VI —!

Aelexus: — Deixe para lá, Xeven.

Aelexus segurou o homem loiro — Xeven — pelo braço, detendo-o com toda a firmeza. O silêncio tombou sobre aqueles na pequena e obscura sala, e Ixenzo suspirou pesadamente. Aelexus foi quem quebrou o silêncio.

Aelexus: Diga-nos, Ixenzo. O que você detectou?

Ixenzo: — Visitantes. Eu detectei duas essências no subsolo mais baixo do castelo. Uma delas era da Malévola —

Xeven: — Não seja ridículo. A bruxa se foi. Ela não poderia retornar do Reino da Escuridão por vontade própria.

Ixenzo encolheu os ombros, interrompido por Xeven.

Ixenzo: Se me deixar terminar... a essência pertencia não à verdadeira Malévola, mas à uma cópia de fato muito convincente. Mas eu não posso dizer muito mais que isso, pois a cópia já era — nosso outro visitante se assegurou disso.

Nesse instante, lá em

cima, há um grande plano

se desenrolando. Mas —

Aelexus: E quem é ele?

Ixenzo: Bem... eu não sei ao certo.

Quietamente, Ixenzo parou por um instante. Suspirando, ele voltou a falar.

Ixenzo: Mas sua essência era muito similar à do Superior. Tão similar a ponto de eu ser capaz de dizer que poderiam ser a mesma pessoa.

Nesse instante, Xeven ergueu a voz.

Xeven: Louco!

Isso não é possível. Não

pode ser igual a ele... hum, isso

está me deixando curioso.

Ixenzo: É a verdade. E agora — o que fazemos?

Mesmo diante da pergunta, Ixenzo sabia que ele já tinha a resposta. Eles não podiam simplesmente ficar sentados invejosamente observando enquanto o plano dos membros do topo se desenrolava.

Aelexus: Esperamos — vamos ver o que acontece.

Apesar da desnecessidade em expressar a conclusão que todos haviam tido, os demais consentiram.

{ . . . }

Do outro lado da porta havia outro corredor gelado, assim como o da entrada. Yami seguiu na direção da porta que vira no outro extremo do corredor. Por alguma razão, parecia que os Sem-Corações não apareciam ali.

Era definitivamente a voz do Rei o

que eu ouvi naquela hora. Mas não consigo

vê-lo. Talvez tenha sido uma ilusão.

?: Por que você evita a escuridão?

Foi de repente. A forte voz de um homem ecoou pelo corredor.

Yami: Hmph. Qual é, eu sei que você me ouviu — cada palavra que eu disse para a Malévola.

Eu nunca serei a ferramenta de

alguém novamente. Eu não

farei uso do poder da escuridão.

?: A escuridão é a sua arma. É chegada a hora de você aprender que deve aceitá-la.

Yami silenciosamente olhou para o espaço vazio.

?: Pare de resistir. Aceite a escuridão. Você não tem escolha — se for me servir novamente!

Yami sentiu o ar se retorcer. E então, ele viu aquele homem — o homem que havia tomado o corpo de Yami.

O homem que me tratou

como um objeto.

Diante dele, estava Luminos.

Yami: Eu sabia que era você — Luminos.

Luminos: Oh — você não me parece surpreso.

Yami olhou fixamente para o rosto do homem diante de si, sem nem sequer mudar a expressão em seu rosto.

Yami: Tudo o que você tem falado é sobre a escuridão. Só o que posso deduzir é que você quer me arrastar para ela novamente... para que possa voltar a brincar de mestre das marionetes.

Luminos aproximou-se ainda mais de Yami.

Luminos: Garoto esperto. Eu sempre soube que você seria o mais apropriado para me servir. E agora, uma vez mais, entregue-se para mim —

Yami: Você é louco! Sem chances!

Yami saltou para cima dele com a Devoradora de Almas.

Luminos: Tolo...

Yami: Guh?!

Luminos deteve a Devoradora de Almas com seu braço, e foi seu Guardião quem atingiu Yami — lançando-o para longe.

Luminos: Você realmente achou que poderia me ferir? Um fracote como você, que não pôde nem derrotar o Sora — mesmo com escuridão do seu lado.

Yami: Ora, me desculpe... por ser fraco —

Yami caiu de joelhos no chão.

Luminos: Você é fraco. Você precisa da escuridão. Renda-se. Ajoelhe-se diante da escuridão. Ajoelhe-se diante de mim.

Luminos caminhou até Yami, caído, e o puxou pelo braço.

Yami: Isso nunca vai acontecer!

Luminos aproximou seu rosto do dele, e Yami desviou o olhar.

Luminos: Apenas a escuridão pode te oferecer toda a força da qual você precisará.

Luminos lançou Yami, que caiu de rosto no chão.

Então eu não posso fazer nada se não usar

o poder da escuridão... Eu perdi pro Sora.

Eu perdi pro Luminos. Não há mais ninguém

aqui comigo. Os únicos que estavam ao meu

lado eram a Malévola e os Sem-Corações...

nada além de criaturas da escuridão.

Yami sentia como se fosse chorar a qualquer momento.

Eu não posso fazer nada se não usar

o poder da escuridão... só assim —

Foi quando uma voz ecoou de algum lugar.

— Você está errado!

Yami: Essa voz —! Sua Majestade?

Uma bola de luz brilhante e reluzente surgiu, flutuando em torno de Yami e Luminos.

— Isso mesmo! Lembre-se, Yami, você não está sozinho!

A voz do Rei, junto com a luz, encobriu Yami.

— Ouça bem. A luz nunca desistirá de você. Você sempre a encontrará, mesmo na mais profunda escuridão.

Yami: ...eu compreendo.

Yami lentamente se ergueu.

Eu não estou sozinho.

Eu tenho amigos. Eu tenho o Rei.

Yami: Eu não vou perder para a escuridão. Não hoje.

E então, com a Devoradora de Almas empunhada, ele encarou Luminos.

Luminos: Você acha que essa sua pequena luz pode salvá-lo da escuridão que eu comando?

Luminos acabou com a distância entre eles num único movimento.

Yami: — Ngh!

E Yami usou sua Devoradora de Almas para deter o golpe de Luminos.

Yami: Eu jamais perderia para alguém como você.

Yami o atacou com toda a sua força, tentando lançar Luminos para trás. Mas Luminos simplesmente se afastou de Yami, sem hesitar, e começou a rir.

Luminos: He, he, he…

Yami: Qual é a graça?!

Luminos: Ha, ha, ha, ha, ha!

Luminos abriu completamente os braços.

Luminos: Para mim, parece que você está tentando resistir à escuridão. Tudo bem. Veja com os seus próprios olhos.

Yami se inclinou para frente.

Yami: O quê —?!

Luminos lançou para ele quatro cartas.

Luminos: Essas cartas são feitas das suas memórias. Avance pelos mundos que elas criarem, e logo você entenderá: procurar pela luz não é o caminho. Ela não lhe afastará da escuridão — não há como fugir da escuridão!

Yami: Não se preocupe, eu não estou fugindo. Tá certo. Eu vou passar por todos os mundos dessas suas cartas, e no final, se eu não tiver cedido para a escuridão... então eu venço.

Luminos: Eu tenho mais um presente para você.

Como se não houvesse nem ao menos prestado atenção em suas palavras, Luminos estalou os dedos, fazendo uma aura negra surgir ao redor de Yami.

Yami: O que você fez?!

Yami deu um pulo para trás, tentando se livrar daquilo, mas a aura estava presa a ele, envolvendo todo o seu corpo.

Sinto uma sensação ruim no meu coração.

É como se houvesse alguma coisa se

mexendo lá dentro. O que diabos... é isso?

Luminos: Eu simplesmente temperei a escuridão que ainda resta no seu coração.

Yami: Você ainda acha que eu confiaria na escuridão?

Luminos: Usá-la ou não é escolha sua.

Lentamente, Luminos começou a flutuar até o topo do corredor.

Luminos: Estarei esperando, Yami — que você sinta, e volte a se entregar para a escuridão que há no seu coração!

Yami: Espera!

Yami tentou correr atrás dele, mas Luminos desapareceu bem diante de seus olhos. Lentamente, Yami abaixou o olhar, observando a palma de suas mãos.

Yami: O poder da escuridão.

Ele disse que ainda restava escuridão

dentro do meu coração. Será que eu

terei que conviver com essa escuridão

dentro de mim para todo o sempre?

Yami: Sinto o cheiro... de alguma coisa... que essência é essa? É tão familiar...

Era como se o ar ao redor houvesse mudado desde que Luminos partira.

Yami: Esse cheiro... é o aroma da escuridão. Eu não posso acreditar que isso está acontecendo. A escuridão se infiltrou até na minha pele.

É bem parecido com o cheiro que eu

sentia vindo da Malévola, do Gancho e dos

Sem-Corações — de seres das trevas como

eles. Cheirando assim... é como se eu

fosse uma ferramenta da escuridão.

?: Não se preocupe, Yami.

Yami ergueu o olhar ao som da voz — e parado diante dele, estava o Rei.

Yami: Sua Majestade! O que aconteceu? Eu tô vendo... através de você.

A figura do Rei que se encontrava diante dos olhos de Yami parecia prestes a desaparecer a qualquer momento.

Mickey: Engraçado, né? Eu só posso enviar uma pequena porção do meu poder para esse lugar. É por isso que eu tenho um pedido para te fazer.

Yami ergueu o olhar e observou o Rei.

Yami: Um pedido?

Mickey: Ouça, Yami. Só porque você cheira à escuridão, não se esqueça de quem você é. Você tem que lutar contra a escuridão dentro de si! Não vai ser nada fácil, eu sei. Mas por favor, não se esqueça. Mesmo na escuridão mais escura, sempre haverá uma pequena luz.

Yami: A luz dentre a escuridão...

Mickey: Você e eu a vimos. A suave luz que havia lá ao longe, dentro da Porta das Trevas — a luz de Kingdom Hearts — ela vai te mostrar o caminho. Por favor, não desista. Acredite na luz. Estou pedindo do fundo do meu coração.

Não desistir. Acreditar. Mas é difícil,

sentindo o meu corpo emanar

esse cheiro tão forte de escuridão —

Mickey: — Yami?

Yami: — Tá bem. Eu vou dar o meu melhor.

Eu quero, sim, acreditar nas palavras do Rei.

Se a luz de Kingdom Hearts também brilhar em

mim... se a luz não fluir apenas para o Sora, mas

para mim também... talvez eu possa acreditar.

Mickey: Confia em mim. Eu vou tentar encontrar uma forma de alcançá-lo. Eu vou chegar aí. Eu prometo.

O Rei estendeu a mão, e Yami tentou apertá-la. Mas, sua mão atravessou a dele por completo.

Yami: Eu não consigo tocá-lo — você... é uma ilusão?

Mickey: Não se preocupe. Nós apertamos as mãos... em nossos corações, lembra? Nós estamos conectados, você e eu.

Yami: — É, eu acho que sim...

Mas de uma forma terrivelmente

passageira... e um tanto quanto solitária.

Mickey: Bem, eu vou indo nessa.

E o Rei desapareceu, com um sorriso em seu rosto.

Yami: Então, agora eu estou sozinho de novo, não é...?

Yami deu um breve suspiro, e então partiu para a porta adiante, que levava ao próximo andar.

{ . . . }

RECORDE 02

- RECORDAÇÃO -

Do outro lado da porta havia um mundo ricamente colorido.

Yami: Aqui é... Monstro.

Yami andou em frente, pisando no chão que estranhamente se contorcia.

Eu encontrei com o Sora aqui. Ele continuava

sendo o mesmo — não, ele já estava ficando mais

forte do que era antes. E por alguma razão, eu

estava zangado comigo mesmo por isso.

?: O que você tá fazendo?

Diante da repentina voz que viera de trás dele, Yami se pôs em posição de combate. O rosto do dono da voz, então, surgiu de trás de seu esconderijo.

Yami: — Pinóquio!

Pinóquio se aproximou de Yami, com um grande sorriso no rosto.

Pinóquio: Como você sabe o meu nome?

Um boneco com um coração.

Pinóquio. Querendo saber o segredo

desse coração, eu o sequestrei.

Yami: Como...? Eu não sei.

Pinóquio: Você tá sozinho?

Yami: Sim, sozinho.

Pinóquio continuava parado diante dele, observando-o.

Pinóquio: Oh, então você tá que nem eu!

No momento em que disse isso, seu nariz começou a crescer.

Yami: Ah!

Eu me lembro... é para o nariz dele crescer

quando ele mente. E isso quer dizer que

o Pinóquio não está sozinho. Há uma

enorme diferença entre ele e eu, o solitário.

Yami: Pinóquio, você não está sozinho, não é mesmo?

Pinóquio: Uh... não. Eu tenho um pai. Você não?

Yami: Eu não tenho ninguém.

Sim... eu não tenho.

Pinóquio: Oh, certo. Você está sozinho — waha!

Enquanto ria, o nariz de Pinóquio começou a crescer novamente.

Pinóquio: Não me faça mentir!

Ainda rindo, Pinóquio tentava conter o nariz em suas mãos.

— Você não está sozinho.

Eu pude sentir como se ouvisse a

voz do Rei vindo de algum lugar. Mas

não há ninguém aqui do meu lado.

Eu estou sempre sozinho. Eu acredito no

Rei, mas — eu me sinto tão solitário.

Pinóquio: Você não está sozinho, não é mesmo?

Pinóquio parara de rir, ainda tocando seu nariz, que enfim havia voltado ao tamanho normal — e então, ele desapareceu.

Yami: ...como pensei, parece que eu estou mesmo sozinho.

Dentre um murmuro, Yami continuou seguindo em frente.

Por que será que eu estou sozinho? Será porque

o meu coração foi tomado pela escuridão? Mas

eu venci a escuridão, uma vez. Não é o suficiente?

Eu não posso ser perdoado? Não é o suficiente

para que eu possa ver a Hikari e o Sora novamente?

Quando será que os verei outra vez? Como será

que nós três poderemos rir juntos outra vez?

Eu não sei. A única coisa que posso dizer com

toda a certeza é que eu tenho que seguir em frente.

Eu tenho que saber a verdade. Se eu fizer isso,

então eu certamente saberei o que fazer.

Yami: ...eu sei me virar sozinho.

Enquanto murmurava, Yami chutou uma protuberância melequenta que havia no chão, ao lado de seus pés. Nesse momento, a protuberância estourou, e uma onda de Sem-Corações surgiu.

Yami: Então vocês também estão aqui comigo, não é?

Yami empunhou a Devoradora de Almas. Alguns deles rapidamente vieram para cima dele. Yami deu um grande salto, acertando um Sem-Coração com sua Devoradora de Almas. Um Sem-Coração que certa vez estivera sob o seu controle, agora liberava um coração e desaparecia dentre a luz.

Se os Sem-Corações não

existissem — se ao menos não

houvessem pessoas que tentassem

usá-los — nós poderíamos ter

alcançado o mundo exterior com

a nossa pequena balsa.

Yami começou a se lembrar do que acontecera na noite de tempestade.

{ . . . }

A tempestade veio, e eu parti para a ilha

para não deixar que a balsa fosse levada. Eu

corri pela chuva, e quando estava para chegar

na enseada, notei que uma enorme porta

havia surgido diante do lugar secreto. Eu me

perguntei por que será que havia uma porta em

tal lugar — e então, alguém me sussurrou.

?: Você não quer ir para o mundo exterior?

Eu me virei e encontrei um homem

vestido num manto marrom.

?: Logo, a porta se abrirá. Mas não há nada a temer. Não há razão para ter medo da escuridão. Agora, vá — Yami.

Eu não hesitei. Eu não pude derrotar

meu desejo de alcançar o mundo exterior.

?: Yami!

Era a voz da Hikari. Ela estava correndo

até mim. Devia ter vindo para a ilha como eu.

?: ...P...cesa.

Yami: — O quê?

O homem havia murmurado palavras que

foram abafadas pelo som das ondas, e eu mal

pude ouvir. Mas agora eu sei o que o homem

disse quando viu a Hikari. Ele disse "princesa".

Hikari: Yami! Vamos acabar perdendo a balsa!

Yami: Hikari — há uma forma de chegar ao mundo exterior sem a balsa!

Hikari: Huh?

A Hikari olhou para mim com

uma estranha expressão em seu rosto.

Hikari: Mas e quanto ao Sora?

Isso mesmo — o Sora sempre era a primeira coisa

com que a Hikari se preocupava. Mas eu também era

assim. Contanto que eu estivesse com o Sora, eu

poderia ir a qualquer lugar. Ou pelo menos isso era o

que eu pensava. E além disso, tendo a Hikari, quem

eu acreditava que tinha conhecimento sobre outros

mundos, junto comigo... nós podíamos ir a qualquer

lugar, ou pelo menos isso era o que eu pensava.

Yami: O Sora e a Hikari também podem vir, né?

O homem silenciosamente consentiu, em

resposta à minha pergunta. Ele, então, desapareceu,

como se houvesse sido engolido pela porta.

Hikari: Ei, Yami... o que foi...?

Sob a chuva, eu não conseguia ver

muito bem a expressão no rosto da Hikari.

Yami: Hikari, espere aqui, na frente da porta. Eu vou atrás do Sora!

Hikari: Espera, Yami!

Eu saí correndo, ignorando a voz da Hikari. Porque

eu tinha que ir atrás do Sora. Sora! Sora! Sora! A gente

pode sair desse mundo! Eu sabia que ele viria para a

ilha, preocupado com a balsa. Eu logo o encontrei.

Sora: Yami! Cadê a Hikari? Eu pensei que ela tava com você!

As primeiras palavras

do Sora foram sobre a Hikari.

Yami: — A porta se abriu.

Sora: O quê?

Sora parou de andar, com uma

expressão esquisita em seu rosto.

Yami: A porta se abriu, Sora. Agora podemos ir para o mundo exterior!

Sora: Do que você tá falando?! Temos que encontrar a Hikari —!

O Sora tá sempre falando da Hikari. E a Hikari

tá sempre falando do Sora. Mas de agora em diante,

as coisas seriam diferentes, com toda a certeza.

Yami: A Hikari virá conosco! Quando passarmos pela porta, pode ser que a gente não possa mais voltar. Podemos nunca ver os nossos pais novamente. Não haverá volta. Mas essa pode ser a nossa única chance. Não podemos deixar o medo nos impedir! Eu não tenho medo da escuridão!

Eu levantei minha mão para o Sora.

Vamos nessa, vem — Sora!

Sora: Yami —

Com o rosto um tanto inquieto, Sora tentou agarrar a

mão que eu levantara. Naquele momento, eu nem

sequer notei o que estava acontecendo ao meu redor.

Eu nem sequer olhei. Sora, do outro lado da minha

mão erguida, era muito mais importante do que todo o

resto. Só mais um pouco e minha mão o alcançaria.

Yami: — Sora!

Eu chamava por ele, e naquele instante, percebi que

estava envolto pela escuridão. A escuridão havia encoberto

o meu corpo — mas não havia razão para ter medo da

escuridão! E então — envolto nessa mesma escuridão — a

minha consciência se apagou — e no instante seguinte,

eu acordei em algum lugar da Fortaleza das Trevas.

{ . . . }

A partir daquele momento, eu estava sozinho.

Por que será que eu não notei a escuridão me

encobrindo? Eu já não conseguia ver mais nada.

Yami: Toma isso!

Yami golpeava os Sem-Corações que apareciam diante de si sem piedade com sua Devoradora de Almas.

O que será que eu fiz de errado —?

O que me fez ter que ficar sozinho?

Yami seguia derrotando os Sem-Corações, como se tentasse bloquear sua própria consciência.

{ . . . }

Castelo do Esquecimento, primeiro andar.

Sora estava parado diante do imenso corredor. Pateta, então, murmurou.

Pateta: Ei, vocês acham que a gente pode mesmo sair entrando?

Donald: Mas é preciso, se quisermos encontrar o Rei...

Pateta: O Rei?! O Rei Mickey está aqui —?

Surpreso, Pateta olhou ao seu redor. Sora se virou para eles.

Donald: Algo me disse que ele estaria aqui, tá certo?

Donald parecia confiante. Diante disso, Pateta encolheu os ombros.

Pateta: Mesmo? Porque agora que você mencionou, eu meio que estava pensando a mesma coisa.

Sora: Sério? Eu também!

Esse sentimento esquisito

que eu tive antes de vir para esse

castelo — deve ter sido algum

tipo de premonição do que a

gente poderia encontrar por aqui.

Sora: Foi só dar uma olhada nesse castelo, e eu já soube: nossos amigos, aqueles que são mais importantes para nós — estão aqui.

E então, Sora se virou para a porta que havia ao topo de uma escada.

Talvez — não, com certeza. Nós

vamos encontrá-los, com toda a certeza.

Eu acredito nisso. O Yami só pode estar

em algum lugar desse castelo.

{ . . . }

Numa sala negra e obscura, Xeven trabalhava em alguma coisa. Havia uma marionete diante de seus olhos. Enquanto observava a marionete, que ainda não possuía rosto ou roupas, a boca de Xeven se contorceu até tornar-se um sorriso.

?: Eu já identifiquei a essência.

A voz viera de trás de Xeven, que rapidamente se virou. Lá estava Ixenzo.

Ixenzo: É do Yami.

Xeven: O quê —? Oh, você está falando sobre a presença que surgiu junto com a da Malévola. Yami, você diz? Ele emergiu do Reino da Escuridão?

O Yami certamente desapareceu

quando foi para o lado da escuridão.

Ixenzo: Sua existência — ela certa vez foi duplicada pelas trevas.

Ixenzo parecia desapaixonado.

Xeven: Fascinante... foi por isso que você o confundiu com o Superior — o poder da escuridão dado ao Yami facilitou a sua fuga do Reino da Escuridão. Ele é um ser bastante interessante. Possui conexões tanto com a Chave-Espada quanto com o poder da escuridão. Acho melhor obter mais dados...

Ele se virou para a marionete novamente, e começou então a fazer alguma coisa nela.

Ixenzo: O que eu realmente quero saber é por que ele apareceu aqui, no Castelo do Esquecimento.

Xeven, que lhe havia dado as costas, se virou novamente, rindo.

Xeven: He, he, he — isso na verdade é bem simples. Sua existência ressonou com a de outro herói.

Ixenzo: Sora... está no castelo?

Xeven: Ele chegou há pouco — Luxarmia já está se utilizando dos poderes únicos da Maiko para mexer com as memórias do Sora. Manipular o seu coração.

Ixenzo: Sem nem ao menos nos consultar.

Por alguma razão, Xeven parecia estar bastante feliz com tudo isso. Ixenzo quietamente o ouvia.

Xeven: Parece que ele quer desesperadamente tomar o Mestre da Chave-Espada para si — mas que plano tolo. O Sora não é uma existência tão interessante. A entidade que possui verdadeiro valor — é o Yami, o herói das trevas!

E após a declaração, Xeven voltou a fazer ajustes na marionete diante de si. Ixenzo ficou apenas observando suas costas.

{ . . . }

Eu continuo seguindo em frente, mas não

vejo nada além desses Sem-Corações.

Yami: Por quê...?

Yami golpeava-os com a Devoradora de Almas, como se desejasse atingir os sentimentos ruins dentro de seu próprio coração.

Não resta nada além de escuridão dentro

do meu coração, e por isso, os únicos

que posso encontrar são os Sem-Corações,

correto? Mas o Pinóquio estava aqui.

Tem que haver outros, também. Sora — eu

tinha que ter encontrado você, também.

Quando atingidos, os diversos Sem-Corações desapareciam numa fraca luz.

Para onde será que eles vão, quando

desaparecem? Será que retornam

para o Reino da Escuridão? E eu? Será

que eu também vou pro mesmo lugar

que eles, quando eu desaparecer?

Após enfim acabar com todos os Sem-Corações, Yami começou a controlar sua respiração. Foi quando, de repente, uma grande e arredondada protuberância caiu de cima de sua cabeça.

Yami: Wha —!

Yami deu um salto para trás e empunhou a Devoradora de Almas. Era um enorme Sem-Coração — a Jaula Parasita. Esta criatura tinha um corpo grande e arredondado, com gigantescos braços que se moviam para cima e para baixo. Sua enorme boca tinha protuberâncias que se uniam de tal forma que lembrava uma prisão.

Yami: Bem quando eu tô de mau humor —!

Yami se lançou para cima da Jaula Parasita. Mas então, no mesmo instante, uma névoa negra começou a ser emitida pelo corpo de Yami.

Yami: Huh?

Yami parou e olhou para suas mãos. Elas também estavam envoltas por uma forte escuridão — que então se espalhou por todo o seu corpo.

Yami: — O que é isso?

Enquanto murmurava, a Jaula Parasita o golpeou com seu braço.

Yami: Ugh —!

Mas o golpe não foi o suficiente para derrubar Yami. Ele continuava de pé, como se houvesse absorvido o ataque. E então, o corpo de Yami foi encoberto por um traje negro.

Yami: Isso é...?

A Jaula Parasita tentou empurrá-lo com toda força, utilizando seu braço, mas Yami o atingiu com a Devoradora de Almas.

Essa energia destrutiva é tão forte

que até eu consigo sentir. E esse traje

é o mesmo da época em que eu estava

sob o controle do Luminos. Em outras

palavras, essa escuridão é —

"Eu simplesmente temperei a escuridão que ainda resta no seu coração."

Yami se lembrou das palavras de Luminos.

Yami: ...então isso quer dizer que a escuridão que há dentro do meu coração me faz mais forte?

Yami mordeu o lábio e olhou para a palma da mão. Foi quando o braço da Jaula Parasita o golpeou novamente. Mas — não fez nem sequer um arranhão no corpo de Yami. E então, surgindo sobre a cabeça da criatura, Yami desferiu um golpe da Devoradora de Almas.

A Jaula Parasita soltou um grande urro, transformando-se em partículas de luz, e então desapareceu. Assim como quando fizera o traje obscuro se prender ao corpo de Yami, a escuridão lentamente o rodeou, e Yami voltou ao normal.

Yami: O poder da escuridão...

Poder, velocidade, tudo,

é tudo melhor do que o normal.

Yami sentiu um arrepio na espinha.

Será que eu vou acabar sendo engolido

pela escuridão...? Isso me lembra,

sinto como se o aroma da escuridão que

me cerca houvesse ficado mais forte.

Yami apertou os punhos, e então foi até a porta que aparecera assim que a Jaula Parasita desapareceu.

{ . . . }

Do outro lado da porta, havia outro corredor feito de mármore. Mas, diferente das outras vezes, neste havia um homem parado lá.

?: Então, creio que você seja o Yami.

Yami encarou o homem sem nem empunhar a Devoradora de Almas.

Yami: ...quem é você? Você está com o Luminos?

O homem, dono de um pálido rosto e de cabelos compridos, vestia algo que parecia um manto negro. A única coisa que Yami conseguia entender com clareza era o aroma da escuridão que também emanava deste homem.

?: Se eu estou com o Luminos —? Bem, você está meio correto. Digamos que ele não é o Luminos com o qual você está familiarizado. Ele é o Luminos e ele não é o Luminos — em outras palavras, podemos dizer que ele não é ninguém.

O homem lentamente andou até Yami.

Yami: Ninguém? Charadas nunca foram o meu forte. E eu estou de mau humor no momento. Seja mais claro.

?: Ele não pertence nem à luz e nem às trevas, caminhando no crepúsculo que há entre elas.

Não pertence a nenhum — não

tem um lar, assim como eu.

?: He, he, he... está entendendo agora? Oh, sim, você também caminha entre a luz e a escuridão. Parece que nós temos muito em comum.

Yami: Talvez —

Yami lentamente empunhou a Devoradora de Almas.

Yami: Como você disse, ainda há mesmo escuridão dentro de mim. Mas e daí? A escuridão é o meu inimigo! Assim como você, emanando esse fedor horrível!

?: Oh ho! Então é uma luta o que você quer. Muito bem — então é isso que eu vou te dar!

O homem de repente invocou um enorme escudo azul em sua mão.

Yami: É isso mesmo que eu quero!

Yami saiu correndo na direção do homem — mas ele desapareceu diante dos seus olhos.

Yami: O quê?!

?: Bem aqui.

As lâminas do escudo atingiram Yami por trás, ferindo-o.

Yami: Uh —

?: Você não vale nem para se mencionar. He, he... agora, congele!

Uma série de enormes pedaços de gelo atacou Yami pela frente.

Yami: —!

Yami não conseguiu se esquivar.

?: Você é tão fraco assim sem o poder da escuridão?

De joelhos, Yami o encarou.

Yami: — Não!

?: Você deveria usar o poder da escuridão — você tem esse direito.

Yami: Eu odeio a escuridão! Eu não usarei o seu poder!

?: He, he... muito bem, então.

Rindo, o homem se moveu e, de repente, já estava bem ao lado de Yami.

Yami: Ugh —!

Yami usou a Devoradora de Almas para bloquear o golpe do homem, quase sendo atingido novamente.

?: Sinta o ódio — e mostre-me o poder obscuro dentro de você!

Yami: E-eu...

Numa fraca voz, Yami tentou se levantar e seu corpo foi encoberto por uma névoa negra.

Yami: Pare —

?: He, he…

O homem se afastou.

Yami: — Isso...

É como se a escuridão estivesse

transbordando do meu coração, como

se eu houvesse me rendido a esses

meus sentimentos de raiva —

Yami notou que havia se transformado novamente, e entrou em desespero.

?: Agora nós somos iguais — não, você ainda pode usar mais do seu poder da escuridão. Vamos!

O homem se lançou contra Yami novamente e o atacou com seu escudo. Mas Yami ergueu a Devoradora de Almas e arrancou o escudo de sua mão.

?: Soberbo!

O escudo do homem desapareceu do chão, no mesmo lugar onde caíra.

?: Eu encontrei, fluindo por dentro de você, uma escuridão de formidável poder crescendo! Acredito que tenha valido à pena passar por todo o problema de provocá-lo.

Sem conseguir se mover, Yami apenas continuou encarando-o.

Yami: ...quer dizer que você me enganou?

?: Todo esse excitamento me providenciou dados inestimáveis — eu devo realmente agradecer a você, Yami!

E isso foi tudo o que o homem disse antes de desaparecer, gargalhando.

Yami: — Aquele filho da...

O poder de Yami fora drenado, e seus joelhos caíram ao chão.

Yami: Por quê —?

Trajes negros que poderiam ser confundidos

com a própria escuridão — e a luz emanada pela

Devoradora de Almas. Será que eu realmente

não tenho outra escolha, será que tudo o que me

resta é mesmo depender da escuridão —?

{ . . . }

Sora: Eu me lembro!

Donald se virou ao ouvir o grito de Sora.

Donald: Se lembra de quê?

Sora: Tinha uma outra garota.

Sora parecia falar consigo mesmo. Pateta olhou ao redor.

Pateta: O quê? Uma garota? Aonde?

Sora: Não, não, tô falando das ilhas aonde eu morava.

Ele deve estar falando das ilhazinhas

aonde ele, o Yami e a Hikari viviam.

Pateta: As... Ilha — Ilhas... alguma-coisa?

Sora: As Ilhas do Destino! Lá nas ilhas, além da Hikari e do Yami, tinha uma outra garota que era minha amiga. Nós quatro brincávamos juntos o tempo todo.

Sora começou a falar do que havia se lembrado —