Segundo dia

Naquele momento tudo que conseguira pensar fora na nuca descoberta da titã fêmea e em quão perto ela estava de poder matá-la. Mas a voz dele lhe trouxera a realidade que não estava tendo até então. O verdadeiro objetivo, o que era realmente importante para ela. Sua família. "O que é mais importante, satisfazer sua necessidade? Ou o seu amigo?", perguntara ele lhe pegando desprevenida mas lhe fazendo colocar novamente os pés no chão. Eren era mais importante, ela estava sendo irracional. Ela poderia matar a titã outra hora — se é que a permitiriam se tivessem chance.

Resolveu então que deveria ignorar a titã por ora e aproveitar-se da vantagem que haviam ganho ao deixarem-na em tal estado. E ela tinha de admitir para si mesma que ambos formavam um bom time, embora desgostasse de tal afirmação mental. Ele era claramente o melhor que a humanidade possuía e ela era claramente uma das melhores, levando em conta o fato de ser a primeira de sua turma. Quem sabe até mesmo a melhor mulher que a humanidade possuía no momento, mas não se permitiria pensar em tais coisas tendo objetivos claros e importantes.

À sua frente, Rivaille carregava um Eren inconsciente. Ela podia perceber sua insistência em apenas pousar com o pé direito, evitando colocar o peso sobre o outro enquanto atravessavam a floresta rumo à sua saída. Aquela hora, ela pensou lembrando-se. Ele a protegera, mas provavelmente seu ato causara-lhe algum tipo de lesão na perna, o que podia explicar sua atitude.

Usou mais gás para impelir-se para frente em uma maior velocidade, o alcançando quando pousara por segundos em um galho, segurando seu braço e o impedindo de prosseguir. Ele virou levemente o corpo para lhe olhar, parecendo levemente confuso e irritado por ela estar os atrasando.

— Que foi? — perguntou seco

— Eu levo Eren. — ela dissera antes de pegar o amigo dos braços do superior

— Seu... Amigo de infância — ele disse soando ainda mais seco que anteriormente

Ela liberou gás, pulando para o galho seguinte que não ficava muito longe do primeiro. Pousou nele ainda segurando Eren e virou o rosto para encará-lo por cima do ombro. Estava prestes a dizer algo que nunca pensaria que diria desde que o vira bater em Eren durante o julgamento.

— Desculpe. — a expressão dele mudara para uma leve curiosidade — Você se machucou me protegendo. Desculpe por isso — ela voltara a lhe dar as costas — E obrigada por me salvar. Mas não precisará fazer isso novamente.

— Assim espero.

Ele dissera, mas quando ela ouvira sua voz percebera que ele já não estava mais no galho anterior, mas no mesmo que o dela, à centímetros de distância — e ela nem ao menos o ouvira chegar e quando dera por si ele já havia avançado e uma Mikasa pasma teve de seguir para acompanhá-lo, novamente às suas costas enquanto carregava o amigo.


Eren voltara à consciência quando já estavam novamente nas muralhas, retornando como geralmente retornavam. Em menor número e com poucos que não estivessem feridos. Eren, mesmo ferido e havia pouco tempo também desfalecido, insistia em querer se erguer. E Mikasa sabia que bem que ele não era facilmente convencido do contrário quando colocava algo na cabeça.

Como o usual, os cidadãos falavam mal do dinheiro aplicado nas tropas e do quanto eles eram "inúteis" e um grande gasto de dinheiro público. Ela se perguntava se Eren possuía a mesma opinião contrária da infância — provavelmente sim — e como ele estaria se sentindo agora que ele estava entre os feridos retornados.

Um casal de crianças destacava-se na multidão. Eles se assemelhavam incrivelmente com os dois quando crianças. Principalmente o garoto, que parecia ter o mesmo entusiasmo de Eren sobre a Scouting Legion. Era uma semelhança incrível.

Enquanto atravessavam as ruas, captou uma conversa — mais para o monólogo, como quase tudo envolvendo ele — entre Rivaille e um homem que afirmava ser pai de Petra. O pobre homem parecia feliz, ainda não informado sobre a morte de sua filha. Mas o que — sem saber o motivo — lhe chamara a atenção fora o fato de o homem tocar no assunto casamento. Perguntou-se se haveriam existido sentimentos entre ambos que envolvessem mais do que parceria.

Agora que ela pensara no assunto, percebera que talvez Petra nutrisse algum sentimento por ele. Mas não estava certo se era mútuo. Que ela lembrasse, nunca o vira demonstrar sequer um sentimento. Duvidava até mesmo que ele fosse incapaz de sentir algo.

Percebera então que estava olhando para ele, diretamente, embora seus pensamentos distantes a impedissem de realmente olhar. Percebera também que ele a encarava com o olhar vazio. Instintivamente desviou o olhar antes de cobrir parcialmente o rosto com a echarpe negra enquanto sentia o rosto queimar. Há quanto tempo ele estava olhando para ela? Esperava que não muito. Não queria que ele tivesse a visto observá-lo por tanto tempo.