ㅤㅤ2.
ㅤㅤ
ㅤㅤ
ㅤㅤ— E então o velho disse: "Sai do meu carro, filhote de Satã!"
ㅤㅤA sala dos fundos da livraria cheirava a vinho e ressentimento mascarado.
ㅤㅤNas poltronas confortáveis cor carmesim, um ex-anjo e um ex-demônio riam juntos, bebendo às desgraças da vida. Uma vida agora tediosamente mortal.
ㅤㅤCrowley entornou outro copo cheio de vinho. Aziraphale disse:
ㅤㅤ— Mas, se ele te deixou no meio da pista, como conseguiu chegar aqui?
ㅤㅤ— Àquela altura eu já estava mais próximo à civilização. Usei o pouco de dinheiro que tinha conseguido roubar do velho pra pagar um ônibus.
ㅤㅤO sorriso de Aziraphale murchou um pouco. Não é só porque era humano agora que as boas maneiras o deixariam.
ㅤㅤ— Isso não está certo.
ㅤㅤCrowley grunhiu.
ㅤㅤ— Quem se importa, certo? Eu estou aqui. O que passou, passou. Aquele velho foi um completo pau no cu, de qualquer forma. Teve o que merecia.
ㅤㅤUm zumbido baixo preencheu o silêncio esquisito entre os dois. Era a quarta vez que o celular de Crowley tocava.
ㅤㅤ— Acho melhor atender — sugeriu Aziraphale, ainda sério.
ㅤㅤCrowley encarou o companheiro por um instante. Deu então outra grande golada, e atendeu bem a tempo, antes do quarto toque.
ㅤㅤ— Alô?
ㅤㅤAziraphale encheu outro copo. Fazia tempos que não bebia tanto assim, refletia ele, e não se lembrava do efeito do álcool de maneira tão... intensa.
ㅤㅤEnquanto assista Crowley escutar em silêncio quem quer que estivesse na outra linha, pensou ver um pequeno unicórnio voando ao redor da cabeça dele.
ㅤㅤAziraphale deu risadinhas.
ㅤㅤ— Tanto faz — disse Crowley depois de um minuto inteiro. — Boa noite pra você também. E vai se foder.
ㅤㅤEle desligou com um sorriso.
ㅤㅤ— Acho que acabei de ser despejado. Posso ficar por aqui?
ㅤㅤ— Claro que sim, querido.
ㅤㅤHavia dois unicórnios circundando a cabeça de Crowley agora. Eles cantavam Livin' On A Prayer.
ㅤㅤ— Você acha que isso é temporário? — perguntou Crowley.
ㅤㅤ— Não faço a mínima idéia.
ㅤㅤAziraphale dividiu o restinho do vinho entre os dois.
ㅤㅤ— Sabe o que estou pensando? — Aziraphale sacudia o copo perto do nariz, assistindo o líquido vermelho dançar — Não conseguiremos nos livrar do efeito do álcool de imediato.
ㅤㅤ— Não deve ser tão ruim assim. Humanos são exagerados.
ㅤㅤ— Somos humanos agora.
ㅤㅤ— Somos mesmo?
ㅤㅤOs dois se entreolharam e sustentaram o olhar um do outro por um longo tempo.
ㅤㅤVeja bem, há algumas coisas que simplesmente não mudam quando se convive com alguém desde o início do firmamento. Como prever as mesmas piadas, por exemplo; ou aprender a se comunicar sem dizer uma única palavra.
ㅤㅤ— Vou pegar um travesseiro pra você. Pode dormir naquele sofá, se quiser — Aziraphale apontou para o sofá no canto da sala. — Ou se quiser dormir na minha cama, sem problema. Você é quem sabe.
ㅤㅤCrowley o fitou por cima dos óculos escuros. Aziraphale, com seus cachos loiros e roupas antiquadas, iluminado pela luz amarelada do ambiente, sorria de forma pura. Crowley ficou se perguntando se a aura de anjo jamais o deixaria.
ㅤㅤ— Eu fico no sofá mesmo.
ㅤㅤAziraphale sumiu escada acima.
ㅤㅤSecretamente, os dois achavam a situação de certa forma engraçada. Quando se é uma criatura celestial, cansaço físico é a penúltima de suas preocupações. No entanto, lá estavam; a fadiga pesando suas pálpebras como sacos de areia de ampulheta.
ㅤㅤQuando voltou com um travesseiro velho e um cobertor, alguns minutos depois, Aziraphale encontrou Crowley cochilando na poltrona. Ficou com pena de acordá-lo. O copo vazio de vinho ainda pendia das mãos do adormecido. Aziraphale guardou-o.
ㅤㅤ
ㅤㅤNo dia seguinte, Crowley amanheceu no sofá. Pescoço e costas doídos, e a primeira e maior ressaca de sua existência.
