This love.

Por: Juju ou Juh ou Juliana ou Kagome Juh. Como preferirem :D


'Voltar para o mundo onde eu vivia,

foi um desafio.

Mas voltar melhor do que eu fui,

foi a superação que eu queria. '

Kagome Higurashi.

Capítulo II.

"A famosa cantora Gome Matsuyama estará finalmente em Tóquio, sua cidade natal, para terminar sua turnê, que incluiu cidades de todos os continentes e que depois esteve de volta aos Estados Unidos. Fãs dessa nova cantora que estão espalhados pela grande Tóquio se preparem para um grande show! Gome admite não ser tão boa em seus shows por estar há pouco tempo nessa carreira – pura modéstia -, mas diz não deixar as pessoas decepcionadas!

Para as pessoas que esperavam que ela continuasse sua turnê, agora por todo o Japão, terão que esperar. Ela afirma que tirará um tempo de 'férias' para ficar tranqüila em casa e matar as saudades da família (Que por incrível que pareça, nunca conseguimos identificar). Mas para as pessoas que já compraram os ingressos para esse grande evento pop na capital japonesa, preparem-se para suas músicas empolgantes e sua voz envolvente!"

Inuyasha jogou o jornal longe. Não estava interessado em saber quando uma grande cantora pop estaria ou não em Tóquio. Não fazia nem questão de olhar a foto ao lado daquela notícia.

Em quatro anos ele não havia obtido nenhuma notícia de Kagome. Ele havia contratado o melhor detetive japonês e mesmo assim não conseguiu encontrá-la, o que o frustrava intensamente. Essa frustração só aumentava quando ele implorava pela ajuda do Sr. Higurashi e da Sra. Higurashi e eles lhe negavam esse auxílio, pois tinham prometido que não ajudariam a procurá-la. Por mais que ele soubesse que para os dois fazerem e cumprirem tal promessa poderia estar sendo mais difícil do que para ele mesmo, ele não conseguia acreditar que eles não davam informação alguma sobre a garota, qualquer coisa, simplesmente algo que pudesse ajudá-lo minimamente pelo menos. Algumas vezes ele se pegava pensando que os pais da garota eram insanos, mas logo que aquele tipo de pensamento surgia, ele os apagava da própria mente. Não, eles não eram insanos. Eles se importavam mais com a garota do que Inuyasha havia se importado enquanto ela estava ali, tão perto e acessível.

Se sentia tão idiota por não ter notado os próprios sentimentos pela morena em todos aqueles anos, quando ela estava ao seu lado. Oh, como fora estúpido! Estava escrito na própria testa em caixa alta e em itálico! Seus sentimentos estavam visíveis a cada ato, a cada conversa, a cada troca de olhar com a garota e mesmo assim ele não os percebera. Ele sempre ouvira que o amor cegava, mas não do jeito que ele mesmo esteve cego por todo aquele tempo!

Suspirou resignado, notando como seus pensamentos novamente se voltaram para a frustração que o corroia por dentro.

Após tanto tempo sem ter qualquer conhecimento da existência da garota, ele começava a ter pensamentos negativos. Ele havia desistido de procurá-la depois de dois anos infrutíferos, porém ainda tentava manter esperanças que ela estivesse viva. Por mais que as dúvidas começassem a destruir aquela crença, ele esperava que ela estivesse bem.

Olhou para a TV ligada e viu repórteres falando dessa mesma notícia. Desligou o eletrodoméstico na hora que falaram que seria mostrada uma entrevista com Gome e foi até o próprio quarto. O que mais doía nele era olhar para a própria cama, onde ele imaginava os dois juntos, onde ele se lembrava de ter passado a melhor noite de sua vida e se lembrar que ela não estava mais com ele. Ele suspirou se jogando na cama. Desde que ela fora embora, nada era igual. Sango e Rin culpavam-no por ela ter fugido, terminara o namoro com Kikyou e ficara sozinho desde então, somente com alguns envolvimentos pouco duradouros. Ele se trancou no próprio mundo, se martirizando por não ter percebido a tempo o que sentia de verdade por Kagome. Sentia falta dela, de conversar com ela, de abraçá-la, de tê-la por perto para observar seu sorriso e ouvir sua voz. O que mais mudara depois que ela fora embora fora ele mesmo. Inuyasha já não era o mesmo hanyou de antes, ele não agia como um moleque de vinte e tantos anos, ele havia abraçado uma nova seriedade que antes de todos os acontecimentos de quatro anos atrás, ele não tinha.

Olhou para o lado, para o criado-mudo ao lado da cama, e observou o porta-retrato com uma foto dos dois juntos que residia ali, uma foto de quanto eles tinham seus dez anos, quando eram inocentes e não pareciam pensar em sentimentos complicados. Agora ele tinha vinte e cinco anos. Há dois anos formado, ele exercia seu trabalho muito bem. Porém, a boa fama em sua carreira profissional não cobria o vazio que se instalara em seu peito quando vira aquele avião decolar e ir para outro continente, com a garota que ele amava dentro dele. Virou-se na cama, ficando de costas para aquela foto. Fechou os olhos âmbares, tentando dormir e esquecer a saudade que martelava junto com cada batimento de seu coração mestiço.

A Sra. Higurashi olhava para o jornal, segurando-o firmemente. Tinha um pressentimento quanto aquilo. Gome... Aquele nome parecia ter sido tirado de Kagome e ela conhecia muito bem o nome Matsuyama, por ser um sobrenome de gerações anteriores da família Higurashi. Seu coração se iluminou com novas esperanças. A foto da cantora não mostrava muita coisa, somente os cabelos negros presos em um alto rabo-de-cavalo. Mesmo assim o pressentimento que ela tinha era quase uma certeza, não tinha como negar as semelhanças e as coincidências.

Ela e o marido realmente fizeram o que a filha pedira já que havia sido uma escolha da garota, porém fora a coisa mais dolorosa que já haviam feito. O que era muito irônico, já que a dor era imensa por justamente não poderem fazer alguma coisa. Eles não a procuraram quando se interou os nove meses de gestação, não a procuraram quando sentiram saudades incontroláveis e nem ajudaram ninguém a achá-la. A preocupação e o medo parecia os consumir a cada dia que passava, mas eles tinham que respeitar a decisão de Kagome. Eles a tinham criado para isso, para que ela fizesse as próprias escolhas e lidasse com as conseqüências de suas decisões.

Eles não sabiam nem se a filha ainda estava viva, eles não sabiam nem se ela passava fome, eles não sabiam como ela estava e se a netinha ou o netinho deles também estava bem. Eles não sabiam nada e a cada dia que passava, sem tê-la de volta, era mais um dia de dormirem abraçados, tentando consolar o choro interior um do outro.

Não sentiam raiva de Inuyasha, pois o coração completamente cheio de saudades não dava espaço para a raiva; mas a dor de não tê-la ali com eles por causa do hanyou simplesmente afundava em seus corações, assolando suas mentes e transformando seus dias em dias sem cor. Uma mágoa que guardavam de Inuyasha se misturava com a mágoa de Kagome ter sumido, fugido de uma situação que excedia seus limites.

"Quatro anos." Sra. Higurashi foi tirada de seus pensamentos pela voz grossa do marido. Tirou os olhos do jornal e o encarou para vê-lo estendendo uma caneca de chocolate quente. Sorriu tristemente enquanto pegava a caneca quente e soprava levemente o chocolate dentro dela.

"Quatro anos sem saber se Kagome e o bebê estão vivos." A senhora comentou tristemente, bebericando o chocolate.

"Eles estão bem, tenho certeza disso." O pai da garota disse esperançoso, sentando-se ao lado da mulher com um pequeno sorriso nos lábios. "Ela não deixaria nada acontecer com o pequenino Higurashi." Ele acrescentou, passando um braço pelos ombros da mulher, reconfortando-a mais do que ele poderia imaginar.

"É tão triste não sabermos o nome da criança." Ela comentou, colocando a caneca no colo e encarando intensamente os olhos escuros do marido, como se enxergasse naquele mar castanho a resposta para suas preocupações. "Quando ela vai voltar, meu bem?"

"Tenho um pressentimento que em breve." Ele respondeu, olhando brevemente para o jornal com a imagem de Gome Matsuyama na primeira página.

Sango observava Miroku dormindo ao seu lado, na cama de casal. Há quatro anos, Kagome sumira sem deixar rastros e muito menos meios de contato, impedindo que ela pudesse lhe contar todas as suas novidades: ela e Miroku estavam noivos. De um simples 'dando uma voltinha' as coisas evoluíram intensamente e, agora, eles eram noivos. Sango estava feliz com o relacionamento, mesmo que as vezes duvidasse da própria sanidade mental em se casar com aquele mulherengo, ela estava feliz.

A única coisa que faltava para que sua felicidade ser completa era ter a amiga de volta, perto de si, rindo e conversando. Ela sentia falta da morena. Os anos de faculdade pareceram menos alegres quando ela observava a cadeira vazia que Kagome costumava ocupar, quando as lembranças de uma época em que as três amigas se consolavam e se ajudavam com os problemas cotidianos, quando lera o comunicado que a Faculdade enviara para os Higurashi, desfazendo a matrícula da garota pelo número exorbitante de faltas. Na formatura, Sango não pode evitar a intensa saudade que se instalara em seu coração ao querer que a amiga também estivesse ali, recebendo o diploma com Rin e ela.

Respirou fundo, acariciando levemente os cabelos negros do homem deitado ao seu lado. Ainda se entristecia incrivelmente quando se lembrava do primeiro ano de sumiço da amiga. Sango nunca havia chorado tanto. As perguntas que a deixavam insegura bombardeavam sua mente como uma verdadeira metralhadora, e o medo de que Kagome estivesse morta e que nunca mais fosse voltar a fazia entrar em pânico. Eram amigas há muitos anos, não conseguia imaginar aquela situação mórbida entre elas. Para ela, as três continuariam amigas até que os fios brancos aparecessem e elas fossem forçadas e pintar o cabelo frequentemente.

Porém, após quatro anos sem qualquer notícia, ela simplesmente tinha fé que seus piores pensamentos não eram uma realidade e que a morena estaria voltando logo. As saudades, apesar de enormes, estavam guardadas dentro de si, em uma forma controlada de senti-las. Ela não conseguia explicar, mas ela sentia que sua fé não era vã e que, diferente os anos anteriores, talvez o dia em que Kagome retornaria estaria cada vez mais próximo.

Ela sentia que quatro anos foram suficientes para curarem o que quer que tenha acontecido entre a amiga e Inuyasha.

Sango não poderia imaginar como estava parcialmente correta.

Rin penteava os cabelos castanhos escuros em frente ao espelho. O cabelo estava todo do lado direito de seu pescoço e ela fitava pensativa a própria imagem. Fazia quatro anos que Kagome sumira e assim como Sango, ela tinha tantas coisas para contar. Ela havia se casado com Sesshoumaru há alguns meses. Haviam acabado de voltar de lua de mel. Estava muito feliz e imaginava um futuro bonito e feliz para os dois, mas ainda faltava algo em sua vida, faltava uma pessoa em sua vida.

E ela sempre se lembrava de Kagome.

Para Rin, assim como Sango, para a felicidade ser completa Kagome teria que voltar. Para a felicidade ser completa, ela tinha que conversar com a amiga assim como conversavam antes dela sumir. Ela sentia muita falta da morena, ela sentia muita saudade. Formar sem a presença de Kagome fora sofrido. Ela não tivera com quem ela falar sobre os Taisho, com quem discutir sobre os Taisho nem quem a animasse em assunto aos Taisho. A morena sempre a implicava em relação à Sesshoumaru e Rin sempre a consolava em relação à Inuyasha. Elas seriam amigas para sempre no coração da mais nova daquele trio.

"Rin, vamos dormir." Ela ouviu a voz fria de Sesshoumaru e arrepiou-se quando sentiu os lábios do yokai tocarem sua pele, seu pescoço. Sorriu. Sentia que Kagome voltaria em breve. Sentia que finalmente poderia ficar feliz completamente.

E no mesmo momento que todos eles no Japão estavam dormindo em uma noite fria, certa morena de olhos azuis acinzentados embarcava no seu novo avião particular. O casaco preto de couro da Versace tampava a blusa lisa de gola alta verde-água Chloe. A calça jeans azul-escuro e meio desbotada da Colcci, uma das marcas brasileiras que ela mais gostava, delineava suas pernas e com a bota preta de camurça Prada, de cano alto até o joelho com um salto alto e fino, sua figura carregava um ar ainda mais elegante. A imagem dessa mulher simplesmente ficou singela quando se pode ver em seus braços uma pequena e bela garotinha. Embrulhada em um fofo cobertor com os desenhos de 'A bela adormecida'.

Ela se sentou confortável em uma poltrona do avião, aconchegando mais confortavelmente a garotinha em seus braços, e depois de ficar algumas horas somente observando o céu claro ao lado de fora e se despedindo dos Estados Unidos, ela adormeceu também.

oOo

"Que bom que vocês vieram." Sra. Higurashi disse, sorrindo agradecida quando viu todos reunidos, sentados nos sofás da sala do apartamento de Kagome. Todos estavam com sorrisos tristes no rosto. "Se Kagome estivesse aqui conosco, estaríamos comemorando seu vigésimo quinto aniversário." Ela disse toda tristonha, encarando um por um.

Sango, Miroku, Rin, Sesshoumaru, Izayoi, e Inuyasha.

Inuyasha olhou para fora da janela, em que se tinha uma boa visão daquela parte da cidade. Com as luzes da cidade acesas e iluminando belamente a noite de Tóquio, era notável como a cobertura de Kagome era bem situada. Suspirou triste e, enquanto todos pareciam estar absortos em seus pensamentos, a mãe da garota aproveitou para ir pegar as taças de vinho. Mesmo que Kagome não estivesse ali, eles não deixariam de festejar o aniversário dela. Não podiam deixar de festejar. Eles não podiam esquecer aquela data.

O avião pousou e a mulher se levantou com a garotinha nos braços. Seria difícil se acostumar nos primeiros dias com a enorme diferença de fuso-horário. Até porque, era realmente muito confuso. Mas isso não era o maior desafio. Logo que ela chegou à porta do seu avião, descendo pela escadinha vermelha, ela já viu vários flashes vindo em sua direção. Sorriu como sempre fazia quando via fotógrafos. Foi descendo as escadas e quando chegou ao chão fez algumas poses para os fotógrafos, que espertos chegaram mais perto fazendo perguntas, que foram respondidas com um simples e dito educadamente: "Agora estou cansada da viagem, assim que eu estiver melhor responderei a todas as perguntas."

Os seguranças entraram na frente e ela teve a chance de sair dali. Virou-se para os outros que a acompanhavam. "Então pessoal, vocês já sabem. Eu vou pra minha casa e vocês podem seguir para o hotel. Depois a gente marca um horário para um pequeno ensaio." Ela disse alegre vendo todos da banda concordarem e, então, ainda com a garotinha nos braços, ela saiu pelo aeroporto vendo vários rostos virarem para si e vários celulares tirando fotos. Sorriu o tempo todo. Quando chegou ao estacionamento, seus olhos brilharam.

O carro não estava tão estragado como imaginava (e considerando que a bateria não estava descarregada, ela sabia que os pais tinham de alguma forma cuidado do automóvel).

O pai de Kagome ajudou a Sra. Higurashi a servir o vinho para todos. Em um brinde, todos tomaram os goles juntos. O mesmo desejo mudo de que Kagome voltasse logo.

Deitou a garotinha no banco de trás, colocando o cinto de segurança na pequena. A única mala que carregava era a mesma que havia levado. Caso precisasse de mais roupas, tanto para ela quanto para a garotinha, ela só precisava ligar para sua agente. Então, sentada no banco do motorista, ela ligou o carro e deu partida.

"Inuyasha, como vai a vida?" Sr. Higurashi perguntou. Todos voltaram a olhar para o hanyou, que se sentiu incomodado a repentina atenção dada a ele.

"Na carreira, está ótima." Ele disse bebericando o vinho. "Mas sinto muita falta dela." Ele disse abaixando os olhos. Todos sabiam que era verdade o que ele falava, mas não podiam deixar de pensar 'Foi sua culpa ela ter ido'.

"Todos aqui sentimos muito a falta dela." Sra. Higurashi disse, com um brilho triste saindo dos olhos azuis acinzentados. Encarou os olhos escuros do marido. Ela sentia algo mudar dentro dela, não sabia se ele também sentia, mas ela sentia que Kagome estava próxima e era muito bom sentir aquela sensação.

Kagome sorriu ao avistar o prédio. Estacionou o carro na frente dele e pegou sua mala em um ombro e a garotinha abraçada ao outro. Quando entrou, que o velho porteiro a avistou, viu-o ficar boquiaberto e, sorrindo, entrou no elevador.

"Bem, então..." Sango disse chamando a atenção de todos para si. "Parabéns Kagome." Ela disse levantando sua taça, todos levantaram as suas novamente fazendo outro brinde. E então, quando todos menos esperavam, uma voz divertida soou pelo apartamento.

"Obrigada, Sango."

As taças dos pais de Kagome caíram no chão, quebrando em mil pedaçinhos e, em câmera lenta, todos viraram seus rostos assustados para a figura elegante na porta. Inuyasha não conseguiu olhar. Ele não acreditava que aquilo estava acontecendo.

"Kagome está de volta. Quer dizer, atualmente podem me chamar de Gome Matsuyama." Ela disse sorrindo, vendo a mãe e o pai sorrirem e virem correndo a seu encontro.

"Kagome...!" A mãe disse, observando a filha, e quando se aproximou mais que avistou a garotinha embrulhada naquele cobertor em um de seus ombros. "Eu não posso acreditar que... Finalmente..." Kagome sorriu em ver do que a mãe falava. Soltou a mala que estava em seu ombro pousando-a no chão e, com carinho, pôs se a chamar a garotinha.

"Amy, sweetheart, wake up." Os olhinhos abriram-se revelando o azul acinzentado puxado de Kagome. A mãe da garota sorriu delicadamente.

"Já chegamos?" A vozinha de criança soou pelo apartamento, fazendo com que finalmente Inuyasha olhasse. Todos estavam em pé, boquiabertos, observando Kagome com uma menininha nos braços.

"Sim." Ela respondeu carinhosamente, vendo a filha sorrir. "Agora, quero que você conheça sua avó e seu vovô." Continuou, fazendo com que a garotinha encarasse o Sr. Higurashi e a Sra. Higurashi com curiosidade e ansiedade.

"Really?" Ela perguntou, e Kagome afirmou com a cabeça. Então, com um gritinho de felicidade, Amy pulou do colo materno para o colo da Sra. Higurashi. Depois de tudo isso, a ficha de Sango e Rin caiu. A amiga estava de volta.

"Kagomee!" Gritaram juntas com voz de choro e pularam no pescoço da morena. Kagome sorriu, não iria afastá-las como tinha feito. Ela viu que estava conseguindo tudo de novo. Tudo que ela havia perdido.

"Sango... Rin... Senti saudade." Ela disse carinhosamente. Miroku e Sesshoumaru permaneceram onde estavam, ambos sorrindo. Já Inuyasha estava estático observando tudo aquilo. Kagome voltara com uma filha. Colocou as mãos na cabeça, totalmente confuso. Quando todos seguiram os pais de Kagome até a cozinha para mimarem Amy, que ele e a morena se viram sozinhos na sala, ele se sentiu ligeiramente nervoso. Todos os discursos imaginados durantes aqueles últimos anos não pareciam bons o suficiente. Porém, enquanto ele batalhava em seu conflito emocional, Kagome simplesmente pegou a mala a colocando novamente nos ombros e começou a seguir para onde era seu antigo quarto. Ignorando totalmente a presença do hanyou.

"Quem é o pai?" A única pergunta que conseguiu sair da boca de Inuyasha foi aquela, fazendo Kagome parar e ficar estática. Fazia quatro anos que ela não escutava aquela voz, que ela havia ido embora para que ele não ficasse com ela por 'cavalheirismo'. O coração acelerou como acontecia sempre que ele lhe direcionava a palavra. Ela olhou para baixo e suspirou.

"Ela não tem pai." Disse com sua voz melodiosa. Ele escutou aquela voz e viu que ela havia mudado. Ela sempre tivera uma voz bonita, mas agora parecia diferente. Por mais que ele não soubesse o motivo de estar diferente, ele sentia que muita coisa havia acontecido; mas aquela resposta o deixou com raiva, magoado, curioso. O deixou em um misto de sentimentos confusos. "Ela é minha filha. Eu sou a mãe e o pai dela." Kagome disse com orgulho de si mesma e então, sem nem mesmo encarar Inuyasha, ela continuou seu trajeto até seu antigo quarto. Quando ela fechou a porta, ele continuou estático olhando na direção onde ela fora.

"Inuyasha, Inuyasha!" Ele foi tirado de seus pensamentos quando escutou uma vozinha de criança o chamando. Olhou para onde vinha e viu a garotinha que estava nos braços de Kagome. Somente naquele momento, que ele conseguiu observar direito, percebeu que ela tinha o mesmo cabelo negro e os mesmos olhos da mãe. Ele sorriu, tentando ser carinhoso, mas o pensamento daquela criança ser de algum outro homem que tomou Kagome em seus braços o deixava irritado, enojado. "Inuyasha, vem pra cozinha com a Amy!" A menininha disse alegre. Ele sorriu forçadamente. Se Kagome tinha se envolvido com alguém ou não, aquela criança não tinha qualquer culpa e, sendo assim, deixou-se ser puxado até a cozinha.

Kagome escorregou por toda a extensão da porta até o chão, com o coração na mão. Sentia-o se contraindo forte. Reencontrar com todos era mais doloroso do que pensara. Era um desafio que ela pensara que conseguiria vencer sem se abalar, mas ela percebia que ainda sentia todos os sentimentos que sentira há quatro anos. Ela sentia que amava Inuyasha do mesmo modo que o amara, sentia que as amigas nunca foram afastadas. Depois de dois anos e meio sofrendo para sobreviver e então um ano e meio tomando um rumo diferente, era difícil se mostrar inabalável na frente de todos eles que não viram nada do que acontecera com ela. Era difícil se mostrar inabalável na frente de Inuyasha, que simplesmente não saiu de sua mente um minuto sequer durante todos os quatro anos que permaneceu nos Estados Unidos. A cada ano que passava ela sentia que devia voltar, a cada ano que passava, que ela olhava para a filha, ela sentia que tinha que voltar.

Escutar a garotinha o chamando daquele jeito fez com que ela sentisse medo do futuro. Ela havia voltado, mostrado que havia superado tudo, havia cumprido com o que afirmara para os pais. Ela havia voltado melhor do que tinha ido. Mas agora tinha medo que todo o mundo que ela criara como Gome Matsuyama desmoronasse com Inuyasha descobrindo ser o pai de Amy. Ela suspirou fundo, passando a mão nos cabelos negros, totalmente cansada. Ela não daria nenhuma chance para Inuyasha. Ela não merecia sofrer como sofrera há quatro anos. Então, levantando-se, ela foi até a antiga cama onde ela dormira suas noites solitárias. Deitando-se lá, ela adormeceu imediatamente. Uma viagem longa como aquela merecia um descanso.

E bem, ela merecia estar preparada para tudo o que aconteceria depois de sua volta.

"Então quando Amy se acostumou com a escola, mamãe disse que voltaríamos para o Japão." Amy estava sentada no balcão da cozinha, olhando para todos, e finalizando sua história de vida. Todos sorriam a mimando com carinho. Ela era incrivelmente linda. Passando pela fase de tratar de si mesma em terceira pessoa a tornava ainda mais fofa para os olhos de todos. Inuyasha observava tudo calado, não sabendo como agir exatamente. "Amy sente cheiro de bolacha de chocolate..." Ela disse rindo travessa. Sra. Higurashi sorriu carinhosa, colocando a mão que estava escondida atrás de suas costas perto de Amy, mostrando o pacote de bolachas.

"Espertinha como a mãe." A avó disse feliz vendo a neta pegando o pacote de suas mãos. Inuyasha arqueou as sobrancelhas.

"Amy, você sente cheiro de coisas que estão muito longe?" Ele perguntou fazendo todos olharem surpresos para ele. Os pais de Kagome simplesmente gelaram onde estavam sentados. Amy pareceu pensar um pouco.

"Sinto sim. Mamãe nunca quis explicar o porquê." Ela respondeu com uma carinha de desinteresse enquanto abria o pacote de bolachas. "Ela sempre dizia também que Amy não tinha que procurar saber de coisas que ela não iria contar." Ela disse sorrindo, enquanto pegava uma bolacha e colocava na boca. Inuyasha olhou para a garotinha ficando ainda mais incomodado. Ele sempre soubera que Kagome não tinha nenhum preconceito contra yokais, mas pensar em um yokai a possuindo era uma coisa terrível para ele. Doía-lhe o coração pensar em algo como aquilo. Suspirou triste com aquilo tudo e se levantou, chamando a atenção de todos ali na cozinha - menos da pequena garotinha.

"Vou indo. Mãe, a Senhora vai com o Sesshoumaru?" Ele perguntou encarando Izayoi, que olhava para o filho com um olhar de pena. Sabia o que ele estava pensando daquilo tudo.

"Vou sim."

"Bom, então até mais Senhor e Sra. Higurashi." Ele disse educado para os anfitriões e deu um simples aceno para os outros. Saiu a passos rápidos daquele apartamento, sem saber exatamente o que fazer. Sua mente estava confusa e sua cabeça doía. Massageou a testa não conseguindo se acalmar. Kagome dormira com outro, tivera uma linda menina com outro. Tudo o que ele sonhara enquanto ela estava sumida, que era ter um filho com a morena, já havia acontecido com outro. Como reagir a algo como aquilo? Como olhar para ela e para aquela garotinha? Entrou no elevador ainda massageando a testa, buscando por tranqüilidade. Quando saiu do prédio a primeira coisa que pensou em fazer foi beber uísque. Beber até não estar mais sóbrio e cair na cama para no dia seguinte ter uma forte dor de cabeça como resposta à bebedeira.

E foi aquilo mesmo que ele fez.

oOo

Kagome abriu os olhos sentindo o corpo relaxado e parecendo ter renovado as energias. O quarto estava fracamente iluminado pelos raios de sol que passavam pela cortina, que denunciavam a pequena camada de poeira que cobria o cômodo. Mesmo que os pais cuidassem do apartamento, eles não poderiam ter imaginado que ela voltaria no dia anterior. Ela olhou para o que vestia, notando que ainda usava a mesma roupa da noite anterior, e deu de ombros. Espreguiçou-se com um sorriso no rosto, suspirando com contentamento. Sentia-se renovada.

Levantou-se da cama e caminhou até o banheiro, olhou-se no espelho e não viu as olheiras que ela imaginou que estariam ali depois da viagem cansativa. Sorriu belamente e começou a retirar as roupas que vestia, cuidadosamente. Foi até o chuveiro e se enfiou debaixo dele, ligando-o. Sentiu a água passando por todo seu corpo, sentiu-se leve como se aquela água estivesse retirando a tensão que sentia por estar ali novamente. Enxaguou o cabelo negro de olhos fechados, lavou-se completamente. Depois daquele banho, ela se sentia melhor ainda.

Secou-se com a toalha macia e fofinha e saiu do banheiro a procura da mala. Enrolada na toalha ela abriu a mala, com as novas roupas e as de Amy, e se vestiu simples para ficar confortável. Pegou uma calça de algodão azul claro da Puma – que fazia seus olhos ficarem chamativos e combinados com a calça - e uma regata branca da Nike. Vestiu-se, fez um rabo-de-cavalo no cabelo e saiu do quarto finalmente, depois de abrir as cortinas e a janela, dando um ar novo para o quarto. Quando saiu, sentiu pequenos braçinhos rodearem suas pernas e sorriu quando olhou para baixo e viu Amy, vestida com uma roupinha infantil dela mesma, de quando tinha aquela idade. Nunca imaginou que suas antigas roupinhas poderiam estar no apartamento.

"Good morning, Mom!" Ela disse alegre para Kagome, que se abaixou para pegá-la no colo.

"Good morning, Sweetheart." Kagome respondeu dando um pequeno beijinho no rosto da pequena, com carinho. "Dormiu bem?" Perguntou como toda mãe coruja. A pequena deu uma risadinha alegre.

"Dormi sim. A Vovó e o Vovô me deixaram dormir com eles!" Ela disse alegre. Kagome foi caminhando até a cozinha enquanto a filha contava as novidades. Viu a mesa arrumada com muita fartura e olhou para a mãe de avental preparando mais coisas. Riu se sentindo importante e, sem conseguir evitar, nostálgica. Ser cuidada novamente pela mãe era imensurável depois de quatro anos praticamente sozinha.

"Mãe, a mesa já está ótima, não precisamos de mais." A Sra. Higurashi sorriu, parando de preparar as panquecas e olhando para a filha, que parecia ótima. Vê-la parecendo tão feliz e com Amy em seus braços era a realização da maioria dos sonhos que tivera durante aqueles quatro anos.

"Senti tanta saudade de você! Então, me deixe te engordar um pouco!" A senhora falou, fazendo Kagome sorrir carinhosamente.

Mimos, eba!

Colocou Amy em uma das cadeiras e se sentou em outra. Viu a mãe completar a mesa que já havia uma variedade de frutas e de sucos. Tinha também leite, cereais, cookies, panquecas, muffins de chocolate, waffles com calda de morango e chantili... Tudo o que Kagome tinha o costume de comer nos Estados Unidos, depois que virara cantora.

"Bom dia, minha filha." A voz grossa do Sr. Higurashi soou pela cozinha, fazendo todos ali sorrirem. E então, todos se sentaram à mesa. Kagome serviu Amy com carinho e paciência, e os pais olhavam aquilo tudo com orgulho. Não pareciam acreditar no que viam, no caso, a filha de volta com a netinha.

Quando terminaram o café, ela pensou em ficar sozinha. Tinha que absorver tudo aquilo, todas as presenças que estavam de volta na sua vida, absorver todo aquele carinho e pensar como iria agir a partir daquele momento. Havia planejado tudo antes de voltar, mas simplesmente esquecera de tudo quando vira Inuyasha, Sango, Rin e seus pais. Era como se tivesse dado um branco em sua mente e ela simplesmente quisesse agir como agia antes de ir embora, mas ela sabia que não podia fazer assim, ela simplesmente tinha que agir diferente, na defensiva. Ela não queria voltar a sofrer.

"Mais tarde eu volto." Kagome avisou se levantando e indo até a sala. Pegou a chave do próprio carro e saiu sem mais nada. Não esperou nenhuma resposta, pois sabia que todos entenderiam sua vontade e que Amy adoraria poder ficar só com o avô e avó. Ela fechou a porta atrás de si e entrou no elevador, apertando o botão do térreo.

Ela teria que se acostumar em estacionar o carro na garagem. Era mais discreto.

Saiu do elevador e passou pelo saguão, vendo o velho porteiro a cumprimentá-la sorridente. Ela sorriu o cumprimentando de volta e saiu do prédio. Viu algumas pessoas olharem para si e foi andando calmamente até o carro. Quando entrou, sua mão foi diretamente para os óculos escuros que ela havia esquecido ali. Sorriu vendo que mesmo assim as pessoas continuaram olhando enquanto tentavam descobrir de onde elas a conheciam. Acelerou e começou a dirigir. Por mais que sua fama fosse mais concentrada na América e na Europa, seu nome começava a ser conhecido também por toda a Ásia. Ela estava ficando muito famosa e em tão pouco tempo, graças às ferramentas tecnológicas como youtube e iTunes. Ela nunca havia imaginado que presenciaria as utilidades da internet para lançar alguém no mundo, como havia acontecido com ela.

Quando estacionou o carro, viu-se parada em frente ao prédio de Inuyasha. Fez uma careta inconformada. Por que ela tinha que parar ali? Seu inconsciente não gostava de outro prédio, não?

Recomeçou a dirigir, sem perceber que Inuyasha estava do outro lado da calçada com um copo de café expresso na mão, olheiras debaixo dos olhos e com uma cara amassada, olhando aquele movimento em uma mistura de surpresa e mágoa.

O hanyou colocou os óculos escuros ray-ban, para proteger seus olhos cansados da luz solar, enquanto observava o carro sumir pela esquina. Estava um caco. Beber até não estar mais são e ir dormir não fora a melhor idéia que ele já tivera. Atravessou a rua com um jornal debaixo do braço e entrou no próprio prédio. Quando já estava no próprio apartamento bebericando o café, ele abriu o jornal e lá estava a foto de Gome Matsuyama. Como Santo Deus ele não havia visto isso antes? Por que ele não procurara olhar uma foto de Gome para perceber que era Kagome?

Bufou irritado, sentindo a cabeça querendo explodir. Ele não sabia até mesmo porque insistia em pensar na morena. Já estava provado que ela estivera com outro, que ela não o amava assim como ele a amava.

Oh, tolinho.

Ouviu o toque estridente do próprio celular e xingou, sentindo a dor de cabeça piorar, e o pegando a tempo de ver o nome no visor. Suspirou, logo o atendendo.

"Sesshoumaru?" Perguntou logo que atendeu. "O que quer?" Continuou, irritado. A cabeça parecia que iria explodir a qualquer momento, os olhos não podiam ver qualquer raio de luz que doíam, Kagome voltara com uma filha que ele achava ser de um caso nos Estados Unidos... Ele não estava com nenhum humor, afinal. Ficou alguns instantes calado, não querendo acreditar no que o irmão falava. "Não tem como eu ir depois?" Ele perguntou, implorando.

Ele havia esquecido completamente que havia combinado com o irmão de ir até lá antes do almoço, para conversarem sobre negócios. O pior de tudo era que ele não estava com clima para conversar sobre algo daquele tipo. Para falar a verdade, ele não estava em condições de ir até lá.

Sejamos sinceros, ele estava deplorável.

Quando o carro parou novamente, Kagome se viu na frente do prédio de Sango. Sorriu ao perceber que lentamente conseguia tudo o que perdera de volta. A riqueza, a felicidade, a amizade de Sango e Rin. Tentou não pensar em Inuyasha, pois sabia que era a única coisa que ela nunca havia tido. Entrou no prédio vendo o porteiro ficar boquiaberto e entrou no elevador. Esperava que não fosse atrapalhar Sango e Miroku, causando alguma situação constrangedora.

Quando saiu do elevador, a porta já estava aberta. Ela não havia visto ninguém na sua frente, até perceber que quase fora jogada no chão por uma Sango gritante e alegre. Riu com aquilo. Era tão bom receber o carinho da amiga, mesmo depois de tê-la afastado antes de fugir. Abraçou-a de volta e ficaram ali, abraçadas. No dia anterior Sango não chegara a realmente aproveitar a presença de Kagome, pois a morena estava cansada e havia se retirado para dormir, mas naquele momento... Ela não perderia um segundo!

"Ká... Estou muito feliz que você veio!" Sango disse quando finalmente elas se afastaram, recebendo um sorriso da amiga.

"Estou muito feliz que você ainda gosta de mim." Ela respondeu rindo, recebendo um olhar mortífero como retaliação de tal blasfêmia.

"Tolinha, quando é que eu parei de gostar de você? Tsc." Comentou, fazendo um gesto de simplicidade com a mão, enquanto apertava a mão da morena que estava segura com a sua outra mão. Ela não queria pensar na possibilidade de aquilo tudo ser mentira, de que a amiga não tinha voltado. Sango queria sempre ter certeza que a morena estava ali, na sua frente, encarando-a com o mesmo carinho de antes.

"Espero que vocês tenham planos futuros, Sango." Kagome disse ficando séria de repente, fazendo que a amiga arqueasse as sobrancelhas em confusão. Lá estava a capacidade da morena de mudar de assunto de forma aleatória... O pior é que, até mesmo disso ela tinha sentido saudades. "Eu sei que nos dias atuais, namorados já estão pulando a cerca, mas casar ainda é uma prioridade!" Ela completou, fazendo com que Sango começasse a rir. Ah, sim, ela tinha sentido saudades de Kagome.

Finalmente sua felicidade estava completa.

"Sua desinformada." Ela respondeu, puxando-a para dentro do apartamento. "E mesmo se ainda fossemos namorados, olha só quem ta falando!" Ela completou enquanto fazia com que Kagome se sentasse no sofá, rindo divertida.

"Ora Sango, por isso mesmo que eu digo. Não pule a cerca se não tiver planos futuros." Ela rebateu e depois de alguns instantes encarou Sango completamente chocada. "Se ainda fossem namorados? Vocês CASARAM?"

"Não, não, claro que não." Sango respondeu rapidamente, recebendo um suspiro aliviado da outra. "Estamos noivos." A morena olhou totalmente chocada para a amiga, mal acreditando no que ouvia.

"Isso porque, antes de eu ir embora, você só estavam dando uma voltinha..."

"Quatro anos é muito tempo." Sango respondeu simples, sorrindo abertamente.

"Não é não."

"Não sei do que está reclamando, pelo menos ainda estou noiva. A Rin já casou." Ela contou com simplicidade, ignorando completamente o olhar repleto de choque e horror da amiga. Kagome não podia acreditar que tinha perdido algo assim!

"Ela e o Sesshoumaru...?"

"Sim, alguns meses atrás." Sango respondeu começando a ficar divertida. "Só você solteira meu bem."

"E eu com esperanças que voltaríamos a ir a boates e beberíamos até cairmos de bêbadas." Kagome respondeu meneando a cabeça negativamente, tentando não pensar na quantidade de coisas que ela havia perdido enquanto estava longe de todo mundo.

"Nós nunca fizemos isso." Sango comentou, arqueando a sobrancelha.

"Nada como uma primeira vez." A morena respondeu, simulando estar ofendida.

"E a sua carreira, onde se encaixaria nisso?" Sango perguntou rindo.

"Nada como um escândalo de vez em quando." Ela respondeu com um gesto de simplicidade.

"Meu deus, você voltou pior do que foi. Quem é você e o que fizeram com Kagome Higurashi?" Sango perguntou colocando a mão na testa da amiga, fingindo medir a temperatura. As duas riram.

"Caramba, as coisas aqui mudaram." A morena comentou, emanando um ar mais sério. Olhou por toda a sala do apartamento de Sango, vendo que a decoração estava mudada. Parecia uma mistura dela e de Miroku. "Qual é a data do casamento?" Perguntou enquanto observava a decoração.

"Ainda não decidimos. Talvez daqui um mês, talvez dois." Sango disse com audível felicidade. "Eu nunca pensei que Miroku conseguiria me fazer confiar nele a esse ponto."

"Nem eu..."

"Kagome!" Sango a repreendeu, completamente divertida e se sentindo nostálgica. "Nesse momento você deveria falar que sempre acreditou que ele mudaria."

"Que eu me lembre, sempre fomos muito sinceras uma com a outra." A morena comentou, encarando Sango. "Lembro-me perfeitamente: como você está horrível!"

"Ah, isso." Sango riu. "Mas você estava mesmo."

"É isso que eu disse." Kagome começou a se levantar. "Tenho que ir até Rin, dar-lhe algumas palmadinhas. Vê se pode..." Meneou a cabeça negativamente. "Casou."

"Depois temos que marcar para sair. Sabe como é, ir até a boate e beber até cair." Sango deu a ideia com um sorriso de orelha a orelha;

"Exatamente!" A morena concordou, feliz, e começou a ir à direção da porta. Pararam de frente para o elevador e se encararam com carinho.

"Você está diferente." Sango pegou uma mecha do cabelo da amiga entre os dedos, absorta nas memórias. O ato era somente simbólico, pois as mudanças para ela estavam mais profundas do que somente o cabelo mais longo.

"Diferente... pro lado ruim?" Kagome perguntou, divertida, tentando descontrair o momento. Ela sabia que voltara melhor do que fora. Mesmo passando tudo o que passou por lá - o que eles não sabiam - ficar quatro anos longe daquela lengalenga com Inuyasha lhe fez bem.

"Não, você voltou muito melhor." Sango piscou, retirando-se de seus pensamentos, e respondeu alegre. "Eu prefiro assim." Completou, dando um abraço em Kagome, que retribuiu. Mesmo que a visita tivesse sido curta, aquele momento havia feito com que os quatro anos nunca tivessem existido entre elas. Aqueles pequenos momentos, que serviram para que as duas finalmente se reaproximassem e recriassem a ligação entre elas, haviam feito com que o afastamento nunca tivesse acontecido. Sango sentiu algumas lágrimas de felicidade vir até seus olhos, mas forçou-se a não chorar. Kagome estava de volta. Elas estavam juntas novamente.

O trio estava reunido.

"Obrigada, Sango." Kagome disse e, dando um alegre tchauzinho, ela entrou no elevador. Suspirou, olhando com carinho para amiga enquanto as portas metálicas se fechavam. Viu os números diminuindo até chegar ao térreo e, colocando os óculos escuros, ela saiu do elevador e correu rapidamente para fora do prédio até o carro depois de ver quase que um time de futebol inteiro naquele hall.

Acho que a presença de Gome Matsuyama não seria um segredo só para o porteiro.

oOo

Inuyasha encarou, com os óculos escuros sobre os olhos, o irmão na porta. Oh, como ele queria ir embora e dormir!

"Você está deplorável." Sesshoumaru comentou frio, arqueando as sobrancelhas. Inuyasha usava um sweater de cashmere preto - no estilo V-Neck – que parecia um pouco amassado e uma calça jeans clara e meio desbotada da Ellus que caía um pouco pela falta de um cinto, deixando à mostra a roupa íntima da Diesel.

Resumindo: mais desleixado do que nunca.

"Obrigado pela parte que me toca." Ele respondeu, dando de ombros, não se importando nenhum um pouco com aquilo no momento. Viu o irmão sair da porta do apartamento e entrou, sentando-se no sofá de couro preto da sala de visitas.

"Você andou bebendo?" Sesshoumaru perguntou quando se sentou de frente para Inuyasha, no outro sofá. O hanyou virou os olhos, sabendo que o irmão mais velho não o veria fazendo isso por causa dos óculos escuros, mas sabendo que ele sabia que ele o faria.

Os dois se conheciam muito bem. Talvez somente Sesshoumaru compreendesse o lado do meio-irmão por todos aqueles anos em que Kagome esteve desaparecida, o que fazia Inuyasha querer se matar. Depender da compreensão do mais velho? Tsc, era realmente preferível morrer.

"Não é da sua conta...?" Respondeu irritado. O yokai a sua frente nem se deu ao trabalho de suspirar, dar de ombros, ou qualquer outro ato que demonstrasse algum sentimento de exasperação com a teimosia do mais novo.

"De qualquer forma, espero que esteja preparando ótimas propostas para nosso pai." Ele disse indiferente enquanto Inuyasha suspirava cansado. A fama no trabalho vinha das ótimas propostas e ótimos contratos que ele criava para o pai propor para as outras empresas. Tais propostas eram simplesmente impossíveis de dizer 'não', o que agradava profundamente os interesses da empresa da família.

"Estou trabalhando nisso." Respondeu sem vontade em pensar sobre aquilo naquele momento. Por que ele formara em direito?

Ouviram o barulho do interfone e logo viram uma Rin saltitante passando pela sala indo a direção de onde estaria a cozinha para atendê-lo. Sesshoumaru mal conteve um sorrisinho quando viu a esposa e Inuyasha, bem, Inuyasha ainda não havia se acostumado em ver o irmão sorrir.

Percebe-se que eles eram extremamente felizes um com o outro.

"Você não pode demorar muito, Bankotsu já está tendo várias reuniões com vários grandes empresários. Se nosso pai não se adiantar, ele pode se associar a outro." O yokai repreendeu Inuyasha, depois de voltar sua atenção para ele. Ouviram o grito de felicidade de Rin e quando ela passou correndo até a porta, ambos olharam para ela com as sobrancelhas arqueadas. Bastou somente que ela abrisse a porta e que eles vissem quem estava entrando, para entenderem a felicidade da pequena...

E para Inuyasha entrar em choque.

Kagome saiu do elevador ao ver a porta se abrir e, sorrindo, foi até Rin, que a esperava alegremente. A amiga usava um vestidinho amarelo simples Versace, mas que a deixava uma graçinha. A morena quase não conseguia acreditar que ela havia se casado. Então, ela abraçou carinhosamente e fortemente a pequena amiga. Sentira muita saudade quando esteve fora.

"Kagoome!" Rin deu um gritinho abafado. Ela riu. "Que bom que veio me visitar! Eu não fui lá porque quis deixar você descansando." Completou assim que se distanciaram um pouco, encarando-se. Os olhos azuis brilhavam alegres. Ah, como sentira saudades daquela baixinha!

"Sem problemas, eu realmente precisava dormir." Ela respondeu pondo língua para a amiga, que riu e a abraçou novamente. As duas ficaram assim por mais alguns instantes, pensando as mesmas coisas que Sango havia pensado anteriormente.

O trio finalmente estava reunido.

"Vem, vou te mostrar o apartamento." Rin disse animada quando se afastaram, mas quando ela se virou para os sofás, que ela finalmente percebeu Inuyasha, ela se sentiu congelar onde estava.

Oh-hou.

Kagome sentiu Rin ficar tensa e olhou na direção dos sofás, tentando descobrir o motivo da mudança. A primeira coisa que viu foi Sesshoumaru a encarando, o que não explicava nada, e então o que viu logo depois fez com que seu coração pulasse dentro do peito e batesse disparado. Usando óculos escuros, com os cabelos prateados desleixadamente despenteados, daquele jeito que simplesmente o deixava muito gostoso, estava Inuyasha a lhe encarar. Então seus olhos desceram pelo corpo do hanyou, percebendo o sweater, a calça um pouco larga... Ah, porque ele continuava tão bonito daquele jeito? Era até mesmo injusto! Apesar de que ela percebera que as roupas estavam um pouco amassadas e, pelo o que ela se lembrava de Inuyasha, ele não usava óculos escuros. Então arqueou a sobrancelha. Ele havia bebido, só podia ser por isso.

"Hmm, oi Inuyasha." Rin o cumprimentou com medo da reação de Kagome. A reação de Inuyasha era visivelmente de choque, ele nem mesmo mexeu a cabeça para mostrar que a havia escutado. A sala permaneceu em silêncio até que Rin se viu obrigada a tirar a morena dali o mais rápido o possível. "Vem, K-chan!" Saiu a puxando fortemente, fazendo Kagome quase destroncar o pescoço tamanho o solavanco.

Inuyasha seguiu com o olhar as duas sumindo pelo corredor que dava para o resto dos cômodos e, então, voltou a encarar Sesshoumaru. O yokai tentava segurar um riso depois de ver toda aquela reação do mais novo.

Com certeza a situação deveria ter sido muito ridícula, para que Sesshoumaru quisesse rir.

Rin puxava a amiga para todos os cantos do apartamento e Kagome ria em vê-la tão animada daquele jeito. Não se zangava com aquele jeitinho meigo da amiga e simplesmente não conseguia parar de pensar que a pequena tinha relações com Sesshoumaru, um homem relativamente másculo e de pose fria e altiva.

Era terrivelmente contrastante.

"Bem, esse é o nosso quarto." Rin disse, por fim, entrando em um quarto enorme com uma king-size no meio do quarto e uma penteadeira escorada em uma das paredes - com um enorme espelho, que Kagome imaginou a amiga a pentear os cabelos. Viu enormes portas se estenderem por uma parede inteira e entendeu aquilo como o closet. Virou-se para Rin, totalmente maravilhada com o quarto. A baixinha sempre teve uma boa vida, mas aquilo tudo – perceptivelmente – era presente de Sesshoumaru.

"Agora eu entendo porque você se casou com Sesshoumaru, sua pequena interesseira..." Kagome comentou, fazendo-a rir.

"Oh, é claro." Rin respondeu sarcástica. "A primeira característica que eu me preocupei era se ele era rico!" As duas riram com aquilo, quando se lembravam perfeitamente que aquilo era a última coisa que a pequena pensava na época em que os dois começaram a sair.

"Bom, de qualquer forma, se você está vivendo tão bem assim não há motivos para que eu mate o Sesshoumaru por tirar sua pureza." A morena riu do próprio comentário.

"Você é muito inocente." Rin meneou a cabeça negativamente.

"Quer dizer que você não tinha pureza?" Kagome arqueou as sobrancelhas.

"Prefiro não comentar." Rin respondeu divertida.

"Bem, se é assim, a Sango deu a idéia de irmos até a boate um dia desses, bebermos até cair... Coisa e tal..." Kagome sorriu divertida.

Pelo o que ela se lembrava, quem tocara no assunto fora ela. Mas, Sango sobreviveria com aquela pequena mentirinha.

"Por mim tudo bem, é só marcar!" Ela respondeu sorrindo animadamente. Era tão bom ter a morena de volta.

"E, Rin, como você pôde?" Kagome fez uma cara de sofrimento, fazendo com que a pequena se alarmasse. Lá estava a morena mudando de assunto de forma aleatória novamente. "Como você pôde se casar sem eu estar aqui?"

"Ah, isso."

"É, isso."

"Bem, sabe como é... depois daquele 'foi o melhor amasso de toda a minha curta vida de vinte e um anos', a gente meio que começou a ficar, depois a namorar, aí a gente noivou e aí você imagina o resto."

"Tudo em quatro anos." Kagome adicionou.

"É muito tempo."

"Não é não." Kagome discordou. "Por que você e a Sango tem um sério distúrbio de 'sem-senso nenhum sobre o tempo'?" Ela perguntou indignada. Rin riu.

"Bem, para nós pareceu muito tempo." Respondeu nostálgica, fazendo com que Kagome ficasse quieta por um instante. Seus olhos azuis-acinzentados se abaixaram pro chão e um pensamento veio até a mente da morena. Para mim pareceu uma eternidade.

Inuyasha levantou-se lentamente. Ele não podia ficar ali por mais nenhum instante, encarando Sesshoumaru que queria rir de sua cara, sentindo uma terrível dor de cabeça e ainda com Kagome no mesmo local.

"Bem, já me avisou que tenho que me apressar e eu já te falei que estou trabalhando nisso... Acho que já acabamos." Ele falou enquanto via o irmão se levantar também.

"Sabe, quando eu digo para se apressar, eu realmente quero que faça rápido." O yokai disse frio, como sempre.

Percebe-se a velocidade que ele está pedindo por aqui?

"Não torra, Sesshoumaru! Se eu não fizer com cuidado e tranqüilidade não vai ficar bom." Inuyasha respondeu irritado e com as mãos começou a massagear as têmporas. Oh, aquela com certeza entraria para o ranking das piores ressacas de sua vida e, para piorar, logo ouviu Kagome e Rin se aproximando.

"Dessa vez eu só vim rapidinho mesmo. Depois a gente marca a saída." Kagome dizia animada. Só naquele momento que Inuyasha realmente a notara, que ele realmente a observara. Fora só naquele momento que ele percebera como o corpo feminino havia mudado, amadurecido. Fora só naquele momento que ele sentiu o coração disparar em simplesmente vê-la bonita daquele jeito. Vê-la naquela calça, naquela blusa. Observar a 'simplicidade' que ela estava vestida, observar como aparentemente ela tentava se esconder com o rabo-de-cavalo alto e os óculos escuros pendurados na blusa. Fora só naquele momento que ele percebeu que ela continuava Kagome, que por mais que ela tivesse criado outra vida como Gome Matsuyama, que por mais que ela tivesse uma filha, ela continuava a Kagome que sempre fora. Mas, mesmo depois de ter notado-a daquela maneira, a parte da filha ainda lhe dava nojo. Ainda lhe machucava.

Ela havia criado outra vida como Gome Matsuyama, ela havia tido uma filha nessa vida, possivelmente com um yokai americano.

A vida que ele queria que ela tivesse criado com ele, ela já havia criado.

Oh, dane-se a ressaca. Chegando em casa ele tinha certeza que iria beber mais.

"Tudo bem, é só me ligar." Rin respondeu alegre. Inuyasha, totalmente conformado, foi até a porta a abrindo e a segurando aberta para a morena passar. Ela ficou tensa vendo aquilo e se arrependeu profundamente por estar indo embora naquele momento. "Tchau, tchau Ká." Rin completou alegre e, então, Kagome teve que passar pela porta e logo se viu seguida pelo hanyou. Para seu desespero – e para a aceleração drástica de seu coração – se viu sozinha com ele naquele pequeno elevador. Ela nunca havia notado o quão minúsculo o elevador era até aquele momento.

Inuyasha tentou parecer não estar afetado estando ali, sozinho com ela, mas ele simplesmente não conseguia. Teve que se apoiar naquele corrimão e foi observando os números diminuindo gradativamente e lentamente. Quando ainda estavam na metade do quarto andar, o elevador parou. As respirações pararam e a luz do elevador se apagou.

"Ah não..." Kagome sussurrou, descrente. Aquilo só acontecia com ela.

Claro, não seria divertido se fosse com outra pessoa.

"Deve ser só um pique." Inuyasha comentou depois de escutar o sussurro, o que tinha magoado-o ainda mais.

"É." Kagome respondeu minimamente, colocando a mão na região do coração, tentando se acalmar. O porteiro logo resolveria o problema. As pernas começaram a tremer e ela sabia que não era de medo da situação do elevador, ela sabia que era por estar no elevador somente com Inuyasha. Caramba, ela havia voltado no dia anterior e já tinha que passar por aquilo? O hanyou suspirou. Ele iria beber muito quando chegasse em casa.

Ficaram em silencio por alguns minutos, percebendo que não havia nenhum barulho que demonstrasse alguma atitude para salva-los daquela situação. Parecia até que ninguém havia notado.

"Isso não pode estar acontecendo..." Kagome disse indignada enquanto escorregava lentamente até o chão. Somente depois daqueles minutos que a luz de emergência acendeu, dando uma visão clara para Inuyasha de que Kagome realmente parecia odiá-lo.

Pelo menos era o que ele achava.

"Você me odeia." Ele comentou normalmente, enquanto tirava os óculos escuros e os prendia no sweater. Kagome o encarou um pouco surpresa pela frase.

Bem, não era uma coisa que se falasse estando preso no elevador com outra pessoa.

"Fazia muito tempo que a gente não se via, não é?" Ela disse tentando fugir de qualquer resposta, apesar de que ele havia praticamente afirmado. Então, ela percebeu o estado que ele estava. Os olhos inchados, a cara amassada... É, ele estava com ressaca. "Você andou bebendo?"

"Por que não nos deu nenhuma notícia de onde estava?" Inuyasha ignorou a pergunta. Era tão obvio assim? Ela se silenciou e virou o rosto para o outro lado. Não queria responder aquela pergunta, tinha esperanças que ele ainda demoraria muito para fazê-la. Naquele momento ela se odiava em ver que simplesmente não o estava afastando de si.

Ela se odiava por não conseguir desistir do amor que sentia pelo hanyou.

"Você não deveria beber, sabia?"

"Teria sido muito simpático da sua parte ter dado algum sinal de vida." Inuyasha insistiu.

"Quando tem ressaca a cabeça dói, os olhos não agüentam a luz... Não há coisas boas em beber."

Inuyasha suspirou, desistindo. Kagome conteve o suspiro de alívio em perceber que ele desistira. E então, mais silêncio se arrastou pelo elevador.

E nada de alguma mudança.

"Onde está o alarme...?" Inuyasha sussurrou indo até o painel. Apertou o pequeno botão, mas não escutou o barulhinho que escutaria ao apertá-lo. Sentiu o clima ficar ainda mais tenso. "Estamos totalmente presos aqui."

Nada como ficar preso no elevador com o cara que é pai da sua filha, o qual ela simplesmente tinha os planos de não se envolver nem mesmo amigavelmente. Além do fato de que ele não sabe da paternidade.

O silencio permaneceu e Inuyasha simplesmente desistiu de esperar em pé. Escorregou lentamente até o chão do elevador, da mesma forma que Kagome fizera, e escorou a cabeça na parede do elevador, totalmente cansado. Tudo parecia estar uma confusão depois que ela aparecera na noite passada. Ele fora embora sabendo que ela tinha uma filha, a filha que ele queria que tivesse sido dele. Chegando em casa ele bebera todo o estoque de uísque que tinha, que nem era muito. Acordara com uma das piores ressacas de sua vida e, ainda por cima, tivera que ir até a casa de Sesshoumaru. E agora estava preso no elevador com Kagome. Aquele dia com certeza não parecia um dia normal.

E isso tudo só começou quando ela voltara.

Ele não tinha idéia que a volta de Kagome fosse bagunçar tudo dessa maneira.

Olhou de relance para a morena ao seu lado. Ela estava bonita como nunca, mas as feições pareciam tão mais maduras. Ele se perguntava como havia sido os quatro anos para ela, já que para ele haviam sido horríveis.

As memórias de dias solitários e deprimentes eram uma maioria em sua mente.

"Como você virou cantora?" Ele perguntou um pouco curioso. Por mais que se sentisse magoado e deixado de lado por ela já ter aquela filha, por mais que se sentisse magoado por ter sido largado para trás por quatro anos, aquele sentimento que ele descobrira quando ela fora embora simplesmente falava mais alto. Kagome o encarou contendo a surpresa. Era simplesmente muito estranho estar de volta à Tóquio, de volta ao próprio apartamento, ver os pais, ver as amigas e principalmente estar conversando tão... intimamente com Inuyasha.

Como se fossem amigos.

Oh, ela não tinha idéia de como pensar naquilo poderia doer tanto. Ela pensara que aqueles quatro anos serviram como uma terapia Anti-Inuyasha em que ela deixara de sentir qualquer coisa por ele ou coisa parecida; mas só de pensar naquela situação, de ter uma simples relação de amizade com o hanyou, lhe partia o coração.

"Necessidade." Ela respondeu depois de alguns instantes. Inuyasha arqueou as sobrancelhas.

"Como assim 'necessidade'?"

"Trabalhos 'normais' não dão muita ajuda para continuar sobrevivendo." Ela comentou com um tom que indicava encerrar o assunto. Inuyasha não entendeu o que ela quis dizer com aquilo, mas ela se arrepiou ao se lembrar do que passara por lá.

"E por que Gome Matsuyama?" Ele perguntou tentando direcionar o assunto para outro lado.

"Gome por ser o final do meu nome, Kagome." Ela disse com um gesto de simplicidade, como se fosse a coisa mais obvia do mundo. Era impossível querer que não conversassem estando presos em um elevador. Era impossível simplesmente se convencer que ela não queria conversar, então ela simplesmente responderia. "Matsuyama por ser um dos sobrenomes da nossa família." Ela completou fazendo Inuyasha arregalar os olhos.

"Você nunca me disse nada sobre isso." Aquilo realmente era estranho, sendo que os dois eram amigos de infância.

"As últimas gerações só usavam o Higurashi, então não tinha motivos para te contar." Ela respondeu o encarando, omitindo o fato de ter criado novos documentos quando chegou aos Estados Unidos, justamente para não ser encontrada. Vendo aqueles olhos âmbares parecendo indignados ela arqueou as sobrancelhas. "O que foi?"

"Não é nada." Ele respondeu amargurado. Se os pais de Kagome o tivessem ajudado, ele a teria encontrado há tempos. Ele já teria ido até ela e feito com que ela voltasse. Tudo poderia ser diferente, a filha poderia ser dele.

Kagome poderia ser dele.

Bobinho, se ele soubesse que na verdade ambas eram dele.

Kagome virou o rosto novamente e o clima que se instalou ali era um clima pesado, tenso, quase palpável. Ela tinha decidido que não daria nenhuma chance para Inuyasha no dia anterior, pois ela não queria sofrer mais. Mas era simplesmente impossível afasta-lo da maneira em que ela havia decidido que faria, era simplesmente impossível evitá-lo ou fingir que ele não existia. Estar ali, presa naquele elevador e ter trocado somente algumas palavras com o hanyou, mostrou para ela que por mais que ela tenha mudado muito durante os quatro anos, por mais que tenha ficado longe de toda a lengalenga com Inuyasha, aquilo tudo não havia ajudado a diminuir o sentimento que ela nutria por ele. Ela quase suspirava exasperada com aquela confirmação de que ela não conseguia deixar aquele amor para trás.

Inuyasha fechou os olhos, recolocando os óculos escuros sobre eles. A dor de cabeça estava ficando ainda mais forte por causa do estresse que ele estava passando naquele momento e até mesmo aquela fraca luz de emergência já piorava a situação. Mas ele não estava nem aí, quando chegasse em casa ele acabaria com o estoque de champagne.

Passados mais alguns instantes sentiram um pequeno tremor e se levantaram.

"Ká! Você está bem?" Ouviram um grito feminino, parecendo até mesmo um pouco divertido. Os olhos azuis acinzentados se estreitaram.

"Estou sim, Rin!" Respondeu já imaginando o que acontecera. "Você poderia pedir gentilmente para que o porteiro resolvesse esse problema?" Gritou chegando bem no meio do elevador e olhando para cima, onde ela via a tampa. Por mais que estivesse um pouco longe do andar de Rin, ela teve certeza que escutou uma risadinha.

"Tudo bem! Vou pedir para ele andar mais rápido!" Então, depois disso, somente silêncio novamente. Inuyasha permanecia com uma careta terrível de dor e tampando as pequenas orelhinhas e quando Kagome o encarou e viu tudo aquilo, ela até sentiu dó. Se esquecera completamente da ressaca do hanyou. "Por isso que eu digo que você deve parar de beber."

A luz voltou ao elevador e logo os números voltaram a diminuir à medida que o elevador voltava a descer. Ela suspirou aliviada. Estar tão perto e sentir novamente aquele perfume... Realmente estava mexendo com suas idéias. Inuyasha fez uma careta terrível quando a luz do sol da manhã, que fazia reflexo no piso do térreo do prédio, bateu diretamente nos seus óculos. Parecia que a luz queria, de qualquer forma, chegar aos seus olhos. O mundo parecia querer piorar a situação em que sua cabeça se encontrava.

Kagome saiu do elevador rapidamente, não acreditando que estava livre daquele cubículo. Viu um sorriso amarelo vindo do porteiro e percebeu que Rin não estava ali.

"A Senhorita Taisho pediu para eu lhe falasse para voltar sempre que quisesse." Ele disse praticamente se desculpando. Discretamente, claro. Kagome notou que ele parecia segurar um bloquinho branco e uma caneta em mãos. Ela pensava que ninguém iria reconhecê-la em Tóquio por sua fama ainda não ter chegado às mesmas proporções que chegara na América e na Europa, mas a cada passo que dava ela percebia como estava errada.

"Diga para ela que eu não irei visitá-la tão cedo." Ela respondeu um pouco irritada. Foi caminhando calmamente até a porta do prédio, querendo sair dali o mais rápido o possível. Quando olhou para trás ao se lembrar de Inuyasha, para dar um educado tchauzinho, ela simplesmente ficou paralisada. Ela o havia observado somente quando estava sentado, mas com aquela luz batendo nele, e em pé, ela percebeu que não estava errada em pensar que ele estava lindo. O sweater havia deixado-o muito gostoso, mesmo estando amassado, com aquela gola em V deixando que ela tivesse certa noção que o peitoral magnífico de Inuyasha continuava o mesmo. A calça caindo e deixando um pouco a mostra a roupa íntima Diesel simplesmente lhe deixou concluir que o estilo dele continuava o mesmo. O tênis Prada preto e branco de couro maleável ainda fez com que ela se lembrasse daquela noite. Era o mesmo tênis que ele usara para sair e ir até a boate. Era o mesmo tênis da noite em que ele tirara sua virgindade, que ele lhe concedera a chance de ser mãe. Por que ele tinha que usar aquele tênis? Por que ela tinha que se lembrar da roupa que ele usara naquela noite?

Meu deus, a quem ela queria enganar?

Ela decidir que não daria chance alguma a ele não adiantava nada, já que ela nunca havia se esquecido dele pra princípio de conversa. Amy nunca deixara que ela se esquecesse de Inuyasha por ser justamente filha dele.

Inuyasha ajeitava os óculos escuros tentando não deixar que a luz passasse por qualquer cantinho para ir até seus olhos. Então, ele olhou para a porta do prédio. Ele realmente havia pensado que a tinha notado verdadeiramente? A cada momento percebia que ele nunca teria uma visão definitiva da garota, sempre a veria melhor do que antes, sempre veria a mulher que ele amava como um anjo assim como via agora. A luz batendo atrás dela, as curvas do corpo evidenciadas, a beleza que era simplesmente magnífica. Inuyasha percebeu que ela o encarava de volta, só não sabia se era pelo estado lastimável em que se encontrava ou somente por estar encarando mesmo. Quando Kagome percebeu que ele olhava para si, ela piscou e se virou, sem se despedir ou qualquer outra coisa.

Para trás, ficou um Inuyasha com o coração partido.

Vendo-a ir embora novamente.

Pelo menos dessa vez ele sabia que ela não iria para longe e, mesmo que se sentisse magoado com ela por tê-lo largado ali, por ter tido a filha que ele queria com outro, ele ainda tinha a esperança de voltar a ter pelo menos algum tipo de relação com a morena. Qualquer tipo de relação, que não fosse aquele contato frio entre eles, que não fosse sentir que ela tentava afastá-lo.

Mal ele sabia que a filha era dele e que ela já não mais tinha tanta certeza se daria a chance ou não para uma aproximação, porque, apesar de tudo, Kagome continuava sendo Kagome. A menina que sempre amara Inuyasha, que tivera seu primeiro beijo com ele e sua primeira vez também. E agora, a mulher que era mãe de uma filha dele, a mulher que sofrera de tudo para manter as duas vivas em um país estrangeiro, sem dinheiro algum, sem amiga alguma... Completamente sozinha.

Kagome continuava sendo dedicada, continuava sendo lutadora... Continuava o amando com todas as suas forças, por mais que não gostasse de admitir aquilo nem para si mesma.

oOo

Inuyasha saiu do carro vagarosamente. Ele não sabia o que iria comer, sendo que não se lembrava de ter comida no apartamento. Mas, também não queria ir até um restaurante totalmente iluminado... Teria que tirar os óculos e isso afetaria drasticamente sua sanidade mental. Ele simplesmente ia morrer de dor de cabeça e iria desmaiar.

É, realmente um destino terrível.

Então, fechando a porta do carro, virou-se para entrar no prédio. Logo depois do almoço sairia para qualquer lugar, então não tinha problema ele deixar o carro fora do estacionamento. Para sua surpresa e para completar seu dia que ficava ainda mais estranho a cada momento, ele sentiu um cheiro conhecido.

"Olha só, se não é o Inuyasha Taisho!" Ouviu uma voz feminina dizes as suas costas e, quando se virou, que viu cabelos ruivos e brilhantes presos em uma trança-raiz e olhos verdes-esmeralda lhe encarando diretamente. Ele percebeu que aquilo não poderia acontecer em momento pior. A cabeça dele já doía e ele já estava muito confuso por vinte e quatro horas.

"Olá Ayame." Ele cumprimentou a menina com quem ele perdera a virgindade com quatorze anos. A menina com quem Kagome mais brigara em toda a amizade dos dois.

A única menina que ele soube que ela mais odiou no mundo inteiro.

RÁ, as duas voltaram para Tókio.

"Oh, que dor de cabeça!"


No próximo capítulo...

'Você volta tendo certeza do que quer,

você volta sabendo o que fazer.

E então vem uma droga de uma garota irritante,

te faz sentir ciúmes e simplesmente esquecer tudo.'

Kagome Higurashi.