CAPÍTULO UM
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Ginevra Weasley queria dar um beijo no carteiro atrapalhado que entregava diariamente a correspondência no antigo edifício de um bairro de Seattle, onde ela morava. Ele havia confundido pacotes mais uma vez.
Entre as cartas endereçadas a ela, do apartamento 325, havia um envelope pardo para H. Potter, do apartamento 235. Agora, Gina tinha uma nova desculpa para ver o gatão do Harry Potter. Abraçou a encomenda, como uma adolescente apaixonada.
Bem, na verdade, era uma professora apaixonada. O vizinho do andar de baixo a fazia estremecer. Devia ser aquela combinação infalível do sorriso irresistível com o corpo escultural e os olhos verdes brilhantes e langorosos que a deixavam sem fôlego.
Havia muitos meses que o carteiro confundia os números de seus apartamentos e entregava-lhe correspondência de Harry. Em todas às vezes, percebera que as cartas, sem exceção, eram endereçadas apenas a ele. Também não notou qualquer sinal de mulher nas ocasiões em que tinha ido ao apartamento dele entregar as cartas. Parecia lógico deduzir que o rapaz era solteiro.
Da mesma forma que ela.
Só de pensar em revê-lo, Gina sentiu um calorão passar pelo corpo. O destino, personificado na figura do carteiro, os havia unido repetidas vezes e a atração física fora imediata e mútua, pensou. Nas últimas vezes, Harry a recebera na porta cheio de entusiasmo e com um olhar tão sedutor e penetrante que dava a impressão de que os dois tinham acabado de fazer amor. Ah, o poder que aqueles olhos exerciam sobre uma mulher!
Então, por que, apesar dos olhares provocadores que trocavam nas rápidas e esporádicas visitas, Harry nunca tentava algo mais ousado? Ou fazia alguma tentativa para conhecê-la melhor?
Gina mordeu os lábios, ao passar direto pelo elevador e subir as escadas até o apartamento dele. Será que ele era tímido ou estava inseguro quanto aos sentimentos dela ou suspeitava que ela não fosse solteira?
Talvez fosse o momento de tomar a iniciativa e acabar com qualquer dúvida que pudesse existir. Tinha que deixar claro que estava completamente desimpedida e caidinha por ele.
A única forma de tirar aquela história a limpo seria convidando Harry para sair. Nada muito íntimo, um cineminha e depois uma pizza ou algo do gênero. Apenas um encontro sem compromisso para que se conhecessem melhor.
Ela iria até a casa dele como quem não quer nada, só para entregar o envelope extraviado. Aproveitaria e diria: "Então, estou indo comer alguma coisa na rua, quer me fazer companhia?"
Era isso mesmo que ira fazer! Algo bem casual. Se Harry recusasse o convite, pelo menos, ela saberia onde estava pisando e acabaria de vez com as fantasias adolescentes que a consumiam fazia tempo. Bem, as fantasias, na verdade, não tinham nada de adolescentes ou inocentes.
Suspirou fundo e decidiu levar seu plano adiante. Responderia à altura as mensagens eróticas que ele lhe enviara com os olhos até agora. Iria convidá-lo para sair.
E seria naquele dia à noite.
Uma olhada de relance no espelho a lembrou de que dar aulas para um bando de alunos do ensino médio não era bem uma atividade relaxante. Não poderia ir a lugar nenhum sem antes tomar uma chuveirada.
Depois de se secar, escovou os dentes, penteou os cabelos e aplicou uma leve maquiagem no rosto. Vestiu um jeans, mas mudou de ideia. Estava cansada de só usar jeans.
Uma saia sensual e elegante saiu de dentro do armário direto para os seus braços. Adicionou uma blusa tomara-que-caia lilás ao conjunto, brincos descontraídos, sandálias rasteiras e pronto. Não queria que ele pensasse que tinha se arrumado para a ocasião. Não queria que percebesse o óbvio.
Apanhou o envelope e já estava de saída quando viu uma mancha na saia. Voltou ao banheiro. Deixou o envelope na beirada da pia e... droga! Por causa da pressa, o sabonete acabou caindo no chão. Agachada, achou o bendito sabonete e se levantou. E perdeu o ar. Ao subir, deixou o envelope pardo cair na pia, molhando parte do pacote, mas não o suficiente para danificar o conteúdo. Parecia um livro.
Era melhor ir rapidamente ao apartamento de Harry e entregar a encomenda antes que a água encharcasse a parte de dentro. Limparia a saia depois.
Apanhou as chaves, a jaqueta de couro, o embrulho afogado e desceu correndo as escadas para o andar de baixo.
Em um minuto, estava em frente à porta dele, ofegante. Respirou fundo, memorizou o convite que iria fazer e bateu na porta.
Silêncio.
Não lhe havia passado pela cabeça que Harry pudesse não estar em casa. Sabia pelas conversas breves que era jornalista. Já havia inclusive lido uma reportagem dele no jornal local. Foi apenas cogitar a possibilidade de que ele não estava para ouvir o barulho do trinco da porta se abrindo.
E então surgiu Harry Potter, com seu olhar erótico e irresistível, como sempre. Ele era, sem dúvida, o homem mais sexy que já havia visto. Não importava quantas vezes o visse, aquela expressão facial sempre a deixava com as pernas bambas. E era o que acontecia naquele instante. O coração estava disparado, bombeando sangue para todas as zonas erógenas, possíveis e imagináveis do corpo de Ginevra.
Não era apenas o olhar magnético dele, insinuando intimidades que nunca haviam compartilhado, mas que poderiam, facilmente ter. Também não era só a covinha no queixo ou o cabelo preto despenteado que a faziam se lembrar das manhãs de sábado preguiçosas. Era, concluiu, a forma tão perfeita como todos aqueles elementos se combinavam.
Os lábios dele formaram um lindo sorriso ao vê-la com o pacote na mão.
— Não vai me dizer que ele errou outra vez? — Não parecia irritado com a constatação, mas sim exultante.
Gina tentou conter o risinho ao entregar o envelope.
— Pois é, outra vez.
Ela sabia que tinha algo a dizer, mas o quê? Tudo o que havia planejado e memorizado se esfumaçara na memória. Apenas o olhava fascinada.
Harry a observou dos pés a cabeça, fazendo-a se sentir nua.
— Nossa, você está demais. Vai a algum lugar especial?
Ah, era isso. Voltou a raciocinar. Ia convidá-lo para sair.
— Não, nada especial. Na verdade...
Não conseguiu ir adiante. O som de papel molhado rasgando-se, seguido de algo caindo no chão, a interrompeu.
O livro havia caído pela extremidade do envelope. A capa dura, virada para cima. O título, com letras garrafais em néon, poderia ser lido a metros de distância: Sexo para idiotas completos — um guia prático.
Não podia acreditar no que viam seus olhos. Suas bochechas logo ficaram vermelhas. Não podia ser verdade. Se Harry encomendava um livro daquele gênero, então... significava que... não!
Voltou a olhar o título tentando se convencer de que, na verdade, o que havia lido tinha sido Guia para trabalhos em madeira —faça você mesmo ou Estratégias financeiras para iniciantes. Porém, as palavras permaneciam inalteradas. Era realmente um guia prático para homens que não tinham ideia do que era sexo. Pelo menos, na prática.
Que decepção! Totalmente constrangida, não sabia se pela situação ou por ele, o fato era que estava vermelha como um pimentão.
Depois de alguns minutos, que mais pareceram horas intermináveis, Gina tomou coragem e o encarou. Ele segurava o envelope, meio sem jeito, as bochechas levemente coradas.
— Me desculpa — falou em seguida. — A culpa foi minha... deixei o envelope cair na pia. Esqueci de avisar... estava lavando a louça e deixei cair... — Ai, era ela que agora falava como uma idiota completa. Pressionou os lábios para que parasse de gaguejar.
— Acho que... — Harry pigarreou encabulado. — Que se disser que encomendei esse livro para um amigo você não vai acreditar, não é?
— Mas a encomenda está no seu nome — respondeu ela, sentindo-se péssima um segundo depois de ter feito a observação.
Ele suspirou.
— É verdade.
O desconforto aumentou ainda mais entre ela, ali, de pé no corredor do edifício e Harry, parado na porta. Ela estava mesmo decepcionada. Apenas não entendia por quê, já que mal o conhecia e muito menos sabia se algum dia rolaria algo entre os dois. Bem, pelo menos, houvera até o momento uma ponta de esperança alimentada por ambos.
Será que tinha deixado a imaginação subir-lhe à cabeça? Em suas fantasias, ele era um garanhão experiente e sensual. Características improváveis para um homem que precisava de um guia sobre sexo.
Queria sair correndo dali e esquecer o incidente.
— Bem — forçou um sorriso. — Está na minha hora. — Cruzou os braços, mordeu os lábios e torceu para que tivesse soado convincente.
— Claro. Obrigado pela... encomenda.
— Imagina! — Deu um aceno tímido e se virou de imediato, rumo às escadas.
Harry ficou olhando a vizinha sexy correndo para as escadas e ficou se perguntando como teria terminado aquele dia se o livro não tivesse caído no chão, no momento mais inoportuno — e com o título virado para cima.
Balançou a cabeça, ainda desnorteado com as peripécias do destino e do serviço dos correios, e fechou a porta. Estudou o livro em sua mão, olhando o título chamativo e demasiadamente óbvio: Sexo para idiotas completos: um guia prático, por Lance Flagstaff.
— Lance, compadre, não podia ter escolhido uma hora melhor?
Ficou olhando para o envelope molhado e destruído. Se tivesse esperado alguns minutos mais para arrebentar... Acabou se lembrando do capítulo oito e revirou os olhos contrariado: "Ejaculação precoce".
Seu instinto masculino lhe dizia que teria tido um programa para a noite se Lance não tivesse resolvido aparecer de repente.
Droga! O último artigo para a revista masculina já estava pronto e, surpreendentemente, não havia nenhum trabalho por fazer. Adoraria poder dar uma saída naquela noite e a única pessoa que tinha em mente como companhia era a vizinha do andar de cima. Ginevra Weasley, apartamento 325 — uma recompensa que cairia como uma luva depois de uma maratona de artigos para os principais veículos da cidade.
Harry grunhiu de frustração ao se dar conta de que o encontro tão esperado com Gina não aconteceria tão cedo. Graças ao Lance.
Havia alguns lugares para ir naquela noite, mas não estava animado. Foi até a cozinha e abriu a geladeira. Apanhou uma cerveja e voltou para o sofá, a fim de folhear seu novo livro.
— Capítulo um. "A primeira impressão". — Harry deu uma risada irônica, lembrando-se da expressão no rosto de Gina ao ler o título do livro. Ele havia causado uma impressão da qual ela se lembraria para sempre. Infelizmente, não era aquilo que gostaria que tivesse acontecido.
Por certo, não queria ser vista com um cara que precisa de um manual para satisfazer uma garota na cama.
Por que não havia contado a verdade?
Eu escrevi o maldito livro.
Deveria ter orgulho de seu primeiro livro. Tudo bem, não era nenhuma obra-prima ou a obra que sempre quis escrever, mas era um começo, ora. Talvez tivesse sido melhor confessar que Lance Flagstaff era, na verdade, Harry Potter. Poderia ter contado como havia sido divertido inventar aquele pseudônimo e quem sabe teria tido a sorte de ver a decepção se esvair do rosto de Gina.
A cerveja não desceu bem tamanha era a frustração que sentia. Tinha dificuldade de partilhar seu pequeno segredo com outras pessoas. E apesar de ter escrito o manual, tinha suas dúvidas quanto à eficácia do livro.
Como a maioria dos homens, acreditava ter descoberto os mistérios do sexo na base da tentativa e do erro, perguntando à parceira suas preferências e sendo honesto quanto às próprias fantasias e predileções.
Até aquele momento dera certo. As mulheres com quem havia estado, geralmente, queriam prolongar o caso com ele.
Educação sexual não era, na opinião de Harry, algo que se aprendia nos livros, mas somente na prática. Harry sentia que havia aprendido um pouco com cada mulher com quem tinha estado. Havia descoberto que o ato sexual era sempre algo único, com uma química diferente, experiências e texturas, cheiros e sensações próprios. Como mostrar tudo isso em algumas centenas de páginas?
Como poderia explicar que não existia nada mais excitante do que pedir a uma mulher que mostrasse como gostava de ser tocada, estimulada ou acariciada? Harry trincou os dentes. Será que era um hipócrita? Fazia anos que escrevia sobre sexo em revistas e jornais, geralmente mostrando o ponto de vista do homem em alguma situação ou assunto. O que pode deixar um homem extremamente excitado, por exemplo. Havia ido a vários seminários e palestras, lido inúmero livros a respeito, entrevistado um grande número de homens e mulheres com vida sexual ativa. Por toda essa bagagem acumulada, Harry ganhara reputação e prestígio na área da sexologia.
Foi então que veio a proposta de escrever um livro. Tinha que admitir que havia ficado lisonjeado com o convite. Além disso, a aventura parecia divertida e a remuneração também era generosa. No entanto, ao ver o trabalho impresso, que mais parecia uma bíblia pela tal o volume de páginas, ficou na dúvida se não estava contribuindo para o desmatamento desnecessário do planeta.
Pode um livro ensinar alguém a ser um amante exemplar?
A pergunta o atormentava desde o início da pesquisa e da elaboração da obra. Estava prestes a jogar o livro longe, quando voltou a visualizar a face ruborizada de Gina.
Espera um momento! Talvez houvesse uma chance de testar o livro! Na sua arrogância, nunca havia pensado na possibilidade de que uma mulher realmente acreditasse que ele precisaria de um manual para aprender técnicas sexuais e que talvez estivesse disposta a ajudar no aprendizado.
Agora, com o orgulho ferido, começava a ver as coisas por um outro ângulo. Ginevra Weasley não escondia a atração que sentia por ele. Toda vez que se encontravam, faíscas saltavam dos olhos de ambos. Ele, por sua vez, andava pensando nela mais do que deveria, levando em conta a agenda apertada e a corrida contra o tempo que havia encarado nas últimas semanas. Sempre que a via ficava embevecido com seu sorriso cativante, com os cabelos ruivos que caíam sensualmente pelos ombros, o corpo deslumbrante e a energia positiva que sentia quando ela estava perto.
Os últimos capítulos do livro tinham sido inspirados nela. Todas as posições que a imaginação fértil de Harry inventava eram visualizadas com Gina. As descrições de como um homem se sentia ao consumar o ato com uma mulher que estava toda entregue, quente e voraz haviam sido todas criadas tendo ela como musa. Harry sentia que era inevitável que um dia os dois fossem amantes.
A aparição dela em sua porta tinha sido uma miragem, um presente dos deuses. Só de lembrar o calor que os dois produziam apenas com o contato visual, ele sentiu que ia acabar sendo consumido pelo fogo que ardia dentro dele se chegasse a tocá-la. Aquele desejo mútuo era evidente demais e teria que se concretizar em breve.
Hoje à noite! Implorava seu corpo.
É, hoje à noite, ele respondeu com ansiedade.
O livro acabou caindo no chão.
Era isso. A reação de Gina criava algumas possibilidades interessantes. Será que aceitaria ajudá-lo a descobrir seu lado Casanova?
Ele adorava qualquer tipo de desafio, mas um desafio de saias — de saias curtas e provocantes que mal cobriam as torneadas pernas — esse, sim, era seu favorito.
Seria difícil convencê-la a testar o novo livro?
Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro. A vida afetiva havia ficado um tanto sem graça nos últimos tempos. Nenhum motivo especial, só que ultimamente preferia voltar para casa sozinho, no final da noite, do que com uma mulher. Sentia-se melhor assim.
Não significava que estivesse a ponto de começar a tomar estimulante sexual, mas seu amigo não andava muito a fim de ação como de costume. Algumas vezes, mesmo nas boates mais badaladas, com as mulheres mais incríveis, sentia-se entediado.
Harry estava começando a achar que o que faltava em sua vida amorosa era algo desafiador. Conseguir levar para a cama uma mulher que achasse que ele era um zero à esquerda, isso sim era um desafio. E não apenas qualquer mulher, mas Gina Weasley, com seus olhos marotos e brilhantes, lindo corpo e a certeza de que ele era um total inexperiente em matéria de sexo.
Se conseguisse convencê-la a seguir todos os passos do manual, capítulo por capítulo, descobriria em primeira mão se o livro funcionava de verdade.
Se ela aceitasse seguir com ele todos os itens do manual e, no final, ainda estivesse interessada nele, então, poderia tranquilamente considerar-se um gênio dos guias práticos sexuais.
Porém, havia uma forte possibilidade de Gina não concordar com aquela loucura. Ele olhou o parceiro que andava meio cabisbaixo.
— O que me diz? Aceita o desafio? — A pergunta era pura retórica. Todo o seu corpo conspirava a favor, reagindo com desejo só de pensar em seduzir Gina.
Agora, o que precisava era de um bom plano de ataque.
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N/A: Voltei com mais uma adaptação, e o que acharam ?
Sério que esse Harry me tira o fôlego.
Devo confessar que quero muitooooooo um vizinho desse e o carteiro para ter a mesma desculpa, será que darei a mesma sorte?
Aguardo comentários! =D
Obs: Próximo capítulo da Manual da Conquista no domingo, último capítulo da Unidos por Acaso no sábado, e capítulo da Será que é difícil entender que te amo no domingo também!
Obs.2: Acho que estou ficando boazinha demais. rsrsrs
