Mal-entendidos
Capítulo 2
Quando Minerva cruzou a porta daquela sala, poucos minutos atrás, não foi pelo mesmo motivo de sempre. Hoje ela não queria encarar os olhos azuis de seu melhor amigo fitando-a com amor e admiração. Não, dessa vez ela tinha ido até lá cheia de raiva e com a esperança de que as tolices que tinha ouvido pudessem ter mudado alguma coisa na sua forma de vê-lo. Desejava que essa decepção tivesse alterado a imagem no reflexo, que tivesse mexido com os sentimentos dela. Mas ela estava enganada.
A bruxa se aproximou devagar e parou bem defronte ao espelho de Ojesed, dando-se tempo para que a figura alta e benevolente de Albus Dumbledore se formasse atrás de si. Ele a olhou com carinho e seus lábios se moveram num distinguível "eu te amo" sem som, e então sorriu. Novas lágrimas desceram pelos olhos da bruxa e deslizaram até seu queixo trêmulo.
– Eu não entendo o que pode ter acontecido! Você sempre foi tão correto e gentil comigo que eu simplesmente não consigo acreditar que tenha me tratado daquela maneira.
McGonagall baixou o rosto por um momento para tirar os óculos e secar as lágrimas com as costas da mão, e quando voltou a erguê-lo encontrou no reflexo atrás de si um olhar extremamente arrependido e ainda mais emocionado.
A professora analisou essa mudança por um breve instante. Era isso que ela desejava agora? Estaria querendo um pedido de perdão? Parte dela admitia que sim, assim como também reconhecia que continuaria a amá-lo mesmo que isso nunca acontecesse. E ainda havia aquele pequeno pedaço de si – talvez o pedaço mais escocês e ferino – que estava coberto de ódio dele naquele momento. Pronta para abraçar esse seu lado zangado, ela engoliu o choro e vestiu-se de seu olhar mais duro na direção do bruxo atrás de si, que esboçava agora um tímido sorriso como quem busca alguma simpatia.
– Como eu pude me apaixonar por alguém tão estúpido? E como raios você pôde pensar que eu me casaria com Elphinstone? Como pôde me acusar de manter isso em segredo de você? – a voz aguda de choro e um leve tom de desespero mudou-se para algo mais grave e sofrido, e talvez por isso ainda mais verdadeiro. – Como você consegue não ver que eu te amo?
– Minerva – Dumbledore chamou-a baixinho, e dessa vez ela podia jurar que realmente tinha escutado sua voz.
Era tudo de que McGonagall precisava para esquecer de fazer-se de forte e recomeçar a chorar outra vez.
– Eu só gostaria que estivesse aqui comigo me olhando desse jeito, como se… – nesse ponto a mulher foi interrompida por um soluço – como se me amasse.
O diretor deu um passo adiante, mas ela não viu porque tinha novamente retirado os óculos e tornou a secar o rosto com um lenço rendado que acabara de tirar do bolso das vestes.
– Mas eu estou aqui.
– Eu quis dizer de verdade, não nessa droga de espelho – ela retrucou com um gesto de desdém na direção do objeto mágico em sua frente.
O bruxo sorriu novamente, mas dessa vez foi mais ao seu modo usual. Então pousou a mão sobre o ombro dela, e a bruxa se sobressaltou ao notar que esse toque era completamente real.
– E eu estou – Dumbledore reafirmou enquanto ela dava meia-volta para encará-lo de frente. – Não sei o você que estava vendo ali, minha querida, mas se for o mesmo que eu era só o nosso reflexo.
Por alguns segundos a tristeza de McGonagall parecia ter evaporado, dando lugar ao puro e imenso espanto. De faces muitíssimo coradas e olhos vidrados, sua boca esquecida aberta pelo susto vacilou um pouco antes de recuperar o dom da fala.
– O que exatamente você escutou?
– Cheguei na parte em que você ressalta sua perplexidade em estar apaixonada por alguém tão estúpido quanto eu – Albus tinha seus olhos repentinamente tão marejados quanto os dela. – E devo lhe dizer que apesar de concordar com o absurdo disso, nunca antes me senti tão feliz em ser insultado. Também poderia acrescentar covardia na minha lista de defeitos, já que até hoje não criei coragem de te dizer corretamente que te amo.
– Ama? – ela perguntou num misto de surpresa e alegria.
– Profundamente – o bruxo respondeu suavemente, ainda que sua voz tivesse se tornado um pouco mais rouca que de costume. – E você não pode mensurar o quanto me entristece tê-la magoado.
Sim, ele estava arrasado pela dor que causara em sua melhor amiga e amor declarado (ainda que para a pessoa e na ocasião errada). Mesmo que antes já soubesse que suas palavras pudessem ferir e muito um coração frágil e gentil como o dela, nada poderia tê-lo preparado para esse choro que ele mesmo causara com o ciúme que só agora sabia ser infundado. Por isso jurou a si mesmo que se ela o perdoasse essa seria a última vez que a faria chorar.
Uma única lágrima escorreu do olhar azul e muito brilhante e Minerva levantou a mão para secá-la, porém acabou demorando-se no toque sobre seu rosto, sob a vontade imperiosa de fazer-lhe um carinho. Os olhares se cruzaram por um longo e doce momento, mas então ela baixou a mão para esclarecer uma dúvida.
– Mas então por que...? – não precisou terminar a frase, porque o bruxo sabia do que ela estava falando.
– Hoje quando agi daquela forma irracional foi porque pensei que você ia me contar sobre o pedido de casamento de Urquart e que o havia aceito. Não deixei que falasse por si mesma porque seria doloroso demais ter que ouvi-lo da tua boca. Felizmente eu estava enganado, mas isso não apaga a maneira inaceitável como a tratei – ele se explicou e tomou-lhe as mãos nas dele, sem nunca desviar o olhar de seus olhos. – Por isso eu imploro o seu perdão.
– Você o tem – ela declarou com um sorridente piscar de cílios molhados.
Dumbledore elevou as mãos da bruxa à altura do rosto e beijou-as demoradamente, uma de cada vez, então se aproximou mais e subiu as mãos por seus braços como se tivesse intenção de abraçá-la.
– É sem dúvida um grande alívio pra mim – Albus engoliu à seco, olhando fixamente para a boca da outra enquanto aproximava seu rosto ainda mais e novamente reposicionava as mãos, desta vez na cintura dela. – Entretanto, levando em consideração nossas declarações anteriores, eu gostaria de tomar a liberdade de pedir um pouco mais que isso.
– Acho que nas atuais circunstâncias seria bastante apropriado – McGonagall respondeu aos sussurros e passou os braços em torno do pescoço dele.
O diretor beijou primeiramente a testa da bruxa, depois suas pálpebras e então se inclinou para um suave roçar de lábios exploratório, seguido de um sorriso breve e um novo e mais profundo beijo, onde os dois juntaram mais os corpos e extinguiram os fôlegos. Bocas entreabertas na mistura de hálitos e a experimentação da textura e o sabor, depois a sucção gentil nos lábios e o atrito da barba na pele macia... Houve mais alguns beijos com uso bem aplicado de línguas e dentes, e outros mais delicados sobre o rosto, queixo e mandíbula, até que por fim deixaram-se enredar num abraço que trazia consigo o peso dos anos desperdiçados longe um do outro.
– Isso foi... – ele se interrompeu quando deu por si sem um adjetivo adequado e completamente distraído pelos olhos verdes da bruxa, ainda um pouco mais claros que o habitual devido ao choro recente, mas agora transbordantes de felicidade.
– Perfeito – Minerva concluiu por ele e se espichou para plantar mais um beijinho na ponta do seu nariz torto.
Suspiraram longa e profundamente, e no silêncio contente que veio a seguir a curiosidade ganhou Dumbledore fazendo com que seus olhos caíssem novamente sobre o reflexo no espelho, onde ele e McGonagall continuavam se beijando com muito mais empenho [e menos roupas] que antes. E só foi preciso notar a vermelhidão retomar as bochechas da professora e o modo como ela virou o rosto rapidamente para longe depois de ter seguido seu olhar para que ele concluísse que mais uma vez ambos estavam partilhando a mesma visão.
– Diga-me, minha querida, o que acha de terminarmos essa conversa em um lugar mais confortável?
– O que você tem em mente? – ela perguntou com uma sobrancelha arqueada em divertimento, enquanto aceitava o braço que ele lhe oferecia para que se colocassem a caminho.
– Talvez um chocolate quente em minha sala, – nesse ponto ele baixou o tom de voz até que não passasse de um sussurro com ares de promessa, quando se inclinou mais para falar-lhe ao ouvido – talvez um pouco mais que isso.
McGonagall não se deu ao trabalho de responder, ao menos não verbalmente. Apenas deixou que um malicioso sorriso de lado tomasse seu rosto enquanto apoiava a cabeça no ombro do outro. Uma pena que tenham retomado a postura profissional de costume ao atingirem o corredor, mas nem isso foi capaz de roubar-lhes os sorrisos sonhadores enquanto iam rumo à torre do diretor para seu prometido chocolate-quente-ou-algo-mais.
Como todos podem ver, eu não resisti e inseri mais um capítulo. Estou lutando corajosamente contra a vontade de ainda acrescentar um epílogo... Hahaha, eu não tenho salvação.
Nana Snape: Minha queridíssima Naná, fico satisfeita que continue gostando das minha histórias porque seus reviews sempre me deixam muito contente aqui. Pena que nem todo mundo curta ADMM como a gente, né? Juro que não sei o que passa na cabeça da JK...
Uhura: Amiga, acho que estou ficando especialista em escrever beijos! E valha-me Mérlin, pesei a mão no açúcar desse capítulo, mas pra quem gosta de doçura há de ser um prato cheio.
Deia Silva: Muito obrigada por ler e comentar minhas histórias, porque eu amo fazê-las e poder compartilhar com vocês minhas ideias malucas sobre esse casal que é tão delicioso de ler e escrever.
Mamma Corleone: Bem, era realmente pra ser uma oneshot, mas eu estou com sérios problemas na hora de concluir minhas fics porque eu simplesmente não consigo dizer adeus a elas. Estou até com um projeto aí de retomar uma das antigas e fazer uma segunda temporada... Adivinha de qual?
