Capítulo II
A jovem princesa permaneceu calada e estática, deitada no colo da aia. Elas se conheciam desde criança. Cresceram juntas e compartilhavam dos mesmos sonhos românticos. Tomoyo era um pouco mais velha, mas esperava pelo amor de sua vida assim como Sakura.
No entanto, estavam as duas tristes porque a querida e amada princesa acabara de ficar noiva de alguém que nunca tinha visto antes. Os pensamentos de Tomoyo aterrorizavam-na. "E se ele for gordo? Ou feio? Ou gordo e feio? E se comer como um porco? E se for ríspido, grosseiro ou a tratar mal?"
Tomoyo balançou a cabeça como que para afastar aqueles pensamentos medonhos. Ela estava muito agoniada vendo Sakura tão desanimada. Resolveu que iria tentar reanimá-la tirando-a do quarto.
Com muito sacrifício consegui puxar a garota para o jardim. Ele era em formato arredondado recheado por árvores de cerejeira. E ao fim dele havia um lago com pedras e uma ponte delicada.
Kero estava deitado bem no centro do jardim e assim que viu sua dona veio correndo recebê-la. O animal parecia realmente entender exatamente todos os sentimentos dela porque assim que se aproximou fez uma cara triste. Era curioso ver um leão desanimado!
Ela caminhou com o animal ao seu lado. Tomoyo vinha atrás colhendo algumas flores para tentar reanima-la. Ela sabia o quanto a amiga era apaixonada por cerejeiras talvez por isso a mãe escolheu esse nome para ela.
A menina caminhou vagarosamente e sentou-se num banco perto do lago com Kero a seus pés. Tomoyo se aproximou dizendo:
'Deixa essa tristeza de lado. Olha o que trouxe pra você.' Estendeu um ramalhete de flores e a entregou com carinho.
'Ah Tomoyo, só você mesmo!'
'Vamos. Se anime... Vai ver que isso tudo foi o destino que providenciou. Aposto que acabará se apaixonando loucamente por ele!'
Ela olhou com os olhos cheios de lágrimas para Tomoyo que estava com o coração cortado.
'Você realmente acha, Tomoyo?'
'Claro que acho....e ainda posso afirmar que vai ser feliz com ele e vai ter muitos filhos!' Disse encantadoramente para acalma-la. Nesse momento, Toya e Yue se aproximaram das moças.
'Como você está, Sakura?' Toya perguntou carinhosamente.
'Como você acha que estou?' Disse triste.
'Mas foi você quem aceitou essa situação!'
'E o que esperava que eu fizesse? Recusasse e causasse a maior guerra?' Falou com lágrimas nos olhos. Isso já estava se tornando um hábito.
'...Lutaríamos com toda a fúria para proteger nossa princesa!' Foi a vez de Yue se pronunciar.
'Ah, comandante! Não seria capaz de causar tantas mortes por um capricho desses!'
'Mas isso não tem nada a ver com um capricho!' Ele falou zombeteiro para a irmã que fez uma careta bem feia.
'Não zombe de mim!'
'Com essa cara feia que está fazendo agora, não há ninguém que vá achar o contrario!' Disse com um sorriso vitorioso nos lábios.
Tomoyo e Yue riam divertidamente com a pequena briga dos irmãos. Sakura sem perceber, não pensava mais no seu casamento e sim em matar seu querido irmão que conseguia tirar-lhe do sério sempre que queria.
'Só viemos aqui para ver se está bem! Mas já estou vendo que está! Vou até falar para o Ministro Chinês que a princesa vai dar algum um trabalho para o herdeiro deles.'
'Como ousa dizer isso de mim? Seu... seu... seu incessível!' Falou com um bico.
'Como uma menina tão bonitinha e tão pequena consegue fazer um bico tão feio e grande?!'
'Não sei como nosso pai conseguiu ter um filho tão insuportável assim!'
Ela franziu a testa ao mesmo tempo em que falava tentando acertar o irmão.
'Como fica encantadora nervosa!' Tomoyo disse com estrelinhas nos olhos e segurando nas próprias bochechas.
Sakura ficou muito sem graça com o comentário da outra e resolveu ficar quieta.
'Bem, também viemos avisar que o Rei a chamou para a reunião com o Ministro ainda hoje!' Yue falou séria e pesadamente aquelas palavras. 'Ele irá comunicar sua decisão!'
'Há necessidade da minha presença?' Ela perguntou suplicante.
'Na realidade, não!' Ele disse sentindo que seria realmente melhor ela não ir. 'Diremos a ele que a senhorita está gripada ou teve que se recolher mais cedo.'
'Obrigada!' Inclinou levemente o tronco para frente em agradecimento.
Assim que disseram tudo os dois se retiraram deixando as duas moças sozinhas com Kero. Tomoyo não querendo mais ver a princesa triste levou-a para tomar um banho. Sem o irmão por perto certamente ela voltaria a ficar naquele torpor e Tomoyo não pouparia esforços para não ver isso. O mais encantador na princesa era sua jovialidade, alegria e meiguice.
Toya e Yue saíram de lá quietos e pensativos. Cada um tinha seus próprios pensamentos que era em comum; Sakura. "Que triste ver minha irmã assim. A única coisa que posso fazer é anima-la!' O príncipe pensava enquanto o samurai serrava o punho "Se esse imperador chinês ousar, que seja só em pensamento, a maltratar eu juro que o mato com as próprias mãos!"
Cada um foi cuidar de seus afazeres. Toya foi ver coisas sobre o governo e Yue, treinar para extravasar sua ira.
Ele foi para um lugar específico e chamou um de seus soldados para ser seu adversário. Cada um tinha em suas mãos um bastão de madeira e assim que começaram a brigar Yue já começou a se sentir melhor.
Enquanto isso Fugitaka estava com dor no peito só em pensar na filha longe dele e enfrentado uma situação completamente estranha à realidade dela. Ele continuava pensando numa saída para tira-los daquela enrascada, sem ofender o rei do outro império. Por mais que pensasse o fim sempre era uma eminente guerra. A hora já estava chegando e ele não encontrava uma saída.
Permaneceu assim até alguns minutos antes da hora marcada com o Ministro. Ele se retirou dos seus aposentos muito triste e apreensivo, caminhando lentamente ainda pensando numa saída.
Entrou na sala em que iria encontrar-se com o importante Ministro. Sabia que ele era um homem muito compreensivo, mas não poderia ir contra essa nova artimanha que a vida havia lhe imposto.
Ficou lá sentado em seu trono sozinho e pensativo. Queria que tudo aquilo fosse um pesadelo. Não queria se afastar da sua pequena filha, ela era tão parecida com a mãe!.... Como ele sentia falta dela! E Sakura preenchia essa falta, mas agora estavam lhe tirando seu tesouro mais precioso. Uma lágrima tímida rolou de seus olhos.
Nesse momento a porta se abriu e um mensageiro avisou que o Comandante Yue e o príncipe Toya estavam ali para a reunião. Os dois homens bem afeiçoados entraram num enorme pesar e cada um se sentou em um lugar reservado para eles. Logo em seguida toda a corte de ministros entrou e tomou seu lugar.
O mensageiro, com seus cabelos arrepiados, comunicou, enfim, que o Ministro das Relações Exteriores havia acabado de chegar.
'Senhor Ministro das Relações Exteriores, Ériol Hiiragisawa!'
O imperador fez um sinal com a mão ordenando que ele entrasse.
Um homem alto e jovem de cabelos escuros e um olhar calmo trajando roupas chinesas entrou de forma elegante. Aproximou-se do rei e se ajoelhou curvando-se em posição de respeito.
'Senhor Imperador do Japão, venho aqui honrosamente para saber a decisão desse Império!'
'Levante-se e venha até aqui, meu jovem! Quero olhar nos seus olhos.' Ele disse para espanto de todos. Isso era completamente incomum de se acontecer.
O homem, como todos ali, também estranhou, mas acatou a ordem do regente japonês e aproximou-se dele. Sentia o coração na ponta da garganta. "O que será que ele quer saber?" Parou em frente ao governante que agora estava de pé em frente a ele. Olhou profundamente nos olhos do rapaz que estava firme, mas aterrorizado com o seu olhar. Agora eram os olhos de um pai protetor que fitavam-no.
'Antes de responder a sua proposta quero que você me dê sua palavra de que nada irá acontecer a minha filha!' disse isso em alto e bom som de maneira dura e firme.
'Eu juro pelo meu país!' O jovem respondeu, também seriamente.
'Então eu, o monarca do Japão, aceito a união de minha única filha, princesa Sakura Kinomoto com o herdeiro da China. E que esta união seja a chave para uma paz eterna entre nossos países.'
O Ministro que estava até então em frente ao rei recuou com apenas a cabeça inclinada para baixo e disse:
'Os senhores não irão se arrepender!'
'Poderíamos conversar melhor um outro dia? A sós?' O rei disse antes de Ériol comunicar que iria se retirar. ' Gostaria que o senhor permanecesse em meu país por mais algum tempo!'.
'Como desejar, senhor!' Dizendo isso se retirou andando em direção a porta de forma que não desse as costas para o imperador.
Assim que ele saiu o rei suspirou com uma enorme carga em seus ombros. Sentia-se culpado pela causa da tristeza da filha. Um a um todos se retiraram ficando somente Toya e Yue. Este era como um membro da família, e o rei o tratava como tal.
'Espero que tenhamos tomado a decisão certa' O rei disse cabisbaixo.
'Também espero, meu pai!' Toya respondeu.
Os homens ficaram conversando na sala enquanto Sakura, Tomoyo e Kero estavam deitados no meio do jardim aberto olhando para as estrelas. As moças estavam deitadas em cima de um tecido fino verde, bordado nas pontas com uma linha branca. Sakura estava com a cabeça recostada no animal de estimação quando, olhando o céu, viu uma estrela cadente. Essa época do ano era quente no Japão. Elas saíram para se refrescar.
'Olha! Vou fazer um pedido!' Falou fechando os olhos como se aquilo fosse a esperança de sua vida. Tomoyo a acompanhou fazendo um pedido também.
As duas ficaram deitadas olhando as estrelas sem dizer nada até que adormeceram uma deitada ao lado da outra.
'Sakura! Princesa, acorda!' Tomoyo tentava acordar a princesa com cuidado.
'Ah Tomoyo! Só mais um pouquinho!' A menina, com seus 16 anos, resmungava querendo dormir mais um pouco.
'Vamos Sakura! Seu pai a espera para o café da manhã e ainda precisa se aprontar!
'Mas eu não posso comer no meu quarto?' Ela falava enrolado e ainda com os olhos fechados.
'Infelizmente não! O Ministro chinês também irá acompanha-los no café.' Explicou um pouco apreensiva, pois não sabia qual seria a reação da menina. Mas para sua surpresa, Sakura apenas abriu os olhos e tristemente foi em direção ao quarto sem dizer uma palavra.
Enquanto ela se banhava, Tomoyo arrumava sua roupa sobre a cama que nem foi desfeita, pois elas haviam dormido no jardim particular da princesa.
'Então quer dizer que esse tal ministro ainda não voltou para a China?' Sakura falou assim que entrou no quarto, ainda enrolada no roupão.
'Sim! A pedido de seu pai ele ficou um pouco mais!' Tomoyo disse indo em direção de Sakura para ajuda-la a se arrumar.
'E por que meu pai o pediria para ficar mais?' Perguntou um pouco curiosa.
'Isso eu não sei responder!'
Tomoyo havia escolhido um bonito quimono rosa com detalhes brancos. Era incrível como Sakura combinava com essas cores.
'Ficou encantadora, princesa!' Ela disse empolgada com a roupa escolhida.
'Obrigada' Disse um pouco triste.
As duas saíram do quarto e foram calmamente em direção ao refeitório. Sakura entrou ainda acompanhada de Tomoyo. Todos já estavam, faltando apenas o Ministro. Ela sentou-se à mesa e a aia ficou em pé logo atrás de da princesa.
'Bom dia!' Ela disse.
'Bom dia, minha filha! Estamos esperando o Ministro para que você possa o conhecer. Chegamos aqui mais cedo para que eu pudesse ver como está, minha querida Sakura!' Ele se levantou para dar um carinhoso beijo no rosto redondo da filha.
Ela fez um dengo pra ele assim que ele retornou a seu acento. Esse foi o tempo certo para o Ministro entrar.
Assim que caminhou pelo salão Sakura bateu os olhos nele pensando: "Nossa! Espero que todos os chineses sejam assim!"
'Espero não tê-los feito esperar!' Disse, agora sentado à mesa.
Ériol cumprimentou todos educadamente e sem poder deixar de notar a beleza preciosa que era a princesa, mas o que mais lhe chamou a atenção foram um par de profundos e expressivos olhos verdes cor de esmeralda.
'Esse é o Ministro das Relações Exteriores da China, Ériol Hiiragisawa. Essa é a minha filha, princesa Sakura Kinomoto!'
'Muito prazer, senhorita!' Ele disse educadamente e ela somente fez uma reverência com a cabeça. Seus olhos verdes o fitaram intrigados.
'O senhor tem descendência japonesa?' Ela perguntou curiosa.
'Sim, meu pai era japonês e minha mãe chinesa!' Ele disse esclarecendo a sua dúvida e ela fez um gesto com a cabeça dizendo que havia entendido.
'Muito bem, vamos comer.' Dizendo isso o imperador ordenou que o banquete matinal viesse.
Todos estavam comendo em silêncio. Sakura estava um pouco mais animada porque afinal ficava imaginado que o príncipe poderia ser assim tão bonito e educado também. Esse bem estar da princesa foi notado por todos, principalmente por seu pai e Tomoyo, que a conhecia melhor que a si própria.
Antes do término do café o imperador pediu para Ériol um minuto a sós e logicamente o educado rapaz o concedeu com gentileza. Sakura percebeu todo o refinamento dele e comentou com a amiga assim que estavam a sós.
'Espero que o tal príncipe seja assim tão educado!'
'Viu só! Acho que minha intuição está certa!' Tomoyo via o brilho de sua amiga retornar após o encontro com o Ministro.
Enquanto isso o rei caminhava acompanhado de Ériol pelo jardim real. Primeiramente eles estavam em silêncio enquanto Ériol analisava o belo lugar.
Era uma pequena ilha no meio da propriedade. Para chegar ao jardim tiveram que passar por uma ponte curvada. O lago que a circundava era em um tom verde escuro e tudo ao seu redor acompanhava esse tom relaxante. Realmente era um delírio para os olhos.
'Esse jardim foi construído pelo meu bisavô e dado a meu pai de presente de casamento.' Ele disse assim que adentraram o jardim.
'É muito bonito!' disse Ériol talvez já imaginando o rumo da conversa.
'Eles eram apaixonados um pelo outro!' Disse continuando o relato. 'Se casaram por amor'
'Entendo, senhor'
'Realmente está sendo muito difícil entregar minha filha sem que ela conheça seu futuro marido.'
'Entendo perfeitamente' Ele dizia se lembrando da preciosidade que era a filha de olhos verdes.
'Peço ao senhor que cuide dela como eu cuidaria!'
'Eu lhe prometo, senhor! Bem ou mal tenho essa dívida com o senhor já que tenho descendência japonesa sendo assim o senhor também é meu rei'
Dizendo isso se ajoelhou em frente a ele respeitosamente. O rei disse mais aliviado:
'Muito obrigada, meu filho. Assim fico mais em paz.'
Os dois homens conversaram como velhos amigos durante algumas horas. O rei queria saber tudo sobre o seu futuro genro. Como ele era, o que ele gostava, como se comportava...
O rapaz, de mais ou menos vinte e cinco anos, respondia com total educação e cortesia. Contou sobre o império chinês e como era o temperamento de seu príncipe. Disse que teria de retornar a China na manhã seguinte para dar as boas novas ao monarca chinês já que a data do casamento estava marcada para ali há duas semanas.
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