Cap 02 - Problemático
O forró estava animado. Era tocado em um palco instalado em uma rua que foi fechada só para se ter o show. O evento era aberto ao público, totalmente de graça, e por causa disso atraia uma plateia de enorme diversidade. Muitos vieram dançar, curtir a música e até arranjar um paquera, outros, porém, tinham motivações mais escusas. Martim Soares, agora com vinte e sete anos, havia se tornado um homem sombrio. Muito magro, de rosto ossudo, tinha uma fisionomia meio abatida. Vestia uma jaqueta preta de couro e roupas amarrotadas dando a ele um aspecto bem largado. Martim se afastou da aglomeração de gente e andou até um beco escuro. Naquele lugar uma cena inusitada se desenrolava. Uma mulher desacordada, provavelmente bêbada, estava sendo assediada por uma criatura singular. Para uma pessoa comum aquele homem parecia completamente normal. Mas para Martim sua aparência era bem diferente.
De fisionomia totalmente humana, a única coisa aberrante em sua constituição era sua boca que tinha formato de O e era bem maior do que a de um humano convencional. Coberta por dentes afiados, de seu interior saia um apêndice, parecendo um tentáculo, cuja ponta tinha uma ventosa. O homem-sanguessuga grudou a ventosa de seu tentáculo na cabeça da mulher e parecia estar sugando dela alguma coisa. Suas forças, sua energia.
Martim agarrou o sanguessuga pelo braço e o arremessou para trás o afastando da mulher. O monstro ficou encarando-o com uma expressão de ódio e usou seu tentáculo para atacá-lo. Martim por sua vez agarrou o tentáculo com a mão direita impedindo que a ventosa tivesse algum contato com sua pele. Em seguida se aproximou do sanguessuga e aplicou nele uma rasteira. Deitado no chão, indefeso, o monstro não pôde fazer nada a não ser assistir com pavor seu oponente puxar uma faca do bolso da jaqueta e golpeá-lo no peito. Assim que morreu o monstro se transformou em um pó brilhante que sumiu em poucos instantes. Qualquer traço da passagem da criatura ali desapareceu por completo.
Após terminado seu trabalho Martim vai até um ponto de ônibus e se senta de forma bastante desleixada. As pessoas a sua volta se afastavam dele, pois além de seu aspecto não muito convidativo ele parecia falar sozinho.
- Desde meus quinze anos eu envio esses monstros de volta ao astral. Quando isso irá acabar?
- Sua função nunca foi eliminar todos, isso seria impossível, mas garantir um equilíbrio. Infelizmente é um tipo de trabalho continuo que não tem fim. - Respondeu Dudu, que apareceu para o seu protegido em pé junto a calçada, mas que não era visto por mais ninguém.
Martim pegou seu transporte e cerca de meia hora depois chegou a sua moradia. Um prédio sem luxo, simples, mas agradável. Pequeno, tinha apenas quatro andares e dois apartamentos por andar. Martim morava no último. Preferia subir pelas escadas do que esperar o elevador. Seu apartamento era bagunçado. Até mesmo se considerando que era de um homem solteiro. Tinha dois quartos sendo que um nunca era usado e servia pra guardar tralhas, principalmente livros. Em seu prédio Martim nunca foi muito popular. Além de não fazer questão de criar amizades era meio rústico com os outros moradores, que logo aprenderam a evitá-lo. O fato dele receber visitas periódicas de algumas mulheres "suspeitas" também serviu pra queimar seu filme. Alguns achavam que ele era envolvido com droga ou até mesmo com crimes mais pesados. Pensaram até em fazer um abaixo-assinado para despejá-lo, mas não conseguiram amparo legal pra tal. Já que apesar de tudo ele pagava todas as suas contas em dia. Inclusive com mais regularidade que os demais.
- Dudu, você está aí? - Ninguém respondeu. - Pra mim já chega! Dediquei boa parte da minha vida a essa missão estupida. Pra mim já basta. Vou cuidar do que é meu agora.
- Mas muitas pessoas dependem de você. Você não pode deixá-las desamparadas!
- Esse papinho você usa desde a minha primeira caçada. Não tenho amigos, nem emprego e minha família me detesta. Tudo por sua causa. Pra mim já chega. Cansei de brincar de herói.
Martim tinha quinze anos. Um adolescente que estava iniciando sua jornada pelo ensino médio. Já tinha até escolhido qual carreira iria seguir na faculdade. Porém o destino tinha outros planos reservados para ele. Após negar os conselhos do seu espírito guia várias vezes tinha parecido que Dudu havia entendido a mensagem, pois faz tempo que não aparecia mais com aquele papo estranho de proteger os inocentes e lutar contra os monstros. Martim era um jovem como qualquer outro. Estava engatando um novo romance e se tornou uma figura popular em seu colégio.
Martim aprendeu a ignorar as visões e os sonhos estranhos que tinha, mas após uma tragédia envolvendo um próximo as coisas mudaram. Era mais um dia de aula que parecia ser como outro qualquer. O jovem Martim tentava entender os cálculos estranhos que a professora escrevia no quadro quando ouviu um forte estrondo. De início ele pensou que fosse um tiro principalmente por causa da gritaria resultante. A professora tentou conter os alunos da classe, mas todos estavam tão curiosos que tal tarefa era quase impossível. Por sua vez Martim se arrependeu amargamente por não ter ficado na sala. Ele viu seu melhor amigo, Aurélio, estatelado no chão com uma poça de sangue embaixo de uma coisa disforme que antes era sua cabeça.
Apesar do choque Martim não derramou uma só lágrima. Ele reagia de maneira diferente frente a tristeza. Em casa, após ser consolado pelos seus pais, Martim escolheu ficar recolhido no quarto longe da vista de todos. Apesar de seu desejo em ficar sozinho uma pessoa teimava em ficar ao seu lado.
- É uma pena o que aconteceu com o seu amigo, mas aquilo foi uma tragédia que você poderia ter evitado. - Disse Dudu.
- Do que diabos você está falando?! - Martim estava visivelmente sem paciência.
- Você sabe por que Aurélio resolveu se matar?
- Não.
- Pois eu te mostro.
Sem que seus pais vissem Martim saiu sorrateiramente de casa acompanhando seu guia fantasma. Os dois andaram até os fundos do colégio em que o garoto estudava, em um terreno baldio. Sem que fossem percebidos a dupla assistia a Reginaldo atormentando um garoto de doze anos. Enquanto fazia suas perversidades o rosto de Reginaldo mudou revelando seu lado animal de Wherepanther.
- Apesar de já ter saído da escola ele não perdeu seu hábito de valentão. - Disse Dudu. - Se tem alguém culpado pela morte do seu amigo esse alguém é esse homem. Esse monstro.
- O que você quer que eu faça?
- O seu dever. Elimine-o.
Joaquim Soares pensava que seu filho não sabia que ele escondia uma arma em casa. Isso facilitou para que Martim conseguisse pegar a pistola sem ninguém perceber. Naquele dia Martim não foi pra escola. Ficou de tocaia no terreno baldio a espera que seu odiado inimigo aparecesse. Como esperado Reginaldo surgiu carregando outro menino que ele importunava. O ódio cresceu dentro de seu interior, Martim saiu de seu esconderijo com a pistola já apontada para o seu alvo.
Reginaldo arreganhou seus dentes de onça assim que percebeu a ameaça. BLAM! BLAM! Dois tiros. Martim pensou que viria a seguir um corpo nojento sangrando no chão, ao invés disso Reginaldo se transformou em um pó brilhante e sumiu por completo. O garoto que Reginaldo perturbava não entendeu nada do que estava acontecendo e resolveu sair correndo dali. Já Martim que ficou assustado com a ideia de ser pego jogou a arma do seu pai no chão e fugiu dali também. Horas depois, já de volta a sua casa, Joaquim ia perguntar ao seu filho sobre o desaparecimento de um pertence seu. Na maior cara de pau Martim iria se fazer de desentendido negando todas as acusações.
Quando Amelia viu seu filho passando pela porta só faltou pular de alegria. Com os olhos já marejados ela tratou logo de dar um forte abraço em Martim. Joaquim, por outro lado, olhava de longe. Meio desconfiado. - O que ele quer agora? - Se perguntava. Não confiando na espontaneidade daquela visita.
Amelia tratou logo de convidar Martim para o jantar. O silêncio durante a mesa era um pouco constrangedor. Amelia tinha medo de espantar seu filho ao tratar de assuntos recentes, já Joaquim não queria arriscar abrir a boca e não se controlar. Jogando tudo o que estava entalado na cara do seu filho.
- Já conseguiu a aposentadoria? - Começou Martim, tentando puxar um assunto mai leve.
- Ainda não. Preciso de mais dois anos é mole? - Respondeu Amelia. - Já seu pai teve mais sorte. Essa é sua última semana de trabalho.
- Nossa, pai, parabéns.
Joaquim revirou os olhos. O simples fato de ouvir seu filho lhe dirigindo a palavra já o deixava contrariado. Por fim não conseguiu se controlar mais e soltou o que pensava.
- E aí? Ainda está ocupado em sua "missão".
Martim demorou a responder, aquele era um assunto que incomodava. - Acho que já superei isso.
- Meio tarde demais pra isso, não é?
- Joaquim! - Amelia tentava repreender a ofensividade de seu marido.
- Já arranjou um emprego?
- Ainda estou procurando.
- Nossa! Mas faz quase dez anos que você procura!
- Joaquim!
- Só me responda uma coisa. De onde veio o dinheiro que você usa pra se sustentar?
- Bem... - Martim não sabia como responder sem alarmar seus pais.
- É drogas, né?
- Joaquim!
Martim não tinha como responder aquela acusação já que apesar de não ser completamente verdadeira seu modo de ganhar dinheiro também não era tão "nobre" assim.
- A gente cuida do filho com tanto carinho e no final ele acaba se tornando... isso!
- Mãe, obrigado pela comida. - Ofendido, Martim se levanta da mesa e sem esperar que ninguém te acompanhasse saiu pela porta afora. Amelia tentou falar com ele, mas antes que conseguisse chegar perto ele já estava longe.
De volta ao seu apartamento, bebendo pra esquecer as magoas, sua única companhia era um ser invisível que Martim começava a achar que apareceu em sua vida mais para atrapalhá-lo do que qualquer outra coisa.
- Nunca disse que a vida que você escolheu seria fácil. Mas o caminho nobre nunca é. - Disse Dudu.
- Que escolha eu tive? Essa merda de missão caiu no meu colo de paraquedas. - Quando terminou sua bebida Martim voltou a geladeira pra procurar outra garrafa, não tinha nenhuma. Pra ser mais sincero não tinha quase nada. Ele era meio relapso em relação as suas necessidades básicas.
Irritado, Martim vestiu sua jaqueta preta e escondeu uma faca em seu bolso. - Pra onde você vai? - Perguntou Dudu.
- Achar alguma coisa pra caçar. É a única coisa que sei fazer.
Assim que saiu do seu apartamento e deixou Dudu pra traz o fantasma não conseguiu conter um sorriso. Martim podia tentar quanto fosse, mas pelo jeito nunca desviaria do caminho traçado por ele pelo seu guia.
