Capítulo I – Expresso de Hogwarts

O dia estava frio e chuvoso. Victoria Zabini levou a mão ao despertador quando este tocou, mas não conseguiu mover-se mais que isso. Era o dia em que viajaria para Hogwarts, portanto, não podia se atrasar para pegar o trem. O problema era aquela cama, que estava tão boa, convidando-a a continuar deitada.

-Hora de levantar.

Ela ouviu vagamente a voz da mãe, mas era uma dimensão distante demais para que se agarrasse. A voz ia cada vez mais longe, mais longe, mais longe... Até sumir.

~ • ~

-É a última vez que eu vou chamar – berrou a senhora Lestrange, preparando o café do filho.

-Okay – murmurou Andrew, cobrindo a cabeça com o travesseiro para evitar que os gritos da mãe chegassem aos seus ouvidos.

-É sério, And – disse ela, batendo insistentemente à porta.

-Eu já vou – gritou em resposta, esquecendo logo em seguida e voltando a dormir pesadamente.

~ • ~

Bruno Malfou já vestia a calça quando ouviu o pai levantando. Deixou escapar um longo suspiro, balançando a cabeça; era difícil se acostumar a ser o mais maduro da casa. Ao que pegou a camisa, ouviu o celular tocar.

"Estou quase na estação.

Mal posso esperar para te ver.

J.P."

Era Jane. Ele sorriu, se pondo a pensar se os amigos a aprovariam.

~ • ~

O relógio marcava sete horas quando Lindsey Potter ouviu um objeto pesado cair e rolar escada abaixo. Sentou-se na cama e bufou, irritada. Ela tinha certeza de que era o pai quem caíra da escada de novo.

-Querido! Você está bem?

-Sim, só uma dorzinha no abdômen...

Junte o primeiro dia de aula, sete horas da manhã e a família Potter, que o resultado será uma confusão total ou, no mínimo, um tombo.

Lind levantou-se, uma vez que já estava acordada. Foi direto ao banheiro, enfiar-se debaixo do chuveiro para que não pudesse mais ouvir a voz dos pais. Já brigara suficiente com a mãe na noite anterior que valia pelo restante do ano.

~ • ~

Estação de trem, cinco para as oito da manhã

-Eu disse que você ia se atrasar!

-Não precisa me dizer duas vezes – resmungou Andrew, correndo para chegar a tempo na plataforma.

-Boa viagem! – foi a última coisa que ouviu da mãe, antes que ela fosse embora.

Ele olhou ao redor, sentindo-se perdido. Até que avistou uma morena conhecida correndo desesperada ao seu encontro, arrastando com dificuldade três malas de tamanho grande.

-Oh meu Deus, nós vamos perder o trem! – berrou Vicky, jogando-se em seus braços e deixando as malas de lado.

-Faltam dois minutos – disse ele, ofegante, consultando o relógio.

Os dois se entreolharam, com a respiração suspensa. Então desataram a correr. Se conseguissem apressar-se, chegariam encima da hora. Andrew ajudou-a carregando uma mala, o que já foi muito, sendo que ela lhe deu a mais pesada.

-Eu tenho certeza de que ouvi o barulho do trem partindo – sibilou And, sem fôlego.

-Não, ele está logo ali – apontou Victoria, revirando os olhos – Vamos, ele está se preparando para sair!

~ • ~

-Okay, eles estão começando a me preocupar – sussurrou Bruno, deixando-se cair no estofado pela primeira vez desde que entrara no trem.

-Eles vão perder o trem – comentou Liam Lovegood, passando a mão pelos cabelos de uma maneira nervosa.

-Eles já perderam o trem – disse Lindsey, colocando a mão na testa como se o gesto fosse resolver tudo – Quer ver? A velha desculpa do despertador que não tocou...

-Eu vou descer – declarou Bruno, levantando-se de um pulo.

-Hei – murmurou Jane Parkinson, a namorada, segurando-o pela mão – Eu vou com você.

-Ninguém vai sair daqui – Liam levantou-se também, encarando o amigo com uma expressão que dizia com todas as letras "acorda, olha a Jane do teu lado!" – Eles já devem estar chegando. Afinal...

-Todo ano é a mesma coisa e eles sempre chegam – disseram Bruno e Lindsey juntos, dando um sorriso amarelo.

-E eles nunca perderam o trem? – perguntou Jane, espantada, olhando para o relógio.

-Não – respondeu Bruno, docemente – Exceto uma vez, em que eles acordaram atrasados e pegaram o trem errado.

-Sério? E onde chegaram? – indagou, mais curiosa ainda.

Durante todo o verão, ouvira as histórias que o namorado contara sobre os amigos. Estava louca por conhecê-los, todos. Principal – e ironicamente -, Victoria Zabini.

-Na minha casa – disse Liam, que sentiu seu estômago embrulhar ao vê-la lhe dando um sorriso de agradecimento.

-O problema foi voltar, pelo que o And conta – sussurrou Bruno, sorrindo ao abraçá-la.

-Eles chegaram uma semana depois – contou Lind, rindo ao lembrar.

Bruno ainda estava tenso. Era normal os dois se atrasarem, mas o trem já estava prestes a sair. E se eles pegaram o trem errado de novo? E se eles se perderam no caminho da estação? E se aconteceu alguma coisa que não tenha nada a ver com as alternativas acima?

Como que para responder suas perguntas, a porta se abriu. Liam ficou em pé, com as sobrancelhas arqueadas. Ao contrário do que Bruno pensara, aquilo não trouxera nenhum alívio, mas mais dor de cabeça.

-Carter? Carter Black?

~ • ~

-Você não cansa de fazer isso? – perguntou Rick MacNair, observando atentamente a namorada se maquiar.

-Estou quase terminando – murmurou, sem desviar o olho do lápis – Você não precisa ficar olhando, se não quiser.

-Eu vou dar uma voltar, comprar algum doce – disse ele, dando de ombros – Até que você termine.

-Tudo bem – Jessica Diggory se virou para beijá-lo, mas ele já havia saído da cabine.

Do lado de fora, Rick começou a calcular suas probabilidades. Precisava encontrar a cabine em que ela estava, mas qual delas seria? Haviam tantas... Se ao menos pudesse encontrar Carter, tinha certeza de que encontrariam.

~ • ~

-O que diabos você pensa que está fazendo aqui?! – perguntou Bruno, pronto para avançar sobre o outro.

-Hei – Liam de pôs entre eles, com uma expressão que exigia calma.

-Quem é vivo sempre aparece – disse Carter, dando batidinhas leves e amigáveis no ombro do amigo – Oi, Jane.

Bruno a encarou, com uma cara ofendida.

-Vocês se conhecem? – indagou.

-Uma longa história, Malfoy – falou, com um sorriso torto – Algo sobre um quarto escuro e uma cama macia.

-Cale a boca, Carter – Jane revirou os olhos ao ver que Liam tivera que fazer um esforço para que o namorado não saltasse sobre o outro – Ele quis dizer "algo sobre nossos pais serem amigos e nos conhecemos desde crianças".

-Uma história, duas versões e todas elas verdadeiras – provocou, dando de ombros como se não mais importasse.

-Bruno – chamou Lind, baixo – Se controle. Ele não vale a pena.

-Pena. É uma pena que eu não tenha reparado em você antes, Potter – comentou Carter, olhando-a de cima a baixo – Agora eu vejo qual foi o meu erro.

-Saia daqui, Black. Antes que eu me revolte por ter que respirar o mesmo ar que você – sibilou ela, sem tirar os olhos de Bruno – Liam, saia da frente.

-Por quê? – perguntou, confuso.

-Bruno, arranque o Liam da frente e mate o loiro aguado – exigiu, séria.

Carter riu curto, encarando-a.

-É uma pena que eu tenha escolhido a amiga errada – Bruno, novamente, avançou, mas foi impedido a tempo.

-Chega! – quase berrou Liam, exaltado – Carter, volte pra sua cabine. Bruno, sente e se acalme. Lindsey, pare de falar baboseiras. E Jane... continue quieta.

-Não me mande calar a boca – sibilou Lind, encarando o amigo com indignação.

-Mande lembranças à Victoria – falou Carter, com a voz baixa – Tenho certeza que ela vai querer relembrar algumas coisas.

Nesse momento, o trem começou a se mover. Distraído pelo barulho que fez, Liam deixou que Bruno chegasse perto demais do outro, com os punhos cerrados. Tentou puxá-lo, mas ele era muito mais forte. Lind olhou pela janela do trem, tentando imaginar onde seu Andrew teria se metido.

-Se você voltar a se aproximar de mim ou de qualquer um de meus amigos, eu... – começou Bruno, mas foi interrompido por uma voz conhecida que veio da porta da cabine.

-Por que não entrega seu recadinho pessoalmente, Black? Eu estou bem aqui.

~ • ~

Jessica certificou-se de novo que a porta estava devidamente trancada, antes de voltar sua atenção para Andrew. Ele lhe sorria, galanteador.

-Ele não vai voltar tão cedo – murmurou, puxando-a para perto de si.

-E se voltar? – perguntou, com a voz fraca, deixando que o loiro beijasse seu pescoço levemente.

-Não se preocupe com isso – disse, por fim beijando-a com vontade.

~ • ~

-Atrasada, de novo – comentou Carte, cínico, tentando em vão se esquivar de Bruno.

Vicky se pôs ao lado de onde eles estavam, para poder olhar para o rosto de ambos. Bruno, com uma raiva incontida, pressionava os lábios e formava uma linha fina com eles, os olhos brilhando assassinamente. Ah, ele estava tão lindo. Já Carter, continuava com a mesma impressão sarcástica do que quando ela o viu pela última vez, só que um pouco pior.

-O que você faz aqui? – perguntou ela, cruzando os braços e erguendo uma sobrancelha.

-Saudade dos velhos tempos – disse, sorrindo – Não sentiu minha falta?

-Saia daqui – sibilou Bruno, prensando-o na parede – Agora.

-Hei, tenham calma – pediu Victoria, ignorando os outros três pares de olhos que a observavam – Carter, amor, se ele quiser fazer alguma coisa com você, eu não vou mover um músculo para impedi-lo.

-Eu sei – murmurou.

-E mesmo que quisesse, ele é mais forte que eu – continuou, calma – Então, por que você não pega esse seu ego do tamanho do dia inteiro e dá o fora daqui?

-Carter?

Liam ergueu os olhos da amiga para encarar Rick MacNair parado à porta da cabine, com um olhar confuso. Olhou de um para outro, parando somente em Vicky e analisando-a rapidamente.

-Se você não me ajudar a parar isso aqui, um deles vai – sussurrou Liam para ele, fazendo-o entender que aquilo não era uma conversa pacífica.

-Carter, vamos – disse, empurrando Bruno e puxando-o.

O loiro o encarou, confuso. Então sorriu, como se houvesse encontrado a última peça que faltava para montar um grande quebra-cabeças. Lançou um último olhar à ex-namorada e então olhou fixamente para Bruno, com cara de "isso não acabou ainda".

-Você não tem idéia dos segredos que ela guarda – disse, rindo – E ela não tem idéia dos que você guarda. Por que não fala?

O moreno bufou e avançou novamente para ele, mas Rick se pôs entre os dois. Bruno o encarou como se dissesse "se não sair da frente, eu te mato". Victoria tocou levemente o braço de Rick, fazendo-o estremecer involuntariamente.

-Saiam daqui – sussurrou, num tom de quem está se desculpando.

Rick concordou com a cabeça e empurrou o amigo para fora da cabine, saindo logo em seguida. Lindsey soltou um longo suspiro, voltando a imaginar onde And estava. Liam sentou-se ao seu lado, cansado. Bruno e Vicky ficaram em pé, olhando pela porta para o corredor vazio.

-É uma droga ele ter voltado – comentou ela, encostando-se na quina da portinhola – Não vou ter paz.

-Nenhum de nós vai – respondeu Bruno, tranqüilizador – Então, o despertador não tocou de novo?

-É – concordou, rindo – Você viu o And?

-O quê? Ele não estava com você? – perguntou Lindsey, com a voz trêmula.

-Estar, ele estava. Mas não entrou na cabine comigo – disse, dando de ombros e percebendo pela primeira vez a presença da Jane – E você?

-Ah, sim – ela levantou-se, animadamente lhe estendendo a mão – Eu sou Jane Parkinson.

Vicky franziu o cenho, lembrando-se que Bruno lhe contara que estava namorando uma Parkinson. Só não esperava que ela estivesse ali.

-Victoria Zabini – seu tom de voz era frio, assim como o sorriso que abriu ao apertar a mão da outra.

-Eu sei – Jane concordou com a cabeça, balançando os cabelos loiros para frente e para trás, voltando a sentar-se.

Bruno sorriu, sentando-se ao seu lado. Vicky olhou significativamente para Lindsey, que estava longe demais para perceber. Liam mantinha um olhar parado, sem foco. Ela suspirou e sentou-se entre eles, não querendo dividir o banco com o "casalzinho feliz".

Não era fácil para ela ver Bruno com alguém. Na verdade, aquela era a primeira vez. Sabia que iria acontecer, uma hora ou outra, mas não esperava totalmente por isso. Se ele estava com a Parkinson, era porque realmente se gostavam – gostava de Jane de um jeito que nunca gostaria dela – e isso a assustava.

Então, ela pensou que seus problemas começaram cedo. Não haviam chegado a Hogwarts e já perderam Andrew, encontraram novamente Carter e conheceram a namorada de Bruno. Se há algo que Victoria aprendera em todos esses anos, foi que quando se tem vários problemas, eles acabam se unindo para formar apenas um de tamanho GG. E, pelo andamento das coisas, muito mais problemas viriam.

Naquele momento, Vicky viu que aquele ano seria uma confusão total. E que, provavelmente, ele não terminaria bem.