Nenhuma Lealdade no Luar
escrito por Ariadne
traduzido por FerPotter
beta-read por BastetAzazis
Resumo: Porque certos segredos não foram feitos para permanecer enterrados.
A/N: Com agradecimento especial para a minha parceira nas trevas (e, a partir deste capítulo, minha nova beta), Anastasia. Obrigada também à Melenka e Tobert por me ajudarem a articular (e testar minhas idéias sobre) o passado da história. Minha gratidão à Ferporcel, pela tradução generosa e cuidadosa, e à BastetAzazis, por betar.
Capítulo 2: Sob Seus Sonhos
Nesta noite o vento estava acelerando, e, de onde não sabia mais seu nome, sob seus sonhos, nesta noite ela o sentiu acelerar.
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A diretora levantou os olhos da mesa quando uma campainha suave da escada em espiral assinalava a presença de um dos fantasmas do castelo. Ela endireitou-se na cadeira e olhou para a porta. – Entre.
Ao ver o Barão Sangrento, ela elevou-se um pouco, mas ele balançou a cabeça, gesticulando para que ela se sentasse. – Ele não piorou.
Suspirando levemente, ela deixou-se relaxar de volta na cadeira. O Diretor da Sonserina escondera sua condição de todos, preparando uma gama de poções cada vez mais complexas, com as quais era capaz de tolerar o pior dos sintomas e continuar lecionando, mas ele finalmente desfalecera pouco antes do final do semestre passado.
– Perdoe-me, Minerva – ele dissera enquanto Papoula afastava-se da cama dele e capturava seu olhar. Nenhuma palavra era necessária; os dois viram muita coisa juntos. – Eu tive tanto prazer ensinando... – Ele recostara-se nos travesseiros, um sorriso suave relaxando as feições dele conforme a poção fazia efeito.
– O vento está acelerando, Diretora.
A voz do Barão Sangrento a trouxe de volta para o presente, e Minerva olhou cética para ele por um momento. – Você soa como um centauro.
O Barão bufou, flutuando um pouco para trás. – Ela sente. – Ele flutuou até uma das janelas altas e estreitas. – Ele sente, mesmo que não tenha a percepção para saber disso. Não vai demorar muito agora.
– Tem certeza? – A monotonia do seu tom desvirtuava o frio repentino em seu estômago.
Ele assentiu.
Minerva apoiou-se pesadamente sobre o braço da cadeira, seus dedos caindo automaticamente para traçar as ranhuras gastas do entalhe. – Mas quando ele morrer, isso deve...
– Vai acontecer antes disso, como você bem sabe – o Barão continuou, calmamente, sem se virar da janela.
Traçando uma curva do entalhe, Minerva percebeu que o anel que usava rodava mais facilmente em seu dedo este ano, a pedra caía pesadamente sobre seus dedos enquanto pensava. O tek que ele fazia contra a madeira era suave, mas real, e por um tempo ela manteve as mãos deliberadamente estáticas. – Então creio que esteja na hora.
O Barão virou-se para ela, flutuando há alguns pés para o lado enquanto enquadrava a próxima frase com cuidado visível. – Os fatos são indiscutíveis. – Ele hesitou por um momento, ainda flutuando. Quando Minerva não falou, ele acrescentou:
– Ela passou através de mim.
A diretora fechou os olhos e soltou o ar. – Nenhum sinal sequer de que ela tenha notado a sua presença?
– Não. Nenhum.
– A pesquisa dela está em um estágio crítico; talvez-
– Não – o Barão discordou, flutuando alguns metros para mais perto. – Não foi distração; mais que isso, também não foi concentração demais.
Alguma parte do cérebro de Minerva mostrou desagrado à sintaxe caracteristicamente sinuosa do Barão, e suas sobrancelhas se comprimiram. Só um pouco, mas ele notou o movimento e o julgamento que ele entregava, e mergulhou em direção a cadeira dela.
– Ela nem me viu. Ela não pode me ver, Minerva. Ela não pode mais ver nenhum de nós.
As mãos de Minerva apertaram-se no seu colo e gelaram quando as palavras dele pairavam pesadas no ar, mas ela intencionalmente se recusava a desviar o olhar.
Ele flutuou até ela, sugando o calor do ar até que estivesse certo de que ela o entendeu. Então se afastou para uma distância educada.
Boas-maneiras térmicas foi uma das coisas que ele ensinara aos alunos do trem.
Minerva suspirou, recordando, depois olhou decisivamente para um dos retratos. – Alvo?
Na tristeza sombria perto do teto abobadado, o retrato de Dumbledore parecia desbotar um pouco. – Eu já expressei minhas dúvidas quanto a este curso de ação em mais de uma ocasião, Minerva.
– Mas Alvo, certamente, você vê-
– Até mais do que você, eu temo – ele disse; na verdade, da alta posição na parede ele podia enxergar facilmente todo o campo de quadribol. Ele pedira que seu retrato fosse movido exatamente por aquela razão.
O fato da vista agora também se estender sobre a Floresta Proibida não escapou à atenção de Minerva. Ela o pressionou mais. – O que mais pode ser feito?
– Ora, nada, é claro – ele disse calmamente.
– Então-
Ele baixou o queixo para olhar para ela sobre os óclinhos, e suas palavras morreram informes. Num tom ilusoriamente sereno, ele continuou:
– Em qualquer assunto, Minerva, quase sempre alguém pode agir; entretanto, não necessariamente este alguém deva agir.
Ela dispensou-lhe um olhar penetrante com o qual sempre encontrara tais pronunciamentos. – Então como mais determinaremos-
– Talvez não seja para sabermos.
Ela o considerava friamente; ele encontrava o olhar dela calmamente, mas não falou mais nada.
Depois de alguns minutos, o Barão Sangrento tossiu polidamente. – Diretora, se não requer mais nada de mim... – Deixou a frase ficar no ar, incompleta. Ao seu aceno de cabeça, ele flutuou pela porta. – Devo mantê-la informada da condição de Slughorn pela manhã, então. Boa noi... – A palavra foi cortada quando ele desapareceu através da madeira maciça.
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Dobras não eram permitidas, e os lençóis eram macios. E os travesseiros macios sob seus cabelos... nada de precipício, nada de pedra, nada de passos, nada de ecos.
E ela sentiu o rosto relaxar, e passou para o lugar de meios-pensamentos obscuros, de sonhos semi-formados, silenciosos sob o sussurro sempre presente do vento nos galhos banhados pela lua. Nada de palavras, nada de corpo...
…nada de mente.
Ela estava livre.
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Minerva andava de um lado para o outro na luz da lamparina.
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Logo, ela dormiu.
Ela não queria olhar para o Rony, para onde ele fora jogado, quebrado. Tão perto. Ela não queria...
Harry – os olhos – e ela o sentiu começar a sumir, a cair.
– Hermione – Rony ofegou, lutando para levantar-se em um cotovelo e olhar diretamente para ela.
Com os olhos arregalados, ela o encarava de volta, e, afastando-se, balançou a cabeça, sua boca aberta em um protesto disforme.
– Hermione, por favor. – Os olhos dele estavam desesperados.
– Eu não posso! – Um sussurro, um grito; ambos, nenhum; mas ele sabia, ela a ouvira, e seus olhos eram aço.
– Você precisa. Você é a única que- – ele moveu os lábios – um espasmo puxou a cabeça dele, e ele caiu. A cabeça refestelou-se no chão, olhando fixamente para o céu, a boca silenciosa formando as palavras:
–Você pode.
Arrancando seus olhos dele, de volta para Harry, ela viu o que esperara nunca ver – no fundo dos olhos verdes, um vislumbre de vermelho – brilhando, crescendo...
Um olhar involuntário para onde o corpo de Voldemort jazia, e de volta para o Rony, os olhos voltados para o céu, ainda com a boca formando:
– Você pode...
Ela fechou os olhos num desejo selvagem e infantil, desejando apenas estar em algum lugar, qualquer outro lugar, outra pessoa, nascida para algo mais que isso.
E a voz em sua mente sussurrara…
Quando ela abriu os olhos, estava de joelhos, ofegando por ar, sua varinha quebrada, e os olhos de Rony estavam esbugalhados, olhando fixamente para ela, vítreos, indiferentes.
Mas os olhos do Harry estavam verdes, só verdes, e os elos da Ordem estavam quebrados, e no estalido repentino de som voltando aos seus ouvidos num ímpeto aniquilador, todos passaram apressados por ela em direção ao Harry, e ela os observara.
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A lamparina queimara fraca no escritório da diretora, o calor sumindo das paredes assim que, fila por fila, os retratos dos antigos diretores de Hogwarts desapareciam ascendentemente nas sombras, e ainda, Minerva andava de um lado para outro, deslizando uma dobra de suas vestes infindavelmente entre os dedos.
Abruptamente, ela parou e sacudiu sua varinha.
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Um raio prateado passou rapidamente pela janela, e Severo Snape levantou os olhos de seu pergaminho. Há mais de vinte anos que ele não recebia uma mensagem por um Patrono, mas seu rosto não revelou surpresa quando ajustou as proteções para admitir o emissário de Minerva.
Tudo o que ele disse antes de sumir foi:
– Você é necessário.
Suas sobrancelhas contraíram. Ele enrolou o pergaminho que estivera lendo em um rolo perfeito e, colocando-o em uma maleta que já esperava, chamou sua vassoura e mandou seu Patrono na sua frente dentro da noite.
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Sua cabeça sacudia violentamente no travesseiro. Sob os cabelos úmidos, uma mancha rosa desbotada.
De manhã, o elfo doméstico de olhos úmidos que era designado para ela trocaria a fronha. Manchas comuns de tinta eram rotina para os elfos domésticos de Hogwarts, mas, por razões que nenhum deles questionava de perto, aquela tinta em particular, plantada com aquelas lágrimas em particular, provaram-se permanentes, e o lixo de fronhas da professora já há muito vestia cada elfo doméstico na Bretanha. Quando questionados sobre a mancha por um mestre especialmente observador, os olhos do elfo doméstico se arregalariam, mas eles balançariam suas cabeças e, atipicamente, não diriam nada.
Nenhuma bruxa ou bruxo jamais pensou em perguntar duas vezes.
De manhã, a elfa doméstica designada à professora balançaria a cabeça tristemente enquanto trocava a fronha, assim como fazia todas as manhãs por mais de vinte anos.
A professora, vestindo suas vestes de trabalho, não notaria, assim como nunca notara durante todo esse tempo.
Mas agora ainda era noite, e um sussurro pequeno, mudo, crescia do lugar abaixo de seus sonhos, não tendo maior substância que uma pequena nuvem de fumaça. Cresceu, silencioso, insistente-
– Não – ela murmurou.
Cada retrato no castelo retraiu-se, e, na prateleira no escritório da diretora, o Chapéu Seletor apertou os olhos bem firmes.
E, em guarda nos aposentos do Slughorn nove andares abaixo, o Barão Sangrento olhou para cima. Ele a ouvira, tão claramente como se ela tivesse gritado.
