Capítulo 2
Logo o avião tinha atingido sua altitude padrão e as casas, rios, e árvores cabiam na palma da minha mão. Um pouco mais adiante, via que ele cortava as nuvens. Era uma das visões mais bonitas que já havia tido.
Fiquei em silêncio, observando o céu, quando as aeromoças começaram a servir bebidas e lanches feitos pela companhia aérea.
-O que vai querer, senhor? Temos, Whiskey, Martini, refrigerante e suco de frutas.
-Um Martini, por favor.
Ela me entregou a bebida. A mulher ao meu lado não pegou nada. Ainda mantinha os olhos fechados. Parecia estar em meditação. Fiquei a observando um bom tempo. As mãos dela pareciam ter um toque suave. Calçava botas. Já estava preparada para enfrentar o frio norueguês.
Ah, mas é mesmo, esqueci de falar o que estou indo fazer em Oslo. Consegui um estágio numa empresa, na área de administração, é claro.
A empresa se chama Tangberg Data. Acabara de comprar uma nova empresa e precisava de novos empregados. Sorte a minha. Ela é a única empresa Européia de armazenamento de dados que fabrica tape drives, automação de backup e subsistemas de disco. Coisas de computador.
Embora não fosse muito chegado em computadores, sem dúvida alguma não poderia deixar essa oportunidade de emprego de lado, ainda mais que me disseram que a possibilidade de efetivação era alta.
Desde pequeno sempre gostei de administrar, liderar festas, grupos, tudo. Estava no meu sangue. Meu pai era dono de uma pequena empresa. Não custava nada eu sonhar em ter algum dia a minha própria.
Peguei a revista de novo, abri na página onde estava a foto de minha musa inspiradora. Incrível. Eu, com meus 24 anos, ainda não tinha conseguido esquecê-la. Também não posso falar que tentei. Saí com uma ou outra mulher, namorei outra, mas minha cabeça e meu coração pertenciam àquela mulher. O mais estranho é que meu cérebro ainda fervia quando me lembrava dos momentos em que estive próximo dela. Bem que Kamus me dizia que a paixão nos deixava totalmente idiotas. Mas era um "idiota" gostoso de se sentir. Pelo menos, assim eu acho.
Estava tão entretido com aquela imagem que não percebi a mulher ao meu lado começar a me observar.
-Pelo visto, essa mulher deve mexer um pouco com você, não?
Meu rosto corou.
-É... Isso... É de longa data...
-Amor mal resolvido? Na entrevista, ela pareceu ter o dobro da sua idade.
Fiquei totalmente sem graça. Será que era errado gostar de mulheres mais velhas?
-Na verdade... – Nessa hora meu peito doeu – É um amor platônico.
-Entendo... Você estudou nessa escola durante muito tempo?
-Somente no meu terceiro ano de colegial.
-E só com esse ano, deu tempo para se apaixonar dessa forma?
Olhei fixamente para a mulher dessa vez. Como seria capaz de "medir" com tanta precisão o sentimento que eu nutria por Calíope? Mas não foi preciso fazer a pergunta. Ela parecia ler meu olhar.
-Sou jornalista e escritora. Para escrever, é preciso sentir. E para fazer uma boa reportagem, é bom conhecer bem o interior do entrevistado.
Então era por isso que ela conseguiu captar a emoção ao ver a foto de minha até então musa inspiradora.
-Você também está indo para Oslo? – Perguntei fechando a revista.
-Sim. Você também?
-Também.
-Passeando?
-Não, estou indo para trabalhar. E a senhorita?
-Também.
Havia algo naqueles olhos que me deixavam intrigado. Ela me parecia muito misteriosa. Seu sotaque era diferente do que eu estava acostumado a ouvir. Tinha gestos e a voz suave.
Logo o comandante avisou que estávamos próximos da capital da Noruega. Novamente apertamos os cintos e nos preparamos para o pouso.
Foi tudo tranqüilo. Ela se apressou a sair do avião e apenas acenou timidamente para mim. Fiquei mais intrigado ainda. Peguei minha maleta do compartimento para bagagem e saí do avião em busca de minhas malas despachadas.
Não foi difícil reconhecer minha bagagem. Coloquei-a no carrinho e me dirigi para onde haviam diversos táxis estacionados.
O motorista me ajudou com as malas e entrei no carro.
-Por favor, Avenida Karl Johan, número 47.
Não demorou muito para eu atingir meu objetivo. Logo estava eu na frente de um edifício antigo, mas bem cuidado. A Empresa tinha alugado um apartamento naquele edifício para mim, no 8º. andar. Estranhei não haver porteiro no prédio, mas depois lembrei que estava em "outro mundo."
Oslo é a cidade onde é entregue o Prémio Nobel da Paz. De acordo com o The Economist, é a segunda cidade mais cara do mundo, depois de Tóquio.
Subi, abri a porta do apartamento semimobiliado. Sim, porque ali não havia meu toque especial. Não, não pense que sou um exímio decorador, mas modéstia a parte, eu tenho bom gosto.
Havia uma varanda para a avenida. A vista era maravilhosa.
Na região central, nas proximidades da avenida Karl Johan, estão situados os principais monumentos e prédios históricos do país, como o Palácio Real; o Museu Histórico; a Galeria Nacional de Arte; a Universidade de Oslo; o Teatro Nacional; o Museu Ibsen, dedicado à vida e à obra do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen e o Radhuset, edifício onde funciona a sede da prefeitura da cidade.
Havia também ali um café. Seria ótimo para mim. Tomaria meu desjejum todos os dias ali, até me firmar no apartamento.
Andei por ele. Havia uma pequena sala com a varanda, um quarto com um aquecedor, pois o frio norueguês é muito intenso, uma cama de casal, armário embutido, um pequeno banheiro e uma cozinha com ligação com a sala. Perfeito. Não precisava de mais nada. Agora só faltava meu toque e em poucos dias minha casa estaria a minha maneira.
Desfiz minhas malas, guardei meus pertences em seus devidos lugares. Isso levou o tempo de entardecer. Olhei ao meu redor.
-Pronto. Agora preciso ir ao supermercado e preencher os armários com comida, Miro. – Falei para mim mesmo.
Caminhei até a varanda e vi a avenida sendo iluminada aos poucos. Quando debrucei no guarda-corpo daquele pequeno espaço, contemplei a visão do mar. Foi uma sensação maravilhosa. O vento batia em meu rosto e meu cabelo voava. Liberdade. Era esse o sentimento que percorria meu corpo naquele momento e isso me fez lembrar a última conversa que tive com meu pai. Última e traumática.
"-Você não tem responsabilidade alguma, Miro! Não faz idéia do que é dirigir uma empresa, não faz idéia do que é ter horário para entrar no trabalho, não faz idéia do que é suar e dar seu sangue!
-Não faço idéia porque o senhor nunca me deu uma oportunidade.
-Não responda desse jeito para mim! Sou seu pai! Exijo respeito!
-Eu cansei de ouvir apenas desaforos do senhor! Eu me empenho na faculdade. Não tenho emprego não porque não quero, é porque me falta a oportunidade!
-Não! Você sai todos os finais de semana e chega alto. Sempre! Gasta o dinheiro que não é seu com essas festas ridículas e ainda me aparece sempre com alguma garota sem valor aqui em casa!
-Então o senhor vai ver! Eu vou arrumar um emprego, bem longe daqui e não vou dar mais notícias! Vou viver sozinho! Vou provar pro senhor que posso ser melhor do que você!
Bati a porta. A partir daquele momento, mandei curriculuns sem parar.
Deu certo."
-Veja só, meu "grande pai"! Estou na segunda cidade mais cara do mundo! – Gritei para mim mesmo, para depois soltar uma gargalhada.
O vento começou a se intensificar quando voltei para dentro da minha casa. Vesti meu sobretudo e saí para fazer compras.
Oslo é voltada para o mar, luminosa, moderna, fresca e bela. Como outras cidades litorâneas, concentra na orla, ao longo da baía, alguns de seus bairros mais elegantes e seus principais pontos turísticos. Museus, fortes, restaurantes, cafés e gaivotas ocupam as avenidas e dividem a vista para o mar com transatlânticos, cargueiros, iates e todo tipo de embarcação, que se espalham pela costa, desde o imenso porto --marca registrada da capital.
Entrei no primeiro supermercado que vi e comprei o básico. Não podia me dar ao luxo de sair gastando tudo o que tinha no primeiro dia. Até porque meu primeiro dia de emprego seria no dia seguinte. Carreguei as compras de volta para casa e preenchi o armário da cozinha.
Depois disso, tomei um banho quente e despenquei sobre o colchão que me esperava ansioso.
Adormeci pensando nela. Na minha eterna musa.
-x-
The Economist é uma revista semanal britânica dedicada a temas económicos. É editada em Londres desde 1843 e atinge hoje uma tiragem de cerca de 1 milhão de exemplares.
