Aquela semana em que a carta de Lily havia chegado a suas mãos, foi declarada a pior semana de Severus. Um misto de sentimentos que só o deixavam mais frustrado e com dor em seu coração. Toda a vez que via a coruja de Lily, que parecia sempre lhe lançar um olhar repreendedor como se fosse a própria ruiva, lembrava-se da negação ao último pedido da amiga. E essa única lembrança já era o suficiente para lhe atormentar.

Com todos esses sentimentos, Severus não conseguia parar de pensar em como seria o menino. Havia escutado os boatos, mas boatos eram só isso mesmo. Boatos. Raramente eles transmitiam a verdade. Segundo Hagrid, que havia ajudado no envio do bebê, Harry era um menino doce, esperto demais para ter só um ano. E que estava triste por ele ter sido dado a muggles. Essa talvez fosse a parte que mais atormentava Severus.

Harry era um bruxinho de pouco mais de um ano de idade. Jamais simples muggles poderia atender a necessidades básicas dele. O máximo que ocorreria eram eles criarem o menino como se ele fosse um muggle, como se não possuísse magia no sangue. Se isso acontecesse, Harry ficaria completamente desamparado no mundo bruxo, quando o encontrasse pela primeira vez.

Porém, Dumbledore não parecia ter a mesma opinião. O velho bruxo pensava que não havia lugar melhor para Harry, do que junto a família materna. Algo sobre uma proteção mágica. Porém, os instintos de Severus pareciam lhe dizer algo completamente diferente. E eram esses instintos que o perturbaram durante toda a semana.

Havia, por fim terminado as aulas em Hogwarts. Todos os alunos já haviam embarcado para suas casas, prontos para descansarem de um longo ano. Logicamente, os professores também se preparavam para suas merecidas férias. Minerva iria para a França, Dumbledore para algum lugar nos Estados Unidos. Hagrid ficaria ali mesmo na escola, como sempre. E Severus planejava ir para seu chale, próximo a casa dos Weasleys, mas a uma boa distância dos filhos do casal, para sua própria segurança e sanidade.

Mas não conseguia relaxar e ir para o chale, enquanto sua mente ainda estava ocupada com preocupações com relação a Harry. Por esse motivo, resolveu ver com seus próprios olhos como o menino estava. Se estivesse tudo bem, poderia acalmar seus pensamentos e descansar em seu chale, dedicando-se a suas poções. Porém, não avisaria Albus, pois se o fizesse, o velho bruxo acabaria por desencorajá-lo.

Arrumou-se como sempre fazia, dizendo que iria para seu chale a todos que perguntavam. Ninguém estranhava esse fato, pois já era um rotina simples. Aparatou de Hogsmead em seu chale, e de lá na cidade cidade próxima a Little Whinging. Assim que o fez, assumiu sua forma animaga – um falcão negro – e voou em direção a rua dos alfeneiros.

Não encontrou grande dificuldade em encontrar a dita casa n° 4. Posou na pequena mureta que lhe dava uma ampla visão da sala. Ali ele via um menino grande, grande demais para ser Harry. Ele estava cercado de brinquedos e doces. Sentada em uma poltrona, lendo um livro qualquer, estava uma mulher loira e magra. Não havia sinal de uma segunda criança naquele cômodo. Voou novamente, até ter a visão da cozinha. Nenhum sinal de Harry, apenas os velhos utensílios trouxas.

Os nervos de Severus já começavam a se agitar naquele momento. Voou para ter uma visão dos quartos. Haviam quatro quartos. Um de casal, vazio e completamente arrumado. Outro cheio de brinquedos e outras coisas de bebês. Um que parecia intocado, que parecia não receber ninguém a algum tempo. O último, um enfeitado quarto de bebê... sem ninguém. Sem sinal de Harry.

Voltou para seu posto em frente a janela da sala. Nada parecia ter se modificado. A cena continuava a mesma. E não havia qualquer indício de que Harry estava ali. E isso estava deixado Severus preocupado.

Foi quando a cena se alterou. A mulher se levantou, saiu da sala e voltou com um carrinho de bebê. Colocou a criança neste, e saiu da casa. Severus observou enquanto ela saia, provavelmente para aproveitar o sol da manhã em algum parquinho com aquele menino. Mas para Severus isso não importava.

Assim que a mulher saiu do sua vista, assumiu a forma de homem e andou quase correndo em direção a porta. Estava pouco se importando com os muggles. Tirou a varinha de dentro da capa e sussurrou um alorromora, abrindo a porta e entrando. Assim que chegou no hall, escutou o que parecia ser um choro abafado. Um choro de bebê.

Correu em direção ao choro, e seu panico aumentou ao ver que ele vinha do armário sob a escada. Abriu a porta, porém preferia não tê-lo feito, pois o que viu era algo hediondo.

Dentro de uma caixa de papelão aberta, estava Harry. A criança estava suja, cheirando terrivelmente mal, e chorava... chorava de fome. A ira e o ódio que tomou conta de Severus só pioraram ao ver os olhos de Harry. Olhos verdes... verdes intensos, idênticos aos de Lily. Não suportou a dor em seu peito.

Andou até a caixa de papelão e pegou Harry no colo, tentando acalmar seu choro. Subiu até o andar de cima e entrou no quarto da outra criança, vendo mais do que precisava para cuidar de Harry.

Encheu uma pequena banheira com água conjurada, tirou a roupa de Harry, e o lavou. Fez tudo com carinho e cuidado estremo, vendo que o choro do pequeno já abrandava. Pegou uma roupa qualquer da outra criança e a transfigurou em vestes bruxas para bebês, do tamanho exato de Harry. Vestiu-o e foi para a cozinha, preparar algo para que ele comece e uma mamadeira com leite. Alimentou e ficou com Harry, até que ele dormisse em seus braços.

Sentado na sala dos muggles, Severus contemplou o rostinho tranquilo de Harry, agora cheio de paz. Não eram apenas os olhos que eram iguais aos de Lily. A boca delicada e rosada. O nariz pequeno. Harry tinha muito de Lily em si, assim como tinha coisas de James, como os cabelos negros e as sobrancelhas jeitosas.

Vendo-o ali, em seus braços, Severus soube que não poderia mais lhe virar as costas. Era mais do que evidente que Harry não estava em boas mãos, nem sequer como muggle estava sendo cuidado. O tratamento que havia visto nem mesmo um elfo domestico recebia. Mesmo que fosse brigar com Dumbledore, levaria aquele bebê consigo e daria a ele a verdadeira criação que merecia.

Não soube quanto tempo passou ali, apenas observando Harry. Mas assim que escutou o barulho de alguém abrindo a porta, soube que os muggles haviam voltado. Executou um feitiço de silêncio ao redor da criança, para que ela não escutasse a discussão.

Assim que se levantou da poltrona onde estava, a sala foi invadida por um homem corpulento, quase sem pescoço, pela mesma mulher que havia observado, esta com a outra criança no colo.

- Quem é você?! O que faz em minha casa?! - vociferou, avançando contra Severus.

A única reação de Severus foi encarar o homem a sua frente, de forma mais fria e cortante do que usava contra qualquer um. Colocou Harry, ainda adormecido, na poltrona. Quando o fez, pareceu chamar a atenção dos muggles para a presença de Harry, o que fez com que todos ofegassem.

- Esta criança – começou, com o tom frio e mordaz. - Tem menos de dois anos, e vocês... vocês a deixaram em condições sub-humanas, dentro daquele armário.

A mulher parecia nervosa, nervosa porque soube de que tipo de pessoa Severus se tratava. Ela podia reconhecer os tipos de roupas que ele usava. Eram parecidas com as roupas de Lily, apenas o modelo e a cor eram diferentes. Porém, aquele homem não sabia. Parecia não notar nada de peculiar em Severus.

- Esse moleque é nosso, e não é da sua conta o fazemos com ele!

Um erro fatal. Aquele muggle havia cometido o pior dos erros, quando falou daquele jeito. Com um movimento elegante, Severus puxou a varinha, fazendo, em fim, com que o homem se desse conta de quem ele era. Mas não havia mais chances deles se redimirem.

Apenas alguns feitiços. Nenhum fatal. Não que não desejasse a morte daqueles muggles, mas preso em Azkaban não poderia cuidar de Harry. Feitiços que alteram pensamentos, leves torturas e alguns feitiços que impunham a vontade contrária. Esse pequeno conjunto transformaria a vida daqueles muggles em um inferno.

Quando terminou, simplesmente pegou Harry nos braços e aparatou em seu chale. Sabia que não demoraria para Albus e o mundo mágico saber do ocorrido, mas isso não lhe afligia mais. Tinha a vontade de Lily ao seu lado, e seu próprio desejo de cuidar daquela criança.

Assim que chegou no chale, Harry abriu os olhos. As intensas esmeraldas brilhando sobre si, e um sorriso infantil doce. Só isso foi o bastante para que Severus tivesse a certeza de que não havia tomado a decisão errado. Harry Potter, agora, teria um lar e o carinho que precisava.

Oii XD

Aqui está o segundo cap da fic =D

Quero dar um agradecimento especial a três pessoas: Umbreon-chan, J.P. Malfoy que me auxiliaram nessa fic. E a Debora CNT, que fez a gentileza de comentar^^

Kiss

E não esqueçam de comentar =P