Harry Potter™, personagens e lugares, não me pertencem.

CÁRCERE

Capítulo II

As semanas arrastavam-se. Para alguém como ele, acostumado ao bom e ao melhor, aquela prisão assemelhava-se cada dia mais a um verdadeiro inferno. Lá fora, Potter derrotava lentamente os detentores da marca negra e não raramente ele encontrava os companheiros debatendo se o lado das trevas ruiria. Por isso, ainda que não admitisse nem mesmo a si, as visitas à grifinória no andar de baixo o agradavam. Ela se tornara seu refúgio, sua sanidade, ainda que trocassem somente insultos.

Porém Hermione também já sucumbia aos efeitos implacáveis do tempo. Os olhos frequentemente tristes, uma assustadora fragilidade que se apossava gradativamente dela e inquietava o loiro. Há duas semanas ela lhe perguntara o dia. Ele respondeu, sem consciência de que se arrependeria amargamente da atitude: a morena passou os dias que se seguiram numa melancolia profunda. Mais tarde ela lhe revelara que a data coincidia com o dia após o aniversário do pobretão do Weasley.

Este, por sua vez, sequer tentara invadir o prédio onde a prisão se instalava, ao contrário do que previra o Lord. Provavelmente estava ocupado demais se tornando famoso ao lado do seu amigo testa-rachada, pensava o loiro, odiando-o inconscientemente por fazê-la sofrer.

Era uma terça-feira. Talvez chovesse, ele não saberia dizer: o lugar quase não possuia janelas e era tão mal iluminado que mesmo para os que não estavam encarcerados era difícil distinguir o dia da noite. Andava pelo corredor, imponente. Trazia dentro da capa uma lanterna e um livrinho de atividades que parecia ser muito apreciado pelos trouxas, "palavras cruzadas", talvez fosse o nome. Não saberia dizer o porquê fazia aquilo, o porquê a protegia, se preocupava com ela. Escutou então vozes exaltadas e alguns gritos. Dela, com certeza a voz era dela. Dirigiu-se à cela.

Não precisou dizer nada. Apenas dirigiu um olhar gelado a dois comensais que tentavam abusar da grifinória. A garota observou, ainda em choque, os dois homens fortes abaixarem a cabeça para Draco e saírem - ela poderia jurar inclusive que escutara um deles pedindo desculpas. Era como se a atitude infringisse algo já discutido e ela não era inocente o suficiente para acreditar que o loiro à sua frente havia determinado que deveriam respeitá-la. Não, aquilo só poderia significar uma coisa: ela deveria ser exclusividade dele.

Ele respirou fundo. Fechou a porta atrás de si. Ela o olhava, os olhos castanhos perfurando-o como se pudessem decifrá-lo. Foi se aproximando dela, sem idéia do que lhe diria. A morena, por sua vez, encostada à parede, tirou a blusa que vestia - já completamente suja e apresentando alguns rasgos - e deixando à mostra os seios, proporcionais ao seu corpo. O fato era que se recusava a dar a ele o gostinho de dizer que a violentara: não, ela se entregaria.

- Pelo jeito eu sou sua propriedade, não?

O loiro porém a olhou, ficando por um momento estático. Quando pareceu recobrar a consciência, atirou a peça de roupa de volta à ela.

- Cubra-se. Eu jamais me sujaria transando com uma sangue-ruim.

E partiu, furioso, batendo a porta. Ela chorou. Nem mesmo saberia dizer o motivo, apesar de tê-los, de sobra. Simplesmente chorava, sentada no frio chão de pedras, como se as lágrimas fossem uma válvula de escape da realidade.


O barulho proveniente da maçaneta a despertou de seus desvaneios e levou-a, maquinalmente, a sentar-se ao canto da cela. Os cabelos tinham um aspecto sujo e apresentava olheiras profundas. Há dias não dormia por mais do que alguns minutos e a freqüência dos pesadelos onde via Harry e Ron mortos só agravava o seu estado de angústia. Um medo irracional se apossava dela toda vez que considerava se os sonhos não coincidiam com a realidade, uma espécie de aviso. E ela nem ao menos podia questioná-lo. Ele. Sempre ele.

O sonserino adentrou o cômodo apertado - que a ela parecia imenso - todo vestido de negro, sombrio. Os olhos cinzas gélidos. Cortantes. Havia sido assim desde o episódio em que ela o acusara de planejar estuprá-la. Às vezes se questionava se não o ofendera, se ele não estava tentando apenas ser gentil. Mas depois achava graça. Gentileza e Draco Malfoy não podem ocupar a mesma sentença, a menos que haja uma negação dentro desta. Deveria estar enlouquecendo, isso sim. Era aquele lugar, o frio que adormecia o seu corpo, aquela incerteza, aquela guerra, os olhos perturbadores dele - observou-o abandonar uma bandeja no chão - os olhos que agora eram cinzas mas que nos tempos de Hogwarts ela poderia jurar que eram azulados. Talvez ele também sofresse. Ela continuava a fitá-lo, como se pudesse descobrir a resposta em seu rosto. Não descobriu, pois no momento seguinte tudo ficou negro.

- Granger! Granger!

Ela encarou o cinza. Agora ele a olhava nos olhos, coisa que não fazia desde... A palavra "desde" perdera o sentido há muito tempo. A única coisa que ela podia definir com certeza é que o olhar dele era a coisa mais reconfortante de ultimamente.

- O que houve?

Ele dividia-se entre a indiferença e a atenção. Optou pela segunda.

- Você... Perdeu os sentidos.

- Faz tempo? - Tempo. Tempo era outra palavra engraçada e sem propósito para ambos.

- Não muito.

Ela o olhava, ainda confusa e ele sentia-se desconfortável por ter a sensação de que ela era capaz enxergar a luta interna que se travava nele. A secura e o consolo. No momento, a primeira vencia.

- Sinto frio.

Hermione sentou-se e o garoto, já prestes a levantar-se, pode sentir o calor do corpo dela. Não um calor normal. Colocou a mão sobre sua testa, e manifestou:

- Você está ardendo em febre. - Assim, com ponto final. Como não se importasse caso ela caisse morta naquele segundo.

Ela piscou, sentindo preguiça. Aquela preguiça familiar, que sentia na infância durante as crises de amigdalite. Cerrou momentaneamente os olhos e pôde escutar a porta ser fechada.

"E assim morria a sabe-tudo de Hogwarts, a arquiinimiga de Draco Malfoy, a melhor amiga de Potter!", pensou ela, sem conseguir abandonar a ironia.

A porta rangeu e ela pôde ver, ainda que com os olhos quase inteiramente fechados, os cabelos louros-platinados esvoaçarem e aproximarem-se dela.

- Beba isto. - Acrescentou.

Ela olhou o copo que ele trazia meio desconfiada.

- Não é veneno. - Ele disse, contrariado.

E se fosse, também? Faria alguma diferença? Não. Provavelmente não. Já estava morta. Não fisicamente, mas estava morta.

Bebeu a poção de gosto amargo, quase o mesmo dos anti-térmicos trouxas. Fechou os olhos novamente e pôde sentir um certo peso sobre seu corpo. O que era aquilo? Um cobertor. Era um cobertor.

- Obrigada. - Ela sussurrou.

Ele partiu.

Mas a partir desse dia voltou a olhá-la nos olhos.


N/A: Obrigada por ler até aqui! E revisem! :)