Amor & Amargura

Capítulo 1 – Incógnitas

Capítulo 1.1 – Queda

Sempre pensei que cair pelo melhor amigo fosse só em filmes, livros ou romances. Mas não na minha vida. Ele é um ótimo amigo. Me entende, gosta do que eu gosto, tem conversa e passamos a maior parte dos recreios juntos.

Claro, para todos os momentos perfeitos, tem desgraça equivalente. Assim é a minha vida.

Sempre fui inteligente. Tenho facilidade na escola. Bom. Ruim. Me incomodam, enchem o saco, chamam de "nerd". Claro, claro. Vão ver no ensino médio, DESGRAÇADOS. Nerd o cú.

Consegui um melhor amigo. Bom. Ruim. Eu caí por ele. Uma enorme, dolorosa e longa queda. Na verdade, ainda estou esperando para cair no chão de espinhos que me aguarda.

Capítulo 1.2 – Aberração

Sabe, ultimamente, percebi que ele é um ser muito, muito estranho. Observador, percebe a maior parte das mudanças físicas, como um corte de cabelo ou uma mudança de acessório diferente do usual. Se ele nota isso, como pode não notar que eu amo ele?

Ele é gentil, inocente, fofo e... digamos, apertável. Seria conveniente usá-lo como casaco no inverno, uma vez que ele é quentinho. Sem segundas intenções. Mas, voltando ao assunto: eu não sei, mesmo, por que cargas d'água eu fui gostar logo dele. Porque quando eu não vejo ele no recreio, dá vontade de morrer? PORQUÊ, POR ACASO, ELE AGE COMO UM MALDITO CALMANTE?!

A única explicação plausível seria que eu estou "MAD heels, crushing, falling on my knees for him". Mas claro que eu tento não transparecer isso, afinal, ele é meu BFF¹.

Como ele consegue saber como eu me sinto, entender o meu jeito complexo e louco de ser? Como ele nota diferenças físicas e não nota o que eu mais transpareço, sem querer, perto dele?

É mesmo uma aberração.

A aberração que eu amo.

(¹ – BFF = Best Friend Forever = Melhor Amigo para Sempre 8D)

Capítulo 1.3 – Ombro Amigo

Tentei falar diversas vezes sobre isso. Era... difícil. Difícil admitir que eu o amava. Que sonhava com ele, pensava nele o tempo todo, e tinha devaneios. Muitos devaneios. Imaginava eu e ele, como Romeu e Julieta, como duas pessoas que não deveriam estar juntas, mas se amavam. Tinham uma ligação irrompível. Mas não era assim.

E junto aos devaneios, vinha o medo.

Era uma luta. Fazia bilhetes, cartas, textos (como esse aqui), tentando se explicar, mas nunca as entregava. Tinha medo, medo de contar do jeito errado, medo da rejeição, medo da perda, da dor. Haviam mil palavras para descrever essa dor. Mas apenas uma descrevia perfeitamente.

Insuportável.

Como podia acontecer algo assim, logo comigo? Porquê não podia continuar como antes, vazia? Eu sabia que cedo ou tarde daria uma brecha, e ele notaria. E então, seria o fim.

Eu nunca gostei da idéia de perder sua amizade, mesmo querendo um pouco mais que isso. Estava disposta a fazer quase de tudo para continuar a vê-lo (com motivos) regularmente, seus cabelos macios, seu rosto infantil e sua espressão contente, lindo. Queria estar sempre com ele por perto. Enquanto ele estivese lá, estaria tudo bem.

E embora eu dissese que estaria tudo bem, não estaria. Nunca estaria. Eu apenas me iludiria para ter momentos de paz, quando não conseguiria pensar em nada. Mas logo, nos separaríamos, e a angústia voltaria, até que eu o visse de novo. Era um ciclo vicioso, e agora eu não podia mais pará-lo. Eu estava condenada a esse estranho sentimento chamado amor.

E, sabe, esse "amor" estava me deixando louca. Desde que ele surgiu, fome se tornou dor de barriga. Fome me lembra dele, vejo-o no recreio, no recreio sacio a fome. É completamente irracional. Passei a ficar sensível por qualquer bobagem. Explodo, de raiva ou tristeza. Choro, em meu único refúgio seguro, onde afogo-me em meus pensamentos.

E foi aí que eu notei que o ombro amigo onde eu chorava era um travesseiro. Um maldito travesseiro. A única "pessoa" que me ouviria e me apoiaria, sem se preocupar em questionar, sem curiosidade. Ele saberia de tudo. Sempre estaria lá quando eu precisasse. Nunca reclamaria de minhas lágrimas, que seguidamente molhavam seu enchimento. Era o pior e o melhor amigo que eu jamais teria: nunca me diria nada. Nunca me confortaria, nunca me daria dicas. Nada. Mas estaria sempre disponível quando eu precisasse de meu bom e velho ombro amigo.